Unraveled
4 A Sign Front of Saint Anthony
Notas iniciais
“And I'm so tired of being defensive / But you make me feel like I am protected…”
— Olivia Rodrigo, The Cure
Capítulo 4: A Sign Front of Saint Anthony
A sensação de quase flutuar em pânico me guiou pelo tapete vermelho desbotado do corredor lateral da igreja, o barulho dos sapatos dos fiéis e o eco das conversas pós-missa parecendo uma massa de som distorcida nas minhas orelhas. Quando alcancei a pia batismal, praticamente me joguei contra o ombro de Alice Brandon, segurando o tecido firme do casaco jeans dela com os dedos trêmulos, as unhas quase perfurando a peça. Alice deu um sobressalto, os olhos muito azuis e expressivos arregalando-se por trás das mechas repicadas de seu cabelo curto enquanto ela segurava meus pulsos para me estabilizar.
— Meu Deus, Alice... Deus te colocou na minha visão para me salvar! — disparei em um sussurro atropelado, a respiração curta fazendo meu peito subir e descer de forma errática, o buraquinho no meu septo protestando contra o pico súbito de adrenalina.
Alice semicerrou os olhos, uma expressão astuta e um sorriso divertido moldando seus lábios enquanto ela olhava por cima do meu ombro, mapeando o fluxo de pessoas que avançava em direção à saída principal.
— Deixe-me adivinhar... você está fugindo do Dr. Cullen e da família dele? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha, os braços agora cruzados sobre o peito. — Bella, você adora o Dr. Carlisle, ele cuida de você desde que você era um bebê de colo. O que aconteceu para você sair correndo feito uma fugitiva de filme de terror?
Senti o rubor começar a subir pelo meu pescoço, uma queimação desconfortável que denunciava a minha total falta de controle emocional. Olhei para os lados, certificando-me de que ninguém na congregação estava prestando atenção no meu colapso particular.
— Alice, o problema não é o Carlisle... — murmurei, a voz sumindo enquanto eu puxava defensivamente o punho esfiapado do meu casaco de lã vermelha. — É o filho dele. O Dr. Edward Cullen. Ele é o meu novo cardiologista. Ele assumiu o meu caso.
Alice soltou uma risada limpa e contagiante, o tipo de som que sempre atraía olhares, fazendo-me querer enfiar a cabeça em um buraco. Ela me deu uma leve cotovelada nas costelas, os olhos brilhando com uma malícia puramente amigável.
— Por acaso o seu novo médico é um bonitão de cabelos arrepiados e olhos verdes lindos que tem um corpo esculpido pelos anjos? — ela instigou, inclinando a cabeça.
Um suspiro involuntário escapou dos meus lábios antes que a minha mente envenenada pudesse censurá-lo. Só de ouvir a descrição física dele, minha memória visual foi bombardeada pela imagem dele no terno azul-marinho, o sorriso sutil que ele me dera através do corredor da igreja, a intensidade daquele olhar que parecia enxergar a minha alma através do tecido gasto das minhas roupas. Eu estava me derretendo inteira por dentro, um sentimento aterrorizante e desconhecido para alguém que passara a vida se escondendo na penumbra da própria rejeição.
— Sim... ele é exatamente assim — confessei, sentindo minhas defesas desmoronarem diante da minha melhor amiga.
Alice abriu um sorriso vitorioso, mas sua expressão mudou drasticamente em uma fração de segundo. Seus olhos se arregalaram levemente e ela endireitou a postura, limpando a garganta enquanto me dava um tapinha firme no ombro.
— Recomponha-se, Bella. Ele está há exatamente três passos da gente — ela sussurrou, o tom divertido sumindo para dar lugar a uma formalidade repentina.
Antes que eu pudesse girar nos calcanhares e continuar minha fuga em direção ao estacionamento, uma presença alta e magnética se projetou ao meu lado. O perfume de lavanda e antisséptico sutil cortou o cheiro de incenso da igreja, e a voz aveludada, grave e compassada soou logo acima da minha cabeça, fazendo meus pelos se arrepiarem instantaneamente.
— Bom dia, Bella. Eu esperava conseguir alcançá-la antes que você saísse — Edward disse, surgindo no meu campo de visão com uma postura elegantemente relaxada, as mãos enfiadas nos bolsos do terno azul-marinho.
O susto físico fez meu coração dar um solavanco tão violento contra as costelas que apertei a mão contra o esterno de forma instintiva. Olhei para ele, e a visão do Dr. Edward Cullen exibindo um sorriso torto, charmoso e ligeiramente tímido para mim foi o estopim para que todo o sangue do meu corpo subisse para o meu rosto. Eu tinha certeza absoluta de que minhas bochechas estavam da cor exata do meu casaco vermelho estragado. Eu estava paralisada, a síndrome de impostora gritando que eu parecia uma completa idiota sob a luz do sol de domingo.
Alice, percebendo que eu estava literalmente prestes a morrer de vergonha e entrar em combustão espontânea bem na frente dele, tomou a frente da situação com a sua audácia habitual, estendendo a mão com um sorriso radiante para quebrar o gelo.
— Olá, Dr. Edward! Eu sou a Alice, a melhor amiga da Bella! — ela se apresentou, a voz vibrante ecoando pelo espaço.
Edward imediatamente retirou a mão do bolso, envolvendo os dedos de Alice em um aperto firme e extremamente educado, sua postura exalando uma fidalguia natural.
— É um prazer imenso conhecê-la, Alice. A Bella me falou que gosta de desenhar, mas esqueceu de mencionar que tem uma amiga tão enérgica — ele respondeu, os olhos verdes brilhando com uma gentileza que desarmou até mesmo a minha tensão por um breve segundo. Ele voltou a atenção inteiramente para mim, o olhar caindo para um tom super fofo, doce e focado, como se a multidão ao nosso redor tivesse simplesmente deixado de existir. — Bella... meus pais estão conversando com os seus na saída, e eu notei que a quermesse de Santo Antônio começou aqui no pátio lateral da igreja. Eu estava pensando... você gostaria de tomar um café comigo? Só para conversarmos um pouco fora do ambiente de consultório.
Minha garganta secou instantaneamente. Abri a boca para formular uma recusa polida, uma desculpa sobre ter que ajudar Renée com o almoço ou qualquer mentira que me salvasse daquela proximidade aterrorizante, mas Alice foi mais rápida. Com a rapidez de um raio, ela se posicionou atrás de mim e respondeu antes que eu pudesse emitir um som:
— Ela quer sim, Edward! — Alice exclamou, e sem o menor pudor, desferiu um tapa firme na minha bunda, empurrando o meu corpo para a frente, diretamente na direção do peito de Edward.
Tropecei nos meus próprios pés, soltando um ganido de surpresa, e só não caí no chão porque as mãos longas e quentes de Edward saíram dos bolsos com uma velocidade cirúrgica, segurando firmemente os meus antebraços. O choque elétrico do toque de nossas peles cruzou o meu corpo novamente, uma faísca térmica que me fez erguer os olhos para os dele. Ele me segurou com cuidado, certificando-se de que eu estava firme, e soltou uma risada baixa e melodiosa, os olhos verdes transbordando uma ternura que me deixou completamente sem defesas. Olhei para trás e Alice já estava acenando de longe, sumindo no meio da multidão com um sinal de joinha com os dedos.
Pouco depois, nos víamos caminhando lado a lado pelas ruelas de paralelepípedo do pátio lateral da igreja, onde a tradicional festividade de Santo Antônio estava montada. O aroma de pipoca doce, hotdog, pães e bolos caseiros misturava-se ao ar fresco do meio-dia de Forks. Bandeirinhas e fitas coloridas balançavam suavemente acima de nossas cabeças, e o som de uma música italiana tocava ao fundo, criando uma atmosfera vibrante e acolhedora. Edward andava devagar, ajustando o passo longo dele ao meu caminhar mais lento e cansado, mantendo uma distância respeitosa, mas perto o suficiente para que o calor do seu corpo me protegesse do vento frio que soprava das montanhas.
Havia um clima indiscutivelmente romântico pairando entre nós, uma calmaria que eu nunca imaginei ser capaz de sentir na presença de um homem. Ele segurava dois copos de papel com café fumegante, entregando um deles nas minhas mãos trêmulas.
— Obrigado por aceitar o café, Bella. E peço desculpas pelo empurrão da sua amiga, embora eu tenha que admitir que fiquei secretamente agradecido a ela — ele começou, o tom brincalhão e doce fazendo meu peito aquecer de uma forma que o café nunca conseguiria.
Olhei para o líquido escuro no copo, tentando encontrar minha voz no meio da timidez crônica.
— A Alice não tem filtros... sinto muito por isso — murmurei, dando um gole pequeno, sentindo o calor descer pela garganta. — O senhor... você deve achar que eu sou uma paciente muito estranha. Eu fugi de você dentro da igreja.
Edward parou de caminhar, forçando-me a parar também. Ele virou o corpo na minha direção, o terno azul-marinho contrastando perfeitamente com o fundo rústico das barracas de madeira da quermesse. Seus olhos verdes fixaram-se nos meus com uma sinceridade absoluta.
— Eu não acho você estranha, Bella. Acho você uma mulher fascinante — ele confessou, a voz caindo para um tom mais confessional e íntimo. — Na verdade, eu preciso te confessar uma coisa. Quinta-feira à noite... eu stalkeei o seu perfil no Instagram.
Senti minhas bochechas corarem novamente, mas dessa vez não foi uma vergonha dolorosa, foi um frio na barriga que me fez morder o lábio inferior.
— — Você... você viu? — perguntei, quase sem fôlego.
— — Vi. E passei horas olhando. Bella, os seus desenhos são simplesmente a coisa mais linda que eu já vi em muito tempo — Edward disse, e a forma como ele elogiou a minha arte foi tão genuína que a minha síndrome de impostora não encontrou forças para contra-argumentar. — O traço do seu carvão, a forma como você desenha a anatomia e as paisagens... há uma sensibilidade ali que me tocou profundamente. Quando vi que você estava online e não consegui resistir. Eu precisei te seguir, precisei curtir aquelas fotos porque eu queria que você soubesse que eu estava prestando atenção em você. Na pessoa real por trás do prontuário médico.
Fiquei estática, o copo de café aquecendo minhas mãos enquanto as palavras dele derretiam a camada de gelo que Charlie e Renée haviam involuntariamente me ensinado a construir ao redor do meu coração. Ele estava me priorizando em voz alta no meio de uma festa pública, olhando para mim como se eu fosse a única estrutura que importasse no mundo. Era uma cena tão fofa, tão absurdamente doce, que senti uma lágrima de alívio e timidez ameaçar surgir no canto dos meus olhos. Até mesmo a pessoa mais cética seria capaz de se apaixonar pelo Dr. Edward Cullen naquele exato instante, pela forma puramente devota com que ele tencionava me proteger das minhas próprias paranoias.
Edward deu um passo para mais perto, diminuindo o espaço entre nós dois. Ele engoliu em seco, uma vulnerabilidade inédita cruzando suas feições esculpidas enquanto ele desviava o olhar por um breve segundo antes de focar toda a sua atenção nos meus olhos castanhos.
— — Bella... eu sei que vai parecer ousado da minha parte, eu peço desculpas por isso, considerando que sou o seu médico e que nos conhecemos há tão pouco tempo... — ele começou, a voz oscilando com um nervosismo humano que o tornou ainda mais encantador aos meus olhos. — Mas eu queria muito te convidar para sair. Não como médico e paciente, não para falar sobre a sua CIA ou sobre hospitais. Um encontro de verdade. Você... você aceitaria sair comigo?
Minha mente entrou em colapso. Olhei para ele, sentindo-me completamente tímida, sem jeito, os dedos apertando o papel do copo de café enquanto eu tentava processar que o homem mais cobiçado e perfeito da cidade estava me pedindo uma chance. Eu não sabia o que dizer, minhas palavras sumiram diante da magnitude daquele pedido.
Edward, percebendo o meu silêncio assustado e a minha timidez paralisante, soltou uma risada baixa, os olhos brilhando com uma inteligência rápida. Ele deu um passo para o lado e indicou com a cabeça a estrutura de madeira logo atrás de nós.
Ergui os olhos e percebi que estávamos parados exatamente na fachada da barraca principal da quermesse, ornada com flores e velas ao redor de uma imagem esculpida em gesso. Era a imagem de Santo Antônio, o santo casamenteiro.
Edward inclinou-se ligeiramente na minha direção, um brilho divertido e intensamente charmoso emanando de seus olhos verdes enquanto ele exibia aquele sorriso torto que destruía qualquer resquício da minha sanidade mental.
— Coincidência ou não, estamos bem na frente da imagem de Santo Antônio... — ele brincou, a voz saindo em um sussurro confidente e doce contra o meu ouvido. — Acho que é um sinal, Bella... Você não vai querer contrariar o santo casamenteiro, vai?
Olhei da imagem do santo para os olhos verdes de Edward, sentindo o buraquinho no meu coração pulsar com uma força e um calor que eu nunca havia experimentado em vinte e sete anos de vida. Pela primeira vez em muito tempo, o veneno na minha cabeça ficou em silêncio, substituído pelo som suave da promessa que aquele homem representava.
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