Up To No Good

20 Estranho


Notas iniciais
Boa leitura!

Se olhando no espelho, Charlotte parou um segundo pra pensar em tudo que estava acontecendo. Ah, então eu estou preste a encontrar um garoto que eu costumava odiar, cujo sobrenome é amaldiçoado pelo meu pai todos os dias, que tem irmãos e primos que me odeiam e que eu odeio também e que me beijou e provavelmente quer beijar de novo. Esqueci de alguma coisa? Ah é, ainda tem o Scorpius. A menina se sentia culpada por estar indo ver Fred, mas mesmo assim continuava se preparando para sair. Dessa vez não estaria com o cabelo desgrenhado e usando o uniforme da escola. Dessa vez ela estaria usando uma roupa bonita, o cabelo arrumado, um perfume doce e a mente aberta. Não iria com quatro pedras na mão pronta para arremessá-las no rapaz em uma aproximação, ela estaria disposta a ouvir o que ele tem a dizer.

Quando chegou no telhado do castelo, Charlotte se surpreendeu ao notar que o rapaz tinha feito o mesmo que ela. A barba rala tinha sido feita, o cabelo estava penteado e um perfume masculino forte os rondava. Ele usava uma camisa social branca meio aberta e calça preta. Quando viu a menina, ficou olhando fixamente por um bom tempo até entender que ela também tinha se arrumado pra ele. Charlotte usava um vestido preto meio justo que deixava os ombros a mostra, apropriado para a chegada da primavera. No cabelo, um laço preto que dava uma impressão de menina fofa – algo que ela odiava, mas ás vezes não conseguia evitar.

– Nossa, você está linda. – Fred realmente parecia impressionado. – Eu devia ter me arrumado mais. – Charlotte não soube o que responder. Era muito incomum alguém elogiá-la daquela maneira. Pelo menos alguém tendo as intenções que Fred tinha com ela. Olhou pra baixo um pouco sem graça e deu um risinho tímido, se sentindo insegura. Era a sensação natural ao lado de Fred. Ela odiava e adorava ao mesmo tempo, queria sair dali e também queria ficar. Naquele momento, escolheu ficar.

– Você também se arrumou bastante. – Fred sorriu diante do elogio da menina. Ele parecia inseguro também, pela primeira vez deixou sua guarda baixar diante de Charlotte. Talvez isso significasse que ele tinha sentimentos reais por ela... Certo? – Pena que não vamos a lugar nenhum.

– Não preciso ir a lugar nenhum... Só estar com você já é o máximo. – Fred foi se aproximando lentamente. Charlotte queria que ele se aproximasse, mas mesmo assim hesitou antes de deixar o rapaz segurar sua mão. Sem que ela notasse, os dois já estavam cara a cara, praticamente abraçados, dançando sozinhos no telhado sem nenhuma música. Fred sorria, segurando firme na cintura de Charlotte, passando segurança pra garota. Em seus braços ela sentia uma sensação indescritível. Algo novo e maravilhoso para a garota. Algo que ela não queria perder jamais. – Há algumas semanas, isso parecia impossível. Como as coisas mudam, né?

– Sim, mudam. Mudaram pra nós dois.

Fred olhou fundo nos olhos de Charlotte surpreso pela resposta dela. Em seus olhos ele parecia feliz com a frase dela, era como se ela tivesse aberto um novo mundo de possibilidades pra Fred. E nesse mundo, os dois poderiam ter alguma coisa, algum dia. Algo que não seria destruído por causa de uma bobagem como o sobrenome ou o cargo político de seus pais. Ainda olhando em seus olhos, aproximou seu rosto do dela lentamente. Os narizes se tocaram lentamente. A respiração de Fred ficou tensa e Charlotte o acompanhou. Eles estavam tão próximos que pareciam ser um só. Charlotte fechou os olhos por um segundo, mas abriu de novo ao perceber que Fred tinha afastado o rosto.

– Eu já ia fazer de novo... – Charlotte notou que o rapaz estava sem graça, receoso. Tinha medo de tocar nela por causa dos acontecimentos anteriores. Mas Charlotte não compartilhava desse medo. Teve medo de dar um passo em falso durante toda a sua vida, teve medo de seu pai, teve medo de nunca estar com Scorpius. Cansou de ter medo, era hora de ter certeza. E no momento só tinha certeza de uma coisa: queria Fred. Queria beijar Fred, queria estar ao lado de Fred. Já não tinha mais tanta certeza do que sentia por Scorpius como tinha agora com Fred. Pela primeira vez teve certeza de algo ao lado do ruivo, certeza de que queria ficar ali com ele, pra sempre. E correria atrás disso, custe o que custar. Segurou seu rosto com firmeza, sabendo que estava fazendo o que bem queria pela primeira vez na vida. Olhou no fundo de seus olhos verdes que agora tinham tanta certeza quando os dela e beijou Fred com todo sentimento que vinha guardando já há tanto tempo. Os dois ficaram juntos ali por um bom tempo, abraçando-se, fazendo carinho um no outro, cativando um ao outro cada vez mais. De repente percebeu uma coisa. Sentiu que em seu bolso ainda tinha um pequeno recipiente com uma poção do amor dentro. Apesar de toda a sua certeza, ainda precisava resolver uma coisa. Pediu licença a Fred que relutou em soltá-la, com medo de que ela fugisse como da última vez. Ela riu e saiu andando. Pegou o frasco em seu casaco e se preparou pra jogá-lo do telhado, quando tomou um susto. Aquele não era seu cantil, era o cantil de Rose. Então, o seu onde tinha colocado a poção do amor estava com... Ai, droga! Quando percebeu o que tinha feito saiu correndo, pegou sua vassoura e levantou voo, deixando Fred confuso sozinho no telhado. Lembrou que ele podia estar pensando mil coisas diferentes e voltou, ficando a alguns centímetros dele, ainda planando.

– Eu volto. Prometo! – E partiu desesperada tentando concertar seu pequeno erro.

No grande salão, Rose estava sentada junto de seus primos e primas, pessoas que não gostam de Charlotte. Além deles, um monte de grifanos que, óbvio, não gostam de Charlotte. Todos arregalaram os olhos quando a viram parar ao lado de Rose. Tsc tsc.. Imagina quando souberem da minha relação com Fred. James foi o primeiro a se levantar, ainda zangado a culpando pelos problemas de sua família no ministério. Ignorando, Charlotte apenas se dirigiu a Rose.

– Errr... Rose, eu preciso de água. – Todos na mesa se entreolharam. Rose parecia confusa. Inteligência da mãe uma ova. – Agora!

Ouviu algum idiota gritar algo do tipo “Então vai buscar lá na cozinha!” e todos ao seu redor rirem. Rose continua tentando entender.

– Preciso de água.

– Benningham, eu não estou...

– Preciso de água do seu cantil, agora! – Os olhos de Rose se arregalaram. Ela percebeu que havia algo errado. Ainda sem entender muito bem apenas acenou com a cabeça e entregou o cantil a Charlotte, com um olhar que praticamente dizia “Vai ter que me explicar isso mais tarde”. A morena tinha medo de explicar, mas tentaria. Talvez Rose entendesse, afinal nem todo mundo é tão cabeça dura quanto ela.

Com o cantil na mão e os olhares de todos em cima de si, Charlotte saiu andando do grande salão, certa de que havia tomado a atitude mais correta. Estava pronta pra voltar pros braços de Fred no telhado do castelo quando de repente Scorpius parou na sua frente. Não teve reação. O menino veio com um grande sorriso no rosto. Logo Charlotte reconheceu o sorriso, era o sorriso que piscava em cores fluorescentes toda vez que ele via Rose.

– Oi, Charlotte! Você estava com a Rose? – Charlotte sorriu fraco. Não, o que eu menos preciso agora é uma conversa com Scorpius. Agora não! – Falou alguma coisa de mim?

– Errr... Na verdade eu estou tentando ficar amiga dela antes de tocar nesse assunto. – Charlotte tentou enrolar Scorpius, mas sentiu que o menino precisava de uma resposta concreta. – Mas vou te ajudar, prometo.

– Bem, vocês já devem estar bem amiguinhas... Afinal vocês só têm andando coladas. E passaram os últimos dias juntas no dormitório falando sobre sei-lá-o-quê... – Charlotte não pôde deixar de pensar no quanto aquilo era bonitinho. Scorpius estava com ciúme. Com pena, imaginou que Fred não se importaria de esperar mais alguns minutinhos. Sentou na mesa com Scorpius pra deixar que o menino falasse tudo que queria sobre Rose. Assim como Charlotte precisou de Rose pra abrir o coração sobre Fred, Scorpius precisava dela. E a menina não poderia deixa-lo na mão agora, não depois de tantos anos de amizade leal.

Sentaram e Scorpius só falou. Falou por vários minutos. Realmente abriu o coração sobre tudo o que estava acontecendo com ele e isso fez Charlotte se sentir importante na vida do amigo. Sorriu e fez sinal com a cabeça pra que ele continuasse falando. Ele falou tanto que começou a ficar com a boca seca. Com a garganta já arranhando ele finalmente fez uma pausa pra pegar o cantil que estava na mesa e tomar um gole daquele líquido transparente de gosto curioso. Ah não, droga! Sete segundos foram o suficiente pra que a poção do amor fizesse efeito em Scorpius e ele começasse a ver Charlotte de maneira diferente. Arregalou os olhos e abriu um sorriso bobo. As pessoas em volta começaram a perceber que ele ia se aproximando devagar e falando mais pausadamente, tentando conquista-la de alguma maneira meio desajeitada. Um mês antes, Charlotte teria se derretido por aquele momento, mas agora tinha certeza do que queria, e não era Scorpius. Percebeu que com o forte efeito da poção, logo ele faria algo mais ousado e saiu correndo. Não pode ser na frente de todos. Não pode ser na frente de Rose! Scorpius veio seguindo a menina ainda sorrindo como um idiota loucamente apaixonado. Ele a alcançou no meio do corredor vazio e a agarrou. Sem sentimento, sem emoção. Simplesmente beijou Charlotte. Durou dois segundos que, para a garota, foram uma eternidade. Se sentiu estranha nos braços de Scorpius, como se beijasse seu irmão. Com Fred, sentiu que algo estava errado e certo ao mesmo tempo. Com Scorpius, só sentiu o errado. Quando a soltou, Scorpius voltou ao normal aterrorizado com o que tinha feito e pediu mil desculpas a Charlotte, que apenas riu e não quis entrar em detalhes sobre o fato de aquele não ter sido seu primeiro beijo. O efeito já tinha passado. Parece que eu não sou muito boa em poções, afinal.

Mais tarde naquele mesmo dia, sentados no telhado, Charlotte, Rose e Fred riam do acontecido. Rose, ainda envergonhada de saber que Scorpius gostava dela, fingiu não estar impressionada com o assunto e tratou de celebrar o momento de Charlotte e Fred que aconteceu bem na sua frente quando o rapaz se ajoelhou na frente da morena e segurou sua mão.

– Charlotte, você quer namorar comigo?

Oh céus. O que tenho na cabeça? Vamos Charlotte, diga que não, diga que não, diga que não...

– Sim. Claro que sim!