Unspoken
1 Capítulo Um
Notas iniciais
Sherlock acordou mais cedo do que o costume. Na verdade, não tinha dormido. Mas, como poderia? Sabendo que era seu último dia na Baker Street. Seu último dia em Londres. Provavelmente nunca mais voltaria a sentar-se em sua poltrona, e andar agitado pelas ruas de Londres, correndo, resolvendo inúmeros casos... Até do chá horrível da Sra. Hudson ele iria sentir falta.
E parecia que a vida de todos que ele conhecia, e se importava tinha sido afetada naquele dia por sua causa. Sim, se importava, por mais que nunca tivesse admitido em voz alta, e por mais que odiasse não poder controlar esses sentimentos – que nunca irão deixar de aparecer novos, e desajeitados. A verdade era que Sherlock Holmes não era uma máquina, ou um sociopata incapaz de sentir, Sherlock Holmes se importava.
Sra. Hudson não tinha dormindo até o meio-dia como sempre fazia. Primeiro ficou perambulando pelo seu flat, dizendo coisas sem sentido, mas na maioria das vezes resmungando algo sobre como ele estava indo embora, de novo. Dessa vez, ao menos, ela sabia que ele estava vivo, pensou Sherlock.
Molly e Lestrade apareceram na Baker Street algumas horas depois da notícia de que Sherlock tinha matado Magnussen, e ficaram por lá, esperando que o moreno aparecesse. E ele apareceu, só que com uma notícia ainda pior, de que estava deixando o país, e dessa vez, para sempre. Os dois se despediram de Sherlock, e a pedido do mesmo foram embora para descansar. Mas, é claro, que não conseguiram. Eles tinham acabado de receber a notícia de que estavam perdendo Sherlock mais uma vez, não tinha como descansar com uma coisa dessas na cabeça.
Mycroft tinha passado o dia, e talvez à noite também, ajeitando as coisas para a partida de Sherlock. Fazendo de tudo para que o exílio do irmão acontecesse da forma mais discreta possível, e tentando ao máximo não deixar que as notícias erradas acabassem na mídia – claro, que essa última foi uma tentativa fracassada.
O Holmes mais velho não conseguia decidir o que era pior. Contar aos pais que Sherlock tinha matado um homem. Ou ver a vida do irmão mudar drasticamente por ter cometido o erro, que ele sempre avisará ser o mais perigoso e desvantajoso de todos: se importar.
De longe, a pessoa que teve o dia mais afetado por causa de Sherlock foi John Watson. Não, não o dia mais afetado. Sherlock tinha causados danos demais na vida do melhor amigo, danos que não podiam ser resumidos em apenas um dia. Desde que se conheceram, a vida de John se tornou uma montanha-russa. Os dois sempre estavam ocupados, com um caso novo a cada dia, e sendo sempre atraídos por situações perigosas.
Mas, John gostava dessa vida. A emoção da caça, o sangue bombeando nas veias, só eles dois contra o resto do mundo. Até Sherlock morrer. Mesmo que Sherlock tenha voltado, ele tinha sofrido a morte do melhor amigo por dois anos. Dois anos, que mais parecerá uma eternidade. Junto com Sherlock a vida era imprevisível, e os dias passavam sem que ele nem percebesse. Mas, esses dois anos que eles tinham ficado separados passaram de maneira longa e devastadora. Realmente, foi muita sorte de John ter encontrado Mary. Ela substituiu o lugar de Sherlock, e o reconfortou, esteve ao seu lado, e foi – tem sido uma mulher incrível, sensacional.
Sherlock nunca disse, mas esses dois anos longe de John, tinham o machucado de uma maneira tão enlouquecedora como a John, e talvez até mais. Ele realmente pensou mil vezes em entrar em contado, mas ele teve que afastar esse pensamento, não podia arriscar colocar John na linha de fogo, não enquanto ainda não tinha certeza de que ele estava seguro. E quando ele voltou, já era tarde demais.
John tinha encontrado em Mary, seu porto seguro, e o velho Sherlock tinha ficado para trás. Watson tinha perdoado o amigo, e eles ainda resolveram alguns crimes, mas era diferente. John não estava mais presente, não completamente. E perceber o quanto eles estavam se afastando, doeu em Sherlock de um jeito que só Deus sabe. Mas, de certo modo, ele ficará feliz por John ter Mary, ele merecia ser feliz mais do que qualquer outro ser humano no planeta, mesmo que fosse com outra pessoa.
E foi por John Watson, que Sherlock cruzou a linha. Ele matou Magnussen para proteger Mary, sim. Mas, acima de tudo, foi por John. Sherlock sabia que o amigo não ia conseguir seguir a vida tranquilo sabendo que tinha alguém que poderia acabar com isso a qualquer momento. E, se Sherlock podia fazer qualquer coisa para manter a paz do amigo, ele faria. Mesmo essa coisa fosse matar alguém.
Agora ele estava indo embora. O que não era nada muito difícil de entender, ele tinha assassinado um homem – um homem detestável, nojento, sim. Só que o fato de Magnussen ter sido uma pessoa horrível, não diminuía que era um crime. E para todos os crimes existe uma punição. Sherlock sabia como iria terminar. Mas mesmo assim apertou o gatilho, e não se arrependia. Ele sabia que se importar era uma desvantagem perigosa, um erro humano, e John Watson era a prova final disso.
...
“Eu não sou um herói. Eu sou um sociopata funcional. Feliz Natal”, as palavras ecoavam na cabeça de John, junto com o som do disparo da arma. Todas as imagens daquele dia conturbado se repetiam em sua cabeça. Como uma visita a casa dos pais de Sherlock para um jantar de natal tinha se transformado em uma ida a Appledore, e seu melhor amigo assassinando Magnussen?
Enquanto ele terminava de se vestir, Mary apareceu na soleira da porta e sorriu docemente, com a intenção de transmitir um pouco de segurança ao marido. E ele tentou manter a calma, por ele, pela Mary, e principalmente, por Sherlock. Ele não queria que a despedida dos dois fosse tão conturbada como tinha sido o reencontro. Um gritando com o outro, raiva, surpresa e todos aqueles sentimentos misturados.
“Mycroft já chegou?” perguntou John.
“Um dos homens dele está parado com um carro do lado de fora.”
John assentiu com a cabeça, ele não conseguia pensar em palavra alguma para dizer. Mary pensou em muitas, mas nenhuma parecia reconfortante o suficiente para aquele momento. E ela compreendia o marido, já o tinha visto passar pela perda de Sherlock. Por mais que a situação dessa vez fosse diferente, uma perda nunca é menos dolorosa do que a outra. Ainda mais quando se trata do melhor amigo.
...
Sherlock se despediu pela última vez da Sra. Hudson, e desceu as escadas da Baker Street. Olhou pela última vez a fachada de sua casa, antes de entrar no carro, onde Mycroft o esperava. Eles iam para o aeroporto. Sem dúvidas, ele iria sentir falta do flat, do seu lar.
“Você sabe quando um lugar é seu lar, quando você vai embora. Você sente falta.” Durante os dois últimos anos, ele sentiu falta da Baker Street. Porém, sentiu mais ainda, a falta de John. Talvez um lar, no fim das contas, não se resumia ao lugar, e sim, as pessoas. Porque mesmo depois de ter voltado para Londres, Sherlock ainda acordava todos os dias sentindo que algo estava faltando.
Ele achou que voltaria para Londres, e retomaria a vida de sempre com John. E talvez, um dia, ele tivesse coragem de confessar tudo que sentiu quando estava longe, e quem sabe, algo mais poderia acontecer. Só que John já tinha seguido em frente. Ele não estava mais ali para discutir com Sherlock sobre coisas bobas, como o fato dele não saber que a Terra gira ao redor do sol. Ou para conversar, brigar, reclamar do chá da Sra. Hudson, rir... John não estava mais ali. E sem John, Baker Street não era o lar de antes que ele tanto sentiu saudades.
Sherlock olhou para o lado, e Mycroft estava o observando. Talvez, encarando seria a palavra certa. Sherlock fez um gesto com a cabeça, como quem diz “Desembucha”, mas o irmão permaneceu em silêncio.
“O que?” Sherlock perguntou.
“Nada”
“Eu conheço esse silêncio. O que?”
“Eu te avisei, Sherlock. Se importa não é uma vantagem.” Disse Mycroft, mas em um tom diferente do que Sherlock esperava. Não era repreendendo, mas um pequeno desapontamento, um pouco de tristeza.
Não era hora para discutirem sobre quem estava certo ou errado. A grande disputa de egos entre os irmãos Holmes pedia uma trégua. O silêncio continuou por alguns minutos, até finalmente, Sherlock resolver dizer algo.
“O que eu deveria fazer? – perguntou. – John estava em perigo. Eu não tinha-“
“Eu tinha a situação sobre controle, irmãzinho”
“Você iria prendê-lo, mas não ia poder fazer nada mais do que isso. Mesmo você sendo o governo, Mycroft. Não existiam provas. Tudo estava no palácio mental dele”
“Esses idiotas, com um ridículo palácio mental" Mycroft olhou pela janela do carro. "Quando eu conheci o John, eu tinha dúvidas, sobre o efeito que ele teria na sua vida. Lembro-me de dizer que ele poderia ser exatamente o que você estava precisando... Ou que poderia piorá-lo mais do que nunca”
“John trouxe mais coisas boas para a minha vida do que ruins. Se importa é um erro. Sim, eu sei. Sempre soube. Mas por algumas pessoas esse erro vale à pena”
Era estranho que Mycroft fosse a primeira pessoa a ouvir em voz alta Sherlock confessar o quanto realmente se importava com John. Os dois nunca tiveram o costume de conversar sobre nada parecido. Na verdade, eles nunca tiveram o costume de conversar sobre nada. A maior parte dos diálogos trocados entre ambos eram as famosas competições sobre quem era o mais inteligente. Esses novos tópicos: amizade, se importar, amor – do jeito estranho deles –, era algo muito novo, e que precisava ser explorado melhor. Mas infelizmente, Sherlock estava indo embora.
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