Unspoken
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
Um estranho que John nunca virá na vida dirigia o carro que o levava até o aeroporto, onde Sherlock estava esperando. Mary, sentada ao seu lado, percebeu a tensão que tomava conta do marido, e segurou a sua mão. John sorriu docemente tentando mostrar que estava o mais calmo possível.
Antes mesmo de o carro estacionar na frente do avião, ele já tinha visto Sherlock. Era estranho estar indo se despedir. Desceu do carro, junto com Mary – que foi a primeira a falar com Sherlock.
“Você vai tomar conta dele para mim, não vai?” Sherlock perguntou a Mary, que andou até ele, e depositou um beijo casto na bochecha do moreno.
“Não se preocupe.” Ela o abraçou rapidamente. “Vou mantê-lo encrencado”
Mary queria agradecer o que Sherlock tinha feito por ela, mesmo que no fundo ela soubesse que foi mais por John... Ela seria eternamente grata por ele ter sacrificado tanto só para que ela ficasse segura com John. Para que os dois levassem uma vida calma e tranqüila, enquanto ele estaria indo, para sabe se lá onde.
“Essa é minha garota” ele respondeu, sorrindo.
Sherlock se virou para o irmão, que estava parada ao seu lado, esperando.
“Já que é a última conversa que terei com John Watson, importa-se de nos dar um momento?”
Mycroft não queria discutir com irmão, então optou por fazer um aceno com a cabeça para que os seguranças que iriam acompanhar Sherlock durante a viagem o seguirem, se afastando um pouco de Sherlock e John. Mary o seguiu também.
“A última conversa que terei com John Watson” essas palavras doeram tanto em Sherlock, como em John. Parecia que tinha passado tão pouco tempo desde que Sherlock tinha voltado, e ele já estava indo de novo. Por que a vida era tão injusta?
“Então aqui estamos nós”
“William Sherlock Scott Holmes”
“Como?”
“Esse é o nome todo. Se tiver pensando em nomes de bebê”
John sorriu, e lembrou-se que ele mesmo já tinha feito essa piada antes com Sherlock.
“Fizemos um ultrassom, temos certeza de que é menina”
“Oh, tudo bem”
Os dois olharam para o lugar em volta, mas tentando ao máximo se encararem. Era difícil, muito difícil. Despedidas sempre são. Sherlock achava que John estava calmo demais, ele tinha se preparado para conversar com um Watson agitado, gritando com ele sobre o como tinha sido um idiota que agiu com impulso. Talvez, ele tivesse entendido os motivos que levaram Sherlock a matar Magnussen.
“É, nem sei o que pensar para dizer” disse John, que se pegou completamente sem palavras. Mesmo que tivesse ensaiado no caminho de carro até o aeroporto as palavras que iria dizer, como ia agradecer a Sherlock por tudo que ele já tinha feito. Mas, ali, olhando cara a cara para ele, nada parecia certo ou bom o suficiente.
“Nem eu”
“O jogo acabou”
“O jogo nunca acaba, John” a voz de Sherlock saiu mais alto do que ele esperava. “Mas pode haver alguns jogadores novos. Tudo bem, o Vento Leste nos leva no fim”
“Como?”
“Meu irmão contava essa história quando éramos crianças. O Vento Leste é uma força que destrói tudo por onde passa. Procura os indignos e os arranca da Terra. Geralmente era eu”
“Legal”
“Ele é um péssimo irmão mais velho”
John sorriu.
“E você? Vai para onde agora?”
“Para um trabalho disfarçado na Europa Oriental”
“Por quanto tempo?”
“Meu irmão acha que seis meses, ele nunca erra”
“E depois?”
“Você vai voltar? Por favor, me diga que você vai voltar” John pensou, mas não conseguiu dizer.
“Quem sabe?”
Era isso. Ele estava definitivamente indo embora. John olhou para longe, novamente, ele não conseguia, e não queria olhar nos olhos de Sherlock. Não sabendo que era a última vez.
“John, tem algo que... Tenho que dizer, sempre quis, mas nunca disse. Como talvez nunca nos vejamos de novo, posso dizer agora.” Esse era o momento, Sherlock sabia. John, no fundo, também sabia. Sherlock nunca mais ia vê-lo na vida, qual era o problema de confessar de uma vez por todas? Mas ele simplesmente não conseguiu. As palavras não saíram. Ele suspirou, e... “Sherlock é um nome de menina”
John sorriu. Sorriu de verdade, aquele sorriso bobo que fazia com que Sherlock sorrisse também. Aquele sorriso podia curar o câncer e por fim à guerras. Aquele sorriso fazia tudo valer à pena. E quase, quase não faria Sherlock se arrepender mais tarde de não ter dito o que realmente queria.
“Não é”
“Valeu a tentativa”
“Não colocaremos o seu nome na nossa filha”
“Acho que daria certo”
Os dois sabiam que estava acabando o tempo, Sherlock precisava ir embora, e John voltar para a sua vida comum, que nunca mais seria a mesma.
Sherlock estendeu a mão.
“Pelos melhores momentos, John”
Um aperto de mão, é claro que Sherlock teria abraçado John se pudesse, se tivesse coragem suficiente para isso. Mas isso só deixaria as coisas mais difíceis, e a despedida em si, já era triste o suficiente para que ele acrescentasse mais sentimentalismo. Sherlock soltou a mão de John, e caminhou para dentro do avião, sem olhar para trás, sem encarar o Mycroft, Mary, ou os seguranças que estavam presentes. E principalmente, sem voltar a encarar John. Ele não suportaria.
...
Já sentando dentro do avião, Sherlock olhou pela janela para observar John uma última vez. Ele se odiou por estar deixando John para trás novamente. Por que ele não podia ser o tipo de pessoa que fica? Por que ele não tinha conseguido dizer o que realmente queria? Sherlock não sabia a resposta. Algumas coisas na vida são um mistério, um caso sem solução. O que ele sentia por John Watson era exatamente isso.
Por algum motivo, Sherlock se viu pensando na conversa que tivera mais cedo com Mycroft. Ele sabia que o irmão não estava realmente irritado com ele, ou com John por ter feito Sherlock virar um assassino. No fundo, Mycroft só se preocupava com ele. Por isso, sempre avisava as desvantagens de se importar. Ele queria evitar que o irmão sofresse, ou cometesse alguma dessas loucuras que as pessoas fazem. E tinha funcionado. Sherlock nunca tinha se apegado a ninguém, até agora.
Um dos seguranças parou do seu lado, com um celular na mão, o desviando de seus pensamentos.
“Senhor, é o seu irmão” disse o homem, entregando o celular para Sherlock.
“Mycroft”
“Olá, irmãozinho. Como vai o exílio?”
“Só se passaram quatro minutos”
“Espero que tenha aprendido a lição. Precisam de você”
“Pelo amor de Deus, decida-se. Quem precisa de mim agora?”
“A Inglaterra”
...
Não era possível. Simplesmente não era possível. John tinha dúvidas de muitas coisas na vida. Mas Moriarty estar morto não era uma delas. Como ele poderia ter sobrevivido depois de atirar em si mesmo? E ainda aparecer em todas as televisões do país. Era um truque genial. Mas, para quem tinha invadido o Banco da Inglaterra, a Torre de Londres e a Prisão de Pentonville, não era uma surpresa tão grande assim.
“Ele está morto. Você disse que Moriarty estava morto” falou Mary, ao receber a notícia de Mycroft.
“Com certeza, ele atirou na própria cabeça”
“Como ele pode ter voltado?”
“Se ele estiver de volta, é melhor se preparar. Um Vento Leste está vindo” disse John, enquanto sorria ao ver o avião retornando com Sherlock.
Era muito estranho o fato de Moriarty ser a razão de Sherlock está voltando, quando ele tinha sido a razão para ele ir embora há dois anos.
O avião posou, e alguns momentos depois, Sherlock desceu. John tinha pensado o como não tinha conseguido dizer o que queria. Em como não tinha nem ao menos abraçado Sherlock, quando o amigo estendeu a mão para ele. Bom, agora nada mais tinha importância. Ele poderia consertar isso, e todas as outras coisas que estavam fora de lugar.
Sherlock veio andando em direção a John, Mary e Mycroft. Ele estava com uma expressão diferente. Não estava sorrindo. Sherlock raramente sorria. Mas não é só o sorriso que entrega as emoções das pessoas. Os olhos dizem muito mais. E seu olhar estava diferente, mais relaxado, calmo. John arriscaria dizer que até mais feliz.
“John” Sherlock cumprimentou ao parar na frente do melhor amigo.
“Seu idiota, vem aqui" disse John, puxando Sherlock para um abraço, pegando o moreno de surpresa, que continuou parado imóvel. “Você nunca me abraça de volta, não é?” John sorriu, e quando ia soltá-lo, Sherlock colocou as mãos delicadamente em volta dele, e depois o envolveu com os braços, dando em John, o abraço mais forte de sua vida.
Nada no mundo se comparava com a sensação de ter John em seus braços. Talvez, seria por ele nunca ter realmente abraçado John de verdade, ou pela possibilidade de que esse momento poderia não se repetir no futuro, ou por ele ter pensando que nunca mais o veria na vida. Quaisquer que fossem os motivos, não importavam mais. Sherlock enterrou a cabeça no pescoço de John, inspirou o cheiro do amigo, ignorando a presença de todos. Ele não queria deixar John sair de seus braços nunca mais, e não deixaria. Se pudesse.
John ficou surpreso quando Sherlock o abraçou de volta. E mais surpreso ainda com a intensidade que ele o tinha feito. Ninguém nunca tinha o apertado tão forte desse jeito. Mas, de certa forma, era reconfortante. John gostou. Gostou tanto, que não teria saído dali, se Sherlock não tivesse se afastado.
Sherlock estava sorrindo. Não aquele sorriso tímido, e privado. Um sorriso enorme, que alcançava os olhos. John retribuiu. E eles ficaram se encarando até que um gemido de dor vindo de Mary os distraiu.
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