Unwritten
11 Capítulo Extra 03
Notas iniciais
Edward POV.
Eu engoli em seco enquanto fitava a minha ex-cunhada, sem saber direito o que eu deveria fazer. Por fim, assenti e dei um passo para o lado, permitindo, assim, que ela entrasse.
Leah não esperou um segundo convite e entrou, indo direto até o sofá. Eu a segui, após um segundo ou dois, e esperei que ela se sentasse, ainda sem saber o que dizer.
Mas ela não se sentou. E também não me atacou, como imaginei que faria.
– Bella alguma vez te contou o que aconteceu na nossa casa no feriado de Ação de Graças? — A pergunta me pegou de surpresa, já que eu não imaginava que ela falaria aquilo, então eu fiquei a fitando, quase como se estivesse esperando que ela me atacasse. — Pela sua cara, eu acho que não.
Continuei calado por um momento, antes de finalmente balançar a cabeça, finalmente entendendo a sua pergunta.
– Não realmente — murmurei. — Quero dizer, eu...
– E imagino que algo tenha acontecido na sua casa também — cortou-me. Quando eu apenas assenti, não querendo falar sobre aquilo, ela suspirou. — Você e Bella são tão imaturos! Como vocês esperam ser pai e mãe se são incapazes de conversar?
Eu engoli em seco.
– Eu só não queria que ela ficasse preocupada — murmurei. — Eu só não queria que ela tivesse que se preocupar com os meus problemas. Porque eu imaginei que Charlie e Renee iriam ficar com ra-
– Com raiva? — Ela tornou a me interromper. — Eles a expulsaram, Edward! Charlie queria que ela fizesse um aborto!
Eu congelei, sentindo meu coração disparar de uma maneira que eu sabia que não era normal.
– Aborto? — sussurrei.
Ela assentiu.
– Ele queria que ela escolhesse entre eles ou o bebê, disseram coisas horríveis — disse. — Quando ela escolheu o bebê, quando ela disse que não abortaria...
– Eles a expulsaram — eu murmurei, largando-me de qualquer jeito no sofá.
Bella deveria estar tão assustada, tão... sozinha.
– Foi pior do que isso — continuou. — Eu pensei que eles mudariam de ideia, mas não mudaram. Charlie parou de pagar a faculdade de Bella e ela teve que pedir uma bolsa... Ele cortou seu seguro de saúde e qualquer outra ajuda que dava a ela. E nunca mais ligou, nunca apareceu.
Eu senti as lágrimas tomando conta de meus olhos quando pensei em como ela deve ter se sentido, como deve ter sido para ela. Porque, claro, meus pais disseram coisas horríveis e me perseguiam sempre, com medo de eu fracassar na faculdade, mas ele nunca... Oh, Deus.
O que eu tinha feito?
– Eles não mudaram de ideia? — eu indaguei. — Mesmo agora?
Ela negou.
– Renee veio aqui um dia, quando Bella ainda estava no começo da gravidez — murmurou. — Eu tinha esperanças de que ela mudaria de ideia, porque ela não tinha dito nada no feriado, e, afinal, ela é mãe, como ela poderia não ficar ao lado de Bella? Mas ela só apareceu para atacar a minha irmã e dizer que Charlie estava certo, que sabia o que estava fazendo...
Sozinha. Bella esteve tão sozinha...
– Por que ela nunca disse nada? — A minha voz não passava de um sussurro. — Eu teria...
Leah ergueu as sobrancelhas, enquanto cruzava os braços.
– Por que você não contou também? — perguntou. — Vocês deveriam ter conversado naquele mesmo domingo. Nunca deveriam ter escondido por tanto tempo....
Envergonhado demais para dizer algo, eu apenas assenti.
– E você, Edward... como pôde abandoná-la do jeito que fez? — Eu me encolhi ainda mais ao ouvir aquilo. — Não estou dizendo que Bella não teve seus erros, mas... abandonar a namorada grávida para ir à festas? Deixá-la sozinha no Natal?
Novamente, eu não consegui dizer nada, porque eu sabia que ela estava certa. Sabia que merecia ouvir o que ela estava dizendo.
– Ela mentiu para você quando disse que não queria viajar no Natal, sabia? — Embora fosse uma pergunta, Leah não esperou a minha resposta antes de prosseguir: — Ela não tinha para onde ir no Natal, porque nossos pais não a queriam lá.
Eu fechei os olhos, lembrando-me da expressão de Bella no Natal... Eu a tinha deixado sozinha, eu tinha...
Oh, Deus, ela nunca me perdoaria.
– Eu vou fazer 21 anos em breve — murmurei, alto o suficiente para que ela me ouvisse. — E vou ter acesso ao meu fundo de garantia. Sei que nada pode consertar as merdas que eu fiz, mas não vou abandonar nenhuma das duas. Vou me certificar de que Bella e a minha filha nunca passem falta de nada.
Leah assentiu e me deu um pequeno sorriso, mas não parecia um sorriso satisfeito... ou feliz.
– Isso é bom, Edward, é um começo– disse. — Mas é tudo isso que você vai querer ser? Um cheque todo mês e nada mais?
Eu abri a boca para responder que era o melhor, que meus pais estavam certos, que eu iria destruir a vida da minha filha, mas não consegui.
E eu não tinha ideia do porquê, afinal, eu vinha me dizendo a mesma coisa há meses.
– Foi o que pensei... — Leah tornou a sorrir. — Sabe, Edward, apesar de tudo o que aconteceu, eu sei que a minha irmã te ama...
Eu arregalei os olhos, sem conseguir acreditar que Bella ainda podia me amar. Leah riu.
– Mas eu sei que, eventualmente, talvez ela consiga te superar — prosseguiu. — Consegue imaginar isso, Edward? Consegue adiantar dez anos da sua vida e ver onde você vai estar?
Eu franzi a testa, sem conseguir entender o que ela queria dizer.
– E se Bella se apaixonar por outro cara? — ela perguntou, fazendo-me arregalar os olhos novamente. — Consegue imaginar isso? Outro cara criando a sua filha, outro cara cuidando de Bella… Porque, sim, você vai poder garantir que a bebê tenha um ótimo futuro, que ela não passe falta de nada… mas quem você acha que ela vai considerar como pai? Um cara que só manda dinheiro e que nem vai vê-la, ou um que vai estar ao lado dela todos os dias, dando amor, carinho e atenção?
Eu fechei os olhos e apoiei a cabeça nas mãos, não querendo pensar, de maneira alguma, na cena que Leah acabara de descrever. Mas já era tarde demais. Eu podia ver — quase como se a cena estivesse acontecendo naquele momento, bem ali na minha frente -, um homem girando a minha filha nos braços, enquanto Bella, ao seu lado, ria, a mão direita acariciando a barriga, cheia do filho deles.
Não. Era demais. Eu não podia suportar.
– Não — eu disse. — E-eu não quero isso, Leah, mas eu… eu vou ferrar com tudo. Eu nunca…
– Mas é o que vai acontecer — deu de ombros. — Posso até estar errada, mas pense… Você sinceramente acha que Bella vai esperar que você crie coragem de ser pai e resolva seus problemas?
Eu engoli em seco, não querendo responder. Eu sabia que não. Ela era linda, cheia de vida… ela logo encontraria um cara digno dela… E a minha filha…
– Eu vejo que você as ama, Edward. — Sua voz estava mais suave agora. — Eu só não entendo porquê você sente esse medo todo…
Eu suspirei.
– Eu tenho, sim, problemas que tenho que resolver — eu disse, por fim, embora ainda não tivesse certeza. — Mas não posso resolvê-los completamente agora, Leah. Eu sei que a médica disse que o bebê vai nascer só em julho, mas… e se acontecer alguma coisa? Eu quero estar presente no nascimento dela e eu…
Ela sorriu.
– Eu entendo. — Então, ela pegou a bolsa, que eu nem tinha a visto colocar no sofá, e começou a andar em direção à porta. — Só não demore muito, ok?
Durante alguns segundos, pensei em permanecer no sofá mesmo e não acompanhá-la até a porta. Por fim, porém, uma pergunta surgiu à mente. Algo que eu sabia que não iria conseguir ignorar.
Por isso, segui-a e a peguei quase fechando a porta.
– Leah? — Eu chamei. Ela parou e me olhou. — Eu entendo por que você está aqui, mas… por que me dar esses conselhos? Por que simplesmente não me xingar, como eu sabia que você queria?
Ela riu.
– Porque eu sei que você ama a minha irmã, Edward, e a sua filha também — respondeu. Havia algo ali, escondido em seus olhos, como se ela não quisesse que eu soubesse de toda a verdade. — E eu me importo com você. Não quero que se arrependa no futuro das decisões que está tomando agora.
Ela não esperou que eu respondesse e saiu, fechando a porta atrás de si. Eu apenas fiquei ali, parado durante um momento ou dois, sem saber o que pensar.
Ela estava certa. Eu sabia que ela estava certa. E sabia que ela tinha me feito pensar no futuro de uma forma diferente… sabia que eu nunca me perdoaria caso me tornasse meus pais e só desse dinheiro à minha filha, ao invés de amor.
Mas como eu faria isso? Como eu poderia ser um pai presente sendo que eu nunca tive isso? Meus pais sempre tinham se preocupado com trabalho acima de tudo, com dinheiro, com status… E eu teria sido criado por empregadas que provavelmente não estariam nem aí para mim se não fosse por Kaure...
Kaure! Eu parei de repente, um sorriso nascendo em meu rosto, porque eu tinha tido, sim, um pouco de exemplo. Eu poderia não poder contar com a minha mãe ou meu pai para me aconselhar em um momento como esse, mas eu podia tentar Kaure, certo?
Eu havia ligado para ela há alguns meses, para contar que teríamos uma menina, e ela gritou e comemorou como se a bebê fosse ser a sua neta, mas nunca tive coragem para contar tudo o que eu havia feito.
Eu sabia que ela me xingaria. Sabia que ela ficaria decepcionada.
E eu não queria isso.
Porém, eu não podia adiar mais. Leah estava certa — Bella não esperaria por mim para sempre. Estava na hora de enfrentar os meus medos… ou desistir de uma vez por todas.
E como a segunda escolha não era uma opção… Eu tinha que ao menos começar a resolver os meus problemas.
Eu rapidamente peguei o meu celular e mandei uma mensagem para ela, pedindo que entrasse no skype. Eu tinha demorado um pouco para ensinar para ela como usá-lo, mas tinha conseguido.
Depois que ela me respondeu, dizendo que estaria lá dentro de alguns minutos, eu peguei o meu notebook e o liguei, meus dedos batendo contra a mesa, à medida que a ansiedade crescia em mim. Finalmente, alguns minutos depois, eu estava diante dela.
– Menino Edward! — ela sorriu. — Como está tudo por aí? Bella e o bebê estão bem?
Eu senti os meus olhos se encherem de lágrimas, mas não disse nada durante alguns segundos. Por fim, suspirei, e, embora estivesse com medo de Kaure me odiar, eu contei tudo o que tinha acontecido desde que ela e eu tínhamos voltado do feriado de Ação de Graças.
Ela me ouviu em silêncio, seu rosto não expressando nada. Quando eu terminei, contando sobre a visita de Leah e tudo o que ela havia me dito, ela suspirou.
– Oh, querido… — murmurou. — Eu gostaria que você tivesse conversado comigo mais cedo…
– Eu estraguei tudo, não estraguei? — eu perguntei, desesperado. — Eu vou mesmo ser um péssimo pai…
Ela revirou os olhos.
– Concordo que você fez muita besteira, mas ainda há tempo, menino– respondeu. — Você está assustado, Edward, é normal. O modo que você lidou com esse medo não é, mas… chegaremos lá.
Eu dei de ombros.
– Não muda nada — soltei uma risada amarga. — Eu realmente acho que meus pais estão certos, Kaure. Realmente acho que vou ser um fracasso de pai… Na verdade, eu acho que já sou.
Ela tornou a suspirar.
– Você me desculpe por falar isso, Edward, mas seus pais não são os maiores exemplos do mundo– disse. — E você não vai ser um fracasso, criança. Eu, honestamente, acho que vai ser um pai excelente.
Eu queria acreditar muito no que ela estava dizendo, mas não tinha tanta certeza assim que ela estava certa...
– Como? — Eu sabia que minha voz estava trêmula, mas não me importei com isso. Eu nunca tinha tido vergonha de chorar em frente a Kaure. — Como eu posso ser um bom pai se eu nunca tive um presente, Kaure? Eu vou acabar sendo igual aos meus pais e…
Ela sorriu para mim de forma gentil e ergueu a mão, quase como se quisesse me tocar. Ela parou, no entanto, quando se lembrou que estava usando um computador. Isso me fez sorrir um pouco.
– Você vai saber, menino Edward. — Ela tinha um sorriso tão grande e parecia tão certa daquilo… — E sabe como eu sei?
Eu neguei, incapaz de fazer ou dizer qualquer outra coisa.
– Porque você sabe o que não deve fazer.
Eu franzi a testa, confuso.
– Como assim? — indaguei.
Ela riu.
– Você sabe que não deve dar total importância ao dinheiro– começou. — Sabe que tem que estar presente, não só com um cheque… Sabe a importância de um aniversário, de um Natal. Sabe, mais do que tudo, que um presente não cobre a falta de um abraço ou de um beijo…
Eu deixei que mais algumas lágrimas escapassem, lembrando dos meus aniversários quando eu era criança. Eu sempre tive festas, sempre tive presentes, sempre tive tudo do bom e do melhor. Mas eu não tinha fotos para lembrar desses momentos com os meus pais, porque eles nunca estavam lá…
– Viu? — Ela sorriu novamente. — Você sabe como isso faz falta, sabe como dói… E eu sei que você não vai querer que a sua filha passe por isso, certo?
Eu balancei a cabeça de forma negativa.
– E se ela me odiar? — sussurrei. — O que eu vou fazer se ela me odiar?
Kaure tornou a rir.
– Oh, eu tenho certeza de que todo adolescente, em algum momento da vida, disse que já odiou os pais– encolheu os ombros. — Mas como ela poderia te odiar de verdade, Edward? Seja o pai dela, menino. Esteja com ela, sempre, e ela nunca vai odiar você. Como poderia?
Eu sorri um pouco.
– Ah, eu tenho certeza de que ela vai ser a sua princesa. — Os olhos da mulher que tinha sido mais do que uma babá para mim brilhavam. — E eu tenho certeza de que você vai ser o herói dela. Todas as menininhas pensam isso.
Meu sorriso cresceu ainda mais.
– Eu posso fazer isso? — eu indaguei. — Eu posso mesmo fazer isso?
Ela riu.
– Você pode fazer tudo o que você quiser, Edward– respondeu. — Basta você querer.
Eu assenti, ainda sorrindo. Eu podia, pensei. Eu podia fazer o que ela tinha falado.
Porque ela estava certa. Eu não havia tido bons exemplos dos meus pais, mas pelo menos eu sabia que não deveria agir como eles.
Meu sorriso morreu, porém, quando eu me lembrei de outra coisa… A empresa e as diversas filiais que meu pai esperava que eu assumisse, um dia. Como eu cuidaria de tudo isso e teria tempo para a minha filha e para Bella?
– O que foi, criança? — Kaure perguntou. — Algum problema?
Eu suspirei.
– Eu não quero ser um engenheiro — murmurei. — Eu não quero viajar o mundo cuidando de empresas… Não quero isso para mim, Kaure. Não quero fazer com que a minha filha passe por isso.
Eu esperei que ela ficasse chocada, esperei que ela dissesse que eu sempre quis aquilo, que, novamente, eu só estava com medo. Mas não esperei que ela sorrisse, como se dissesse “finalmente!”.
– O quê? — eu indaguei, desconfiado.
Ela riu.
– Me surpreende que você tenha demorado tanto para descobrir isso– revirou os olhos. — Eu pensei que você se formaria e, depois, se arrependeria, mas… é bom que seja agora. Agora você pode desistir e fazer a coisa certa.
Eu franzi a testa.
– A coisa certa? — disse. — Eu nem sei o que eu quero fazer, Kaure…
Ela tornou a rir.
– Ai, menino, mas é claro que você sabe… — revirou os olhos. — Algo que você sempre fez, que sempre foi bom, mas que sempre escondeu de todos, inclusive de Bella… Eu só sei porque você faz isso desde pequeno, claro, mas…
Ela deu de ombros e parou de falar, como se estivesse esperando que eu dissesse algo.
– Você quer dizer… desenhar? — Eu sorri. — É verdade. Tem muito tempo que eu não faço isso. Eu lembro de ter ficado na dúvida no ensino médio, que eu cheguei até a me inscrever em uma faculdade aqui em Seattle para design gráfico…
Ela assentiu.
– Mas eu nem sei se fui aceito — continuei. — Carlisle descobriu antes e rasgou a carta ainda fechada… Naquela época eu não podia ir contra ele… Eu não tinha como pedir uma bolsa integral àquela altura e não tinha como me sustentar…
Ela continuou sorrindo.
– Naquela época, claro– lembrou-me. — Mas e agora? Você já tem quase 21 anos e, depois disso, seus pais não podem mais tocar em um centavo do seu fundo de garantia.
Eu sorri.
Eu sequer me lembrava disso.
Minhas mãos tremiam em meu colo, quase como se a felicidade fosse demais e eu não conseguisse contê-la. Eu só teria que esperar alguns dias. Faltavam alguns dias para o meu aniversário, mas logo eu não dependeria dos meus pais mais. Então eu podia ir até a faculdade que eu tinha me inscrito e descobrir se eu tinha sido aceito e, caso tivesse, se havia alguma possibilidade de eu começar a estudar lá o quanto antes.
– Eles vão me odiar. — Lembrei, de repente. — Eu tenho certeza disso.
Ela suspirou.
– Provavelmente– respondeu. — Mas, bem… Você não pode viver em função do que os seus pais querem para sempre, menino Edward. Você vai ser pai em menos de um mês. Acho que você já é maduro o suficiente para escolher o que quer fazer.
Horas mais tarde, já deitado na cama que eu compartilhava com Bella, eu ainda não conseguia parar de pensar em tudo o que havia acontecido naquele dia. Eu tinha acordado desanimado, como sempre, disposto a só continuar a estudar, a só ser o que os meus pais queriam… A só suportar a minha filha financeiramente…
E agora…
Agora havia algo diferente, algo tão bom… Eu sabia que Bella não confiaria em mim com facilidade, sabia que havia, ainda, muito o que fazer, sabia que ainda faltavam alguns dias até o meu aniversário, mas… pela primeira vez em meses eu tinha uma ideia de como seria o meu futuro.
E eu estava completamente feliz nele.
Sabia que Carlisle e Esme seriam difíceis, mas Kaure estava certa. Eu não queria me arrepender daqui a alguns anos, eu não queria olhar para trás e começado a me perguntar o que teria sido diferente caso eu tivesse desistido de engenharia. Não que o curso fosse ruim, mas… não era algo que eu queria.
Nunca tinha sido.
Eles podiam em odiar e fazer o que eles quisessem, mas… Bella tinha ido contra as ideias dos pais pela nossa filha. Eu podia fazer isso também.
Sorrindo, eu me levantei da cama e caminhei até o quarto ao lado, um quarto que sempre ficava fechado. Ele estaria completamente vazio, se não fosse pelas caixas que eu tinha trazido de Forks, que quase nunca havia mexido. Eu havia dito a Bella para transformá-lo no que ela quisesse, mas ela nunca tinha falado nada…
Talvez fosse hora de transformá-lo em algo.
No quarto de uma menininha.
Eu acendi a luz e abri a janela, para entrar um pouco de ar. Depois me sentei no chão e comecei a abrir caixa por caixa, separando aquilo que manteria e deixando de lado as que eu jogaria fora. Eu sorri quando cheguei à caixa que continha meus desenhos. Fazia quase dois anos desde que eu desenhara pela última vez, mas a sensação boa voltou assim que peguei em meus cadernos, nos lápis e em tudo o que eu usava. Eu sorri quando vi um desenho que eu havia feito do rosto de Bella, mas que eu nunca havia mostrado para ela.
Talvez um dia eu pudesse ter essa oportunidade.
Depois que eu esvaziei tudo ali, eu voltei para o meu computador, mas, dessa vez, para pesquisar sobre quartos infantis. Talvez um dia Bella voltasse a morar ali comigo. Mas mesmo se ela não me perdoasse e não me quisesse mais, a minha filha sempre teria um quarto dela na minha casa, sendo ela um bebê ou uma adulta.
Eu rapidamente descartei os quartos muito rosas que apareceram. Não queria pintá-lo de rosa só porque ela era uma menina. Salvei alguns que tinham um tom amarelo bem claro, assim como outros que tinham uma cor verde que não parecia tanto com um menino… Mas foi quando eu cheguei aos temas de quarto que eu me apaixonei. Havia vários. Princesas, animais, jardins e céu. O que mais me encantou, no entanto, foi um do Pooh que surgiu na tela.
Ele não era tão simples, mas também não havia nada de extravagante. Uma parede tinha um tom meio alaranjado, que era não muito forte. Todas as outras três eram brancas com alguns detalhes da turma do Pooh. Eram apenas desenhos, não muito grandes.
Algo que eu sabia que podia fazer.
Os móveis eram brancos, com alguns detalhes em verde e laranja. Havia toalhas, lençóis para o pequeno colchão, cobertas e tudo o mais. Rapidamente, eu anotei o nome da loja que tinha visto e consegui achar uma aqui, em Seattle, que possuía os móveis desse tema.
Depois disso, comecei a desenhar o que eu pintaria mais tarde no quarto. O lápis deslizou pelo papel como se eu nunca tivesse parado de desenhar, o que me fez sorrir.
Quando terminei tudo já era bem tarde, mas não me importei com isso.
Só mais alguns dias, pensei. Dentro de alguns dias eu iria completar 21 anos e poderia fazer tudo o que eu ansiava. O primeiro passo era me transferir de faculdade e, assim que eu tivesse feito isso, eu me dedicaria completamente ao quarto da minha pequena garotinha.
– Espere por mim, Bella — eu murmurei, já na escuridão do meu quarto. — Por favor, espere por mim.
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Os dias passaram mais rápido do que eu esperava — o que eu agradeci — e logo eu estava saindo da faculdade depois de fazer a última prova. Eu soltei um suspiro de alívio quando cheguei ao apartamento, porque, caso tudo desse certo, aquela tinha sido minha última prova como aluno de engenharia.
Em breve, eu faria algo que eu realmente gostava.
Quando o meu aniversário chegou, eu mal podia conter a minha felicidade. Não haveria festas e eu nem sairia para comemorar. Mas eu recebi a visita de quem mais importava: Bella.
Nós sempre havíamos trocado presentes, mas aquele teve um gosto especial. Ela chegou dizendo que era simples, parecendo tímida, mas assim que eu o abri, eu sorri. Havia um porta retrato bem bonito, com as bordas douradas e o restante branco. E nele havia uma foto da nossa filha, em 3D. Podia ser simples, claro, mas ela tinha acertado.
Como sempre.
– Obrigado pelo presente, Bella. — Eu não consegui me conter e a abracei, beijando a sua bochecha de forma demorada. Só mais um pouco, amor. Espere por mim só mais um pouco. — Eu amei.
Ela não ficou muito, o que eu não esperava que ela fizesse. Mas eu fiquei feliz por ela ter aparecido, pelo menos. Significava que ela ainda se importava comigo, que eu ainda tinha uma chance.
No dia seguinte, recebi uma ligação de Leah, falando sobre o chá de bebê. Até alguns dias atrás,e u teria negado. Mas eu fui.
E foi bem mais divertido do que eu esperava.
Bella e eu ainda não tínhamos conversado sobre nomes, então tivemos que responder que “ainda estávamos decidindo” muitas vezes para os convidados. Ganhamos muitas coisas para a nossa filha, incluindo pacotes e pacotes de fraldas.
Assustou-me um pouco, mas acho que qualquer pai — sendo novo ou mais velho — também se assustaria, então me conformei com isso.
Quando a segunda chegou, eu corri para a faculdade e conversei com o reitor. Foi uma longa conversa, mas eu saí dali satisfeito. Logo em seguida, fui até a que eu tinha me inscrito anteriormente e conversei com o reitor de lá.
– O senhor foi aprovado há dois anos, senhor Cullen. — Ele me informou. — Suas notas eram excelentes e o senhor foi bem nas suas atividades extras… Eu diria que, sim, há uma boa chance de conseguir uma vaga para começar as aulas no final de agosto. Vou precisar que faça algumas coisas antes, porém…
Eu tive que responder a um questionário e esperar um tempo — até que eles recebessem confirmações das cartas de aprovações que haviam enviado. Mas nos últimos dias de junho, recebi a notícia de que havia conseguido.
Eu começaria a fazer o que eu gostava em agosto.
Resolvido esse problema da faculdade — depois de ter trancado a matrícula na anterior -, eu passei a me dedicar somente ao quarto da minha filha. A data de nascimento dela era de 2 de julho, embora a médica tivesse dito que poderia adiantar ou atrasar. Então eu tinha menos de dois dias para terminar o quarto todo, inclusive de montar os móveis.
Foi mais difícil do que pensei, mas eu consegui terminar na manhã do dia dois, depois de mal ter dormido nesses dois dias. Eu soltei um suspiro de alívio quando terminei de pintar a última parede. Dentro de algumas horas eu poderia terminar de montar os móveis e, assim, tudo ficaria pronto.
Cansado demais para me limpar, embora eu estivesse todo sujo de tinta, eu me joguei na cama e apaguei quase que instantaneamente.
Somente para ser acordado pelo barulho da campainha quatro horas depois.
Ainda caindo de sono, eu me arrastei para a sala e abri a porta, sem nem ver quem era. Eu arregalei os olhos quando vi Bree ali, parecendo furiosa. Ela pareceu se acalmar, porém, quando percebeu o meu estado.
– O que aconteceu? — eu indaguei. — Aconteceu algo com Bella? Com a bebê?
Ela estreitou os olhos para mim.
– Por que você está todo sujo de tinta? — perguntou.
Eu esfreguei o rosto nas mãos, pouco me importando com a tinta naquele momento.
– Eu estava pintando o quarto ao lado do meu — respondi. — E Bella? E a bebê, elas estão bem?
Ela finalmente sorriu.
– Bella tentou te ligar, mas você não atendeu ao telefone — disse. — A bolsa dela estourou e as contrações começaram, mas a médica disse que deve demorar ainda, então…
Eu não escutei o que ela tinha para dizer. Corri para o banheiro e lavei o rosto mais ou menos, antes de escovar os dentes enquanto trocava de roupa. Fiquei pronto em menos de cinco minutos e, depois de pegar o meu celular, saí do apartamento, quase deixando-a para trás.
Ela me seguiu, ainda sorrindo.
– Vai demorar, não escutou o que eu disse? — revirou os olhos. — Mas vamos lá, eu te dou uma carona.
Eu senti um sorriso rompendo em meu rosto enquanto Bree dirigia até o hospital. O mesmo hospital que, meses atrás, eu visitei, porque Bella havia tido um sangramento. E agora aqui estava eu de novo. Estava ansioso, nervoso e com medo, do mesmo jeito que estava naquela noite. Dessa vez, porém, havia algo de diferente.
Podia ser dentro de algumas horas, ou podia demorar um dia.
Mas em breve, muito em breve, eu iria conhecer a minha filha.
E eu mal podia esperar por isso.
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