Unwritten
24 Capítulo Dezoito
Notas iniciais
Não consegui terminar de falar, porém, já que ela me calou com um beijo. Eu me levantei, ela ainda em meu colo, e a levei até o quarto, chutando a porta atrás de mim e jogando-a na cama de brincadeira. Ela riu e eu também.
E eu sabia que de uma forma ou outra, tudo ficaria bem. Eu sabia disso. Enquanto eu tivesse Bella e Lily, tudo ficaria bem.
—x-
Bella POV.
Eu pensei no que Seth e eu havíamos conversado, assim como no que Edward e eu havíamos conversado, pelos próximos dias, fitando meu celular a todo o momento, só esperando para ver a chamada de Charlie ou Renee, sabendo que, da próxima vez que eles ligassem, eu iria atender.
Embora eu não tivesse ideia do que iria dizer a eles ainda.
Mas eu sabia que Edward estava certo. Por Lily, a gente tinha que resolver isso logo. Não queria que ela crescesse e um dia perguntasse dos avós e eu tivesse que contar para ela que eles não a queriam… Mesmo sabendo que, talvez, precisássemos ter esse tipo de conversa um dia.
Meus pais pareceram dar uma trégua, no entanto, então eu pude me concentrar na faculdade. Lily continuou um pouco irritadinha, até seu outro dente nascer. Ela ficara uma gracinha com os dois dentinhos incisivos centrais inferiores, e toda vez que ela sorria, eu acabava sorrindo também. Ela parecia gostar de mostrar para a gente que ela tinha dois dentinhos.
Depois de os dois terem nascido, ela pareceu ficar mais calma, não mostrando, por enquanto, que nenhum outro iria nascer no momento. Ela estava crescendo, se tornando mais parecida com Edward a cada dia que passava. Kaure amava pegar as fotos de Edward de bebê da mesma época e comparar com Lily. Se não fosse pelas roupas e os lacinhos que ela usava constantemente, podíamos dizer que eram a mesma pessoa.
Edward adorava dizer que ela tinha meus olhos, porém, o que sempre me fazia rir. Nosso relacionamento só estava melhorando. Tínhamos nossas discussões, é claro, mas havíamos aprendido com nossos erros, como conversar era importante, e sempre tentávamos falar sobre como nos sentíamos quando discutíamos ou algo assim.
Ele conseguira o estágio na empresa que o havia entrevistado, o que diminuiu suas horas um pouco, mesmo que ele ficasse apenas quatro horas no estágio, de duas até às seis. Eu começara a procurar também e tinha feito algumas entrevistas, e sabia que logo seria chamada para alguma.
— Meus pais ligaram para mim hoje na hora do almoço. — Edward dissera um dia, ao chegar do estágio. Ele estava jogado no sofá, com Lily sentada em sua barriga, brincando com ele. — Queriam me parabenizar por ter conseguido o estágio… Eu sei que, no fundo, eles queriam que eu trabalhasse na empresa deles, mas prefiro conseguir as coisas do meu modo, sabe?
Eu assenti, sorrindo para ele. Sentei-me ao seu lado e de Lily no sofá, rindo ao vê-la tentar morder seu dedo. Ele fez uma careta para ela, o que a fez rir.
— Eles vão vir esse fim de semana — disse. — Disseram que reservaram um quarto de hotel aqui perto, porque querem passar uns dias perto da neta…
Eu vi Edward fechar o rosto por um momento e eu sabia muito bem o motivo. Ele tinha medo de que os pais logo voltassem para a loucura do trabalho e esquecessem dele de novo. Por mais que ele já fosse praticamente um adulto agora, eu ainda sabia que ele tinha esse medo. Um medo que o atormentara desde que ele era criança.
— Talvez seja uma oportunidade para você conversar com eles sobre isso — eu sugeri, passando os dedos pelos cabelos de Lily, tão iguais aos do pai nessa idade, que eu chegava até a ficar impressionada. — Vá jantar com os dois um dia, só você e eles, talvez leve Lily também… e converse.
Ele me fitou por um momento, antes de assentir.
— Eles disseram que gostariam de jantar comigo enquanto estiverem aqui, para comemorar o fato de eu ter conseguido um estágio — comentou. — Talvez seja uma boa ideia. E eu tenho certeza de que eles vão gostar de ver Lily…
Eu tornei a sorrir.
— Eu tenho certeza que sim — disse, apenas.
No dia seguinte, fiquei até um pouco mais tarde na faculdade, terminando um trabalho com Bree. Quando terminamos, resolvemos lanchar na rua. Ela me fez mostrar umas fotos de Lily e nós conversamos um pouco sobre nossos relacionamentos. Quando terminamos, eu me despedi, sabendo que tinha que dispensar Kaure — não que ela ligasse; por ela, Lily passava o dia todo em seu apartamento. Eu resolvi caminhar até em casa, já que não era muito longe, e estava quase chegando quando meu celular vibrou contra o meu bolso.
Pensando que era Edward ou até mesmo Kaure, peguei-o e o atendi, já colocando-o na orelha, meio distraída.
E era o meu pai.
— Bella. — Ele soou quase aliviado, quando eu atendi. — Oh, filha, eu sinto tanto…
Eu fiquei calada durante um tempo, parando de repente no meio da calçada, sentindo meu coração acelerar. Fazia tanto tempo que eu não escutava a voz do meu pai, que ele não me ligava… Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
E não tinha ideia do que dizer para ele.
— Bella? — ele tornou a falar, quando passei outro minuto calada. — Eu sei que é você aí… se você não quiser falar nada, tudo bem, eu só… eu só queria que você me ouvisse um pouco…
Fechei os olhos por um momento, sentindo as primeiras lágrimas caindo. Balancei a cabeça e recomecei a andar, sabendo que as pessoas que me olhavam na rua, deveriam estar se perguntando o que uma garota da minha idade estava fazendo chorando com o celular contra a orelha. Talvez estivessem pensando que eu estava terminando com o meu namorado ou alguma coisa assim…
— Eu passei a vida acreditando em uma coisa, filha— ele começou. — Sei que nada do que eu disser vai apagar o que eu e a sua mãe fizemos com você, mas… seu avô, ele me fez acreditar que eu estava fazendo a coisa certa quando Sue foi embora da cidade e eu acreditei que ela havia feito o aborto… Seu avô dissera, naquela época, que eu iria poder me concentrar na faculdade, tirar notas boas, conseguir uma carreira de sucesso. E que, mais tarde, eu poderia constituir uma família, que eu teria base para isso, que eu seria financeiramente independente…
Eu continuei calada. Tentei arrumar um lugar dentro de mim para perdoá-lo depois de escutar essa história, mas não consegui. Eu era uma pessoa ruim por isso?
Eu só… não importava o que ele dissesse, não importava o que Renee dissesse, eu nunca seria capaz de entender completamente. Eu nunca esqueceria aquele feriado, quando Charlie disse todas aquelas palavras para mim.
Você tem duas opções, eu me lembro de ele ter dito, você pode me deixar levá-la à clínica e nós resolveremos esse problema ou você pode decidir manter essa gravidez e cortaremos todas as relações.
Eu me lembro de como eu havia sentido. Da dor que eu havia sentido. Mas, acima de tudo, apesar de estar assustada, me lembrava do amor que eu já sentia pela Lily — mesmo não sabendo que era uma menina na época -, o que me fez optar por continuar com a gravidez.
E eu me lembrava das exatas palavras ditas por Charlie, quase como se ele estivesse, naquele momento, ao meu lado, dizendo-as para mim: quando eu digo cortar as relações, eu digo todas, Bella. Não vou mais pagar a sua faculdade, não vou mandar apoio financeiro nenhum. Não quero saber dessa gravidez, não quero saber de você. Nada de telefonemas, nada de visitas. E eu agradeceria se você pudesse ir embora ainda hoje.
E eu me lembrava de ele ter completado, que eu podia procurá-los caso resolvesse me livrar do meu bebê, da minha filha…
E Renee… Eu me lembrava de como ela tinha agido, o tempo todo calada, sem, em nenhum momento, tentar acalmar meu pai, dizer para ele que ele estava errado, em nenhum momento me defendendo, não ficando ao meu lado.
Eu não sabia o que havia doído mais, o que ainda doía: as palavras do meu pai ou o silêncio da minha mãe.
Como eles podiam ter feito isso comigo?
— E saber que tenho um filho, que Sue conseguiu, apesar de tudo… — Charlie parecia estar divagando agora. — E ouvir que suas notas na faculdade são ótimas, que você conseguiu uma bolsa por bom desempenho acadêmico… Isso tudo só prova o quão seu avô e eu estávamos errados… Serei tolo por afirmar que às vezes só aprendemos com nossos erros, filha?
Eu continuei sem dizer nada, não conseguindo achar um pedaço dentro de mim que conseguia sentir pena dele. E eu ainda não tinha nada para dizer. Continuei a andar e percebi que estava chegando em casa, então apressei os passos. Eu só queria tomar um longo banho agora e ficar um pouco sozinha.
Ele suspirou, por fim.
— Só pense, ok? — ele murmurou. — Pense em tudo o que disse e… pense se é possível você se encontrar conosco… Eu e a sua mãe realmente gostaríamos de conversar pessoalmente com você… Ela está tão arrependida, Bella. Eu me odeio ainda mais por ter feito ela ficar ao meu lado e não com você, como ela deveria ter feito.
Lembrei-me de Renee indo até o apartamento que eu dividia com Edward. Eu me lembrava de como havia pensado que era bom ela estar ali, que eu finalmente teria um dos meus pais ao meu lado… até ela sugerir que eu seguisse o que o meu pai havia dito… e tentasse novamente mais tarde. Lembrava-me de ter perguntado se ela teria coragem de fazer isso, de abortar um filho dela, e de como ela havia apenas dito que se ela fosse mais nova…
Deus, era demais. Mas eu sabia que Charlie não desligaria enquanto eu não dissesse algo, e naquele momento, eu realmente precisava desligar e ficar um pouco sozinha.
— Eu vou pensar — eu finalmente disse, parando em frente ao meu prédio. — Isso é tudo o que eu posso prometer.
Ele ficou calado durante alguns segundos.
— Isso é tudo o que eu peço, filha— ele murmurou, e eu finalizei a ligação, antes que ele dissesse alguma coisa.
Respirei fundo algumas vezes, sentindo minhas mãos tremendo quando as ergui e limpei as lágrimas do meu rosto. No elevador do prédio, peguei o protetor solar em forma de base e apliquei no rosto, não querendo que Kaure perguntasse o que tinha acontecido; eu ainda não estava pronta para falar com ninguém sobre esse assunto.
Puxei as chaves da minha mochila e entrei no apartamento. Espiei a cozinha quando não encontrei nem Kaure nem Lily ali. Então, escutei barulhos vindos do banheiro social e soltei um suspiro, me sentindo meio aliviada.
— Hey, Kaure, cheguei! — gritei, colocando as chaves na mesa. — Vou tomar um banho rápido e já me encontro com vocês, ok?
Ela gritou de volta um ‘tudo bem’ e eu segui para o meu quarto, fechando a porta atrás de mim. Soltei um suspiro pesado, fechando os olhos por um momento, tentando me acalmar completamente. Kaure provavelmente tinha estranhado eu não ter ido até o banheiro, porque eu sempre ia ver Lily, não importava se ela estava tomando banho ou comendo.
Mas eu só não queria que a minha filha me visse daquele jeito ainda. Precisava realmente de um longo banho agora.
Sabendo que Kaure cuidaria bem da minha filha, entrei no banheiro e me despedi, jogando as roupas sujas no cesto e abrindo o box. Liguei a água e esperei uns minutos até que ela esquentasse. E então, sem me importar em queimar a minha pele ou não, eu entrei debaixo do chuveiro e apoiei as mãos na parede, deixando as lágrimas caírem novamente.
Eu me sentia tão confusa quando se tratava de Charlie e Renee. Eu sentia falta deles, muita. Eles eram meus pais, afinal, e eles haviam feito muito por mim. Mas as palavras ditas, as ações tomadas por eles, desde aquele feriado de Ação de Graças… não era algo que eu poderia simplesmente esquecer.
Não sei quanto tempo fiquei ali, debaixo do chuveiro. Talvez eu tenha ficado mais tempo do que eu precisava, porque a água já estava começando a ficar fria quando escutei uma batida à porta. Àquela altura, as lágrimas já haviam secado; eu não tinha mais nada para chorar, afinal.
— Bella? — Edward bateu novamente, parecendo preocupado. — Está tudo bem?
Eu suspirei pesadamente, e assenti, somente para lembrar que ele não podia ver, que eu havia trancado a porta do banheiro, e que eu precisaria falar para ele saber que eu estava bem.
— Estou sim! — gritei de volta, fechando o chuveiro. — Já estou saindo…
Puxei a toalha e me embrulhei nela, enxugando-me rapidamente, antes de sair do banheiro e entrar no meu quarto. Edward já não estava ali. Vesti-me rapidamente e penteei meus cabelos, e saí do quarto, encontrando Lily na cozinha com Kaure. Minha filha sorriu quando me viu.
— Oi, meu amor. — Ela havia acabado de comer, então eu a peguei no colo, beijando-a e aspirando seu cheiro de bebê, sabendo que só ele me acalmaria por completo. — Obrigada por ficar com ela até um pouco mais tarde hoje, Kaure, e me desculpe… hoje foi um dia difícil.
Ela revirou os olhos e sorriu para mim.
— Que isso, Bella — disse. — Você sabe que amo ficar com essa garotinha aqui. Ela me lembra tanto Edward, e ainda é tão novinha! Mal posso esperar para ver como vai ser quando ela estiver mais velha e falando e andando por aí.
Eu sorri ao tentar imaginar a cena: uma garotinha de cabelos de cobre e olhos castanhos correndo pela casa. Seria adorável, eu simplesmente sabia disso.
— E Edward? — eu franzi a testa, sabendo que ele havia chegado; afinal, ele que me tirara do torpor do banheiro. — Ele chegou, certo?
Ela assentiu.
— Ele só correu até o supermercado, para comprar mais uma frutas para Lily, antes que ele fechasse — disse. — Você sabe como ele gosta do mercado da esquina, que acha que as frutas de lá são melhores e não sei mais o que…
Eu ri, assentindo.
— Você pode ir, se quiser, Kaure — eu disse. — Sei que deve estar cansada. Muito obrigada mesmo, por ter ficado até mais tarde.
Nós nos despedimos, então, confirmando o horário de amanhã — algo que nunca mudava, mas que sempre confirmávamos, mesmo assim. Ela se despediu de Lily com um beijo demorado na bochecha, fazendo-a rir, e depois de acenar mais uma vez, pegou sua bolsa e saiu do apartamento, deixando-me sozinha com a minha filha.
Sentei-me com ela no cantinho reservado dela de brincar, tentando me distrair com seus brinquedos e suas risadas. Não consegui, porém, logo pensando na ligação que eu havia recebido.
— Eu não sei o que vou fazer, amor — sussurrei para a minha filha. Ela me fitou, seus olhinhos castanhos me observando com atenção, um brinquedo já na boca. — Não tenho ideia do que fazer, sabe? Sinto falta dos seus avós, tanta falta… mas eles me magoaram tanto…
Puxei-a para meu colo, abraçando com um pouco mais de força do que eu esperava.
— Eles disseram coisas horríveis — sussurrei contra seus fios meio ruivos. — Eles queriam que eu me livrasse de você, linda… E como eu poderia fazer isso, Lily? Como eu poderia ter aberto mão de você?
Fechei os olhos e fiquei ali durante um tempo, apenas desabafando com ela, conversando com ela. Ela reclamou um pouco, claro, não gostando de ser apertada daquele jeito, mas eu precisava daquilo. Precisava do conforto que meu bebê me proporcionava, do cheirinho dela, das risadas… Precisava da prova de que ela estava realmente ali, comigo.
Não sei por quanto tempo mais fiquei ali, até que escutei o barulho de chaves e a porta se abrindo. Lily se afastou, soltando gritos animados quando Edward entrou em nosso campo de visão. Ele sorriu para gente, me olhando meio preocupado.
— Já venho ficar com vocês — ele disse, as sacolas de compras na mão. — Só vou guardar essas compras, ok?
Lily resmungou, é claro. Ela queria o pai dela e queria naquele momento, então nos deixou saber que não estava nada satisfeita com a demora. Eu sabia que ela iria até a ele se soubesse andar.
Ele logo voltou da cozinha, sentando-se à nossa frente. Lily ergueu os bracinhos para ele e ele a pegou, enchendo-a de beijos e arrancando aquelas risadas que eu tanto amava.
Eu sorri.
— Bella? — Edward me chamou. Eu o fitei, e percebi que eu devia estar quase chorando de novo, pela cara que ele fazia. — O que aconteceu? Você está meio estranha…
Eu respirei fundo e comecei a contar toda a minha conversa com Charlie, tudo o que ele havia me dito, tentando explicar suas ações com uma conversa. Falei de como eu me sentia, de como tudo aquilo era confuso para mim e em como eu não tinha ideia do que fazer. Talvez ele tivesse uma ideia brilhante. Ele e Leah eram meu porto seguro, afinal. Eles sempre estavam ali por mim.
— Eu queria ter as palavras certas para te dizer, amor — ele sussurrou, sorrindo para mim de forma triste. — Queria poder te dizer o que fazer, e que isso te trouxesse o alívio que você espera e te desse paz. Mas… infelizmente, Bella, só você pode decidir. Talvez você precise de um tempo, como disse ao seu pai que iria pensar e tal…
Eu assenti.
— Mas… — ele continuou, tornando a sorrir. — Eu acho que tem alguém que você pode, sim, conversar… Duas pessoas, na verdade, que vão entender exatamente como você está passando.
Eu ergui a sobrancelha, sentindo-me confusa novamente, dessa vez por diferentes razões.
— Quem? — indaguei, quando ele ficou calado, ainda sorrindo de forma enigmática. Lily estava sentada na sua frente, seus brinquedos espalhados ao seu redor. — Porque eu não consigo pensar em ninguém…
Ele riu.
— Sue e Seth, é claro — ele disse, por fim. — Sue passou por uma situação semelhante a sua, Bella, não no papel de filha, é claro, mas no papel de namorada. Ela pode te dar uns conselhos. E Seth entende como é ser rejeitado…
Eu assenti. Sorri um pouco, depois fui até a ele e depositei um beijo demorado em seus lábios. Lily tornou a resmungar, não gostando de ter seu tempo pai-e-filha interrompido.
— Você é o melhor namorado do mundo! — murmurei contra seus lábios. — E o mais inteligente também.
Ele riu.
— Lembrarei você disso quando brigarmos — brincou, fazendo-me dar um soco de brincadeira em seu ombro.
Ele foi preparar o jantar para nós dois, enquanto eu amamentava Lily. Ela enrolou um pouco para dormir, mas consegui depois de um pouco de esforço. Então, me juntei a Edward na cozinha e nós comemos. Conversamos mais um pouco, eu tentando não falar muito sobre o que havia acontecido durante à tarde. Era realmente incrível como Edward me conhecia. Ele sabia quando eu precisava me distrair ou quando precisava conversar sobre o assunto. Sabia quando eu precisava de um abraço ou apenas de palavras.
E ele realmente me distraiu naquela noite, exatamente como eu precisava.
No dia seguinte, eu liguei para Seth, perguntando se, algum dia desses, eu podia conversar com ele e a sua mãe. Se ele estranhou, ele não disse nada.
— Eu vou ligar para a minha mãe e olhar com ela— ele disse. — Te mando uma mensagem, ok? Qualquer dia dá para você?
Depois de confirmar que, sim, eu estava livre, ele desligou. Eu sorri, sentindo-me um pouco mais tranquila. Edward estava certo. Eu precisava conversar com pessoas que tinham passado por uma situação parecida com a minha, mesmo que não tenha sido do mesmo jeito ou nos mesmos papéis, como Edward havia dito. Mas não custava nada, certo? Eu não tinha nada a perder.
E, embora não soubesse dizer porquê tinha essa certeza, eu sentia que conversar com Seth e Sue era a coisa certa a se fazer.
Edward POV.
Meus pais chegaram no dia seguinte. Eles passaram aqui em casa, enquanto eu estava no estágio e Bella ainda na faculdade, e pegaram Lily, dando, eles mesmo, folga para Kaure. Foi meio estranho quando minha mãe me ligou, perguntando se tinha problema eles ficarem com Lily. Ela prometeu que eles não sairiam do apartamento. Eu relutei um pouco, confesso, mas acabei concordando, achando que eles mereciam aquela chance.
Mandei uma mensagem para Bella, sabendo que ela chegaria ao apartamento antes de mim e não querendo que ela se assustasse ao encontrar meus pais ali. Quando ela me mandou uma mensagem de volta, dizendo que estava tudo bem e que não tinha problema algum eles ficarem com a Lily, eu me acalmei, voltando minha mente para o trabalho.
Bella parecia estar mais calma hoje. Ela tentaria marcar um jantar ou algo do tipo com Seth e Sue, para conversar com eles. Eu sabia que isso faria bem a ela. Por mais que eu quisesse ser aquele que trouxesse conforto para ela, eu sabia que ela precisava de alguém que tinha passado por uma situação parecida, então sugeri o irmão e a mãe dele.
E eu sabia que ela tinha ficado mais tranquila depois disso.
Para mim, ainda era um pouco difícil pensar nessa época, principalmente porque eu havia cometido meus próprios erros, erros que Bella havia perdoado. Eu sabia que era completamente diferente, que os pais dela tinham agido de forma pior — se é que se podia classificar quem tinha errado mais quando ela estava grávida -, mas mesmo assim… era difícil pensar nisso, em tudo o que eu havia feito.
Mas eu sabia que não podia mudar o passado. Futuramente, quando Lily fosse grande e ficasse curiosa para saber como tinha sido quando Bella estava grávida dela — se é que ela faria esse tipo de pergunta algum dia -, eu sabia que havia uma chance muito grande de ela saber o que eu havia feito, o que os avós haviam feito. Eu só esperava que ela não me odiasse. Eu sabia que não podia suportar tal coisa.
Não vindo dela. Ou de Bella.
Quando saí do trabalho, um pouco mais tarde, eu segui direto para casa, curioso para saber o que meus pais estavam fazendo com Lily. Quando cheguei lá, precisei recompor minha cara de choque ao ver os dois sentados no chão, Lily no meio deles, muitos brinquedos novos ao redor dela. Bella estava sentada na poltrona, sua expressão quase igual a minha, embora ela também estivesse tentando prender o riso.
Eles se levantaram e me cumprimentaram quando viram que eu havia chegado, mas logo voltaram sua atenção para Lily também. Ela, porém, pareceu esquecer os brinquedos quando me viu, erguendo seus bracinhos para mim, sorrindo seu sorriso de dois dentes para mim. Eu a peguei, depositando meus beijos nela, fazendo-a rir.
— Oh, ela reconhece você! — Minha mãe disse, ainda sentada no chão. — Não é lindo isso, Carlisle?
Meu pai assentiu, também sorrindo.
Eu segurei a vontade de me beliscar, apenas para verificar se eu não estava sonhando ou algo assim. Meus pais sentados no chão, brincando com um bebê… com brinquedos. Era meio estranho, eu confesso.
E eu não pude deixar de sentir medo também. O que me lembrou que eu realmente precisava conversar com eles.
— Pensei de irmos jantar hoje, o que acham? — Meu pai indagou. — Se você e Bella não estiverem muito ocupados, é claro, e não tiverem algum compromisso…
Bella se colocou de pé, sorrindo para os meus pais.
— Na verdade, Carlisle, eu vou jantar com o meu irmão essa noite… — ela disse. — Acabei de marcar com ele… Mas Edward e Lily adorariam ir com vocês, o que acham? Assim podem passar mais um tempo com ela…
Minha mãe me olhou, sorrindo com expectativa.
— Nós podemos jantar hoje e outro dia também — ela sugeriu. — Assim Bella pode participar da comemoração por você ter conseguido o estágio. Afinal, estamos de férias… podemos passar um tempo aqui.
Eu assenti. Acho que era a primeira vez na vida que escutara a palavra ‘férias’ sair da boca da minha mãe.
Eu fui tomar um banho rápido, deixando com Bella a tarefa de arrumar Lily. Não procurei demorar muito, embora estivesse nervoso, porque naquela noite, eu me abriria para os meus pais, pela primeira vez… em toda a minha vida.
Era meio estranho. Afinal, nós nunca tivemos esse tipo de relacionamento antes. Bella estava no quarto, esperando por mim, quando saí do banheiro. Ela andou até a mim e me abraçou, depositando um beijo demorado em meu peito, descoberto. Eu tremi.
— Não comece algo que não se pode terminar, Isabella — eu meio que brinquei, tentando disfarçar meu nervosismo.
Ela riu e revirou os olhos para mim. Ela me conhecia bem demais.
— Podemos terminar mais tarde — ela disse, piscando para mim. — E, por favor, não fique tão nervoso. Sei que nunca foi muito de conversar com seus pais, mas acho que essa conversa vai fazer bem para vocês e talvez ser o ponto inicial de uma nova fase em seus relacionamentos.
Eu sorri para ela.
— Talvez… — comentei.
Ela se afastou um pouco, apontando para a roupa que havia escolhido para mim.
— Para dar sorte — tornou a piscar. — Agora, se arrume e vá, ok? Eu já vou indo, porque Seth está vindo me buscar e iremos para a casa da mãe dele.
Tornei a puxá-la para mim, beijando-a de leve nos lábios, sabendo que aprofundar o beijo não era uma boa ideia naquele momento.
— Boa sorte para nós dois, amor — eu murmurei contra os seus lábios. — Tenho certeza de que vai dar tudo certo.
E por mais nervoso que eu me sentisse, eu meio que achava que daria certo mesmo.
Bella riu e me beijou mais uma vez, antes de sair do quarto. Rapidamente me vesti e calcei meus sapatos, ajeitando meus cabelos de qualquer jeito e pegando meu casaco. Quando saí do quarto, encontrei meu pai com Lily no colo, já devidamente vestida e agasalhada, a bolsa dela já pronta no ombro esquerdo do meu pai. Ela quis vir para o meu colo, então eu a peguei.
Nós saímos do prédio e decidimos por um restaurante não muito longe. Um que eu sabia que não havia necessidade de reserva. Esperei por Esme brigar e dizer que conhecia um famoso ou algo assim, mas ela parecia contente em me deixar ditar o ritmo naquele noite.
E, confesso, eu gostei disso. Muito mais do que eu esperava.
A conversa, quando já estávamos no restaurante, Lily em uma cadeirinha alta ao meu lado, seu jantar especial preparado por Bella sendo dado a ela por mim, começou leve, meus pais perguntando do estágio, da faculdade, falando sobre a empresa, as férias…
E então, antes que eu me desse conta, eu estava falando. Tudo o que havia ficado preso em meu peito durante tanto tempo, e que eu precisava mesmo desabafar.
Falei sobre os aniversários perdidos, sobre os eventos de escola, sobre como Kaure esteve lá por mim, mas que eu sempre quis mais. Quis que, ao menos uma vez, eles esquecessem o trabalho e estivessem lá por mim, em meu recital de piano, elogiando meus desenhos, não me obrigando a fazer algo que eu não queria…
Eles escutaram, é claro. Em algum ponto, minha mãe começou a chorar, pedindo desculpas por tudo, mas eu continuei a falar. Como Kaure havia me dito, deixei que todas os meus medos e inseguranças fossem ouvidos por ele — sobre como eu tinha medo de que eles fossem embora de novo, que voltassem para o trabalho, que não só desapontassem a mim, algo que eu disse que estava até acostumado àquela altura do campeonato, mas que não queria a mesma vida para a minha filha, que ela não merecia isso. E se eles fossem embora, se tudo isso realmente acontecesse, pelo menos, eu sabia que tinha falado tudo o que eu podia. Sabia que eles sabiam.
Isso era o que importava para mim.
Então, deixei que eles falassem. Meu pai me fitou por um momento, pensativo, antes de começar a falar.
— Eu sinto muito que você se sinta assim, filho — ele começou. — Eu sei que a sua mãe e eu perdemos muito da sua vida e que a pessoa que você é hoje, não é por causa de nós, e sim por causa de Kaure e da criação dela, algo que sempre deveremos a ela. Posso ficar aqui anos e anos te explicando o motivo de termos feito o que fizemos, mas acredito que só pecamos pensando que, trabalhando do jeito que trabalhávamos e escolhendo um futuro que pensávamos que era o melhor para você, estávamos fazendo o melhor, quando, na verdade, você só queria um pouco de atenção e amor.
Eu continuei fitando-o, sabendo que ele estava certo.
— Demoramos a perceber isso… — minha mãe continuou. — Eu sei disso. Mas quando vimos Lily e percebemos como vocês se parecem, eu percebi o quanto havíamos perdido. Nós podemos parar de trabalhar agora e teríamos dinheiro o suficiente para nós, você, Lily e um filho que ela virá a ter no futuro… E eu percebi que há coisas mais importantes na vida que o dinheiro e trabalho…
Ela fez uma pausa e tomou um gole de sua água, antes de continuar.
— Pode não ser uma desculpa, Edward, mas fomos criados assim, pelos nossos pais, desde que éramos pequenos — ela suspirou. — Nos ensinaram isso e tentamos passar isso para você, mas Kaure te criou de um jeito tão diferente e de uma forma tão linda, que você soube identificar nossos erros antes que nós identificássemos. Como seu pai disse, sempre seremos gratos a ela. Ela foi mais mãe e pai de você que nós dois jamais fomos, filho…
Eu assenti, sorrindo um pouco ao lembrar de Kaure. Ela tinha mesmo sido um pai e uma mãe para mim de todas as formas.
— Mas nós sabemos que erramos agora e não pretendemos continuar a cometer o mesmo erro — ela continuou. — Pode parecer difícil de acreditar, eu sei, mas só te peço um tempo e paciência, que vamos mostrar que mudamos. Nós queremos fazer parte da sua família, Edward… será que você pode encontrar um espaço no seu coração para nos perdoar e permitir que isso aconteça?
Eu fitei Lily, brincando com sua colher de plástico, tendo se sujado toda — e eu simplesmente sabia que teria de dar outro banho nela quando chegássemos em casa. Depois, fitei meus pais, e soltei um suspiro.
— Eu acho que preciso de tempo para me acostumar com tudo isso — eu disse. — E para acreditar em vocês… Mas, respondendo a sua pergunta, mãe, acho que com o tempo… sim, eu acho que sim.
Ela sorriu, então, assim como meu pai, e não pude deixar de sorrir de volta para eles. Nós conversamos mais um pouco e logo pedimos a conta. Lily já estava sonolenta quando saímos e se grudou em mim, não aceitando o colo de meus pais. Eles sorriram, parecendo entender.
Logo, estávamos em frente ao meu prédio, já que não era muito longe dali. Eles prometerem que viriam no dia seguinte novamente, perguntando se não tinha problema, para comemorarmos o fato de eu ter conseguido um estágio. Quando disse que não havia problema nenhum e que eles podiam até chegar mais cedo para ficar com Lily, contanto que não trouxessem mais brinquedos— o que fez a minha mãe rir e dizer que esse era o papel dos avós: estragar os netos. E eles sorriram, parecendo realmente contentes.
E pela primeira vez na vida, ao despedir dos meus pais, eu sabia que com certeza os veria no dia seguinte. De alguma forma, eu sabia e sentia que eles cumpririam a promessa. Sabia que ainda tínhamos um longo caminho pela frente, que eu ainda não confiava completamente neles, mas sabia que estávamos no caminho certo.
Um dia, chegaríamos lá.
Eu realmente tinha fé nisso.
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