Unsaid

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Mais uma vez obrigada a todos que estão acompanhando e comentando na história. Fico muito feliz que estejam gostando!!! Mandem energias positivas pro último capítulo sair semana que vem! Até lá tenham um Feliz Natal!

HERMIONE

Ginny levou inteiros cinco minutos para soltar a amiga. Não se viam pessoalmente há algum tempo – por volta de um mês e algumas semanas para ser mais específica, quando saíram para jantar. Ambas se sentiram de volta à universidade, quando apenas algumas horas longe dava saudade nas duas.

Semanas haviam se passado desde a primeira ida ao consultório do Dr. Borges.

Hermione faltara à última consulta com o obstetra e a cada dia que o sol nascia se tornava mais difícil esconder as mudanças em seu corpo.

Seus seios cresceram relativamente, mas tão pouco perceptível que poderia ser confundido com um simples inchaço. E estavam sensíveis como nunca, o que até o presente momento não era de todo ruim.

Os enjoos e náuseas deram lugar a uma enorme sonolência, tudo era motivo para um bom cochilo. Convenientemente Hermione era sua própria chefe e fazia seus próprios horários.

Sua barriga crescia discretamente, dando sinais de que ali se desenvolvia um ser vivo, muito embora ela ignorasse esse fato pela maior parte de seus dias.

Passara a evitar Ron, mas mal conseguia estar no mesmo cômodo que o marido sem se manter muito longe, logo o evitava o máximo que podia. Evitava que ele a visse em poucas roupas e quando não podia ficava em posições estratégicas, tudo para que ele não tivesse uma boa visão de seu corpo.

Não se orgulhava, claro, mas não conseguia... Todos os dias que acordava, que Ron a encarava com seus olhos incrivelmente azuis ela se perguntava o que diabos estava fazendo?

Mas não conseguia.

Tudo parecia tão recente. Sempre pensava no bebê que tivera por algumas semanas, em todos os bons sentimentos que surgiram dentro de si e que perdera, fazendo-a se sentir incapaz de compartilhar tudo mais uma vez. Por isso mantinha tudo para si, assim quando as coisas dessem errado a dor não seria tão intensa e não a veria nos rostos dos amigos, familiares e principalmente de Ron. Já bastava vê-la quando se encarava no espelho, era capaz de viver com isso.

Fazia sentindo para ela.

Dessa forma, encontrava forças para manter aquilo com ela. Não era um segredo, não era uma mentira, apenas a maneira que encontrara de se poupar. De poupar a todos.

Fazia muito sentido para ela.

Em seguida, Ginny abraçou o irmão e Harry apareceu com o pequeno James em seu encalço.

— Dindaaa! – o menino gritou e se jogou nos braços do casal.

— Nada de dinda pra nós enquanto não terminarmos de arrumar nossa mala. – Harry puxou James de volta, deu um beijo na bochecha da amiga e voltou para o quarto.

Ginny era só sorrisos. Além de estar revendo a amiga, aquele um dia e meio seria de descanso: de ser estilista, esposa e mãe de um menino agitado de três anos.

Harry, seu marido, viajaria a pedido do próprio padrinho, Sirius Black, para resolver problemas familiares. Aproveitando a ocasião decidiu levar o filho, dando algumas horas de paz à esposa e ares novos ao menino. Também, aproveitando a ocasião, pedira que Ron o acompanhasse. Amava o filho, mas não era fácil cuidar de um menino agitado de três anos.

Ron jamais confessaria que pedira a irmã que fizesse companhia à Hermione e, claro, se ela soubesse jamais aceitaria. Não lhe dera muitas informações, não verbalizaria aquele segredo que transformara a relação em um caos sem que eles se dessem conta, mas pedira que ela conversasse com a mulher que ambos amavam.

Com as bagagens devidamente no porta-malas e James devidamente afivelado na cadeirinha de bebê (embora ele não gostasse que o chamassem de bebê), Ron puxou Hermione pela cintura e beijou seus lábios.

— Voltamos amanhã no final da tarde. – os olhos azuis se fixaram nos castanhos.

E ele sentiu falta da época em que conversavam apenas pelo olhar, tamanha cumplicidade. Em eventos sociais bastava uma olhada mais demorada para saber que ela queria ir embora, que estava se divertindo à beça ou que detestava alguém.

— Eu te amo. – ela sussurrou.

— Também te amo.

Assistindo ao carro partir, a vozinha que adorava contraria-la a acusou: você deveria ter contado!

Sim, ela deveria ter contado e quase contou. Assim como em todas as milhares de oportunidades que tivera, mas ainda não se sentia pronta.

Horas mais tarde, após os meninos partirem, Hermione se sentia um tanto sentimental (mais do que o considerado normal para ela) e um tanto culpada. Ginny, contudo, fazia um ótimo trabalho como anfitriã mantendo a conversa pelas duas. Era delicioso escutar a amiga falar sobre as centenas de pessoas que procuravam o seu serviço e todas as peças maravilhosas que criara.

Ginny desenhara tanto o vestido de casamento de Hermione quanto o seu.

As amigas se conheceram em uma das primeiras festas de boas-vindas da universidade. Foi amizade à primeira vista. Ginny passou boa parte da noite consolado Hermione sobre seu término recente. Hermione evitava falar sobre o ocorrido e negava até a morte que isso realmente acontecera. A verdade é que Córmaco, seu namorado de escola, não aceitou as escolhas que ela fizera sobre sua própria vida.

A decisão mais acertada, é claro, foi terminar.

As duas se tornaram inseparáveis. Onde Hermione estava, Ginny logo aparecia. Não demorou muito para que os grupos de amigos de ambas se enturmassem.

E, claramente, por intermédio de Ginny, Ron e Hermione se conheceram. Não foi amor à primeira vista, aliás, não foi amor à primeira vista para Hermione, já que Ron ficou caidinho por ela assim que seus olhares se cruzaram.

Ainda levou algum tempo para que o casal se tornasse um casal. Antes disso, ambos engataram em outros relacionamentos que felizmente não deram certo, mas eventualmente, após se graduarem, eles resolveram se dar uma chance – para a alegria dos muitos amigos que torciam pelos dois.

— Para comemorarmos essas vinte e algumas horas de liberdade acho que devemos fazer uma torta!

Com os ingredientes que haviam na casa, elas não tiveram outra opção a não ser fazer uma torta banoffee: a preferida de Ginny.

Levaram o resto da tarde e início da noite para fazê-la. Apesar de gostosa a sobremesa era trabalhosa. Hermione ainda não tinha tido nenhum desejo desde que se descobrira grávida, mas após finalizarem a bendita se viu desejando um pedaço generoso de torta.

— O recheio ficou um pouco mole. Vamos deixar um tempinho no congelador e depois comemos.

Hermione quis protestar, não se importava com o estado do doce, só queria comê-lo, mas se resignou a seguir a amiga para a sala.

Elas se esparramaram pelo sofá confortável e escolheram um filme que estreara ano passado na plataforma de filmes e séries:

Holidate

Não era exatamente um filme de Natal, mas dava para o gasto.

Também não era grandes coisas, contudo, ela rira bastante. Apesar da protagonista ser branca, conseguia perfeitamente visualizar Ron e ela no início dos flertes: atraídos um pelo outro e em negação.

Sem falar que o ator principal era um gato e lembrava Ron.

Ela e Ginny pausaram o filme diversas vezes, rindo, sentindo vergonha alheia dos personagens e teorizando o que fariam de diferente.

Hermione começou a se dar conta de há quanto tempo não se divertia como naquelas poucas horas.

Não lembrava qual fora a última vez que estivera em um cinema.

Ou que saíra a noite com o marido ou amigos exclusivamente para farrear...

Olhou para Ginny, que, distraída com o filme, passava a mão pela barriga em movimentos circulares, quase como se... quase como se acarinhasse um bebê.

Ou estivesse passando mal do estômago.

— Tá tudo bem, Gi?

— Claro, por que não estaria?

— Não, nada. É que você tá com a mão na barriga como se estivesse com dor, não sei.

Ginny olhou para baixo, constatando o que a amiga dissera. Ela fechou os olhos se dando conta de que fora pega com a boca na botija.

— Eu não sei como te contar isso. – ela pausou o filme mais uma vez. — Realmente queria que você fosse a primeira a saber, por conta de toda nossa amizade e tudo que compartilhamos até hoje. – ela sorriu de lado e pegou uma das mãos de Hermione. — Eu te amo muito, Mione, é como se fossemos irmãs de sangue.

— Fala logo, você está me assustando.

Ginny abre a boca duas ou três vezes sem emitir nenhum som, até que:

— Eu estou grávida, de três meses. Descobri semana passada.

Hermione ficou genuinamente feliz pela amiga, pulou em seus braços em comemoração.

— Nós nem estávamos tentando nem nada, foi realmente um acidente. – Ginny falou em tom de desculpas.

— Eu estou tão feliz por você, será que podemos ser os padrinhos desse bebê também?

Ambas riem, até que Hermione começa a chorar, refletindo o quão feliz ela deveria estar: surto, felicidade e crise existencial.

— Mione, você está bem? Vou buscar um pouco de água para você.

Mione se aconchega na amiga e bebe a água. Nem ela mesma sabia se estava bem, um turbilhão de sentimentos passavam por seu coração. Mas estava feliz, como não poderia estar? Ginny e Harry sempre quiseram ter a casa cheia de crianças, ela refletindo a infância que tivera, ele projetando a infância que poderia ter tido.

— Eu realmente não sabia como te contar por conta de tudo o que aconteceu, mas você é minha melhor amiga e eu não podia deixar de te contar. – Ginny a apertou mais ainda em seus braços. Incerta do que dizia, com medo de machucar uma das pessoas que mais amava. – Espero que você não esteja chateada.

— Eu tô chorando de felicidade, Ginny. – ela limpou o rosto, embora as lágrimas insistissem em descer. – Como eu poderia estar chateada? Estou muito feliz por vocês, dá pra ver o quanto você está feliz e na verdade isso me deixa envergonhada.

— Como assim, amiga? – Ginny não poderia estar mais confusa.

Hermione respira fundo antes de falar, tentando ignorar e trancar o aperto em sua garganta. Finalmente admitiria em voz alta.

— Há quase 2 meses eu descobri que... também estou grávida. – assim que as palavras foram atiradas ao ar não pode pegá-las de volta.

De alguma forma seu coração ficou um pouco mais leve, não soube explicar.

— Ah meu Deus, Hermione! – uma Ginny feliz a abraça e mais cascatas de lágrimas saem dos olhos das duas. — Eu só não entendi porque você estaria envergonhada.

— Eu estou com tanto medo, não quero ter que passar por tudo de novo. – o choro toma conta de seu corpo.

Ginny a abraça forte, tentando passar calma e conforto através do gesto. Não é como se ela mesma não tivesse medo de que algo acontecesse ao seu bebê. Pensava em Hermione todos os dias e desejava que a amiga ficasse bem.

— Se eu pudesse juro que faria o impossível para garantir que nada de ruim vai acontecer e ninguém me impediria. Infelizmente, eu só sou uma mortal e só posso te prometer coisas de uma pessoa normal: não importa o que aconteça, Mione, eu sempre estarei ao seu lado pra segurar suas mãos e secar suas lágrimas. E não tenha dúvidas de que tanto Harry e, principalmente, Ron, pensam a mesma coisa. Às vezes eu acho que você não faz ideia do quanto todos nós nos importamos com você.

Hermione sabia, era o quanto ela se importava com todos eles também, mas ao mesmo tempo não sabia. É isso o que a insegurança faz conosco.

— Posso... te perguntar uma coisa? – Hermione assentiu. – Você ainda não contou para Ron, não é?

— Como todo mundo parece saber disso, está tão óbvio assim? – ela riu um pouco.

— Parece até que você não vê quão louco ele é por você. Acho até estranho ele não ter percebido, já que vocês vivem juntos.

Ela via sim, mas, mesmo após sete anos juntos, – e quase trinta anos de vida – ainda tinha um pouco de dificuldades em entender que era tudo verdadeiro. Hermione não tivera o amor de um pai completamente presente, sua mãe suprira todas as suas necessidades emocionais. Os rapazes na escola a consideravam uma insuportável sabe-tudo, – ela mesma não negava que fosse – mas, longe dos holofotes, a desejavam.

Felizmente, ela sabia mais que isso.

Se não fosse por sua mãe, Hermione não seria uma adolescente centrada.

Ela queria mais para si mesma.

Ela amava Ron, sabia que ele a amava, mas, de vez em quando, aquela vozinha sussurrava em seu ouvido, projetando suas inseguranças.

— Não foi por falta de vontade. – ela deu um meio sorriso para a amiga. — Eu estava tomando banho quando comecei a sentir as dores. Não demorou nada para o chão ficar completamente vermelho. Achei que eu fosse morrer...

Não precisava fechar os olhos para relembrar aquele dia fatídico: assim que percebeu o que estava acontecendo, gritou por Ron a plenos pulmões, com medo de que qualquer movimento brusco piorasse a situação. Ele logo apareceu ofegante às portas do banheiro.

Foram as pressas ao hospital. Ron ligou para o obstetra, doutor Borges, no caminho.

Dias mais tarde receberiam duas multas por infração no trânsito.

A equipe médica levou Hermione para fazer alguns exames e só permitiram que Ron ficasse ao seu lado horas depois. Mesmo fortemente sedada ela já sabia, se sentia diferente, algo estava diferente dentro dela.

Ao receberem a notícia – um aborto espontâneo que apenas uma investigação minuciosa diria a causa exata – viu como Ron tentou disfarçar, mas ele estava arrasado. Enquanto ficou no hospital recebeu algumas visitas, elas mal conseguiam olhá-la nos olhos e quando o faziam eram olhares de pena e dor.

Finalmente em casa, criou um casulo em volta de si. Talvez assim conseguisse aplacar aquela sensação de que fora sua culpa.

Ela era a única responsável por proteger e nutrir o bebê e nem disso fora capaz. Pensamentos horríveis rondaram sua cabeça

— Vou te dizer uma coisa, mas não é só porque Ron é meu irmão. Além de seus pais, e de mim, claro, não há pessoa nesse mundo que te ame mais do que ele. Vocês dois sofreram muito. Todo mundo viu seu sofrimento, Mione, e ainda veem, mas ninguém vê o sofrimento do Ron, porque ele fez de tudo para mascarar e guardar o que estava sentindo. Para te ver bem. Eu sei que você não contou a ele porque ele está com o mesmo olhar triste dos últimos meses.

Era interessante ver seu relacionamento sob essa perspectiva. Pela primeira vez em muito tempo, Hermione percebeu o quanto sua vida, e o que acontecia nela, podia afetar outras pessoas indiretamente.

Sua dor não era sua exclusividade, sua dor também atingia aqueles que a amam.

— Já volto! Vou pegar a torta. – Ginny levantou-se em um salto. – Estamos precisando de um pouco de açúcar em nossos corpos.

Assim que se vê sozinha na sala, Hermione abraça os joelhos. Um flash dos últimos quatorze meses passa em frente aos seus olhos: não estava sendo honesta com ninguém, nem com Ron e muito menos consigo mesma.

O filme ficou de lado e elas conversaram a noite toda. Fazia tempo que Hermione não se abria assim e se sentiu mais leve, embora a sensação de vergonha não a deixasse.

Todos aqueles sentimentos presos dentro de si, como não explodira? Ninguém deveria se sentir assim. Pela primeira vez em muito tempo começara a pensar racionalmente: nunca mais deixaria que os sentimentos falassem mais alto.

Ok, talvez só de vez em quando, afinal ainda era um ser humano.

Contaria.

Contaria a Ron assim que ele pusesse os pés em casa.

Em seguida voltaria ao consultório do Dr. Borges, desta vez com Ron.

E pediria um encaminhamento ao psicólogo. Apesar da mente mais clara, estava longe de estar bem mentalmente.

Muito mais tarde, ela e Ginny dormiram na cama tamanho King do quarto de casal.

Pela manhã de sábado enviara uma mensagem a Ron:

Bom dia

Saudades

Estão se divertindo? Que horas vcs chegam?

Te amo

As saudades faziam parte da culpa. Agora, em retrospectiva, via o quanto tudo o que não fora dito e feito poderia estar prejudicando o relacionamento.

Desejou que Ron voltasse logo, queria dizer que o amava mais uma vez e que ele dissesse que tudo ficaria bem.

Um dia nunca passou tão devagar.

Mais tarde, já em casa, ele ainda não havia respondido sua mensagem.

Mas não estava nem um pouco preocupada.