Up To No Good

18 Nasce Uma Amizade


Notas iniciais
Mil perdões por demorar tanto pra postar. Ainda estou sem internet.
Boa leitura!

Dois dias.

Esse foi o tempo que Charlotte ficou no quarto, isolada do mundo. Não saiu para tomar ar fresco, não saiu para comer, não saiu para as aulas. Simplesmente se desligou do mundo e fingiu que o universo apenas existia dentro de seu quarto. Se forçou a pensar que os últimos momentos do encontro com Fred não tinham acontecido. Para Charlotte isso era uma coisa ruim, péssima. A menina nunca teve um namorado, nunca tinha sido chamada para um encontro e nunca havia nem chegado perto de beijar ninguém. O mais próximo disso que tinha chegado foi o relacionamento a longo tempo com o melhor amigo Scorpius. Charlotte sempre imaginou que seu primeiro beijo seria no herdeiro tão amável de seu admirado amigo, Sr. Malfoy. O fato de que isso nunca poderia ser verdade a aterrorizava, a matava cada segundo mais, a fazia se sentir um lixo.

– Bom dia, hora de acordar! – Rose entrava com um bom humor assustador no quarto, segurando uma bolsa com um sanduíche e algo para beber. Se não fosse pela ruiva, Charlotte teria morrido de fome e sede naqueles dias em que ficou encarcerada no próprio quarto. – Foi só isso que deu pra pegar hoje. Daqui a pouco os professores vão desconfiar... Alguém já deve ter notado a sua ausência. Além da Roxy, claro. – A irmã de Fred, Roxanne Weasley, também era monitora e já tinha notado a falta de Charlotte nos corredores. Quando questionou Rose, soube o porquê da ausência da menina. Não gostou de saber, mas respeitou o momento de Charlotte. Pelo menos ela não é de todo o mal.

Charlotte mal falava. Naquela noite, chorou nos ombros de Rose que não entendeu nada, mas também não perguntou. A morena não precisou nem contar, no dia seguinte Fred contou pra prima do ocorrido, sem entender bem o que tinha acontecido. Quando Rose tentou tocar no assunto, Charlotte a cortou friamente, com os olhos marejados. A ruiva entendeu que ela ainda não estava pronta para a conversa e deixou pra lá. Sabia esperar, paciência era uma virtude que possuía e sabia administrar bem. Enquanto Charlotte comia em silêncio, Rose foi pela quinquagésima vez na janela do dormitório. Ela percebeu que a ruivinha estava fazendo isso o tempo inteiro. Ela sempre olhava lá e mexia no casaco do uniforme, mas Charlotte nunca via o porquê. Não achou relevante o suficiente pra perguntar, preferiu continuar falando o estritamente necessário com garota desagradável.

– Mas então... Está se sentindo melhor? – Rose insistia em puxar assunto, o que deixava Charlotte com raiva. Não queria conversar sobre o ocorrido, queria esquecer. Ficou em silêncio esperando que a menina se tocasse, mas não aconteceu. – Sabe, eu entendo que você não queria falar sobre isso, mas ficar aqui isolada do mundo só vai te fazer pensar mais no assunto. Você precisa sair e pensar em outras coisas.

– Só eu sei o que eu preciso. – Rose riu de leve, como Fred fazia às vezes. Droga, eles são tão parecidos. Toda vez que Charlotte olhava pra Rose, lembrava do garoto. Talvez por isso ela tivesse tolerado a presença da menina ali em seus dias de martírio. Queria esquecer e ao mesmo tempo lembrar. – E agradeço se você não der mais sua opinião.

– Então pode parar de agradecer. – Rose sentou na cama de Charlotte e encarou a menina bem no fundo de seus olhos. A garota falava sério, coisa muito rara. – Eu ainda não entendi direito. Pelo que Fred me contou ele não tentou te estuprar nem nada, só te beijou. E você beijou de volta! Por que todo esse drama?

Ela não entendia, nunca iria entender. Para Charlotte, o que tinha acontecido era o pior de todos os pecados. Ela sentia como se tivesse traído Scorpius e jamais poderia reparar o erro ao qual ela se entregou com prazer. Só ela sabia o quão vergonhosa era a atitude que tinha tomado com ele permitindo a aproximação. E não queria perder seu tempo explicando para Rose, mas a menina queria perder seu tempo procurando uma explicação.

– Não é nada demais, Benningham. Mesmo que você não queria nada sério, o que eu duvido, é só dizer pra ele. Não é o fim do mundo porque vocês se beijaram! – A menina falava sem parar e cada vez mais rápido. Logo começou a andar pelo quarto e falar ainda mais alto. – Sabe, eu liguei os acontecimentos. Foi muito estranho naquele dia em que o Fred te ajudou com seu material depois de o James derrubar. O Fred nunca se mete nas idiotices que o James faz, eles são melhores amigos. E mesmo assim levou você pra passear no hipogrifo, a garota que o James mais detesta. Também teve aquele dia no jogo de quadribol quando você salvou ele. Aquela garota que todo mundo diz não ter coração teve um momento de compaixão e salvou um Weasley, alguém da família que ela detesta? Eu não sei pra você, mas no meu mundo isso significa só uma coisa: que vocês dois se gostam! Se gostam muito! E qual o problema nisso? Quer dizer, os dois são solteiros e livres e o Fred é bonitinho além de ser um cavalheiro, então por que você afasta ele? Todas as garotas da escola correm atrás dele, sabia? O único motivo desse drama todo é se as suspeitas de todo mundo fossem reais e você tivesse mesmo algo com o Scorpius, mas ele já me contou que não é verdade então não faz sentido! Eu só queria saber o porquê dessa tragédia toda e...

– Quer saber por quê? – Charlotte começou a berrar, assustando Rose. – Eu te digo por quê! Porque foi meu primeiro beijo e eu o guardava pro Scorpius! – Rose paralisou. Lágrimas caíam dos olhos de Charlotte que, enfurecida, não parava de gritar a plenos pulmões com a ruivinha. – Porque eu gostei quando eu só devia gostar da companhia do Scorpius! É por isso que eu faço drama e não quero sair do quarto e ter que encarar essa realidade terrível que eu me deixei envolver! – A única coisa que pôde interromper a gritaria no quarto foi um barulho inesperado na janela que Rose ficava visitando. Charlotte olhou e viu uma coruja-de-crista na janela. Já vi essa coruja em algum lugar... Sim, é ela! No pé da coruja, uma pequena cartinha amarrada. Charlotte foi em direção à janela, abriu e viu que era um recado de Fred. Rose se aproximou e tirou um bolo de pequenas cartinhas do bolso do uniforme.

– Eu ia te entregar depois, mas imaginei que agora ele era a última pessoa de quem você queria receber recados. Desculpa...

Emocionada com o acontecimento e com a consideração da garota que tanto odiava, Charlotte se deixou entregar aos sentimentos que a tomaram no momento e abraçou Rose com bastante força. Tudo de ruim que pensava sobre a garota, todo o mal que queria lhe fazer, todo o rancor pelo sentimento de Scorpius, tudo acabou naquele momento.

– Posso te chamar de Charlotte agora? – Rose fez a piadinha rindo, tentando descontrair o momento.

– Não.