Unraveled

2 A Game in My Head


Notas iniciais
Olá, meus amores! ❤️ Sejam bem-vindos ao segundo capítulo de Unraveled. A parte que inspira este capítulo é justamente o trecho que dá nome a ele: "A Game in My Head". Porque, no fim das contas, essa história não é apenas sobre um coração que precisa ser operado. É sobre a guerra silenciosa que acontece dentro da mente da Bella. Neste capítulo, vocês vão começar a perceber algo importante: nem tudo o que Bella acredita corresponde à realidade. Muitas vezes, ela interpreta o mundo através das lentes da insegurança, da ansiedade e das feridas que carrega desde muito antes de conhecer Edward. Mas cuidado... só porque a mente dela distorce algumas coisas não significa que seus sentimentos não sejam reais. Espero que vocês gostem desse mergulho ainda mais profundo na cabeça caótica da nossa protagonista. Boa leitura. ❤️

“Used to play a game in my head when I'd date a guy / Tally up the girls that he fucked 'til I start to cry.”

— Olivia Rodrigo, The Cure

Capítulo 2: A Game in My Head

O som do meu próprio desabafo pareceu flutuar no ar estéril do consultório, pesado e denso como a névoa que insistia em lamber as janelas de Forks. Eu mantinha os olhos fixos na vidraça, recusando-me a encarar o Dr. Edward Cullen, apavorada com a possibilidade de enxergar em seu rosto perfeito o mesmo olhar de enfado ou de pena que eu me acostumara a receber do resto do mundo. Minhas mãos, ainda presas ao colo, apertavam o tecido carmim do meu casaco esfiapado, tentando ancorar minha mente em alguma dor física que distrai-se o caos que se instalara em meu peito. Eu esperava o silêncio clínico, a distância profissional que delimita o espaço entre um médico de prestígio e uma paciente defeituosa.

No entanto, o que recebi foi o som suave do estetoscópio sendo depositado sobre a mesa de mogno e o roçar sutil do tecido do seu jaleco branco quando ele se ajoelhou parcialmente ao lado da minha cadeira, quebrando qualquer barreira de formalidade para se colocar exatamente na minha altura.

— Você não precisa carregar o peso do mundo inteiramente sozinha, Bella... — a voz de Edward ecoou, saindo em um tom sussurrado, tão macio e aveludado que agiu como um bálsamo inesperado contra a minha audição. Seus olhos verdes, desprovidos de qualquer julgamento, fitavam-me com uma preocupação escancarada e genuína. — Meu pai lidava com o seu caso com uma paciência infinita porque ele sabia o quão preciosa você é. Eu quero que você saiba que pode desabafar comigo da exata mesma forma. Eu não estou aqui apenas para analisar gráficos ou agendar uma cirurgia no seu septo. Eu estou aqui por você. Pela Bella.

Antes que minha mente envenenada pudesse formular uma defesa sarcástica ou uma desculpa para me afastar, Edward estendeu a mão longa e de dedos esculpidos, envolvendo a minha mão trêmula que repousava sobre o joelho.

O impacto do toque foi violento e imediato. No segundo exato em que a pele quente dele entrou em contato com a minha, uma corrente elétrica nítida e arrepiadora cruzou meus dedos, subindo pelo meu braço até explodir diretamente no meu coração debilitado. Não foi um espasmo físico, mas uma centelha de energia tão real que vi as pupilas de Edward se dilatarem no mesmo instante. Ele não soltou minha mão; pelo contrário, seus dedos se fecharam com um pouco mais de firmeza, como se ele também estivesse tentando processar o choque daquela conexão térmica inesperada que acabara de nos interligar.

Abalada pelo toque e pela intensidade do seu olhar, engoli em seco, sentindo uma vulnerabilidade inédita rasgar minhas defesas.

— É que... — comecei, a voz saindo meio sem jeito, tropeçando nas palavras enquanto eu desviava os olhos para as nossas mãos unidas. — Eu passei a vida inteira sentindo que cada batida errada do meu peito era um aviso de que eu não funciono. É exaustivo viver esperando o momento em que vou desabar e estragar tudo ao meu redor. Eu sinto que sou um erro mecânico ambulante, Dr. Cullen.

Edward soltou um suspiro curto, e seus dedos polegares acariciaram o dorso da minha mão com uma lentidão hipnotizante, tentando injetar alguma calma no meu ritmo frenético.

— O seu coração tem um detalhe que precisa de conserto, Bella, mas ele está longe de ser um erro — ele pontuou, a firmeza de suas palavras tentando soterrar a minha síndrome de impostora. Ele inclinou a cabeça, ostentando um interesse que parecia genuinamente focado em me descobrir além do prontuário. — Conte-me algo sobre você que não envolva exames médicos ou hospitais. O que você gosta de fazer quando o mundo lá fora fica barulhento demais?

Olhei para ele, confusa com a pergunta, sentindo-me deslocada por receber tanta atenção explícita de alguém como ele.

— Eu... eu gosto de desenhar — confessei em um sussurro, encolhendo os shoulder de leve. — Grafite, carvão... principalmente paisagens abstratas e anatomia. Quando estou desenhando, sinto que posso controlar as linhas, sabe? Diferente do resto da minha vida.

Os olhos de Edward brilharam com um entusiasmo imediato, um sorriso sutil e encantador curvando os cantos de seus lábios cheios.

— Desenhar... isso é fascinante, Bella — ele disse, e a forma como meu nome artístico e curto saiu de sua boca fez meu estômago revirar em borboletas. — A precisão do traço tem muito em comum com a cirurgia. Eu adoraria ver os seus desenhos algum dia, se você me permitir. Acho que expressar o que está dentro de nós através da arte é uma das formas mais bonitas de cura.

A consulta terminou pouco depois, com Edward me entregando um cartão pessoal com seu número direto e uma recomendação estrita de repouso antes de definirmos a data da cirurgia de fechamento da CIA. Deixei o hospital em um transe melancólico, dirigindo minha velha picape sob a chuva torrencial de Forks, sentindo meus dedos ainda formigarem com o resquício do choque elétrico daquela mão perfeita.

Quando estacionei na fachada da casa dos Swan, o peso da minha realidade familiar voltou a se abater sobre os meus ombros. Na minha cabeça, cruzar aquela porta significava entrar em um freezer emocional. Eu tinha certeza absoluta de que Charlie e Renée permaneciam juntos apenas por uma convenção social falida, arrastando uma negligência silenciosa onde eu era apenas um detalhe invisível na tapeçaria do tédio deles.

No entanto, assim que a porta bateu atrás de mim, o cenário que encontrei contrariou violentamente a minha paranoia interna.

Charlie estava de pé na cozinha, ainda vestindo o uniforme de chefe de polícia, segurando uma caneca de café fumegante. Renée estava sentada à mesa, mas levantou-se no segundo exato em que me viu tirar o casaco vermelho esfiapado. Havia uma ruga profunda de ansiedade entre as sobrancelhas de meu pai, e minha mãe caminhou rapidamente na minha direção, os olhos escaneando meu rosto pálido com uma aflição escancarada.

— Bella! Graças a Deus você chegou — Renée disse, estendendo as mãos para tocar meus braços, buscando o calor da minha pele. — Como foi a consulta com o Carlisle? O que ele disse sobre os exames novos? Nós estávamos roendo as unhas aqui esperando você ligar!

— O seu coração está bem, filha? Teve alguma crise no caminho? — Charlie interveio, a voz grossa e habitualmente contida vibrando com uma preocupação genuína e rústica. Ele deu um passo à frente, inspecionando minha postura. — Eu quase fui até o hospital te buscar, a tempestade está piorando.

Olhei para os dois, sentindo um nós na garganta. Para o leitor atento, ficaria claro que a negligência e o isolamento que eu tanto cultivava na minha mente eram, na verdade, uma distorção da minha própria depressão; meus pais me amavam e se importavam, mas a minha barreira psicológica me impedia de registrar aquele afeto como algo real. Para mim, o cuidado deles parecia apenas uma obrigação incômoda.

— Estou bem, pai. O Dr. Carlisle está se aposentando, então ele passou o meu caso para o filho dele, o Dr. Edward Cullen — respondi de forma mecânica, afastando-me sutilmente do toque de Renée para pendurar meu casaco. — Ele disse que a cirurgia vai ter que acontecer logo. É cirúrgico agora.

Renée suspirou, trocando um olhar preocupado com Charlie antes de voltar a atenção para mim, tentando forçar um sorriso acolhedor para quebrar o clima tenso.

— Bem... nós vamos passar por isso juntos, querida. O Dr. Cullen é um homem maravilhoso, tenho certeza de que o filho dele também é brilhante — minha mãe disse, ajeitando uma mecha do meu cabelo molhado atrás da orelha. — Ah, e não se esqueça de que amanhã de manhã, às dez horas, você tem aquela consulta de rotina com o seu psicólogo, o Dr. Jasper Hale. Você precisa ir, Bella. Toda essa transição e o estresse da cirurgia... o Jasper vai te ajudar a organizar a cabeça.

— Eu já sei disso, mãe. Está anotado na minha agenda — respondi de forma ríspida, cortando a tentativa de interação dela. Eu odiava me sentir monitorada, odiava a sensação de que todos sabiam o quão quebrada eu era por dentro.

Renée piscou, nitidamente magoada com o meu tom defensivo, mas tentou continuar o assunto, apontando para a mesa.

— Eu fiz aquela sopa que você gosta para o jantar... quer se sentar conosco?

Em vez de aceitar o convite, minha mente retrocedeu para o meu histórico de rejeições, fixando-se no fantasma que moldara grande parte da minha baixa autoestima recente. Dei as costas para a cozinha, segurando o corrimão da escada, e lancei a pergunta que estava travada na minha garganta:

— — Por acaso... o Jacob ligou hoje? Teve algum recado dele no telefone fixo?

O silêncio que se seguiu foi cortante. Renée murchou visivelmente, e a expressão de Charlie endureceu com uma mistura de raiva e pena. Minha mãe cruzou os braços, soltando um suspiro pesado que carregava o peso de meses de sofrimento compartilhado.

— Bella... não. O Jacob não ligou — Renée disse, sua voz caindo para um tom firme, mas dolorosamente compassivo. — Vocês terminaram há um ano, filha. Ele seguiu a vida dele em outra cidade, e aquela relação... você sabe o quanto você se anulava. O término foi a melhor coisa que aconteceu para você. Bola para frente, filha. Você precisa deixar o passado ir.

Bola para frente. As palavras de Renée ecoaram como um estalo físico na minha mente envenenada. O buraquinho na minha válvula cardíaca pareceu arder, uma pontada real de dor física cruzando o meu peito diante da confirmação da rejeição permanente. Jacob me tratara como uma segunda opção por anos antes de ir embora de vez, e a certeza de que eu fora facilmente descartável era o combustível que alimentava minha síndrome de impostora até hoje.

Subi as escadas sem responder, trancando-me na penumbra do meu quarto chuvoso. Não jantei. Deitei-me na cama com as roupas do corpo, o peito latejando levemente enquanto eu encarava o teto escuro, ouvindo o tique-taque do relógio misturar-se ao som das gotas esmagando-se contra a vidraça.

Mais tarde, o tédio e a ansiedade me empurraram para o vício moderno da comparação. Peguei o celular, a tela iluminando meu rosto pálido no escuro, e abri o Instagram. Movida por um impulso masoquista e obsessivo, digitei o nome que não saíra da minha cabeça o dia todo: Edward Cullen.

O perfil dele era público, um monumento à perfeição que só fez minha autoestima despencar mais alguns degraus. Havia fotos dele em congressos médicos em Londres, imagens conceituais de livros de arte, paisagens europeias milimetricamente fotografadas e, claro, o jogo mental começou. Meus olhos se fixaram nas fotos antigas, e comecei a rolar o feed para baixo, contando mentalmente cada mulher bonita e impecável que aparecia curtindo ou comentando em suas publicações. Tanya Denali... Jessica... Mulheres loiras, elegantes, médicas ou acadêmicas que pareciam pertencer organicamente àquele mundo de jalecos alinhados e jantares de gala. Comecei a computar cada uma delas na minha cabeça, montando um placar invisível de inadequação até sentir os meus olhos arderem de humilhação. O que um cara desses quer com uma paciente de coração quebrado e casaco vermelho esfiapado?, pensei, afundando o rosto no travesseiro.

Eu estava prestes a fechar o aplicativo, exausta do meu próprio veneno mental, quando o celular vibrou fortemente na palma da minha mão.

Uma notificação saltou no topo da tela escura, fazendo meu coração dar um solavanco violento que quase me tirou o fôlego.

@edward_cullen começou a seguir você.

Fiquei estática, encarando a tela sem conseguir processar a informação. Como se ele também estivesse acordado àquela hora da noite, examinando o meu perfil comum e sem graça exatamente no mesmo instante em que eu stalkeava o dele, outra vibração ocorreu. E depois outra. E mais uma.

@edward_cullen curtiu sua foto.

@edward_cullen curtiu sua foto.

@edward_cullen curtiu sua foto.

Ele estava rolando o meu feed. Estava curtindo fotos antigas minhas me divertindo com os amigos, fotos do meu falecido cachorro, fotos de desenhos meus que eu postara há meses, imagens conceituais da chuva de Forks, detalhes bobos da minha vida invisível. Edward Cullen estava me enxergando no escuro da internet, priorizando a minha existência em voz alta através daquelas pequenas telas, quebrando qualquer protocolo de distância entre médico e paciente.

Deixei o celular cair sobre o meu peito, sentindo o buraquinho no meu septo pulsar de uma forma completamente nova. O veneno na minha cabeça me dizia para ter medo, mas o choque elétrico daquele toque no consultório parecia ter encontrado uma forma de continuar correndo, vivo e perigoso, por baixo da minha pele.

Notas finais
EU PRECISO CONVERSAR COM VOCÊS. Primeiro: alguém mais ficou com vontade de entrar dentro da história e sacudir a Bella pelos ombros? Porque eu fiquei escrevendo. Segundo: vamos falar sobre Edward Cullen...O homem conheceu a paciente pela manhã e à noite já estava curtindo foto antiga. Eu vou me abster de comentários. 👀 Também quero saber o que vocês acharam da revelação sobre os pais da Bella. Desde o início da história, a narrativa é filtrada pela visão dela, e talvez as coisas não sejam tão simples quanto parecem quando estamos presos dentro da própria cabeça. E o Jacob? Vocês acham que ele ainda vai ter alguma importância na história ou já causou estrago suficiente na autoestima da Bella? Agora me contem tudo: ❤️ O que vocês acharam do capítulo? ❤️ Qual foi a cena favorita? ❤️ Vocês surtaram com as curtidas do Edward ou mantiveram a compostura? Nos vemos no próximo capítulo. E aviso desde já: o novelo continua se desfazendo. Com carinho, GioPattz ✨