Unsaid
4 Capítulo 4

A porta bateu atrás de Ron, não fora sua intenção. Largou a bolsa que usara na viagem e sentou-se no sofá, cansado.
Cansado a ponto de não ter forças para subir até o quarto.
Quando na verdade não sabia se realmente queria.
Houve um tempo em que aquele era seu refúgio, o lugar que mais amava no mundo, onde morava uma das pessoas mais importantes para sua vida, mas não a reconhecia mais.
Nas últimas semanas ir para casa significava estar desconfortável em seu próprio lar, significava encontrar Hermione e ultimamente vê-la significava encarar a mentira entre eles.
Não achou que duraria tantos dias, no entanto, cada dia que passava aquele segredo o consumia mais e mais por dentro.
Como ela conseguia manter as aparências?
Ele passara a evitá-la sempre que possível, contudo, os sentimentos entre eles, cultivados durante todos os anos em que estavam juntos, não o permitiam ser frio e distante. Quando Hermione se aninhava em seus braços e ele sentia o cheiro levemente floral de seu perfume algo se apagava dentro de Ron pelo tempo necessário para suprir sua carência.
O que ela havia feito com ele? Se sentia enfeitiçado e muitas vezes dominado por um simples roçar de mãos que compartilhassem, o que não significava algo completamente ruim, só… não sabia como explicar.
Como era possível ser tão apaixonado por alguém depois de todo esse tempo?
Ron suspirou, inspirando o ar pesadamente. Cogitou dormir no sofá, não era tão desconfortável assim. Passaram tantas noites ali com o afilhado ou apenas cochilando durante um filme qualquer, não seria diferente.
Não.
Era uma mentira deslavada.
Claro que não seria a mesma coisa. Voltara para casa pois não suportava a ideia de ficar sem a mulher que amava, apesar de tudo a amava e tentava seguir em um ritmo ditado por ela.
Mas cogitava tantas coisas... algumas que não tinha coragem de verbalizar.
Estava sendo difícil, embora ninguém nunca, jamais, lhe prometera que seria sempre fácil.
Finalmente se levantou em direção à cozinha. Preparou um rápido sanduíche e o comeu em tempo recorde. A louça suja deixou na pia, lavaria pela manhã.
Recolheu a bolsa de viagem junto a porta e subiu para o segundo andar da casa. A viagem durou um pouco mais que o planejado. Prestes a deixar a mansão dos Black, os amigos foram pegos por uma repentina tempestade, com direito a raios, trovões e ventos fortíssimos. Nenhum dos dois teve coragem de dirigir no temporal, por isso preferiram esperar tudo passar. Aproveitaram mais algum tempo com o tio Silius, afinal, Harry e James só voltariam ali para o Natal.
A meio caminho do quarto e só então percebeu o barulho e a luz da televisão vindos do final do corredor. Ron conferiu o horário no relógio de pulso:
02:51
Hermione estava acordada?
Ao entrar no cômodo que dividiam não conseguiu evitar o sorriso em seus lábios. A TV estava ligada em algum episódio aleatório de The Office US, seriado que amavam, e Hermione dormia em uma posição bem peculiar: a perna direita dobrada sob a esquerda, cada braço em um ângulo diferente e a cabeça pendendo para um lado, algo que poderia render uma baita de um torcicolo e dores pelo corpo.
Ron travou uma batalha interna para decidir se a arrumava ou não na cama, pois Hermione possuía o sono leve. Qualquer respirar era motivo para acordá-la e ainda não tinha muita certeza se queria falar com ela naquele momento. Por fim, apenas ajeitou sua cabeça no travesseiro e a cobriu com o cobertor, estava um pouco frio.
Ele largou a bolsa em um dos cantos do quarto e rumou para o banheiro da suíte, onde tomou um banho de mais ou menos 20 minutos. Algum tempo atrás Hermione teria gritado com ele, pedindo que desligasse o chuveiro a fim de economizar água e energia: o meio ambiente agradeceria.
Ron vestiu um samba canção, desligou a TV, deixando o quarto no completo breu e deitou-se de lado na cama, de costas para Hermione, que continuava na mesma posição. Suspirou, tentando ser o menos audível possível.
Raramente a posição em que dormiam significava alguma coisa.
Gostava de dormir sentindo a pele de Hermione contra a sua, seu cabelo fazendo cócegas em seu pescoço, mas também gostavam de dormir livremente, cada um em seu canto. Naquele momento em específico, sentia que precisava de um tempo longe, mesmo que ali longe fossem cerca de vinte centímetros de distância.
De olhos fechados, o mundo dos sonhos já o abraçava, sua mente começava a voar distante quando um par de mãos o envolveu trazendo o de volta à realidade. As mãos de Hermione se encontraram sobre o peito de Ron enquanto ela exprimia o rosto contra os ombros largos e nus do marido, aspirando seu cheiro de sabonete.
Ron pousou as mãos sobre as delas e as acariciou.
— Que bom que você voltou. – ela disse contra a pele dele. Ron sentiu a vibração de sua voz por todo seu corpo, mas nada respondeu. — Te esperei a noite toda, você não respondeu minhas mensagens.
— A bateria do meu telefone acabou. – o que não era uma mentira. Ele recebera suas mensagens e as leu pela barra de notificações do celular, escolhendo não responde-las assim que recebeu. Quando se deu conta de que um bom tempo havia se passado percebeu que a bateria do celular acabara.
Aquela era só mais uma barreira entre todas as que eles criaram entre si. Ron só queria que as coisas voltassem ao normal entre eles, por que era tão complicado assim?
— Eu queria te contar uma coisa... – sua voz quase imperceptível, mas sensível aos ouvidos de Ron.
— Queria? Não quer mais? – ele se virou para encará-la e foi recebido por um rolar de olhos, típico dela – não de um jeito ruim, ele sempre se divertia com sua expressividade.
Apesar do breu, uma fresta da cortina estava aberta, possibilitando que um faixo de luz proveniente da rua entrasse no quarto.
— Ainda quero, só... – ela desviou o olhar, encarando os dedos.
— Só...? – Ron se sentiu ansioso. Desejou que o momento que tanto ansiara finalmente estivesse acontecendo.
Hermione mordeu o lábio inferior, lutando contra tudo o que estava sentindo e apertou os olhos com força. Toda a conversa com Ginny ainda estava fresca em sua memória.
Antes de acordar, sonhou com isso. Só não tinha certeza de que fora exatamente um sonho, estava mais para um pesadelo.
Sonhara que Ron retornara de viagem bem mais cedo, que ela o recebera em seus braços e sussurrava em seu ouvido a notícia que guardava a tanto tempo dentro de si.
Contudo, ao invés do sorriso caloroso de felicidade, Ron a tratava com desprezo e ameaçava divorciar-se. Longe de ser o homem com o qual se casara. Só em lembrar lhe causava calafrios.
— Estou com medo da sua reação, medo do que pense sobre mim e não me perdoe. – ela abriu os olhos, ainda sem encará-lo.
Ron sentou-se e acendeu o abajur da mesa de cabeceira. Aquele era um ponto interessante, pois até aquele momento não pensara a fundo sobre esta questão.
Não pensara porque de todas as coisas que cogitou aquela não era uma. Ele estava quebrado, Hermione mais ainda, então, sinceramente, qualquer ação tomada não estava dentro da norma padrão entre eles.
— Mione, – Ron pousou a mão sobre a cintura dela, chamando sua atenção. — acho que mesmo se você atirasse para me matar eu te perdoaria. – falou brincando, embora fosse a mais pura verdade.
Ela também se sentou, rindo um pouco.
E logo o riso se transformou em choro, pesadas lágrimas caíam do rosto dela. Ron engoliu em seco e a abraçou. Engraçado como se encaixava tão bem nos braços um do outro.
Como era possível ainda ter lágrimas dentro de si? Chorara tanto nos braços de Ginny, achou estar seca por dentro.
— Tá tudo bem. Eu te amo. – ele a tranquilizou enquanto acariciava seu cabelo cacheado. — Você pode me contar qualquer coisa.
Apesar de tudo, aquela era a primeira vez em que a via chorando nessa intensidade depois dos primeiros meses após o aborto. Sua própria visão estava turva pelas lágrimas contidas.
Sabia que se ela continuasse chorando por mais alguns minutos também não resistiria.
Hermione se soltou de Ron e limpou as lágrimas das bochechas. Ao terminar o encarou, o fantasma do choro ainda em sua garganta. Ron envolveu as mãos dela entre as suas, como se lhe passasse força.
Por que ele tinha que ser tão atencioso e cuidadoso quando ela não se sentia digna de seu olhar, nem de seu toque, de nada que a confortasse?
— Ron, eu... – mais uma vez mordeu o lábio antes de falar. Não deveria ser tão difícil, dissera a Ginny, podia contar a Ron também, mais do que tudo a ele. Suspirou. — Eu estou grávida. – pronto.
Ron fechou os olhos, aliviado.
— Eu sei. – disse sem se conter.
— Você... sabe? – ela perguntou confusa. Ginny lhe contara?
Sim, ele sabia, mas nada tirava a alegria de escutá-la dizer. Se sentiu como alguns meses atrás quando escutou essa mesma frase pela primeira vez. Lembrava-se de ter rodopiado Hermione no meio da sala, deixando-a nauseada. Mais tarde saíram para jantar e tiveram uma noite bastante inesquecível.
A sensação foi parecida e completamente diferente.
Quando decidiram engravidar pela primeira vez não fizeram nenhum plano, algo que definitivamente não combinava com Hermione Granger. Não tentaram, apenas não tomaram nenhum cuidado para prevenir uma possível gestação.
Jovens e descuidados, uma hora ia acontecer.
Aconteceu e acontecera novamente.
— Eu percebi, é claro. Seus enjoos, os vômitos... Depois eu achei o teste de gravidez, o que foi completamente sem querer, eu juro por tudo que é mais sagrado. E de repente você voltou a ficar disposta para tantas coisas, sem falar no seu humor. Mesmo que aos poucos, fazia tempo que não te via tão feliz. – Ron levou as mãos dela aos seus lábios e as beijou. — Eu reparo em você, mais do que você imagina e mais do que eu gostaria às vezes.
— Por que não falou nada? – subitamente ela se sentiu uma boba, carregando essa culpa para cima e para baixo quando Ron já sabia. Mas não é como se não tivesse sido avisada: tanto o doutor Borges quanto Ginny afirmaram que se surpreendia por ele não ter percebido nada.
— Como eu poderia, Mione? Desde... outubro passado eu venho fazendo as coisas no seu tempo, com medo de te magoar de alguma forma. Eu tenho pisado em ovos, Hermione, com medo de dizer algo errado e você... – me deixar, me afastar mais ainda, quis dizer. — Eu te amo, tanto que dói às vezes, mas... eu também me amo e... não foi só você que sofreu. Nosso bebê estava dentro de você. Naquele dia uma parte de mim também se foi, eu precisei ser forte, por nós dois, por você... E então eu achei que você estivesse quebrada para sempre. – as lágrimas contidas em seus olhos finalmente se libertaram, rolando pelo longo nariz de Ron.
Era a primeira vez que confessava isso em voz alta e foi tudo o que quis fazer durante todos aqueles meses: conversar abertamente sobre seus fantasmas. Era só disso que precisava.
Hermione se inclinou sobre ele e secou algumas lágrimas, as suas próprias brilhando nos olhos castanhos.
— Eu consigo lidar com a Mione mandona, que vive dando uma de sabe-tudo, que tem as respostas para tudo na ponta da língua. Para mim são suas qualidades e eu as amo demais. – Ron tinha a voz embargada. Não estava acostumado a falar e chorar. Quando chorava o fazia em silêncio, longe dos olhares curiosos. — Mas não sei como lidar com a Mione fragilizada, quieta, que me rejeita, que me afasta quando deveríamos estar mais unidos do que nunca. Eu também estou sofrendo e não sei por mais quanto tempo vou aguentar isso, por mais quanto tempo vou aguentar sua indiferença.
De repente, um estalo se fez na cabeça de Hermione.
Ela realmente precisava reagir. A vida continuava fora da pequena redoma que construíra ao seu redor. Afastar todos de seu convívio não significava que seus problemas e questões sumiriam como em um passe de mágica.
Não tinha uma conversa aberta e franca com Ron há meses. Precisavam da intimidade que sempre compartilharam de volta, precisava da Hermione que sempre fora de volta.
Só uma conversa, como sempre fizeram. Ser honestos um com o outro e, principalmente, consigo mesmos.
Sentia que quebrara a confiança do casal, mas agora estava disposta a consertar tudo.
Talvez fosse cedo demais para culpar suas ações nos hormônios da gravidez, mas não tarde o bastante para retomar o que tinham.
— Eu te amo, Ron e nunca deixei de te amar ou amei menos. Acho que eu só precisava de um tempo para arrumar as coisas aqui dentro. – apontou para o próprio coração. — E nesse processo acabei deixando de lado a pessoa mais importante para mim, sendo que jamais foi minha intenção. Em todos os momentos de nossa vida, principalmente quando... perdemos o bebê, você se mostrou tão forte que acho que eu esqueci que você também estava sentindo.
Hermione secou as últimas lágrimas no rosto de Ron e deitou a cabeça em seu ombro.
— Eu te amo tanto, Ron. Por favor, me deixe compensar.
Após a sessão de choro dos últimos dois dias, não entendia mais por que fora tão irracional, mal se reconhecia. Há poucos dias tinha tantas certezas e agora não sabia de mais nada.
Os dois ficaram abraçados por algum tempo, pareceram horas, mas na realidade apenas alguns minutos se passaram. Até que exaustos, dormiram, ainda abraçados.
Na manhã que se seguiu, Hermione acordou primeiro. Seria um fato corriqueiro se nos últimos meses os papéis não tivessem se invertido. Muitas vezes ela não sentia a menor vontade de levantar-se da cama e fazia tudo automaticamente.
Mas não naquela manhã de domingo.
Os braços de Ron ainda a envolviam fortemente, foi um grande sacrifício desvencilhar-se do aconchego que ele passava.
Tomou um banho rápido, vestiu algo que não fosse pijama e desceu para preparar o café da manhã.
Estranhamente, se sentia renovada. Lá fora o dia estava claro, o sol brilhava e o céu azul estava cintilante. Ouviu os pássaros cantarem, como se lhe dissessem: uma nova oportunidade, Hermione.
Ela preparou a mesa com as comidas que eles mais gostavam. Atraído pelo barulho ou pelo cheiro de ovos fritos, Ron logo se juntou a ela.
Ele não fez cerimônias, a abraçou pelas costas e encostou o rosto em seu ombro.
— Caso não tenha ficado claro, estamos juntos nessa. O que você decidir, o que você quiser fazer é lei. – Ron deslizou as mãos até a barriga de Hermione, pela primeira vez tocando a saliência que viria a ser seu bebê. Pequeno o suficiente para caber na palma de uma das mãos.
Hermione assentiu e pôs as mãos sobre as de Ron, subitamente invadida de uma emoção até então desconhecida. Não sentira isso da primeira vez, mas achava ser proveniente de finalmente ter aceitado tudo o que estava por vir.
Ainda não se sentia cem por cento, mas tudo ficaria bem. Tinha tudo o que precisava bem ali.
Os dois passaram o dia inteiro conversando, colocando os devidos pingos nos is.
Com o tempo, tudo voltaria aos eixos.
Hermione manteve sua palavra e foi atrás de ajuda psicológica assim que a semana recomeçou.
Doutor Borges ficou feliz em ver que Ron a acompanhara na consulta.
Ela fez tudo certo, nada poderia dar errado dessa vez.
Muitas semanas depois, durante um almoço corriqueiro no sítio da família Weasley, a bolsa de Hermione estourou.
— Sortuda! – Ginny exclamou, acariciando a própria barriga de quase nove meses. Arthur Remus Potter não tinha planos a curto prazo de sair de seu recanto seguro.
No início da noite, Rose Lynn Weasley, de cabelos ruivos cacheados, como a mãe e olhos azuis, como o pai, nasceu.
Escolheram Rose porque a criança de um casal, após um aborto espontâneo, é chamada de bebê arco-íris.
Não há rosa no arco-íris convencional, mas havia no de Ron e Hermione.
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