Unraveled

1 My Head is Full of Poison


“But my head is full of poison, and my heart is full of doubt / I’m unraveled…”

— Olivia Rodrigo, The Cure

Capítulo 1: My Head is Full of Poison

O cheiro de hospital sempre me pareceu uma espécie de anestesia para a alma, um lembrete gélido e esterilizado de que o sofrimento humano pode ser quantificado, limpo e, com alguma sorte, empacotado em frascos de vidro fosco. Naquela tarde de terça-feira, o teto de Forks derramava uma torrente cinzenta e implacável contra as vidraças altas do Hospital Geral da família Cullen, transformando a paisagem externa em um borrão melancólico de pinheiros distorcidos e névoa densa. Eu estava sentada na cadeira de couro sintético da sala de espera da ala de cardiologia, sentindo o estofado frio moldar-se às minhas costas tensas, enquanto tentava inutilmente controlar o ritmo descompassado que insistia em golpear minhas costelas. Para conter o tremor errático das minhas mãos, fixei meus olhos no meu velho casaco de lã vermelha, uma peça desbotada pelo tempo, larga demais para o meu corpo magro, que eu usava quase como uma armadura contra o mundo externo. Com a ponta dos dedos trêmulos, encontrei um pequeno fio solto na barra do punho esquerdo e, guiada por uma compulsão antiga e silenciosa, comecei a puxá-lo, assistindo hipnotizada à linha carmím se desprender, desfazendo o nó perfeito do tecido em um rastro esfiapado. Aquela imagem era a tradução exata de como eu me sentia por dentro: um emaranhado de linhas prestes a se desmanchar por completo ao menor sinal de pressão.

Minha mente, como de costume, era um labirinto saturado por um veneno silencioso, um fluxo ininterrupto de paranoias e autocríticas que ecoavam no meu peito com a força de um veredicto. Aos vinte e sete anos de idade, eu me olhava no espelho e enxergava apenas uma fraude bem-sucedida, uma intrusa na minha própria existência que havia aprendido a arte de ser invisível para sobreviver. Crescer na casa dos Swan significava caminhar sobre uma camada perpétua de gelo fino; meus pais, Charlie e Renée, permaneciam casados por uma inércia dolorosa, arrastando um matrimônio gélido, composto por silêncios cortantes na mesa do jantar e olhares vazios que evitavam qualquer resquício de afeto. Na minha cabeça, eu era o subproduto daquela indiferença crônica, uma garota negligenciada que absorvera a frieza do lar até transformá-la em uma certeza absoluta: a de que eu era um fardo pesado demais para qualquer um carregar. Eu não sabia como agir, como me portar ou como preencher o espaço de uma sala sem sentir que estava roubando o oxigênio de alguém que realmente importava. E agora, o peso físico da minha própria incompetência biológica cobrava o seu preço, manifestando-se na forma de um cansaço avassalador que transformava meus passos em chumbo e em uma arritmia persistente que me lembrava, a cada batida errática, que eu era defeituosa desde o primeiro sopro de vida.

— Isabella Swan? — a voz suave da enfermeira ecoou pelo corredor silencioso, quebrando o transe mórbido em que eu me encontrava.

Levantei-me de sobressalto, soltando o fio vermelho que agora pendia lamentavelmente do meu punho esquerdo, e curvei os ombros para dentro, tentando diminuir minha estatura enquanto caminhava em direção à porta de carvalho do consultório principal. O Dr. Carlisle Cullen me esperava com a mesma expressão serena e acolhedora que eu conhecia desde que era uma recém-nascida de apenas alguns meses, quando ele diagnosticara minha Comunicação Interatrial , a maldita CIA que fizera do meu coração um órgão incompleto. Ao longo de quase três décadas, Carlisle fora mais do que meu médico; ele fora a única constante de cuidado genuíno na minha vida, o homem que traduzia meus exames com paciência e que percebia minhas inseguranças antes mesmo que eu pudesse mascará-las. A sala dele era quente, decorada com estantes de livros médicos encadernados em couro e iluminada por uma lâmpada de luz amarelada que contrastava com o inverno rigoroso do lado de fora.

— Bella, minha querida, por favor, sente-se — disse Carlisle, indicando a cadeira estofada diante de sua mesa com um sorriso paternal que quase conseguiu aplacar o pânico que subia pela minha garganta. — Notei que você continua travando uma batalha perdida contra os seus casacos de lã.

Olhei para baixo, sentindo minhas bochechas arderem em um tom de vermelho que rivalizava com a roupa esfiapada, e apertei as mãos sobre os joelhos.

— É apenas um hábito bobo, Dr. Cullen... — respondi, minha voz saindo tão baixa que quase foi abafada pelo som da chuva batendo contra o vidro. — Acho que fico um pouco nervosa toda vez que venho aqui.

Carlisle suspirou, apoiando os cotovelos sobre a mesa de mogno e entrelaçando os dedos, fitando-me com aqueles olhos dourados e compassivos que pareciam ler além das minhas defesas superficiais. Ele abriu a pasta escura do meu prontuário clínico — um calhamaço grosso que continha a história detalhada de cada falha do meu sistema cardiovascular ao longo de vinte e sete anos.

— Eu sei, Bella. E o seu coração tem sido um guerreiro admirável durante todo esse tempo, conseguindo compensar esse buraquinho no seu septo interatrial de forma brilhante — ele começou, o tom de voz caindo para uma gravidade médica que fez meu estômago despencar. — Mas os exames de imagem e o ecocardiograma que fizemos na semana passada mostram que a sobrecarga no seu lado direito atingiu um limite crítico. O seu ventrículo começou a dilatar, e as palpitações e o cansaço que você tem sentido não são apenas estresse. Bella, a cirurgia de fechamento da CIA não é mais uma opção para o futuro. Nós precisamos operar agora, na idade adulta, antes que isso se transforme em uma insuficiência cardíaca irreversível.

Senti o ar faltar nos meus pulmões, e o buraquinho no meu coração pareceu se expandir, sugando toda a minha estabilidade para um vácuo de desespero. Olhei para Carlisle com os olhos arregalados, a sensação de desamparo me sufocando por completo.

— Mas o senhor... o senhor vai fazer a cirurgia, não vai? — perguntei, minha voz quebrando no final, expondo toda a minha dependência daquela única figura de proteção. — O senhor me conhece desde bebê. Eu não confio em mais ninguém para abrir o meu peito.

Carlisle esticou o braço sobre a mesa, tocando o dorso da minha mão trêmula com um aperto suave e reconfortante.

— Bella, eu gostaria muito de ser o seu cirurgião, mas como conversamos brevemente no mês passado, o tempo chegou para mim. Estou me aposentando dos procedimentos cirúrgicos complexos no final desta semana. Meus olhos e minhas mãos já não têm a precisão que um coração tão precioso quanto o seu exige — ele explicou, exibindo um sorriso terno, desprovido de qualquer amargura. — Mas eu jamais deixaria você desamparada. Estou passando todo o seu histórico e a chefia da cirurgia cardiovascular para o novo diretor clínico da ala, que acaba de retornar de uma especialização na Europa. Ele é o cirurgião mais brilhante que já vi, e o conheço melhor do que qualquer um.

Antes que eu pudesse protestar ou verbalizar o pânico de ser entregue a um completo estranho, a maçaneta da porta girou com um clique suave. A porta de carvalho abriu-se sem pressa, e o mundo ao meu redor pareceu perder o som, desacelerando até que restasse apenas a figura que cruzava o limiar da sala.

O Dr. Edward Cullen entrou no consultório carregando uma aura de perfeição e controle absoluto que me fez querer encolher até desaparecer na cadeira. Ele usava um jaleco branco impecavelmente alinhado sobre uma camisa social azul-escura que acentuava a largura de seus ombros e a postura altiva, quase aristocrática. Seu rosto possuía traços angulosos e esculpidos com uma simetria irreal; a mandíbula era marcada, os lábios eram cheios e os cabelos de um tom bronze acobreado estavam elegantemente desalinhados. Mas foram os seus olhos, de um verde profundo e magnético, como o oceano antes de uma tempestade, que me paralisaram. No instante em que ele deu o primeiro passo para dentro do consultório, seus olhos varreram o ambiente e se fixaram em mim.

Houve uma mudança perceptível e imediata em sua postura. O Dr. Edward Cullen hesitou por uma fração de segundo, seus lábios se entreabrindo levemente enquanto seu olhar prendia-se ao meu com uma intensidade avassaladora, uma mistura de assombro e reconhecimento instantâneo que parecia romper qualquer barreira profissional. Ele olhou para o meu rosto cansado, para os meus cabelos castanhos sem graça caídos pelos ombros e para o meu casaco vermelho esfiapado com uma devoção tão repentina e genuína que meu próprio pulso falhou uma batida. Era o olhar de um homem que acabara de encontrar algo que procurara por toda a vida, um impacto à primeira vista que desarmou completamente a sua fachada de médico impassível.

Carlisle, observando a cena em silêncio, olhou de seu filho para mim, e um sorriso largo, sábio e profundamente satisfeito desenhou-se em seus lábios. Ele pigarreou de leve, quebrando o feitiço visual que nos unia, e estendeu a mão em direção ao recém-chegado.

— Bella, este é o meu filho, Dr. Edward Cullen. Edward, esta é Isabella Swan — Carlisle nos apresentou, a voz carregada de um orgulho que ia além da medicina.

Edward deu um passo à frente, fechando a porta atrás de si, sem desviar os olhos verdes da minha face por um único segundo. Ele parecia ter esquecido como respirar por um instante, e quando falou, sua voz saiu em um tom aveludado, grave e ligeiramente trêmulo, reverberando no meu peito como uma melodia antiga.

— É um prazer imenso conhecê-la, senhorita Swan. Meu pai me falou muito sobre você ao longo dos anos — disse ele, aproximando-se da mesa com passos medidos, sua presença preenchendo cada centímetro cúbico daquela sala até que eu não conseguisse pensar em mais nada.

Carlisle levantou-se de sua cadeira, pegando a pasta escura do meu prontuário clínico e entregando-a diretamente nas mãos de Edward. Ao fazer isso, o velho médico colocou a mão sobre o ombro do filho e olhou-o nos olhos com uma seriedade afetuosa.

— Estou te passando a minha paciente mais especial, então cuide do coração de ouro dela, meu filho... — disse Carlisle, cada palavra pesando no ar como um voto solene, uma transferência não apenas de responsabilidade médica, mas de um cuidado profundo que me deixou completamente sem chão.

Edward segurou o prontuário contra o peito com uma firmeza quase reverente, seus olhos brilhando enquanto ele assentia para o pai.

— Eu vou cuidar, pai. Com a minha própria vida, se necessário — Edward respondeu, e o peso daquela promessa foi tão absoluto que senti uma pontada física no centro do meu peito defeituoso.

Carlisle sorriu, deu um tapinha no ombro de Edward e, após se despedir de mim com um beijo suave no topo da minha cabeça, recolheu suas coisas e saiu do consultório, deixando-nos sozinhos na imensidão daquele silêncio que agora parecia pulsar entre nós dois.

Edward contornou a mesa e sentou-se na cadeira que antes pertencia ao pai. Ele abriu a pasta escura, revelando os gráficos do meu coração, as taxas da minha insuficiência valvular e o diâmetro exato do buraco que me dividia por dentro. Senti uma onda avassaladora de humilhação e inadequação me atingir. A síndrome do impostor que governava a minha mente gritou que eu não pertencia àquele lugar; eu era uma garota comum, quebrada, vestindo um casaco destruído pela minha própria ansiedade, enquanto ele era um deus da medicina, um homem perfeito que agora tinha acesso à minha maior e mais vergonhosa fraqueza física. Eu estava nua diante dele, exposta em minhas falhas biológicas.

— O seu pai... ele tinha uma paciência infinita comigo — murmurei, quebrando o silêncio, enquanto meus dedos voltavam a torturar o fio solto da lã vermelha. — Sinto muito que o senhor tenha que herdar um caso tão... problemático. Eu sei que sou um fardo clínico.

Edward fechou o prontuário com cuidado, apoiando as mãos sobre a mesa e inclinando-se ligeiramente na minha direção. Sua expressão era de uma dor quase física ao ouvir minhas palavras, e seus olhos verdes buscaram os meus com uma urgência desesperada de negação.

— Nunca mais repita isso, Bella — ele pediu, sua voz caindo para um sussurro firme, Priorizando-me em voz alta com uma intensidade que me assustou. — Você não é um fardo. Você é a prioridade absoluta deste hospital a partir de hoje, e eu garanto que vou dedicar cada segundo do meu conhecimento para garantir que você fique bem. O seu coração não é problemático; ele é apenas uma estrutura preciosa que precisa de um ajuste que eu sei exatamente como fazer.

Abaixo da superfície de suas palavras gentis, minha mente doentia e envenenada começou a distorcer tudo. Por que ele está falando assim?, meu monólogo interno sussurrou, enchendo minha cabeça com o veneno da dúvida. Ninguém prioriza uma estranha dessa forma. Ele está apenas sendo condescendente. Ele vê você como um experimento, uma cirurgia complexa para inflar o ego dele em seu retorno da Europa. Quando ele consertar o seu septo e a farsa acabar, ele vai perceber o quão vazia e sem graça você é por dentro.

Edward levantou-se, retirando o estetoscópio de metal brilhante do bolso do jaleco. Ele contornou a mesa lentamente, aproximando-se da minha cadeira como se estivesse tentando não assustar um animal ferido.

— Peço licença para auscultar o seu peito, Bella. Preciso ouvir o ritmo desse coração de ouro de que meu pai tanto falou — ele disse, com um sorriso suave que tentava desarmar minhas barreiras.

Assenti timidamente, puxando a gola do meu casaco de lã vermelha para o lado, expondo a pele pálida da minha clavícula e a área acima do meu peito. Edward deu o último passo, ficando tão perto que pude sentir o calor suave que emanava de seu corpo e o aroma sutil de lavanda e antisséptico que o acompanhava. Ele se inclinou sobre mim, e a proximidade de seu rosto esculpido fez meu mundo girar.

Quando o metal frio do estetoscópio tocou a pele acima do meu coração, o impacto foi imediato. Um choque elétrico pareceu percorrer minhas veias, e meu coração , já debilitado pela CIA, reagiu violentamente à presença dele. O ritmo disparou, transformando-se em uma sucessão caótica e ensurdecedora de batidas descompassadas, um galope desgovernado que ecoava nas minhas próprias orelhas. Edward congelou na mesma posição. Ele manteve o estetoscópio pressionado contra o meu peito, fechando os olhos por alguns segundos para se concentrar inteiramente no som que vinha de dentro de mim.

O silêncio no consultório tornou-se ensurdecedor, quebrado apenas pela minha respiração curta e pelo barulho da chuva lá fora. Eu assistia à expressão de Edward mudar milímetro por milímetro. Seus cílios longos tremeram, e uma leve linha de preocupação e fascínio desenhou-se entre suas sobrancelhas perfeitas. Ele estava ouvindo tudo. Estava ouvindo o sopro áspero da válvula falhando, o sangue vazando pelo buraquinho interatrial, o ritmo completamente quebrado e inadequado de uma garota que não conseguia sequer manter o próprio peito em ordem diante de um homem perfeito.

O pânico absoluto se instalou na minha mente, misturando-se com a minha depressão crônica em um grito silencioso de puro desespero. Ele sabe, pensei, sentindo as lágrimas queimarem atrás das minhas pálpebras enquanto eu olhava para o topo da cabeça acobreada de Edward. Ele está ouvindo o quão errada, defeituosa e insuficiente eu sou por dentro. Ele está dissecando o meu maior segredo com esse aparelho frio, ouvindo cada pedaço de mim que está se desfazendo, exatamente como esse casaco vermelho no meu colo. Eu estou completamente desfeita diante dele.

Edward afastou o estetoscópio devagar, mas não se distanciou. Seus olhos verdes abriram-se e encontraram os meus, brilhando com uma intensidade emocional que misturava a preocupação do médico com uma paixão avassaladora que ele claramente não conseguia mais conter. Ele ergueu a mão livre, e seus dedos longos e quentes roçaram de leve a lateral do meu pescoço, sentindo a pulsação acelerada da minha artéria carótida.

— O seu coração está muito acelerado, Bella... — Edward sussurrou, a voz carregada de uma ternura tão profunda que pareceu cortar o ar entre nós, seus olhos fixos nos meus lábios trêmulos. — E o sopro está bem audível. Você está com dor? Por favor, fale comigo.

Eu não conseguia respirar. O peso de ser o centro das atenções daquele homem era violento demais para a minha baixa autoestima suportar. Eu queria fugir daquela sala, fugir daquela perfeição que me cobrava uma saúde que eu não tinha, fugir do rastro de fios vermelhos que eu mesma espalhara pelo chão da minha mente.

Senti uma lágrima solitária escapar pelo canto do meu olho e correr pela minha bochecha pálida. Com as mãos trêmulas apertando o tecido esfiapado do casaco de lã contra o colo, desviei o olhar para a vidraça açoitada pela tempestade, sentindo-me mais perdida e embaraçada do que nunca na minha vida inteira.

—Eu não aguento mais isso... — eu disse, sussurrando em um fio de voz audível e olhando de volta para Edward com os olhos inundados de desespero. — Eu não aguento mais sentir que tudo em mim está falhando o tempo todo.

Notas finais
💔 E assim começamos a nossa história. Quero saber: qual foi a primeira impressão de vocês sobre esse encontro entre Bella e Edward? Vocês acreditam que a Bella está interpretando tudo corretamente ou acham que a mente dela já está distorcendo a realidade desde o primeiro momento? Também estou curiosa para saber o que vocês acharam da dinâmica entre Carlisle e Bella. Para mim, a aposentadoria dele representa muito mais do que uma simples troca de médico, é como se ela estivesse perdendo uma das únicas pessoas que realmente cuidaram dela durante toda a vida. E, claro... preciso perguntar: 👀 O que vocês acharam do Dr. Edward Cullen? Nos vemos no próximo capítulo, onde vamos passar ainda mais tempo dentro da cabeça caótica da Bella. E prometo desde já: esse é apenas o começo do novelo se desfazendo. Não esqueçam de comentar e compartilhar suas teorias. Eu adoro ler tudo! Com carinho, GioPattz ✨