Unraveled

3 Your Holy Water


Notas iniciais
🌧️ Olá, meus amores! ❤️ Chegamos ao capítulo 3. Se os dois primeiros capítulos foram sobre conhecer a Bella e entender a forma como ela enxerga a si mesma, este capítulo começa a mostrar algo ainda mais importante: a diferença entre a realidade e a narrativa que ela construiu dentro da própria cabeça. A parte da música escolhida para abrir este capítulo fala sobre alguém disposto a atravessar limites, assumir crises e permanecer presente mesmo quando seria mais fácil recuar. E essa é uma ideia que vai acompanhar toda a trajetória de Unraveled. Também vamos conhecer um pouco mais do Jasper, que terá um papel muito importante na história. Porque, às vezes, a pessoa que nos ajuda a sobreviver não é aquela que nos salva, mas aquela que nos obriga a olhar para as verdades que passamos anos tentando evitar. Espero que gostem. ❤️ Boa leitura!

“I'll be your crisis handler, I'll be your boundary passer / I'll be your holy water, if you're the thief…”

— Olivia Rodrigo, The Cura

Capítulo 3: Your Holy Water

O teto do consultório do Dr. Jasper Hale era pintado em um tom de off-white que, nos dias mais cinzentos de Forks, parecia absorver a melancolia do lado de fora e devolvê-la em forma de um silêncio quase palpável. Naquela manhã de sexta-feira, o relógio de parede de carvalho escuro marcava exatamente dez horas, e o som rítmico do ponteiro dos segundos parecia competir com as batidas descompassadas e cansadas dentro do meu peito. Eu estava acomodada na poltrona de veludo cotelê verde-musgo, uma peça anatômica que teoricamente deveria induzir ao relaxamento, mas que apenas me servia como um casulo onde eu tentava me encolher. Minhas pernas estavam cruzadas, servindo de apoio para o pequeno bloco de folhas de alta gramatura que eu sempre trazia comigo. Meus dedos, manchados de grafite escuro, moviam-se com uma velocidade febril, quase violenta, enquanto o pedaço de carvão raspava contra a textura porosa do papel, deixando um rastro de sombras e linhas profundas.

Jasper observava-me em silêncio de sua poltrona oposta, com aquela postura impecável de quem sabe ler os micro-movimentos de um corpo em colapso. Ele segurava uma caneta entre os dedos, mas não anotava nada; seus olhos azuis-acinzentados, calmos e analíticos, estavam fixos na forma obsessiva como eu conduzia o traço. O ambiente cheirava a chá de camomila e papel antigo, um contraste absoluto com o odor de antisséptico que ainda parecia impregnado na minha pele desde a consulta de terça-feira no hospital. Minha mente, no entanto, operava em seu modo mais venenoso. Eu me sentia uma fraude ali dentro, gastando o tempo de um profissional para tentar organizar uma cabeça que, eu tinha certeza absoluta, nascera com os fios irremediavelmente trocados.

O desenho no meu colo ganhava forma através de hachuras densas, uma mistura de sombras que se erguiam como uma névoa ao redor de duas órbitas profundas. Eu estava tão imersa no fluxo do carvão que não percebi o momento em que as linhas abstratas começaram a se curvar em uma simetria anatômica perfeita. Com movimentos curtos, esfumei a borda do papel com a ponta do indicador, criando uma expressão de foco, misturada a uma intensidade avassaladora e quase dolorosa de se encarar.

Jasper inclinou-se ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, quebrando o silêncio da sessão com sua voz pausada e terapêutica:

— E de quem são esses olhos, Bella? — ele perguntou, o tom suave, mas direcionado com a precisão de um bisturi emocional.

Parei o traço no mesmo instante. Afastei o bloco alguns centímetros do meu corpo, limpando o excesso de pó preto na calça jeans, e encarei o papel. Um frio violento cortou a minha espinha, fazendo o buraquinho no meu septo interatrial dar um solavanco físico. Eu não tinha percebido. Involuntariamente, guiada por uma memória muscular e visual que se instalara sob a minha pele, eu havia desenhado aqueles olhos. Duas fendas profundas, expressivas, que pareciam me encarar de volta com uma promessa de cura e de perigo. Eram os olhos verdes do Dr. Edward Cullen.

Senti minhas bochechas queimarem, uma vergonha ácida subindo pela minha garganta enquanto a minha síndrome de impostora gritava que eu era uma psicótica ridícula por fixar as feições de um médico que conhecera há poucos dias. Engoli em seco, olhando para o carvão quebrado entre meus dedos.

— São... são do Dr. Edward Cullen. O filho do Carlisle — respondi, a verdade escapando em um fio de voz áspero, porque eu sabia que mentir para o Jasper seria apenas mais uma farsa inútil na minha lista de encenações diárias. — Eu... eu os desenhei sem querer. Minha mão só foi seguindo o formato.

Jasper acomodou-se de volta na poltrona, seus olhos brilhando com uma curiosidade clínica que ele tentou suavizar com um aceno leve.

— O novo cardiologista que assumiu o seu caso. O cirurgião — ele pontuou, processando a informação antes de lançar a pergunta que fez meu estômago revirar. — Bella, você está a fim do seu médico?

O silêncio que se instalou no consultório foi absoluto, quebrado apenas pela chuva fraca que começava a açoitar o vidro da janela. Olhei para o desenho, os olhos de Edward parecendo me julgar na folha branca. Eu queria mentir, queria dizer que era apenas um estudo de anatomia técnica, mas o peso da noite anterior ainda esmagava o meu peito.

— Eu não sei... — confessei, largando o carvão no vão do caderno e cobrindo o rosto com as mãos limpas de grafite. — É ridículo. É completamente patológico. Eu stalkeei o Instagram dele ontem à noite, Jasper. Passei horas olhando a vida perfeita dele, contando as mulheres brilhantes que orbitam ao redor dele, apenas para me certificar do tamanho do abismo que existe entre nós dois. Eu queria me provar que sou insignificante perto dele. Mas aí... do nada, enquanto eu ainda estava no perfil, ele começou a me seguir. E ele curtiu minhas fotos. Fotos velhas, fotos dos meus desenhos, detalhes estúpidos que ninguém liga. Ele passou a noite me olhando no escuro da internet. Eu sinto que ele está... invadindo um espaço que eu passei a vida inteira tentando lacrar para ninguém ver o quão quebrada eu sou.

Jasper ouviu tudo sem me interromper, anotando uma única linha em seu bloco antes de me encarar com uma seriedade compassiva.

— Você sente que ele está cruzando uma fronteira que você usa para se proteger, Bella. Mas a questão é se você tem medo do que ele pode encontrar se entrar, ou se tem medo de descobrir que ele realmente quer ficar aí dentro com você, apesar das suas rachaduras.

O salto no tempo foi tão abrupto quanto a mudança de clima que se sucedeu no final de semana. Quando a manhã de domingo amanheceu, Forks parecia envolta em uma luz pálida e dourada que rasgava a névoa, dando à Primeira Igreja de Forks uma atmosfera quase sagrada e solene. Eu estava espremida no banco de madeira polida, posicionada entre Renée e Charlie, trajando um vestido escuro e o mesmo casaco vermelho esfiapado por cima, os dedos torturando continuamente o mesmo punho desgastado.

A homilia corria em um ritmo arrastado. O diácono Weber estava de pé atrás do ambão de latão, sua voz monótona ecoando pelo sistema de som antigo enquanto ele discorria sobre o Evangelho das Bodas de Caná. Na minha cabeça, ouvir falar sobre milagres e casamentos perfeitos onde o vinho nunca acabava era uma piada de extremo mau gosto. Eu olhava de relance para os meus pais; Charlie mantinha os olhos fixos no altar com uma postura rígida, e Renée folheava o folheto litúrgico com uma calma mecânica. Para mim, eles eram o monumento vivo de que o amor era uma engrenagem que enferrujava com o tempo, restando apenas o silêncio de um lar gélido que eu tinha certeza de que habitávamos. Eu estava entediada, o peito latejando com o peso da arritmia crônica da minha CIA, desejando que aquela tortura dominical terminasse logo.

Para distrair a mente, virei o rosto levemente para a esquerda, correndo os olhos pelas fileiras de fiéis que lotavam os bancos laterais. E foi aí que o meu mundo vacilou.

Três bancos para o lado, posicionado na extremidade do corredor, estava um homem cuja silhueta parecia desenhada por uma luz diferente do resto dos mortais daquela cidade. Edward Cullen usava um terno de corte moderno azul-marinho, sem gravata, com a gola da camisa branca ligeiramente aberta. O cabelo bronze acobreado estava perfeitamente alinhado, e seu perfil anguloso estava voltado para o altar, a mandíbula marcada movendo-se de leve enquanto ele ouvia o sermão.

Senti meu sangue congelar nas veias. Fechei os olhos com força e pisquei três vezes seguidas, respirando fundo, convicta de que a minha paranoia e a sessão de terapia com o Jasper haviam finalmente colapsado o meu cérebro, criando uma alucinação visual para me torturar. Quando abri os olhos pela terceira vez, ele ainda estava lá. E, como se sentisse a queimação do meu olhar desesperado sobre ele, Edward virou a cabeça lentamente na minha direção.

No segundo em que seus olhos verdes encontraram os meus através do corredor da igreja, um choque térmico percorreu todo o meu corpo. Edward não desviou o olhar; em vez disso, seus lábios se curvaram em um sorriso sutil, quase imperceptível para os outros, mas direcionado inteiramente a mim, carregado de uma cumplicidade silenciosa que fez meu coração errar duas batidas consecutivas. Olhei para o lado dele e percebi o restante da fileira: o Dr. Carlisle estava ali, sorrindo ao notar a distração do filho, acompanhado por Esme Cullen, uma mulher de extrema elegância, e por Emmett Cullen, o irmão mais velho de Edward, cujo porte físico gigantesco era inconfundível. Minha mente registrou o detalhe imediatamente: Emmett era o ex-namorado de Rosalie Hale, minha melhor amiga de infância. O mundo de Forks parecia assustadoramente pequeno e interligado, uma teia que se fechava ao meu redor.

A missa terminou com o canto final do coral, e o burburinho das pessoas levantando-se e conversando começou a preencher o espaço da nave central. Eu sentia o suor frio cobrir a palma das minhas mãos enquanto a congregação se movia em direção à saída. Charlie e Renée começaram a se arrumar, e quando olhei para o corredor, vi que a família Cullen estava avançando na nossa direção. O Dr. Carlisle acenou para Charlie, e meu pai, reconhecendo o médico de sua filha e o prestígio daquela família, endireitou a postura para cumprimentá-los.

Edward caminhava logo atrás do pai, com os olhos fixos em mim, avançando com passos calmos e decididos, ignorando completamente as outras pessoas que tentavam chamar sua atenção. Ele estava vindo. Ele ia falar comigo na frente dos meus pais, ia quebrar mais uma barreira, expor o nosso vínculo clínico e virtual no meio da comunidade de Forks.

O pânico absoluto tomou conta das minhas decisões. Minha síndrome de impostora gritou que eu não tinha estrutura emocional para lidar com a perfeição dele sob a luz do dia, diante do olhar inquisidor da minha mãe. Olhei desesperadamente ao redor, buscando uma rota de fuga entre os fiéis que se aglomeravam na saída, quando avistei uma cabeleira curta e escura, repicada como as penas de um pássaro, perto da pia batismal. Era Alice Brandon, minha outra melhor amiga.

Sem pensar duas vezes, com o peito doendo pela aceleração súbita da minha CIA, soltei a bolsa que Renée segurava e virei as costas para os meus pais e para a aproximação dos Cullen.

— Eu... eu vi a Alice ali na frente, já volto! — murmurei de forma atropelada para Charlie, que nem teve tempo de responder.

Praticamente me joguei por entre os bancos de madeira, os ombros encolhidos dentro do casaco vermelho, fugindo da presença magnética de Edward como se ele fosse o próprio predador do qual eu precisava me esconder para garantir a minha sobrevivência psicológica. Caminhei a passos rápidos em direção à Alice, sentindo o rastro do fio de lã se soltar um pouco mais no meu punho, enquanto tentava ignorar a certeza de que, mesmo de costas, os olhos verdes do cirurgião continuavam queimando a minha pele.

Notas finais
💔 EU PRECISO SABER SE VOCÊS ESTÃO SURTANDO TANTO QUANTO EU. Primeiro ponto: Bella passou a sessão inteira desenhando os olhos do Edward sem perceber. Repito. SEM. PERCEBER. Jasper merecia aumento depois dessa consulta. Segundo ponto: Vamos falar sobre o fato de que ela passou horas investigando o Instagram dele, montando um placar imaginário de mulheres perfeitas... enquanto o Edward estava fazendo exatamente o caminho contrário e curtindo as fotos dela? Porque isso me parece um problema. Um problema muito bonito. Mas ainda assim um problema. 👀 E agora chegamos ao meu momento favorito do capítulo: Edward encontrou Bella na igreja. Edward foi falar com Bella. Edward caminhou até Bella. E o que Bella fez? Fugiu. Simplesmente fugiu. Correu para a Alice como se estivesse escapando de um incêndio. A pergunta é: Vocês teriam fugido também ou teriam ficado para conversar com ele? E mais importante... O que vocês acham que estava passando pela cabeça do Edward quando ele viu a Bella escapar no exato momento em que ele se aproximou? Me contem tudo nos comentários porque eu adoro ler as teorias de vocês. ❤️ Nos vemos no próximo capítulo. E aviso desde já: o Dr. Edward Cullen não parece ter a menor intenção de respeitar as muralhas emocionais da Bella Swan. Com carinho, GioPattz ✨