Unraveled
18 PURPLE
Notas iniciais
Capítulo 18: Purple
“And I know that I’m not perfect, but I’m tryin’... / Lavender, violet, iris and plum / I see everything in purple when you’re around…”
— Olivia Rodrigo, Purple
O trajeto no EuroStar, deslizando em alta velocidade pelos trilhos sob o Canal da Mancha e emergindo nos campos dourados do norte da França, pareceu uma transição suave entre dois mundos. Se Londres tinha sido o cenário da nossa cura e da revelação dos nossos sonhos mais bonitos, Paris era o lugar onde a realidade simplesmente deixava de ser ruidosa.
Nosso hotel ficava a poucos passos do Rio Sena, no coração de Saint-Germain-des-Prés. Era um edifício clássico, com sacadas de ferro trabalhado, cortinas de linho pesado e um charme vitoriano que parecia ter saído diretamente dos livros que eu passara a vida inteira estudando.
Eram quatro horas da manhã quando acordei.
O quarto estava mergulhado em uma penumbra suave, cortada apenas pela luz azulada da iluminação pública que atravessava as frestas da janela de vidro. Do lado de fora, a chuva fina de Paris tamborilava no parapeito em uma cadência relaxante.
Virei-me devagar na imensa cama king-size, tomando o cuidado de não fazer qualquer barulho.
Edward estava dormindo ao meu lado, completamente entregue. Sem a postura ereta e impecável de cirurgião, sem o cenho franzido pelos prazos e preocupações do hospital, ele parecia incrivelmente jovem. Seus cabelos bronze estavam bagunçados sobre o travesseiro de plumas, a respiração era calma, ritmada e profunda, e os seus lábios mantinham um contorno leve, quase como se ele estivesse no meio de um sonho bom.
Apoiei a cabeça na mão, ficando de lado para observá-lo.
A luz da madrugada banhava a pele do seu rosto em tons lavanda, violeta e ameixa, um espectro púrpura e acolhedor que parecia colorir tudo ao nosso redor desde que havíamos aterrisado na Europa. Senti um aperto tão doce no peito que os meus olhos marejaram de pura gratidão. Aquele homem perfeito, brilhante e dedicado era o meu noivo. O mesmo homem que sonhava com uma casa de varanda grande e dois filhos para mimar.
Sem fazer som, deslizei para fora da cama, vestindo o meu sobretudo de seda bege por cima do pijama. Peguei o meu bloco de notas de capa de couro e uma caneta sobre a mesa de cabeceira e caminhei até a poltrona aveludada ao lado da sacada.
Sentei-me, cruzando as pernas, e encarei a folha em branco sob a luz fraca do abajur.
Durante anos, o meu mestrado e a minha paixão pela literatura vitoriana serviram como uma espécie de escudo para a minha própria alma. Eu analisava os sentimentos dos outros, decodificava as dores das personagens dos séculos passados, mas nunca tinha tido a coragem de colocar no papel a minha própria história.
Mas ali, vendo o Edward dormir na capital do amor, algo dentro de mim transbordou.
Pousei a caneta no papel e comecei a escrever as primeiras linhas do meu primeiro romance. Não era um texto acadêmico sobre os poetas do século XIX; era a ficção inspirada na jornada de uma mulher imperfeita, com um coração fisicamente machucado, que aprendera a se sentir digna do amor absoluto de um homem que parecia ter sido feito de luz. As palavras fluíam sem esforço, numa dança poética que preenchia página após página com a nossa essência, o anel Toi et Moi, o som do piano de cauda e o Big Ben sob a chuva.
Era o meu maior segredo. Uma surpresa que eu guardaria a sete chaves até que estivesse pronta para o mundo.
Quando os primeiros raios de sol começaram a tingir o céu de Paris com um rosa suave e dourado, ouvi o lençol se mover na cama.
Olhei por cima do caderno e encontrei os olhos verdes de Edward se abrindo devagar. Ele piscou algumas vezes, sonolento, e assim que a sua vista focalizou a minha figura na poltrona, um sorriso preguiçoso e desarmado surgiu no seu rosto.
— Bonjour, l'amour de ma vie... — a voz dele veio grave, rouca e arrastada pelo sono, fazendo o meu estômago dar uma pirueta. — O que você está fazendo aí tão cedo?
Fechei o bloco de notas de capa de couro com um clique rápido, guardando-o com cuidado sob a almofada da poltrona para que ele não visse.
— Só vendo o dia amanhecer,mon amour...— menti docemente, levantando-me e caminhando até a cama. — E admirando o meu noivo dormindo.
Edward esticou os braços, puxando-me para cima dele assim que me aproximei. Soltei um risinho quando o meu corpo colou no seu, e ele enterrou o rosto no meu pescoço, inspirando fundo e deixando beijos quentes na minha pele.
— Hum... você cheira a lavanda e a segredos — ele murmurou com a voz abafada contra a minha clavícula, os polegares traçando círculos na minha cintura. — Que segredos são esses, senhorita Swan?
— Segredos de autora, meu anjo — respondi, passando os dedos pelos seus cabelos bronze bagunçados. — Agora levanta. Você me prometeu Paris.
Passear pelas ruas da cidade do amor ao lado do Edward era como viver dentro de uma pintura impressionista.
Tomamos um café da manhã clássico em um pequeno bistrô em Saint-Germain, com croissants amanteigados que derretiam na boca e café com leite servido em xícaras de porcelana. Depois, caminhamos sem pressa pelas margens do Rio Sena. A névoa da manhã ia se dissipando aos poucos, dando lugar a uma luz suave que fazia as pontes de pedra brilharem.
Edward andava ao meu lado com a mão firmemente entrelaçada na minha, o sobretudo dele roçando o meu a cada passo. Ele fazia questão de parar em cada buquinista, as tradicionais bancas verdes de livros antigos que margeiam o rio, para me ajudar a procurar edições raras.
— Olha essa edição vitoriana de Jane Eyre, Bella — ele disse, pegando um livro de capa dura em tom ameixa e entregando nas minhas mãos com um olhar orgulhoso. — É de 1890.
Olhei para o livro e depois para ele, maravilhada com a atenção aos detalhes que ele sempre demonstrava por mim.
— Edward, é incrível... mas deve ser cara.
— — Não existe "cara" para a minha escritora preferida — ele respondeu sem hesitar, tirando a carteira do bolso e comprando o livro antes mesmo que eu pudesse protestar.
Aos pés da Torre Eiffel, com o monumento de ferro erguendo-se majestoso contra o céu limpo da tarde, Edward me puxou para um abraço apertado no meio do gramado do Champ de Mars. O vento frio balançava os meus cachos, mas o calor do corpo dele me mantinha completamente aquecida.
— Em que você tanto pensa quando olha para mim desse jeito, Bella? — ele perguntou suavemente, segurando o meu queixo e aproximando o rosto do meu.
Olhei no fundo daqueles olhos verdes, sentindo que a cor púrpura daquela viagem havia transformado cada pedaço da minha existência. A imperfeição do meu peito, as minhas neuras passadas e o medo da cirurgia pareciam pequenos diante da imensidão do que tínhamos construído.
— Penso que eu vejo tudo em violeta quando estou com você — confessei, sorrindo e roçando os meus lábios nos dele em um beijo doce, calmo e apaixonado. — E que eu nunca fui tão feliz na minha vida inteira.
Edward sorriu, aquele sorriso que acelerava o meu coração como nenhuma cardiopatia jamais conseguiria fazer, e selou nossa entrega com um beijo inesquecível sob o céu de Paris.
Continuamos pelas alamedas arborizadas de Paris com os nossos dedos fortemente entrelaçados. O ar frio do outono francês trazia um perfume inebriante de castanhas assadas e café fresco, mas o único aroma que realmente me guiava era o de lavanda e madeira que emanava do sobretudo de Edward.
O passeio nos levou naturalmente em direção ao imponente Palais du Louvre. Quando a grandiosa pirâmide de vidro surgiu diante de nós, reluzindo sob a luz suave do fim de tarde, paramos por alguns instantes na vasta praça de pedra.
— Prometo que não vou te fazer andar por todas as alas do museu hoje — Edward murmurou com um risinho sacana, puxando-me para a sua frente e envolvendo a minha cintura com os braços quentes. — Sei que o Doutor Cullen precisa cuidar da resistência física da noiva, pré cirurgia...
— Ei, a minha resistência está ótima, muito obrigada! — brinquei, encostando a cabeça no peito dele e olhando para o contraste poético entre a arquitetura renascentista do palácio e as linhas modernas da pirâmide de cristal. — Mas admito que ver a Mona Lisa de perto ao seu lado parece um plano irrecusável.
Caminhamos pelas galerias majestosas do museu sem nenhuma pressa. Edward me observava com mais atenção do que prestava às próprias obras de arte nas paredes. A cada pintura clássica que parávamos para admirar, ele segurava a minha mão com um aperto sutil e carinhoso, como se estivesse constantemente reafirmando para si mesmo que estávamos ali, juntos e em paz.
Ao sairmos do Louvre, o céu de Paris começava a tingir-se em tons degradê de violeta, rosa e ameixa. Guiados pelo ritmo calmo das águas do Sena, caminhamos até a Passerelle des Arts, a famosa ponte dos namorados.
A ponte, com a sua vista deslumbrante para a Île de la Cité, estava envolta em uma atmosfera quase mágica. A iluminação pública das luminárias de ferro começava a se acender, refletindo bordas douradas nas águas do rio.
Parei junto à amurada de proteção, apoiando os braços no parapeito e sentindo o vento frio da noite bater no meu rosto. Edward se posicionou ao meu lado, os seus olhos verdes fixos no horizonte Iluminado da cidade do amor antes de se voltarem inteiramente para mim.
— Sabe, Bella... durante muito tempo, eu achei que lugares como este fossem apenas clichês superestimados — Edward confessou suavemente, a voz grave carregada de uma emoção profunda. Ele estendeu a mão e ajeitou uma mecha dos meus cachos para trás da minha orelha, o polegar roçando a minha bochecha com extrema delicadeza. — Mas estar aqui com você faz cada pequeno clichê do mundo parecer a única coisa que realmente importa.
Olhei para ele, sentindo a minha respiração falhar diante da intensidade do seu olhar.
— Paris sempre foi a cidade do "eu te amo", Edward... — murmurei, sorrindo e cobrindo a mão dele com a minha. — Mas a verdade é que o meu 'eu te amo' só existe por sua causa.
Edward sorriu, aquele sorriso torto e desarmado que desmontava qualquer resquício das minhas defesas. Ele se aproximou mais, segurando o meu rosto com as duas mãos quentes, e sussurrou bem contra os meus lábios:
— Je t'aime, ma fiancée. Mais do que cada palavra que você já leu ou escreveu na vida...
O beijo que seguiu na ponte foi lento, calmo e avassaladoramente romântico. Não havia neuras, não havia medo do amanhã ou espectros de incerteza; havia apenas a certeza de um amor que havia superado cada tempestade para finalmente encontrar o seu refúgio sob o céu púrpura de Paris.
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