Urano, O Senhor dos Céus
3 Capítulo Dois - Cavalos tentam nos Eletrocutar, e eu tenho um nome clichê?
Notas iniciais
CAPÍTULO DOIS
“Cavalos tentam nos Eletrocutar, e eu tenho um nome clichê?”

Cater Wyle
Parte 1
Cater. Cater. Cater. Cater. Cater.
Cater.
Aquilo ressonou em meus ouvidos mais do que qualquer explosão de bomba. Foi tão natural o nome sair de seus lábios com um sorriso zombeteiro que duvido que Spark ou Lyn tenham dado alguma importância. Mas eu capitei, eu ouvi e me paralisei no mesmo instante. O garoto, Perceu, simplesmente parecia ter se teletransportado para todo aquele caos, e simplesmente começou a despejar muito de uma vez. Muito para qualquer cérebro normal aguentar.
Irmãos, família, casa e o meu nome. Tenho certeza que ele conseguiu dizer aquilo em apenas uma fração de segundos, mas minha cabeça rodopiava e parecia que estava há horas assim.
Só consegui voltar mesmo a me mexer quando ouvi o grito de Lyn, até o momento ela estava apenas de guarda no corredor e eu quase me esqueci do porquê com toda aquela confusão. As coisas tinham surgido. Sem pensar duas vezes segurei o braço de Spark com mais força e o arrastei para fora da sala, até conseguirmos sair de lá, ia esquecer o garoto do sonho pelo menos por um instante.
— Ei, ei, ei. O que está havendo Cat? — Ele me olhou confuso no mesmo instante em que eu o puxei para fora da sala. Suas pupilas ainda estavam dilatadas por causa do pequeno surto, mas fora isso ele parecia bem. Se é que eu podia chamar de bem um garoto tenso e cansado. Ok, definitivamente eu não o podia chamar de bem.
— Temos que sair daqui. — Fora Lyn quem respondeu por mim. Ela tinha os olhos preocupados voltados para o fim do corredor. Notei que suas mãos tremiam um pouco ao se segurar na parede quando outra explosão foi feita.
Explosão não. Aquilo não fora uma explosão, não exatamente. Parecia algo batendo contra algo, aquelas coisas talvez. Eram como trovões, só que dentro do edifício. Meu corpo tremeu um pouco, e eu apertei mais minha mão contra a mão de Spark, era como se algo em mim identificasse o perigo.
— O teto caiu? Está chovendo dentro do lugar? — Spark perguntou incerto e fungando. Sim, chovendo, talvez fossem mesmo trovões. O cheiro de chuva era inconfundível. — O que vocês fizeram afinal?
Lyn bufou e revirou os olhos, como se aquilo fosse ridículo, e de um modo era, nós nunca seriamos capazes de formar algum dano realmente grave que causasse nossa expulsão. Nenhuma de nós duas estava afim de voltar para as ruas. Sempre que o "resgatávamos", fazíamos isso na surdina, de jeito que ninguém notaria que ele estava livre no meio de todos os órfãos por um bom tempo, e de modo que ninguém saberia que erámos nós duas que o libertávamos. Então com certeza, destruir o lugar não estava nos nossos planos.
— Nada. — Eu disse, mesmo não sendo necessário. — Apenas aproveitamos a confusão para te tirar daqui e sairmos, em segurança.
— Calma, em segurança? O que está havendo Cater? — Aquilo, o nome, foi uma martelada em minha cabeça, mas dessa vez eu controlei o devaneio e me voltei à Perceu.
— Aquelas coisas surgiram do nada. É a única coisa que eu sei... — Digo enquanto nos afastamos da cela, agora vazia.
— Que coisas? — Para minha surpresa Spark havia parado, ainda segurava minha mão, mas tinha uma expressão muito séria no rosto.
O encarei por alguns segundos, para depois trocar olhares com Lyn. Não fazia ideia de como explicar aquilo.
— Vento. — Lyn falou como se realmente tivesse dado uma palestra detalhada quanto as "coisas". Depois olhando as outras caras confusas bufou. — Eles surgiram quando o Dan abriu uma janela, ok? Nesse instante começou uma ventania horrível e aqueles barulhos. Então tudo virou um caos e nós aproveitamos para ir resgatar você.
— Ainda bem que o fizemos, aquelas coisas estavam assustando. Digo, depois parou de ser apenas uma ventania. Pareciam pequenos ciclones. — Eu expliquei o que vi, recebendo um complemento final de Lyn que os fez ficar de boca aberta:
— E eu tenho absoluta certeza de ter visto rostos dentro deles.
Então aquilo pareceu o bastante para Spark. Ele me olhou com os olhos realmente alarmados e soltou minha mão, andando para trás até ir de encontro com a parede. Spark encarou Perceu e a mim, de um jeito quase assustado, para depois pôr as mãos na cabeça. Pânico? Ele estava em pânico ou apenas tão confuso quanto a gente? Era difícil saber, mesmo quando se falava de Spark.
— Spark! Ei, fica calmo okay? Nós podemos sair pelos fundos e... — Lyn começou a dizer, mas ela me encarava parecendo muito alarmada.
— O que pelos deuses há com ele? — Perceu se virou para mim, esperando uma explicação, mas só recebeu um balanço de cabeça.
Me aproximei do Spark e pus as mãos em seus ombros, talvez eu ainda fosse capaz de acalmá-lo.
— Spark, o que está acontecendo hein? Fique calmo, nós podemos sair em segurança ainda e... — Eu comecei a dizer para ele, mas fui surpreendida pelo seu abraço. Ele tremia muito e aquilo me deu medo.
— Sinto muito. — Ele sussurrou. — Sinto muito por mentir para você. Eu fui idiota. Idiota. Idiota. Idiota, tão idiota.
— Do que está falando? Por que isto teria haver com você? Não, não. Fique calmo, nada disso foi realmente culpa sua, eu não te culpo por nada. — Tentei dizer da forma mais carinhosa que podia. Mas ele ainda tremia e me apertava forte. Não era pânico, era medo.
O garoto faísca estava com medo. E essa descoberta me deu medo.
— Por favor, eu sinto tanto. Me desculpe, desculpe Cater. — Cater. Ele falou o nome normalmente, como se sempre o tivesse dito.
Era como se ele sempre tivesse sabido disso, como se ele fosse como o garoto Perceu. Aquilo me devastou, por um momento eu apenas encarei o cara que se dizia totalmente honesto comigo há alguns dias atrás. Tudo se encaixava e eu realmente tive vontade de deixa-lo lá, implorando por desculpas, não queria ouvir mais nada a não ser que fossem para dizer que era tudo uma pegadinha. Que estavam rindo de mim.
Isto não ia acontecer.
— Vamos embora. — Disse de um jeito “opaco” e me soltei do abraço de Spark, nem mesmo segurei sua mão, agora quem estava tendo um ataque era eu.
Voltamos a andar depressa pelo corredor na direção contrária do som, e parecia que íamos sair ilesos daquela bagunça pela saída de emergências. Íamos conseguir.
Mas eu ouvi o grito de Dan, e corremos para o refeitório.
Não preciso explicar o que deu em mim, o porquê de eu simplesmente não ter saído por aquela porta como Lyn, Spark e Perceu já haviam feito. Eu apenas não consegui ignorar, como se algo me dissesse que era meu dever ajudar aquelas crianças dos monstros. Como se eu reconhecesse que eles estavam lá por culpa minha, e eu não podia deixar com que eles pagassem a minha sentença. Como seu eu não aguentasse mais ouvir gritos. Já foram gritos de mais.
Conforme me aproximei do refeitório o cheiro de chuva e a ventania estavam quase como se ocorresse uma tempestade. Mal consegui manter meus olhos abertos, e fui obrigada a entrar de baixo de uma das enormes mesas.
— C-cat, é você? — Ouvi a voz de uma das crianças no orfanato, não consegui localizar quem era, mas claramente estava embaixo de uma das mesas, assenti com a esperança de que ela estivesse vendo.
— Eu vou tirar vocês da-... — Comecei a dizer contra o barulho do vento, mas uma das mesas – bem a que eu me encontrava escondida – foi virada pela força dos ventos. E, desta vez eu consegui encarar de olhos quase totalmente abertos o redemoinho. Era um cavalo.
Um cavalo que exalava tempestade.
Só tive tempo de correr para outra mesa antes que o animal me acertasse com um raio. Animal. Aquilo não era um animal, era mesmo um monstro como supusemos. Seu corpo era formado pelo vento condensado, de uma cor que me lembrava um azul do mar. Os olhos eram roxos e brilhantes, soltando faíscas para todo o lado. Ele não exalava a tempestade, ele era ela com toda sua força. E não estava sozinho.
Mais três cavalos-tempestade estavam naquele refeitório, espalhados e causando confusão. Soltando raios e revirando as mesas, parecia que procuravam algo... ou alguém.
Me mantive agachada sob a mesa mesmo quando Perceu surgiu ao meu lado, estava com uma espada na mão e olhava preocupado para os animais. Ele olhou de relance para algo as minhas costas que me fez seguir o olhar; todas as crianças que antes estavam no refeitório se localizavam atrás do balcão da cozinheira, tentando se proteger.
— Precisamos tirá-las daqui... Cater, você pode fazer um campo de força ou algo assim? — Ele olhou para mim com uma expectativa que me deixou de boca aberta.
— Campo de força? Está doido? — Gritei, acima do barulho da tempestade, e olhei dele para os cavalos que se aproximavam cada vez mais de nosso esconderijo improvisado.
Foi por uma fração de segundos que não nos pegaram. Se tivessem conseguido jogar um raio teriam nos incinerado, mas Lyn foi mais rápida.
Ela realmente pulou em cima de um dos cavalos e prendeu seu pescoço com um fio, como se o domasse. Ele tentou evaporar ou coisa do tipo, derrubá-la de todas as formas, mas algo o mantinha firme, demorei um pouco para identificar o que, mas meus olhos capitaram o momento exato do lampejo, choque. Ela estava com uma arma de choque dos “carcereiros”!
Não sei onde a arrumou, nem como, mas era a melhor ideia de todas. Estava dando às aquelas pragas seu próprio remédio. Um pouco de eletricidade. Por um momento vi que seria fácil pegar aquelas coisas, e comecei a me levantar para ajudar Lyn, mas fui parada abruptamente por um puxão no braço, era Spark.
— Espere, você não pode ir lá. Vamos tirar as crianças daqui. Eles cuidam dos espíritos da tempestade. — Ele disse de forma rápida, quase como se fosse uma ordem e eu simplesmente assenti já correndo para baixo de outra mesa a fim de me aproximar dos pequenos.
E foi realmente uma boa ideia, Lyn e Perceu conseguiam trabalhar em sincronia quase que perfeito, ela, com o espírito que domara, conseguia fazer com que ele lançasse raios em seus outros companheiros e, de alguma forma, a espada de Perceu conseguia “ferir” aqueles bichos, ou pelo menos forçava-os a se dispersarem. Enquanto isso, eu e Spark conseguimos conduzir quase todos as crianças até o corredor, e estava realmente tudo correndo bem, se é que posso chamar de bem.
Mas Lyn tomou o descuido de olhar para nós e não perceber que o outro “cavalo” estava mirando um raio em suas costas. Só tive tempo de pensar em uma coisa quase não plausível, eu me levantei e gritei seu nome, e de um jeito quase impossível ela se mexeu os milímetros necessários para se livrar do raio, saindo apenas com os cabelos um tanto espetados. Já eu, só tive tempo de pôr as mãos na frente do rosto.
O minuto que se seguiu foi longo e torturante, eu esperava a dor de um “raio” e os outros apenas arquejaram, foi quando eu tive coragem de abrir os olhos que entendi o porquê. Uma barreira, semitransparente, despejava uma luz roxa sobre todos e estava bem a minha frente, como um campo protetor. Os cavalos-tempestade tinham desaparecido com a luz estranha, que, pelo jeito absorveu o raio que me acertaria.
Isto sem sombra e duvidas era a coisa mais estranha que me aconteceu.
— A magia de Hécate. — Ouvi Perceu falar baixinho e depois uma mão foi entendida à minha frente, assim que a segurei a barreira tremeluziu e desapareceu.
— O que foi isto? — Perguntei já de pé, olhando para todos os lados, realmente não haviam mais cavalos, e as crianças todas saíram. — Eu... fiz isto?
Olhei para minhas mãos, normais como há alguns dias, não tinha nada de novo com elas ou comigo, não fui exposta a nada radioativo ou coisa assim. E com certeza eu nunca havia feito isto, ou nunca tive a necessidade de o fazer.
— Eu sou o que? Algum tipo de super-herói? — Perguntei novamente, encarando os outros. Lyn franzia os olhos e tentava não me encarar, Perceu sorria como um idiota e Spark... bem, Spark estava de costas. Tirei o sorriso do meu rosto, algo muito ruim estava acontecendo.
— Você não é um super-herói se quer saber mesmo Cater, como em disse antes sou filho de Poseidon... e você é filha de Hécate. — Perceu riu meio constrangido, como se ele não quisesse que perguntassem mais, porque obviamente não saberia explicar.
— Tá... chega! É algum tipo de piada? Estamos em um programa de televisão ou coisa assim? Spark, Lyn, e provável apresentador, isto não tem graça nenhu... — Balanço as mãos, irritada com todos, e olhando para os cantos, a procura de câmeras.
— Cat, acha mesmo que estamos brincando? Realmente? — Lyn me encarava agora, zangada, irritada e meio tremula.
Lyn estava tremula.
Aquilo me deixou um pouco mais receosa, ou ela fingia realmente bem, ou estávamos todos encrencados com alguma coisa inexplicável.
— Eu na verdade não sei o que achar! Porque isto só pode ser uma brincadeira e eu estou... — Me interrompo com a sirene. Alguém chamou a polícia e querendo ou não nós íamos ser culpados desta confusão.
— Maravilha, vai ser maravilhoso! Dois loucos e duas cumplices acabaram com um orfanato... querem ficar aqui e sair na primeira página do jornal? — Spark se virou para nós com ironia, e eu vi seus olhos arregalados e sem dúvidas descontrolados. Só precisei de um segundo para encarar a Lyn e ela perceber.
Ele estava perto de ter um ataque, isto sim seria ótimo. A polícia chegando e um garoto endoidando, já o outro falando de deuses..., estávamos perdidos. Ou quase, se alguém não estivesse sentado no parapeito da janela, com um meio sorrio.
Roupas pretas, pele oliva, cabelo escuro um pouco mais longo do que eu já vira, olhos que pareciam tramar sua morte. Era ele. O garoto que mais chorou no meu sonho, o que eu sempre me esquecia o nome quando acordava, mas que agora estava bem vivido em minha mente junto com uma horrível dor de cabeça, era Nico. O menino de preto que mais parecia o Sol em pessoa.
— Percy realmente, você vai comprar um sanduiche e acaba em um manicômio? — Ele disse entrando na sala e enfiando as mãos nos bolsos. — Pelo menos, nossas buscas acabaram.
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