Unraveled
17 U+me = <3
Notas iniciais
Capítulo 17: U+me = <3
“I know that two can be a lonely number / But with you, it’s always dynamic / Yeah, you + me equals heart…”
— Olivia Rodrigo, U+me = <3
Londres nos recebeu sob uma garoa fina e poética que transformava os refletores amarelos dos táxis pretos em borrões dourados pelo asfalto. Se a névoa de Forks às vezes me parecia sufocante ou claustrofóbica, a brisa fria da capital britânica parecia um abraço sofisticado.
Pela primeira vez em meses, talvez pela primeira vez na vida, a minha cabeça estava completamente em silêncio. Sem fantasmas do passado, sem o peso incômodo da inferioridade e sem as neuras habituais. Eu era apenas uma mulher profundamente apaixonada, vivendo um sonho ao lado do homem da minha vida.
Nossa suíte no hotel em Mayfair era um refúgio acolhedor. Da imensa janela de vidro, víamos a copa das árvores de Hyde Park. Naquela manhã de outono, o sol deu um ar da sua graça, surgindo pálido entre as nuvens cinzentas enquanto caminhávamos de mãos dadas por Notting Hill.
— Sabe, se você continuar olhando para as fachadas dessas casas coloridas com essa cara de encantada, vou ser obrigado a comprar uma delas para você — Edward sussurrou no meu ouvido, puxando-me para mais perto pelo quadril. Ele vestia um sobretudo escuro corte alfaiataria que o deixava ainda mais devastadoramente elegante.
— Nem pense nisso, Edward — respondi, rindo e ajeitando o meu cachecol. — Eu só estou absorvendo o cenário. É exatamente como nos filmes.
Estávamos caminhando pela famosa Portobello Road. A feira de antiguidades estava em pleno funcionamento, repleta de barracas de livros raros, discos de vinil, joias vitorianas e o cheiro delicioso de pães frescos e doces assados no ar. Caminhamos sem pressa, parando em cada barraca. Edward parecia fascinado com a minha curiosidade; ele me observava tocar as lombadas dos livros antigos com o mesmo olhar devoto de sempre.
Em uma das barraquinhas de discos vintage, Edward parou e começou a folhear as capas de vinil com dedos habilidosos, um sorriso nostálgico no rosto ao reconhecer edições clássicas. Ver aquele homem, que costumava carregar o peso do mundo e a responsabilidade de dezenas de vidas no hospital, tão relaxado e leve era o melhor presente que eu poderia ter recebido.
Depois de horas explorando Notting Hill, cumprimos a promessa de Mayfair: paramos para um chá da tarde completo. Sentados em um salão elegante com papel de parede vitoriano, Edward serviu o meu chá com uma delicadeza impecável. O anel Toi et Moi no meu dedo reluzia contra a porcelana fina, como um lembrete da vida incrível que iriamos compartilhar. Comer scones quentinhos com geleia de morango e creme enquanto Edward me contava histórias da sua época de faculdade era um bálsamo para a minha alma.
O dia seguinte era o grande dia: o aniversário de trinta e três anos de Edward.
Ele imaginava que teríamos apenas um jantar romântico reservado em South Kensington. No entanto, há dias eu vinha planejando secretamente aquela noite.
Quando o táxi parou em frente à imponente e majestosa estrutura circular do Royal Albert Hall, iluminada como uma joia arquitetônica na noite londrina, Edward franziu as sobrancelhas, confuso.
— Bella? O nosso restaurante não era em South Kensington? — ele perguntou, olhando da janela do carro para a fachada monumental do teatro.
— Mudança de planos, aniversariante — disse, sorrindo misteriosamente enquanto pagava o motorista.
Peguei a mão dele e o guiei até a entrada principal. O saguão de mármore e veludo estava movimentado por pessoas vestidas a rigor. Parei diante dele, ajustando a lapela do seu paletó, e tirei do meu casaco dois ingressos dourados das primeiras fileiras.
— Feliz aniversário, meu amor — murmurei, entregando os bilhetes a ele.
Edward olhou para os papéis nas mãos e seus olhos verdes se arregalaram em choque absoluto ao ler o nome impresso: Elton John — Live at the Royal Albert Hall.
— Meu amor... como você...? Isso estava esgotado há seis meses! — ele exclamou, a voz falhando ligeiramente, o queixo caindo. Ele sabia o quanto a genialidade harmônica de Elton John no piano sempre fora uma das suas maiores inspirações desde a juventude.
— Digamos que eu tive uma ajudinha da Alice antes de ela ser pega de surpresa no sofá — brinquei, piscando para ele. — Eu sabia o quanto esse show significava para você. Você passa o tempo todo me mimando e querendo tornar todos os meus sonhos realidade, amor. Hoje, eu só queria fazer o mesmo por você.
Edward não disse nada por alguns segundos. Ele simplesmente me puxou para um abraço apertado ali mesmo, no meio do saguão, enterrando o rosto no meu pescoço e inspirando fundo. Quando se afastou, seus olhos brilhavam com uma emoção tão pura que fez o meu coração dar um pulo.
— Você é inacreditável, sabia? — ele sussurrou, selando meus lábios em um beijo profundo e carinhoso.
Nossos assentos eram perfeitos, bem perto do palco. Quando as luzes se apagaram e a orquestra começou a tocar, acompanhando as primeiras notas do piano inconfundível de Elton John, Edward segurou a minha mão com firmeza, entrelaçando nossos dedos no nosso colo.
Durante a execução de “Your Song”, a acústica perfeita do Royal Albert Hall parecia abraçar a plateia. As notas do piano ressoavam direto no meu peito. Edward se inclinou na minha direção, roçando a sua bochecha na minha, e sussurrou bem perto da minha orelha:
— It’s a little bit funny, this feeling inside... — ele cantarolou a letra baixinho, a voz grave enviando um arrepio gostoso por toda a minha espinha. — Sabe, Bella... eu costumava achar que a vida era apenas uma equação fria e exata. Mas você chegou e mudou tudo. Sem você, qualquer dia é um número solitário. Com você, tudo faz sentido... Você é a minha única certeza.
Olhei para ele no escuro do teatro, sentindo uma lágrima quente de pura felicidade escorrer pela minha bochecha. O buraquinho no meu peito parecia milagrosamente preenchido, transbordando um calor tão forte que apagava qualquer vestígio de medo do futuro.
— Eu te amo, Edward — sussurrei de volta.
— Eu te amo mais do que a minha própria vida, minha noiva — ele respondeu, beijando a minha testa.
Voltamos para o hotel caminhando pela noite londrina, sob uma chuvinha leve que parecia abençoar a nossa caminhada. Ríamos como dois adolescentes, dividindo um único guarda-chuva enquanto cruzávamos as ruas de Mayfair.
Assim que entramos na suíte e a porta se fechou atrás de nós, o clima de romance calmo deu lugar a uma entrega profunda e madura. Sem a pressa desesperada ou a urgência do caos, nos amamos sobre a cama de casal deitados sob a luz suave das luminárias.
Cada toque de Edward era uma promessa de eternidade; cada beijo dele selava a certeza de que estávamos prontos para o que quer que viesse a seguir. E pela primeira vez, quando adormeci com a cabeça apoiada no peito ritmado dele, eu não tive medo do amanhã.
Na manhã seguinte após andarmos no London Eye, caminhávamos sem qualquer pressa pela calçada de pedra que margeava o rio Tâmisa, o vento frio daquela manhã londrina trazendo o cheiro úmido da chuva recente. Quando dobramos a esquina da ponte de Westminster, a imagem surgiu diante de nós como um quadro pintado à mão: a imensa torre do Big Ben, totalmente iluminada em tons de dourado e âmbar, cortando o céu cinza carregado de Londres com uma majestade de tirar o fôlego.
Parei por um segundo, admirando o relógio monumental refletido nas águas calmas do rio. Edward, perceptível a cada um dos meus suspiros, me puxou delicadamente para a frente do seu corpo. Ele me envolveu por trás, cruzando os braços longos sobre o meu peito e apoiando o queixo no meu ombro, seu hálito quente aquecendo a curva do meu pescoço.
— Olha só para isso... — murmurei, apoiando as minhas costas no peito largo dele e cobrindo as mãos dele com as minhas mãos — É lindo demais, Edward. Parece que estamos dentro de um filme de romance .
— É lindo, sim... mas nada aqui se compara a você — Edward sussurrou, a voz grave e melodiosa ressoando bem perto do meu ouvido. Ele deu um beijo demorado na minha bochecha fria pelo vento, apertando-me ainda mais contra o seu corpo. — Bella... esse é, sem sombra de dúvidas, o melhor aniversário da minha vida inteira. Eu nunca me senti tão em paz, tão completo e tão absurdamente apaixonado.
Sorri, sentindo uma onda de calor se espalhar por todo o meu peito. Virando-me nos braços dele, passei os braços ao redor do pescoço do meu noivo, encarando a imensidão verde dos seus olhos de trinta e três anos, que me olhavam com uma devoção quase sagrada.
— Eu fico tão feliz por estar aqui com você, meu amor — disse, roçando o meu nariz no dele naquele gesto carinhoso e fofo que havia se tornado a nossa marca registrada. — Você merece o mundo, Doutor Cullen.
Edward sorriu, aquele sorriso torto devastador, e me puxou para um beijo calmo, doce e profundamente romântico no meio de Londres, tendo o Big Ben como nossa testemunha silenciosa. Não havia pressa no toque da sua língua, apenas uma entrega madura e um carinho que fazia o tempo parecer estático.
Quando nos afastamos devagar, ele continuou me segurando pela cintura, os olhos brilhando com um sonho visível, quase palpável.
— — Sabe no que eu estava pensando enquanto o Elton John tocava no piano ontem? — Edward confessou mansamente, conduzindo-nos a passos lentos pela beira do rio, nossos dedos entrelaçados. — Eu estava sonhando com a nossa vida depois de tudo isso. Depois da cirurgia, depois de nos casarmos... Eu imagino a gente em uma casa linda, acolhedora, com uma varanda grande, cercas brancas, um quintal enorme com uma arvore que tenha um balanço. Eu imagino você escrevendo seus romances na sala, o cheiro de café novo pela manhã... e a nossa casa cheia de barulho de criança.
Ele parou de andar, virando-se para mim com um olhar repleto de expectativa e doçura.
— Eu imagino dois filhos, Bella. Um garotinho com os seus olhos castanhos e a sua teimosia literária, e uma garotinha para eu mimar da mesma forma que eu mimo a mãe dela. Uma vida todinha nossa, construída passo a passo.
Em qualquer outro momento do passado, aquela conversa teria sido o gatilho perfeito para um surto de inferioridade. Minha mente doida teria sussurrado que eu era um fardo, que o meu coração com defeito de fabricação não aguentaria uma gestação, ou que eu não merecia um futuro tão magnífico desenhado por um cirurgião de ponta.
Mas ali, sob céu cinza de Londres, com a mão do Edward aquecendo a minha e a memória do nosso riso ressoando no meu peito, algo mudou profundamente dentro de mim. O veneno da autossabotagem finalmente evaporou.
Pela primeira vez em anos, eu me permiti fechar os olhos e sonhar. Permiti-me imaginar aquela casa, o som dos passos pequenos correndo pelo piso de madeira, o riso do Edward ecoando pela sala e a visão de dois garotinhos com traços divididos entre nós dois.
Pela primeira vez na vida, eu me senti inteiramente digna daquela felicidade. Eu não era um defeito a ser corrigido; eu era a mulher que aquele homem maravilhoso havia escolhido para amar, e eu merecia cada pedaço daquele futuro perfeito. Tudo fazia um sentido absoluto e cristalino.
— Dois filhos... — repeti em um sussurro emocionado, abrindo os olhos e encarando-o com um sorriso radiante que não coube no meu rosto. As lágrimas que encheram os meus olhos agora eram puramente de amor. — Eu quero exatamente essa vida com você, Edward. Eu quero os dois filhos, a casa com varanda, os livros e você ao meu lado em cada segundo dela...
Os olhos de Edward brilharam com uma intensidade avassaladora. Ele soltou um suspiro trêmulo de alívio e pura emoção, limpando a lágrima que escorreu pela minha bochecha com o polegar.
— Nós vamos ter tudo isso, meu amor... — ele prometeu, selando nossa promessa com um beijo apaixonado, acolhedor e eterno no coração de Londres.
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