Unspoken
3 Capítulo Três
Notas iniciais
“Como ela está?” perguntou Sherlock, quando John terminou de conversar com o médico.
Mary tinha começado a sentir dores na barriga, mas não tinha mencionado nada. Era normal para grávidas, não era? Iria passar. Isso era o ela pensava. A dor tinha ficado tão forte, que quando John correu para socorrer a esposa, ela começou a ficar tonta, e acabou desmaiando em seus braços.
“Ela vai ficar bem. Foi só um susto” ele disse, aliviado. Mas, ainda havia um pouco de tristeza no olhar do doutor.
“O bebê?”
John assentiu com a cabeça.
“Eu sinto muito”
Tomado pelo impulso do momento, John abraçou Sherlock. Dessa vez, o moreno retribuiu sem que ele precisasse pedir. John ficou calmo. Era surpreendente como um simples abraço de Sherlock poderia lhe causar tal efeito. Talvez não fosse o abraço, talvez fosse simplesmente ele.
...
Dois meses depois
...
Sherlock tinha voltando para 221B Barker Street. Sra. Hudson tinha ficado extremamente feliz, e depois de dar todas as broncas possíveis – que ela só não tinha dado antes, porque Sherlock estava indo embora –, ela mimou o Holmes mais novo de todas as maneiras existentes. Era bom estar de volta, se não fosse pela falta que John fazia... Não importava quando tempo passasse, ele nunca ia deixar de sentir saudades de quando John ainda morava com ele, ás vezes, Sherlock até podia jurar que ouvia seus passos pelo flat.
Será que teria sido mais fácil se ele tivesse ido embora? Duvidava muito, ter ficado longe por dois anos não tinha diminuído o que ele sentia por John. E ele estava piorando. Nenhum caso parecia tão interessante sem que John também estivesse investigando com ele, e por pouco não tinha voltado a usar drogas, mas essa resistência não ia durar muito.
Tinha uma coisa que ele não conseguia esquecer. O abraço de John. E ainda se repetiu duas vezes, John o abraçou duas vezes, no mesmo dia. Sherlock tinha pensado que talvez isso significasse alguma coisa, mas ele estava errado. Foi somente o impulso do momento, se tivesse realmente significado algo, John estaria ali com ele. E se lembrar de seus braços envolvendo John, apertando-o como se fosse tudo que ele precisava, doía imensamente em Sherlock.
“Honestamente, eu não vejo qual é o objetivo disso” disse Mycroft, que estava sentado na antiga poltrona de John, jogando Detetive com o irmão.
Era o segundo dia da semana que Mycroft tinha aparecido no flat do irmão. Ele passou a ir visitar Sherlock constantemente, por precaução. Depois de ver a quantidade de danos que a felicidade doméstica de John e Mary tinha causado ao irmão, Mycroft tinha medo de que ele pudesse se perder novamente. Já tinha acontecido antes. Só durante os dois primeiros meses da vida de casados dos Watson, Sherlock tinha já cedido ao vício das drogas.
“É uma distração, Mycroft” disse Sherlock, observando o tabuleiro montado na sua frente.
“Por que você não arranja um caso de verdade, ao invés de ficar brincando de detetive?”
Sherlock continuou encarando o tabuleiro, sem responder.
“Você só resolveu três casos durante os últimos dois meses” observou Mycroft, insistindo no assunto.
“Qual é o seu interesse no meu trabalho?”
“Nenhum. Mas, se a falta de trabalho levar você a decadência de drogas, então, será um problema, caro irmão”
“Você não tem motivos para se preocupar com isso” disse Sherlock, mesmo sabendo que não era inteiramente verdade.
“Espero que sim” disse Mycroft, erguendo uma sobrancelha. “Alguma novidade com o Moriarty?”
“Nenhuma. Ainda não tenho idéia de como ele fez para aparecer em todas as televisões do país” Sherlock suspirou. Mas, ele tinha que admitir que investigar sobre o Moriarty tinha sido a melhor distração dos últimos meses.
“Pode ser que ele não esteja realmente vivo”
“Essa idéia já me passou pela cabeça” respondeu. “Mas, se não foi ele, quem? Quem, de todas as pessoas do mundo, iria querer causar esse tumulto no país mostrando a imagem do Moriarty para todos. E por quê?”
“Continue focado em descobrir isso. E fique longe daquele seu amigo, Will”
“Billy” corrigiu Sherlock.
Mycroft tinha odiado a nova “amizade” de Sherlock. É claro, que ele sabia que a constante presença do drogado no flat do irmão, era preocupante. Se bem que Sherlock não precisava de influência para fazer besteiras. Sempre foi assim, desde quando era pequeno.
“Ele é uma péssima companhia”
“Um drogado, eu sei. Mas não vou cair na tentação das drogas por causa um garoto” disse Sherlock. “E ele me ajuda com as experiências. Pode ter alguns parafusos a menos, mas é um ótimo químico”
“Não sei se posso concordar, irmãozinho. Nós dois sabemos que a amizade é uma coisa muito perigosa para você”
“Pelo amor de Deus, Mycroft! Não comece com isso de novo” Sherlock já tinha ouvido os sermões do irmão por tempo demais. Na verdade, já tinha ouvido sermões de todo mundo, e já tinha sido suficiente. Falar não ia mudar o que aconteceu.
“Sabia que eu estava certo” disse Sherlock, olhando para tabuleiro, tentando mudar de assunto. “Eu disse para o John na última vez. A vítima que matou”
“Não, eu acho que John tinha razão”
“Hm?” Sherlock ergueu uma sobrancelha para o irmão.
“Você perdeu um detalhe, irmãozinho”
“Qual?”
A campainha tocou.
Sra. Hudson tinha comprado uma nova, e Sherlock não queria tirar o bom humor dela, jogando fora a campainha só por que o som era extremamente irritante. Suspirou duas vezes. Mycroft o encarou, esperando que ele se levantasse e fosse atender. Por preguiça, Sherlock limitou-se a gritar “Pode entrar”. Seja lá quem fosse, estava interrompendo o seu jogo, era bom que ser um cliente com um caso imensamente interessante.
A porta abriu.
Era John.
...
John estava se mexendo muito enquanto dormia, virando de um lado para o outro da cama, apertando o cobertor involuntariamente como se precisasse segurar em alguma coisa. Eram os pesadelos. Quando saiu do exército, ele começou a ter pesadelos, que só pararam depois que ele conheceu Sherlock, assim como o marcar – que realmente era psicológico –, os tremores na mão esquerda, e a solidão. Os pesadelos voltaram depois de Sherlock “morrer”, e agora, ficando tanto tempo afastado do amigo, e da vida que tinham juntos, os pesadelos retornaram.
Todas as palavras que ele disse no túmulo, quando Sherlock estava morto, eram verdadeiras. Sherlock podia não se considerar um herói para as outras pessoas, ele mesmo já tinha dito, que John era aquele quem salvava vidas, mas para John, Sherlock foi um herói. Depois de deixar o exército, John estava se sentindo quebrado, como se nada mais fizesse sentido, como se ele mesmo não tivesse conserto, e não fosse se encaixar em lugar nenhum. Então, ele foi apresentado a um sujeito excêntrico por Mike Stanford, e conheceu a vida no estilo Sherlock Holmes.
Essa vida fazia muita falta. Ele gostava da vida simples no subúrbio, acordar e ir trabalhar no consultório, chegar em casa, e ser recebido por Mary. Mas, a vida agitada, imprevisível que levava com Sherlock na Baker Street fazia falta. Talvez, ele simplesmente tivesse perdido a capacidade de se ajustar a vida civil, depois do exército e de ser o melhor amigo do único consultor criminal do mundo. A vida que ele pensou levar um dia, casar, ter filhos, parecia normal demais.
John abriu os olhos, levou as mãos ao rosto, estava suando frio. Malditos pesadelos. Sentou-se na cama devagar, tentando não acordar Mary, e ficou observando a esposa, pensando em tudo que tinha acontecido nos últimos meses. Uma pergunta estava presente, a mesma que ele fazia todas as vezes que acordava por causa de um pesadelo e olhava Mary dormir. Ele ainda a amava? Ele realmente a tinha perdoado?
Mary era incrível com ele, sempre foi. Ele realmente tinha amado aquela mulher, encontrado nela o que precisava para seguir em frente, mas... Mas, ela tinha atirado em Sherlock. A única pessoa que ele sempre quis proteger. John daria a vida para salvar o amigo, será mesmo que ele perdoaria alguém que tinha o machucado, quem quer que essa pessoa fosse?
Ele não sabia. Não conseguia encontrar as respostas para todas essas, e mais mil perguntas que pairavam em sua cabeça toda noite quando encostava a cabeça no travesseiro.
Mary acordou, e percebeu que John estava sentado na cama, era a quarta vez nessa mesma semana. Nos primeiros dias, ela perguntava se estava tudo bem, e depois dele repetir inúmeras vezes que sim, ela voltava a dormir. Até que ela parar de perguntar, não adiantava. John não conversava mais com ela, não como antes. Só que ela não agüentaria viver assim, sem a confiança dele, para sempre. Naquela noite, Mary acendeu o abajur, e sentou-se ao lado do marido para conversar.
“Volte a dormir. Eu só estou... pensando”
“Não”
“O que?” ele perguntou, surpreso.
“Não. Eu não vou voltar a dormir, não enquanto você não conversar comigo”
“Eu só estou pensando”
“Pensando o que?”
Ele ficou em silêncio.
“John, eu não vou ter sossego, não vou conseguir descansar se você não me contar o que está acontecendo” ela disse, de uma vez. “Eu quero que você confie em mim novamente”
“Você acha que é fácil?” ele perguntou, aumentando a voz.
“Não, eu sei que não é” ela concordou. “Mas, já se passaram meses. Eu achei que depois de todo esse tempo, você já estaria mais aberto para conversar comigo, e ser honesto”
“O que você quer que eu diga?”
“Você acha que vai voltar a confiar em mim? Do jeito que você confiava, antes de-“
“Antes de eu descobrir que você mentiu para mim, não confiou em mim o suficiente para dizer a verdade, e ainda, atirou no meu melhor amigo”
“Sherlock sabe que eu não tive a intenção de matá-lo realmente, eu nunca-“
“Eu sei, eu sei” John a interrompeu. “Você atirou nele, calculando que ele sobrevivesse, mas e se tivesse dado errado? Se você tivesse calculado errado, e ele estivesse morto?”
John suspirou, e eles ficaram em silêncio por minutos. Mary estava pensando em tudo que queria dizer, e resolveu que era à hora de confessar. Ela não podia guardar mais segredos dele, simplesmente não podia.
“Eu não calculei” ela começou. “Eu não calculei para que o tiro fosse o suficiente somente para hospitalizar o Sherlock. Eu realmente atirei nele, com a intenção de matá-lo. Mas, só porque eu fiquei desesperada com a idéia de perder você. E no mesmo segundo, eu me arrependi. Eu liguei para ambulância, primeiro, e torci para que ele ficasse bem. Talvez eu pudesse convencê-lo a não te contar nada. O que não poderia acontecer, era você descobrir que eu matei o seu melhor amigo. Isso não. Você poderia me perdoar por ter mentido, mas não por isso” Mary secou as lágrimas que caiam involuntariamente. “Desculpe-me John, desculpe-me por tudo. Por favor”
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