Urano, O Senhor dos Céus
4 Capítulo Três - Cavalos tentam nos Eletrocutar, e eu tenho um nome clichê?
Notas iniciais
CAPÍTULO DOIS
“Cavalos tentam nos Eletrocutar, e eu tenho um nome clichê?”

Cater Wyle
Parte 2
Aquela última frase foi dirigida totalmente a mim, o pior era que eu nem sabia o porquê, eu lembrei seu nome e aquilo me deu dor de cabeça, mas mesmo assim nada de nenhum deles me vinha a mente. E você deve achar; “ela não lembra de quem é, acabou de ver cavalos voadores destruírem o lugar que morava e agora a tratavam como uma velha conhecida, mas ela nem mesmo reclamava” Ok, eu não sabia mais o que fazer, eles ficaram me encarando com um sorriso, e do mesmo jeito eu não conseguia gritar, apenas me sentir... segura.
Devo ter um parafuso a menos, e Lyn e Spark também, porque nós três seguimos aqueles dois para fora do orfanato. Eu achei que iam roubar um carro ou coisa assim, mas eles simplesmente se dirigiram para o beco mais escuro que encontraram, e isto demorou. Não entendi o porquê de quererem um lugar do tipo, e já começava a ficar preocupada, era fim de tarde quando pareceram satisfeitos, e aí se veio uma discussão.
Nico e “Percy” (como ele pediu para ser chamado), começaram a discutir sobre os aparentes perigos do que Nico queria fazer, eu não entendi nada, mas ouvi bem as palavras “Nova Iorque”, “morte” e “Filho de Hades”.
— Eu ainda acho perigoso, Nico. — Percy cruzou e descruzou os braços pelo menos duas vezes em dois segundos. — Somos cinco agora. Levar todos pelas sombras vai te exaurir.
— Nós a achamos e eu vou levá-la para casa. — Nico repetiu a resposta pela sexta vez. — Somos só cinco, isto não é nada para mim. Eu vou conseguir... chegando lá algum dos filhos de Apolo pode me dar uma poçã-...
— Para de brincar isso é sério. Muito sério, nós dois sabemos como o mundo inferior já é ruim quando visto, imagine ficar a meio caminho, perdido em sombras. Nico, vamos ligar para Quíron agora.
Observei a discussão dos dois um tanto afastada, eles estavam na beirada do beco, discutindo e vendo se vinha alguém ao mesmo tempo. Eu estava parada próxima a parede, onde Lyn estava escorada com os olhos fechados, era aquele o seu máximo de calma.
— Olhe. Nós podemos fugir agora Cat. Enquanto os dois loucos conversam, conseguiríamos arrastar Spark, eu conheço essa área e-
— E iriamos esperar até que a polícia nos achasse? Para voltar para o manicômio e fazerem sabe-se lá o que com a gente? Eu... eu não sei porque, mas confio neles. Me são familiares e... — Suspiro e cruzo os braços, olhando para o céu por um momento antes de voltar a olhar para ela. — ...você viu o que aconteceu lá. Foi inexplicável! Ou melhor, só eles podem nos explicar e, eles sabem Lyn. Sabem quem eu sou.
Ela abriu os olhos e me encarou, pude sentir tudo o que passava por seu cérebro. A confusão era igual em mim e, provavelmente, estaria sendo o mesmo em Spark. Também pude ver que ela não tinha mais nada a falar, já estava convencida de que sua sugestão não daria certo.
— Ok, mas o que vamos fazer com Spark? — Lyn mudou de assunto, fazendo um movimento para indicar o garoto que estava sentando do outro lado do beco, com a cabeça nos joelhos e respirando quase que audivelmente. — Você tem que falar com ele... Sabe, ninguém vai querer que ele ataque um dos seus garotos “confiáveis”.
— Lyn, você viu o que ele fez? Ele sabia! Tenho certeza, ele mentiu para mim, sabia do meu nome, sabia disso tudo.
Começo irritada, mas o olhar que ela me lança acaba por cortar qualquer outra desculpa. Lyn apenas respira fundo e volta a indicar que eu vá falar com ele, e eu sabia que pensava o mesmo que eu; era o Spark. Se ele não disse algo do tipo, foi porque não pôde. O Spark nunca esconderia nada de mim.
Bufando e revirando os olhos para ela, eu atravessei a rua do beco, olhando rapidamente para Nico e Percy, constatando que continuavam a discutir. Quando cheguei perto de Spark, vi que ele realmente respirava com dificuldade.
Se ele mentiu, teve um porquê. Ainda era o Spark.
— Ei, Mike, está tudo bem? — Perguntar o óbvio para chamar a atenção: feito.
Deu quase certo, ele emitiu um gemido irreconhecível, sem levantar a cabeça e aquilo me preocupou mais.
— Você vai falar comigo? — Falei mais baixo e me agachei a seu lado, por um momento chego a considerar pôr a mão em seu ombro, mas para o movimento e suspiro. Como resposta ele levanta a cabeça minimamente, me encarando.
— O que quer que eu diga? — Sua voz sai calma, para minha surpresa. — Puxa! Será que os mágicos me dão um autógrafo?! Ah, conte outra Cat.
Mágicos? Mentiroso, você sabe a verdade!
— Quero que você diga que está tudo bem. Que podemos ir com eles e você vai respirar fundo... — Encaro ele com mais seriedade e ouço Lyn bufar, sabia o que eu ia falar e não aprovava nem um pouco. — ...e vai me dizer o que está acontecendo.
Ele ainda é o Spark, mas sabe de algo e agora pode me contar.
— Cat, eu não tenho nada par-
— Então decidimos, pessoal! — Percy acabou interrompendo Spark no meio da frase, e olhei feio para ele, mesmo que duvidasse que tenha percebido. Ele estava se aproximando com um Nico carrancudo.
Acho que Nico não concorda com essa tal decisão.
Suspirando eu me levanto, Spark olha para mim e por um momento acho que ele vai se levantar e me explicar tudo que estava acontecendo, mas ele encosta a cabeça contra a parede e fecha os olhos, desinteressado com o que virá a seguir. Balanço a cabeça, mordendo pelo lado de dentro a bochecha e me segurando para não brigar com ele.
Ele ainda é o Spark, e esta confusão deve o estar deixando pior.
— Nico vai levar a mim e... qual é mesmo o seu nome? — Percy olhou para Lyn questionador.
Mas ser o “Spark” não é desculpa para tudo.
— Lyn. — Ela murmurou a contragosto, e eu percebi que a ideia de sair correndo não estava tão abandonada quanto eu imaginava.
— Ok, Nico vai levar eu e Lyn primeiro pelas sombras, e logo depois vai voltar para buscar você e....
— Spark. — Respondi e os dois garotos franziram as sobrancelhas. Suspirei. — Michael Speed.
Eles acabaram dando de ombros sem se importar com o nome, e eu me virei para Spark, que continuava com os olhos fechados e desinteressado, outro suspiro saiu pelos meus lábios. Nem mesmo quando falavam o nome dele...
— Ok... — Nico nota a cena, sua expressão um misto de curiosidade e suspeita, como se para ele algo estivesse bem errado. — Me deem as mãos, e vai ser rápido.
Sem querer (ou quem sabe querendo) ele acabou por soar como um cirurgião ou uma enfermeira que tira sangue, “acalmem-se e vai ser rápido”. Percy não hesitou em segurar seu pulso, enquanto Lyn ficou encarando a mão estendida do garoto de preto. Ela olhou para mim em busca de ajuda, mas eu fiquei tão perdida quanto ela..., não sabia o que era viagem nas sombras e muito menos como passar por isso...
Mas você confia em Nico. Acabou de conhecê-lo, mas confia.
A frase surgiu em minha mente com uma certeza absurda, e eu encarei Lyn novamente, assentindo levemente com um sorriso nervoso. Trincando os dentes Lyn deu a mão ao Nico já impaciente, neste mesmo momento os três garotos desapareceram na frente dos meus olhos, virando fumaça negra e uma grande dor de cabeça, um dejà vú, me invadiu.
De algum modo eu sabia agora, havia reconhecido aquilo, a viagem nas sombras. Levei as mãos à cabeça enquanto, como visões, imagens me invadiam, eu já fizera aquilo centenas de vezes, enquanto lutava. Lutava.
Uma guerra impossível, uma guerra em que eu estive sempre do lado errado...
Aperto mais os olhos e me deixo cair de joelhos no asfalto húmido, me sentindo ainda mais tonta, como se a simples ideia de que eu me lembrasse de ter feito uma Viagem nas Sombras fosse extremamente proibida e quisesse ser arrancada da minha mente a força.
Não percebi quando Nico voltou sozinho ou quando ele levou uma das mãos ao meu ombro, preocupado, apenas abri os olhos quando todas as visões se dissiparam e minha cabeça ficou, novamente, vazia.
— Cater?
— Eu já fiz isso, não é? Essa viagem, milhares de vezes. — Falei e finalmente olhei para ele, que mudou a expressão preocupada para a de relaxado.
— Sim, nós fazíamos isso sempre. Sempre foi o melhor jeito de viajar.
— Nós? — A pergunta deu um nó em minha cabeça, de todas as visões que tivera, Nico não apareceu em nenhuma. A simples palavra tirou o pequeno sorriso de seu rosto e ele tirou a mão de meu ombro, se levantando e olhando para outro lado, estava envergonhado, quase... perdido.
— Sim, nós. — Nico pareceu respirar fundo antes de me encarar novamente. — Seu amigo, faça com que ele levante... temos que ir ou os outros ficarão preocupados.
Concordo com a cabeça e me levanto, passando rapidamente as mãos pelas roupas, tirando o pó da rua, e me dirijo a Spark que continuava do mesmo modo, sentado com a cabeça entre os joelhos.
— Spark, temos que ir.
As palavras saíram de modo frio e eu olhei para outro lado, para onde Nico estava encostado na parede e parecendo entediado. Chutei uma pedrinha e, contra a minha vontade, me abaixei de novo, do lado do garoto faísca.
— Spark, nós realmente temos que-
— Eu não vou para o Acampamento. — Ele disse e finalmente levantou a cabeça, depois de me cortar no meio da frase. Finalmente, tinha parado de fingir que não sabia de nada do que acontecia.
Acampamento? Ele realmente sabe o que tudo isso significa.
Aquele deve ter sido um tipo de teste. Algo feito exatamente para que eu refletisse entre explodir com ele, perguntando (e gritando) tudo o que devia e não devia sobre ele saber quem eu era esse tempo todo, ou respirar fundo e me preocupar com para onde Lyn fora levada, em não ser presa e no final conseguir uma explicação lógica sem ser tachada como louca.
Apertando as mãos em punhos, obriguei a mim mesma a me concentrar na segunda opção.
—Sim, você vai. Porque depois de todas as mentiras que, pelo jeito, você me contou, o mínimo que pode fazer é me dar algumas respostas. — Completei, sem deixar que outra desculpa escapasse da boca de Spark, e voltei a ficar de pé, estendendo uma mão para Nico e puxando o braço de Spark com a outra. Nesse momento eu percebi que minhas mãos possuíam o mesmo brilho roxo que o campo de força tivera, quase como se uma aura as envolvesse.
— Quanto mais tempo você fica com a gente, mais rápido a magia volta para você. Incrível. — Nico murmurou, definitivamente abismado, enquanto segurou minha mão com uma vontade que quase me fez arquejar, não por apertar, mas por algo mais, como se aquilo fosse...
...o desejo dele, por tanto tempo. Cater viva, bem e com ele.
Balancei a cabeça e finalmente forcei Spark a se levantar, não que ele parecesse ter escolha, algo no fato de minha mão estar brilhando e segurando o seu braço parecia impedir que ele se soltasse ou lutasse contra. Não que a carranca já não fosse luta o bastante... pelo menos ele não se dignou a falar mais nada.
Já Nico, não precisou de incentivo para tocar o braço de Spark também, e então foi de uma vez.
Em um momento eu via a ruela suja, os rostos de Spark e Nico, e então, tudo girou. Em uma confusão de sombras, de vento, de rostos desconhecidos – e moribundos – e uma dor de cabeça que pareceu querer rachar meu crânio ao meio, depois disso: nada. Achei que tinha ficado perdida, na escuridão sem fim, até finalmente notar que estava de olhos fechados e com os joelhos apoiados no chão.
Chão... folhas.
— Graças a Deus! Eu achei que iam me abandonar com esse garoto aqui! — Nem tive tempo de assimilar que se tratava da voz de Lyn, até que ela pulasse nos meus braços. Definitivamente estava nervosa.
E eu tonta.
Percebi, sentindo a cabeça girar quando finalmente abri os olhos, encarando parte da cabeleira loira da minha melhor amiga.
— Relaxa, Lyn. Nós não íamos te deixar aqui sozinha. — Consegui dizer depois que ela finalmente me soltou e então me levantei, por alguns segundos ainda vendo dobrado.
— Ah, você também está tonta com esse teletransporte estranho? Eu vomitei! — Lyn voltou a falar enquanto me ajudara a levantar, não estava animada – pelo contrário, Lyn era um poço de descrença e irritação –, com o canto do olho pude observar Percy revirando os olhos, ele voltara a ter uma espada nas mãos. — E a caneta dele... realmente virou uma espada! Cat, por favor... não me diga que está acreditando nessa brincadeira louca.
Há minutos ela se irritou com o fato de eu ter perguntado se era mesmo uma brincadeira, agora ela parecia considerar a ideia.... Definitivamente fugir correndo não saiu de sua mente.
Claro, cérebros mortais não conseguem aguentar o tranco do mundo dos deuses. A voz soou alta na minha cabeça, como se fosse minha mais pura consciência que falava.
— E.. o que deu no Spark? Digo, ok que ele parecia estar mentindo para nós esse tempo todo, mas... ele parece pior agora do que antes de eu virar fumaça... — Lyn olhava de relance para o menino, enquanto eu tentava ao máximo ignorar sua presença, ou a de qualquer outro, um jeito de fingir que aquilo tinha sentido. Nós havíamos começado a subir a colina em que estávamos, cada vez mais mata a dentro, de acordo com Percy, aquele era o caminho para O Acampamento. —Ei! Terra para Cat. O que deu no seu namorado?
Antes de responder ouvimos um estalo um tanto mais forte; Nico que pisara em um galho seco e parara de andar, um pouco mais à frente de onde eu e Lyn nos encontrávamos. Percy olhou sem graça de mim para Nico, dando um rápido olhar para Spark, antes de se aproximar do menino e bater de leve a mão no ombro dele. Nico, por sua vez, se afastou dele, andando mais rápido do que antes, quase como se para fugir de nós.
Confuso. Definitivamente, confuso e estranho.
— An.. quando descobrir, por favor me avise, eu também quero muito saber que tipo de loucura deu nele dessa vez. —Minha resposta foi ao mesmo tempo cínica e perdida, este último por conta da cena que presenciamos.
Lyn levantou os braços, fingindo rendimento diante da minha resposta grossa e então parou, olhando para frente, com a boca levemente aberta. Virando a cabeça para acompanhar seu olhar, encontrei um tronco grosso, de uma árvore de pinheiro enorme, muito provavelmente a maior daquela “floresta” e depois dela havia um “portal”, digno de acampamento onde letras gregas informavam o nome do local: Acampamento Meio-Sangue.
Letras em grego que diziam.... Eu realmente li grego?
— Lar Doce Lar. — Nico sussurrou, quase a contragosto enquanto, dando um leve soquinho no pinheiro gigante, passava a nossa frente, até parar escorando no portal com o entalhe em grego, nos “esperando”.
— Eles realmente nos levaram para um acampamento de verão... — Lyn se virou para mim, levando uma mão a cintura. — Só espero que não apareça o cara da serra elétrica, seria muito não original.
Sua voz soou cínica, ela fazia pouco caso de tudo aquilo, enquanto seguia Percy para entrar no Acampamento. Ainda parada de frente para o pinheiro, observei quando Lyn passou, o ar tremeluzir em azul claro, uma ínfima luz, e depois voltar ao normal.
Mais coisa estranha.
Depois disso, Spark passou por mim irritado – sem nem mesmo olhar para o meu rosto – e dessa vez o ar não mudou.
É, fora coisa da sua cabeça. Está cansada, foi muita coisa louca acontecendo... normal ter alucinações.
Espero então que toda essa doideira seja uma alucinação.
Balançando a cabeça para me distrair os segui acampamento a dentro, ou tentei. Assim que dei dois passos, buscando contornar a árvore e ir até os outros o ar voltou a tremeluzir em azul claro e pareceu virar denso e impenetrável, fazendo com que eu batesse a cabeça em algo que parecia vidro e voltasse os passos para atrás da “linha da árvore”. Depois disso, a cor não durou nem dois segundos e tudo ao redor voltou ao normal.
O que tremeluziu quando Lyn passou... e agora isso... é uma barreira. Cercando todo o “Acampamento”. Uma barreira protetora que não me deixa entrar.
— Ei! Não quer me deixar passar! — Acabei gritando, totalmente perdida, para que os outros – que já desciam a colina para o outro lado – pudessem me ouvir e voltar. Com certo receio levei uma mão para frente, onde rapidamente uma luz azul voltou a sair do pinheiro para até onde estava minha mão e se espalhar ao redor, como um domo, protegendo o local do Acampamento de mim. — Droga.
Não identifiquei se pela luz que o “ar” emitia quando eu o tocava, ou se pelo chamado, mas eles voltaram para a barreira, primeiro me encarando preocupados, para, por fim, um olhar de reconhecimento se passar entre Nico e Percy.
— Ah, pelos deuses... Cater ainda é uma exilada. — Percy quebrou o silencio e voltou a olhar para Nico. — Tínhamos esquecido desse detalhe.
— Exilada? Não, não, exilada não. Eu vim com vocês, confiei em vocês, não posso simplesmente ficar para fora do lugar!
Do lugar que possui todas as respostas que preciso.
Quase sem controle, soco o ar a minha frente, dessa vez, ao meu toque, o azul se espalha ainda mais pelo domo que era a barreira, de modo que não duvidasse que alguém do outro lado do tal acampamento seria capaz de deduzir que algo de errado acontecia.
— Calma Cater, eu vou chamar Quíron, ele vai saber um jeito de... concertar isso. — Percy, nem esperou por uma reação valida da minha parte, simplesmente saiu correndo, desaparecendo morro abaixo.
— Cat...
— Não. — Não, isso não é aceitável! Alguma coisa dentro de mim pareceu gritar. — Eu não vou simplesmente ficar aqui, esperando por uma solução, e se eu não entrar?
Encarei Lyn, depois de interrompê-la e então soquei com mais força o Campo de Força, o mesmo vibrou e voltou a mostrar da cor azulada. Olhei para os outros, Spark tentava não demonstrar que estava se importando e Nico parecia distante, mas ao mesmo tempo preocupado com a possibilidade de eu não entrar.
Não, não há possibilidade. Eu vou entrar! Claro que irei! E vão me dar todas as repostas de que preciso.
Soquei de novo e de novo, cada vez com mais raiva e determinação, ignorando a dor nas mãos que aquilo causava ou as tentativas de chamado dos outros. Cada vez mais vendo a parede vibrar e se colorir, indicando o “inimigo”.
Vou saber quem eu sou.
Mais um soco.
Vou saber o que aconteceu.
Mais outro. Minhas mãos voltaram a ter a aura roxa a sua volta.
Vou saber o que diabos aconteceu no orfanato.
Outro soco, dessa vez, invés de apenas azul, a Barreira toda – toda a dimensão do domo – ficou roxa por um momento, e eu vi Spark e Lyn darem um passo para trás.
Eu vou saber quem são todas essas pessoas... e porque o menino se intitulou filho de Poseidon.
Os próximos socos renderam ainda mais da coloração roxa.
Eu vou me lembrar.
Desta vez não soco, mas sim bato as duas palmas da mão no Campo de Força, quase como se quisesse empurrá-lo para longe. Ele não fica azul, nem pisca em roxo, mas sim ganha uma grande coloração roxo brilhante e um zunido se espalha por todos os lados. A coloração que me impediu de ver os outros além do Pinheiro demorou pelo menos dez segundos para se dissipar, e assim que o fez eu cai para frente. Sem mais que aquilo me impedisse de passar.
Claro... eu cai com o rosto de encontro a terra, e de uma hora para outra me sentindo tonta.
As mãos não brilhavam mais quando me sentei, levando uma delas a cabeça que me lançava mais uma onda de enxaqueca, enquanto Lyn e – até mesmo – Spark se ajoelhavam ao meu lado.
— Ah, deuses, seu nariz. — O garoto faísca não me deu chances para que eu me afastasse ou recusasse sua ajuda, dessa vez ele não se importava em demonstrar preocupação, simplesmente levantou a barra de sua blusa para tentar parar o sangue que começara a sair de meu nariz, sendo que, com a outra mão, segurava meu pescoço com cuidado.
Muita energia você usou para passar pela barreira, Cater.
— O que diabos foi isso? — Lyn perguntou, olhando para mim, ela também tinha preocupação no rosto, mas a emoção que mais se destacava era a descrença. — O que você fez?
— Eu não faço a mínima idei- — Ainda com Spark me segurando e me ajudando a parar o sangramento comecei a responder à Lyn, dessa vez sendo interrompida por um coçar de garganta, próximo à onde estávamos agachados.
— Catherine Eve Wyle, você voltou para o acampamento.
Eu. Estou. Vendo. Um. Centauro.
Em algum momento, em meio a barreira roxa e o nariz sangrando, Percy voltara com ajuda, e praticamente todo o resto dos campistas que viram a confusão das cores no “céu”. E, dentre aqueles que ele supôs que ajudariam, estava um homem, com aparecia de estar em seus quarenta anos, cabelos já acinzentados e uma barba por fazer, o peitoral largo carregava nos ombros uma aljava com algumas flechas, enquanto o arco estava posicionado na mão direita. Essa era a parte normal, aceitável, nada de errado com o homem que praticava arco e flecha altas horas da noite. A não ser as pernas, ou a falta delas.
O tal Quíron (não pergunte como diabos eu sabia que ele era o Quíron) era um centauro, sua parte de baixo não era formada de pernas humanoides comuns, eram quatro cascos e um traseiro de alazão, aparentemente acinzentado com a pouca claridade da noite.
Eu não precisei fazer nada, muito menos impedir ou achar estranho, quando ao meu lado, Lyn começou a gargalhar.
— Mas que droga de nome, Cat. — Ela conseguiu dizer entre as risadas depois de um tempo em que, naquela colina, só foi audível seus risos. — Catherine Eve? Deus!
— Achei Wyle pior... —Murmurei e respirei fundo, e logo erámos nós duas, mais que nervosas, gargalhando na noite e desistindo da lógica.
O que está à nossa frente não é acreditável, nada de hoje foi. E, então, no mesmo dia vemos um cavalo formado de vento, e outro formado de “homem”. Isto, sem dúvidas, é a melhor pegadinha que alguém pode fazer!
O pensamento veio em minha mente entre as risadas, mas, de certo modo, eu sabia que ele era o que não fazia sentido naquilo tudo e que, finalmente, eu estava no lugar mais próximo do que uma vez chamei de “lar”.
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