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2 Estratagema
Notas iniciais
Elienor entra em casa de rompante, aflita e sem folego, na possibilidade de encontrar a sua mãe em segurança. Os burgueses, aqueles que a viram pela última vez, afirmaram que tinham visto a mulher a ir em direção a casa, em segurança e sem problemas. Todavia, a morena não se contentava com essas testemunhas. O seu sexto sentido dizia que algo se passava, ou que algo enorme se ia passar. Por esse motivo, queria ao máximo não ouvir esse seu novo sentido.
O som que a velha madeira da porta fez, foi o suficiente para ser ouvida pela estreita rua daquela cidade de Paris. As condições eram medíocres e com entradas dela assim, os materiais iriam durar muito menos.
Olhou pelos cantos da casa, na esperança de encontrar a mãe a fazer as tarefas domésticas, como muitas vezes fazia. Infelizmente, não havia sinais de Odete. A preocupação de Elienor explodiu, imaginando mil e um cenário em que a mãe era vítima de um acidente.
Por onde andará? Com quem estará? E está em segurança? --- Perguntas difíceis com respostas impossíveis. A jovem, cai derrotada, ao pé da ombreira da porta, esperando por algum sinal da sua amada mãe, ou qual tipo de sinal. Paris era uma cidade perigosa, dai a necessidade de existir LadyBug e ChatNoir. Mas naquele momento, nem a própria identidade secreta de Elienor a podia ajudar. Só poderia recorrer a um ombro amigo.
— Maya…. – Sussurra num tom melancólico. No momento em que prenuncia o nome da sua melhor amiga, a morena acorda do seu transe “depressivo” em que, por leves momentos, se encontrou.
“Talvez Maya me possa ajuda” – Pensou com todas as suas forças, acreditando na possibilidade de ainda encontrar a sua mãe antes do pôr-do-sol. Podia ainda ser oito horas da manhã mas o tempo escasseava.
Com a esperança ao peito, Elienor correu em direção à casa da outra morena, sua melhor amiga, Maya.
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Os nobres entreolhavam-se com desconfiança. Podia-se notar claramente o ódio que sentiam. Ninguém gostava de ninguém. Então para quê coloca-los numa sala, luxuosamente iluminada e com as mais caras das mobílias? Pelo mesmo motivo que os homens mentem, traem e matam: poder e riqueza.
De todos os nobres, estes eram aqueles que mais ambicionam. Mas ambicionavam cruelmente, a ponto de exterminar o colega do lado por meia dúzia de francos. Eram assim toda a classe rica, sem pudor e sem limites na sua arrogância e ganância. LadyBug não podia fazer nada contra eles --- tendo recebido apoio direto deles, seria falta de honra voltar-se contra os seus próprios apoiantes. Porém, nunca se soube ao certo o motivo para tal coisa tão repentina.
Até agora.
O silêncio permanecia naquela sala, fechada e com uma simples e pequena janela para entrar o ar. Ninguém falava ou dizia uma palavra e era sempre melhor assim. Eles sabiam que tudo o que dissessem seria levado a peito pelos seus inimigos e acabavam na guilhotina. O ódio era, também, silencioso.
A porta colossal que servia de entrada aquela grande sala, fora aberta. O aberto insuportável perturbou até os ouvidos mais ouvidos; os passos firmes mas suaves davam receio aos mais destemidos. A figura que acabara de entrar era o anfitrião daquele pequeno encontro entre nobres. Todos os olhos vibraram ao ver a figura esbelta daquele homem autoritário e sério. Se quisesse e pudesse, tinha Paris nas suas mãos ainda naquela noite.
— Bons dias, vossas majestades. – cumprimentou-os com um sorriso de canto e um tom de troça.
— Pensava que odiava manhãs, senhor Dubois.
Os cabelos que dantes eram loiros brilhantes começavam a secar com a idade. Os óculos, livres de qualquer imperfeição, sem riscos nem manchas. O vestuário era digno de nobreza: rico e exagerado. Os verdadeiros nobres de Paris e os presentes sentiam inveja pela figura de Eric Dubois, um dos homens mais ricos de toda a França. Era de se esperar que se envolvesse em maus caminhos, ou até, em maus planos.
— Peço desculpa retirá-los das suas camas numa hora tão inesperada. Espero que as vossas amantes não fiquem preocupadas. – proferiu com extremo sarcasmo e ironia. Sim, Dubois também odiava os nobres. Não pelo facto de serem ricos mas por fazerem aquilo que fazem por serem ricos. Humilham os burgueses, que trabalham para receber a sua fortuna, diminuindo-os a uma classe medíocre trabalhadora.
E agora, o mais rico que todos eles era aquele burgues.
— Porque você não avança nas graças e diz o que deseja de nós? – pergunta um nobre forte, a ponto de não se conseguir ver o seu pescoço.
— Preciso da vossa ajuda para executar um plano, meus caros. – começou, então, por dizer os seus motivos a que levou aquela reunião de leões. – Temo que a nossa posição esteja comprometida. Não por um indivíduo, mas por dois. – exclama, usando a linguagem gestual correta.
— Fala de LadyBug e Chat Noir, Dubois? – o que agora se proferiu é possivelmente um dos mais ajuizados daqueles que se encontravam na sala. Era o duque Berginton, um dos mais poderosos políticos de paris, tendo o poder de puder controlar a cidade como bem entende. – Não me encontram argumentos para essa sua suposição inesperada.
O burgues franziu a sobrancelha e olhou de baixo a cima para aquele homem que acabara de expressar a sua opinião. Ele tinha em conta o ponto de vista do duque, mas tinha mais em mente o seu. Acreditava plenamente que estava certo, e iria provar isso.
— Se me permitir, Duque Berginton, eu gostaria de explicar a minha afirmação. – responde num modo grosso e rápido, para dar a entender que tinha sido interrompido no seu discurso. – Sim, estes dois heróis salvaram o povo inúmeras vezes. Com a força inumana deles, ajudaram a criminalidade desta cidade diminuir. Por outras palavras, fizeram o trabalho por vocês. – começou a provocar, dando um ricochete instantâneo.
Muitos insultos voaram pela sala, outros verdadeiros, outros nem tanto. Outros absurdos e outros modestos. Enfim, era um barulho sem limites que deixou a nobreza em pânico e ofendida. Dubois tinha atingindo um dos seus objetivos, porém, sabia que não bastava isso para os convencer.
Com grande força, bate a palma da mão na mesa, deixando o silêncio invadir a sala. O medo instaurou-se aos poucos.
— Meus senhores, é de facto verdade que estes dois nossos heróis fizeram muito por Paris. No entanto, há algo em jogo: a nossa imagem. – ajeitou o colarinho, fazendo uma pausa breve. – Ouve-se falar de uma conspiração feita pelo povo. O símbolo da força deles é LadyBug e Chat Noir, os vossos preciosos animais de estimação.
— Mas isso é impossível! Nós apoiámo-los quando mais necessitavam! Seria de um grande respeito contra el-rei!
— El-Rei?! Quem pensa que LadyBug e Chat Noir são? Pouco querem saber de El-rei! Se fosse pela vontade deles, a vossa preciosa majestade já tinha a cabeça cortada pela lâmina da guilhotina. – Exclama em momentos de raiva. Queria-se acalmar mas não conseguia. Todas as palavras proferidas por aqueles homens era considerado lixo para ele. No entanto, haviam muitas que ainda incomodavam a sua existência. – O que eu quero dizer com isto, meus senhores, é que necessitamos de exterminar estes dois heróis nacionais do nosso caminho.
Dá pequenos passos, circulando a mesa em que todos permaneciam sentados enquanto outros quase dormiam.
— Enquanto os vossos bolsos enriquecem, o poder para controlar o povo enfraquece. Estes dois têm o povo na palma da mão. De onde retiram a vossa fortuna? Vão começar agora a trabalhar? – pergunta retoricamente, sem obter qualquer resposta. – Evitar o motim, enfraquecer o poder de LadyBug e Chat Noir e acabaram com a parceria deles. Estas pequenas coisas, meus senhores, vão nos fazer cada vez mais ricos. Tão ricos que nem el-rei nos vai conseguir tocar.
Depois de dar uma volta aos cadeirões dos outros nobres, senta-se finalmente no seu, aproveitando para desanuviar um pouco do stress.
— Espero que saibam o que está em jogo aqui. Se tivermos estes animais nas mãos, temos Paris, ou até mesmo França, nas nossas mãos. – Diz com convicção, na ideia de fazer com que os outros adiram mais à sua causa.
Observava os nobres a discutir entre si, o pouco que tinham que discutir. O plano número 1 seria destruir primeiro LadyBug, e de seguida, Chat Noir. Toda a França sabia do amor platónico que o gato negro sentia pela sua Lady, e isso, podia ser o seu fim. Eric Dubois pensava cautelosamente num plano – LadyBug era esperta demais para cair numa armadilha ou em qualquer outro tipo de engano. Tinha, então, que começar a coletar informações sobre os seus inimigos, e especialmente, as identidades de ambos. Se soubesse quem eram debaixo da armadura e do vestido, metade do seu plano podia ser perfeitamente executado. Teria que ser cauteloso e sabia que não devia de depender da ajuda dos gordos da nobreza.
Voltou os olhos para o local em que estes se encontravam a discutir a sua opinião. Muitos eram aqueles que aplaudiam DuBois, pelo fato de defender a riqueza dos mais ricos, enquanto outros dormiam a pensar no assunto. De qualquer das maneiras, o assunto já estava meio resolvido, no seu olhar.
— DuBois, concordámos com o seu plano e vamos tentar fazer de tudo para o ajudar. – disseram com orgulho nos olhos e as algibeiras a romperem-se. O homem sorria malevolamente, ao ver que o seu plano estava a correr como esperado. Todavia ainda lhe faltava um aliado poderoso, e isso, era algo que fazia tudo ficar perfeito.
— Muito bem. Chamaremos a este plano Papillon, ou Hawk Moth, para os estrangeirados. – Conclui com um sorriso nos lábios. – Em primeiro lugar necessitamos de saber mais sobre a vida privada destes nossos amigos. – Olhou para um dos nobres que se encontrava à sua direita, e que era dono dos guardas-civis. – Quero saber quem foram as pessoas envolvidas em todos os crimes resolvidos por LadyBug e Chat Noir. – O homem fica incrédulo, sem qualquer tipo de reação que se conseguisse ler.
— Mas senhor, isso é quase impossível! São milhares de casos! – exclama, deixando o grisalho um pouco irritado. O olhar escureceu e começou a olhá-lo com um certo desprezo. O gordo, ao ver aquela expressão no olhar do seu “chefe”, apanica. – Claro, claro! Tratarei já disso!
— Ótimo. Quero acabar com o plano Papillon ainda este ano. Quero passar o Natal em paz com o meu filho. – explica as suas intenções, abrindo um pequeno sorriso de vitória. Pensou por uns momentos na criança que tinha em casa e depois num dos seus alvos a abater.
Ao reparar que algo era estranho demais, levantou-se repentinamente da cadeira.
— Está tudo bem, Senhor Dubois? – O homem aos poucos acorda do transe, em que tinha, por momentos estado. Queria ligar peça por peça mas era-lhe quase impossível com tanta barulheira daqueles hereges. – Estão dispensados. Porém, queria solicitar uma nova reunião para a semana que vêm. – Todos concordaram e depressa saíram daquela sala que ainda estava banhada em perfumes caros e de um cheiro intragável.
O loiro-grisalho recostou-se na sua cadeira, colocando a mão no queixo e matutando por momentos. Oliver, o seu filho, possuía características físicas semelhantes a Chat Noir, no entanto, a personalidade era completamente diferente. Essa peça é que não encaixava de todo o puzzle que se estava a formar na cabeça.
— É impossível. Oliver nunca faria coisas daquelas. No entanto… – As vezes à noite em que desaparece, as incontáveis vezes em que pede uma pausa de meia hora para tratar de algum assunto. De alguma maneira, tudo encaixa. Todavia, este homem, com o grande orgulho que possuía, não queria acreditar que o seu próprio filho fosse o seu inimigo. Não queria. Não. Não aceitava que tal coisa fosse verdade.
— É bom que esteja enganado… Se não estiver… Serei eu o próprio a caminhar o meu filho à sua desgraça. – fecha os olhos, tentando dispersar os muitos pensamentos que tinha em mente naquele momento.
A sua vida não tinha corrido como queria nos últimos anos e meses, dizia sempre que Deus é que decidia o seu destino. No entanto, depois de tanta desgraça e fracasso seguido e repetido, chegou à conclusão que, esse seu Deus, se calhar é ele próprio.
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