Unraveled

14 Honeybee


Notas iniciais
Olá, meus amores! 🤍 Depois da tempestade, toda relação chega a um momento decisivo: fugir... ou escolher ficar. Este capítulo fala sobre arrependimento, perdão e sobre um amor que não desiste na primeira rachadura. Nem sempre as cicatrizes desaparecem, mas às vezes elas encontram alguém disposto a segurá-las com delicadeza. Espero que vocês sintam o conforto que existe em Honeybee. Boa leitura! 🐝

Capítulo 14: Honeybee

A claridade cinzenta da manhã de Forks sempre parecia uma afronta física para quem passava a madrugada inteira digerindo os estilhaços do próprio cérebro. Quando abri os olhos, o peso do arrependimento se assentou no centro do meu esterno como um bloco de concreto. Eu estava péssima. A tristeza da ressaca do surto de ontem à noite era uma dor opaca, espalhada por cada terminação nervosa, uma sensação sufocante de autossabotagem crônica. Eu havia empurrado o homem que movia céus e terras para me ver respirar; havia cravado palavras injustas no peito de quem só me oferecia portos seguros. Olhei meu celular nao havia nenhuma mensagem ou ligação do Edward, talvez aquele tivesse sido o nosso fim...

Arrastei-me até o banheiro como um fantasma que não via sentido na própria existência. Liguei o chuveiro na temperatura máxima, deixando a fumaça escaldante transformar o cubículo em uma névoa densa. Sob a água quente, desabei. Foi um banho demorado, doloroso, onde as lágrimas se misturavam ao fluxo que corria pelo meu corpo. Apoiei a testa contra os azulejos brancos, soluçando baixinho, sentindo o buraquinho no meu coração protestar com pequenos espasmos de cansaço emocional. Eu me sentia exatamente como a garota daquela música que o Edward costumava tocar no piano: uma criatura defensiva, cheia de ferrões, que atacava por medo de ser esmagada. Eu tinha pavor de não ser o suficiente para ele, e o meu mecanismo de defesa padrão era destruir o castelo antes que o vento o fizesse.

Quando finalmente fechei o registro, a minha pele estava avermelhada pelo calor e os meus olhos castanhos estavam visivelmente inchados. Vesti uma calça jens surrada e um suéter de tricô antigo, grande demais para o meu corpo pálido, e comecei a descer as escadas de madeira de forma lenta, o silêncio da casa Swan me envolvendo.

— Mãe? Pai? — chamei com a voz rouca, o som ecoando pelo corredor.

Ninguém respondeu. Charlie, eu sabia, continuava preso nos relatórios do plantão da delegacia. Mas a Renée deveria estar na sala. Quando dei o último passo e virei o corredor em direção à cozinha, o aroma que atingiu o meu olfato baniu instantaneamente a penumbra de Forks.

—Mãe? — chamei novamente sem ter resposta.

O Cheiro de waffles frescos, café com grãos moídos na hora, panquecas de mirtilo e bacon crocante.

Prendi a respiração no portal da cozinha.

A mesa rústica de madeira da nossa casa estava praticamente irreconhecível. Havia um banquete digno de um hotel cinco estrelas de Manzanillo espalhado sobre o tampo: jarras de suco de laranja natural, frutas cortadas de forma milimétrica, geleias artesanais e, no centro de tudo, uma profusão absurda de dezenas de rosas brancas e cor-de-rosa dispostas em vasos improvisados, cujas pétalas ainda guardavam gotículas de orvalho.

E bem ali, de pé ao lado do balcão, estava ele.

Edward usava uma calça de sarja escura e uma camisa de algodão branca com as mangas dobradas até os antebraços musculosos, revelando as veias marcadas da sua pele clara. O cabelo bronze estava mais desalinhado do que o habitual, e quando ele se virou para me encarar, notei pequenas sombras de exaustão sob os olhos verdes de trinta e dois anos. Ele não usava a postura rígida de hospital. Ele parecia apenas o meu Edward, desarmado, despido de qualquer arrogância médica.

— Bom dia, meu amor — ele disse, a voz grave, mansa e aveludada flutuando pelo espaço como um acalento mecânico.

— Edward... o que é tudo isso? — perguntei em um sussurro, os meus olhos enchendo de água novamente pela vergonha da noite anterior. — Você não deveria estar no bloco cirúrgico?

— Eu cancelei — ele respondeu de forma direta, dando dois passos lentos na minha direção, as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Ele soltou um suspiro pausado. — Eu decidi tirar o dia de folga para ficar estritamente com você. Eu não consegui pregar o olho por um único minuto esta noite, Bella. Eu saí daqui sob aquela tempestade, voltei para a minha casa e passei as últimas sete horas andando de um lado para o outro no meu quarto, pensando em cada frase que você me falou na chuva. Pensando no quanto a sua cabeça deve estar sofrendo para você projetar tantos fantasmas entre nós dois.

Abaixei a cabeça, o veludo da minha dignidade sumindo.

—Me desculpa, Edward... eu fui horrível. Eu disse coisas que...

— Vida, olha para mim — ele pediu, aproximando-se o suficiente para que o seu perfume marcante de lavanda e frescor cítrico limpasse o ar pesado da cozinha. Ele levou as suas mãos longas e quentes até as minhas bochechas, erguendo o meu rosto com uma delicadeza que quase rasgou o meu peito de tanta emoção. — Eu não me importo com as palavras ácidas quando sei que é o seu pânico falando por você. Eu sou o homem mais feliz do mundo desde o segundo em que você aceitou dividir a sua vida comigo. Eu amo você com cada átomo do meu ser. Amo as suas paranoias, amo o seu foco nos livros, amo até a forma como você tenta me afastar porque o meu único objetivo de vida é provar para a sua mente que eu não vou a lugar nenhum. Você não é um defeito na minha biografia, Bella. Você é a única parte verdadeira dela.

Minhas lágrimas finalmente rolaram livres, molhando os polegares dele. Edward sorriu de forma terna, um sorriso fofo e reconfortante, e deu um passo para trás, tirando uma caixinha de veludo azul-marinho do bolso da calça.

Quando ele abriu a trava, o meu coração falhou uma batida completa.

Não era uma aliança comum. Era um anel de design francês clássico, um Toi et Moi esculpido em ouro amarelo reluzente. No centro do aro, duas gemas monumentais se cruzavam e se abraçavam em uma simetria perfeita: um diamante deslumbrante em formato de gota, límpido como a água de San Andrés, e um diamante lapidado em formato quadrado, de linhas firmes e simétricas. Duas estruturas diferentes, unidas por um mesmo fio de ouro.

—Eu não quero mais esperar, Bella — Edward confessou, a voz trêmula de uma emoção madura, os olhos verdes fixos nos meus castanhos com uma certeza avassaladora que fez os monstros da minha cabeça evaporarem do armário. Ele se ajoelhou ali mesmo, no piso de linóleo gasto da cozinha do Xerife Swan, estendendo a caixinha na minha direção. — Eu sei que você tem medo do futuro, sei que o mestrado te sufoca e que a cirurgia cardíaca te assusta. Eu entendo perfeitamente se você quiser esperar meses, ou anos, para lidarmos com as formalidades. Mas eu tenho a certeza matemática sobre nós dois. Eu quero que você seja a minha esposa. Quero comprar aquela cobertura ou aquela casa, quero te levar para a Europa, quero construir cada linha do que nós conversamos. Mas se você precisar de tempo, se a sua cabeça precisar que eu espere, eu espero o tempo que for necessário, eu fico aqui por...

Eu não o deixei terminar de falar.

Abaixei-me em um soluço misturado com uma risada trêmula, jogando-me nos braços dele no chão da cozinha. Colei os meus lábios nos dele com uma urgência febril, interrompendo o seu discurso com um beijo profundo, úmido, carregado de um pedido de perdão silencioso que ele absorveu com os braços longos apertando a minha cintura.

— Eu aceito, Edward... meu Deus, é claro que eu aceito casar com você — murmurei contra a boca dele, rindo entre as lágrimas enquanto ele deslizava o anel Toi et Moi pelo meu dedo anelar esquerdo, onde ele se ajustou com uma precisão cirúrgica de arrepiar a pele. — Me perdoa por ontem. Eu sou louca por você...Eu amo tanto você...Eu prometo que vamos ter uma vida linda juntos...

Edward soltou aquela sua gargalhada limpa e gostosa, o som ecoando pela casa vazia, e me encheu de beijos fofos pelas bochechas, pelo maxilar e pelo pescoço, até que a minha tristeza estivesse completamente lavada.

Passamos o resto daquela sexta-feira completamente isolados do universo corporativo e acadêmico. Edward pegou a minha mochila, colocou duas mantas pesadas dentro e nós entramos no Volvo prata, deixando os prazos do Dr. Harrison e as ligações do hospital tocando no modo silencioso. O destino escolhido por ele foi a praia de La Push, o nosso refúgio de mar aberto a poucos quilômetros de Forks.

O cenário em La Push era o oposto exato da saturação caribenha de San Andrés, mas guardava uma poesia melancólica que combinava perfeitamente com a nossa estrutura. O céu estava coberto por nuvens cinzentas e densas, o vento cortante trazia o cheiro forte de sal e os imensos troncos de árvores branqueadas pelo tempo repousavam na areia escura como monumentos naturais.

Foi um dia repleto de cenas absurdamente fofas e doces. Edward espalhou as mantas grossas de lã sobre um desses troncos caídos, protegendo-me do vento frio com o seu próprio corpo largo. Caminhamos descalços pela beira da água gelada, os nossos pés afundando no cascalho escuro. Edward corria atrás de mim para me aquecer, puxava-me pela cintura para me tirar do caminho das ondas mais fortes e me envolvia dentro do seu sobretudo preto sempre que eu soltava um suspiro mais longo, checando o compasso do meu peito com os dedos leves no meu pulso.

Em um determinado momento, enquanto o mar revolto quebrava com força contra os rochedos negros ao longe, Edward se sentou na manta e me puxou para o seu colo, posicionando-me de costas para o peito dele, com as minhas pernas estendidas entre as dele. Seus braços longos me abraçaram por cima do casaco, e ele descansou o queixo no meu shoulder, olhando para o horizonte cinzento comigo.

Ergui a minha mão esquerda, observando o diamante em forma de gota e o quadrado brilhando sob a luz opaca de La Push. A dinâmica daquelas duas joias era a tradução exata da música que tocava na minha mente: eu podia ser a abelha cheia de ferrões e neuras, mas o Edward era o encaixe perfeito, a liga de ouro que mantinha a minha estrutura firme.

—É lindo, não é? — ele sussurrou perto do meu ouvido, a respiração quente me fazendo fechar os olhos de felicidade. — O Toi et Moi. O diamante quadrado sou eu, com as minhas linhas exatas, a minha rotina metódica de hospital e a minha necessidade de controlar tudo. E a gota é você, Bella. Fluida, romântica, intensa... se moldando ao meu espaço. Juntos, nós formamos a única geometria que faz sentido para mim.

Sorri contra o pescoço dele, virando o rosto um pouco para morder levemente o maxilar dele, arrancando uma risada rouca do meu noivo.

— Você está ficando poético demais para um cirurgião cardíaco, Dr. Cullen — brinquei, entrelaçando os meus dedos nos dele, sentindo que o buraquinho no meu coração operava em uma calmaria inédita e pacificada.

— É o efeito colateral de amar uma artista — ele rebateu com total seriedade madura, selando os nossos lábios em um beijo lento, longo e com gosto de sal que selou o nosso pacto na areia de La Push.

A tempestade da noite anterior havia passado e os monstros da minha mente doida continuavam ali, eu sabia que eles não sumiriam da bula do meu remédio de uma hora para a outra. Mas enquanto o Edward estivesse segurando a minha mão daquele jeito, com os diamantes cruzados no meu dedo e o cheiro de lavanda dele limpando o ar, eu tinha a certeza de que a abelha finalmente havia encontrado o seu melhor lugar para pousar.

Notas finais
Confesso que este foi um dos capítulos mais delicados de escrever. Depois da dor de Structural Fractures, eu queria mostrar que pedir desculpas também é um ato de coragem, e que o perdão verdadeiro não apaga a ferida , ele decide cuidar dela. Edward não aparece com um anel para "consertar" Bella. Ele aparece porque, mesmo depois da pior noite dos dois, continua escolhendo ficar. E Bella aceita porque entende que amor não é perfeição; é compromisso, paciência e construção diária. O anel Toi et Moi simboliza exatamente isso: duas pessoas completamente diferentes, com histórias, medos e imperfeições distintas, mas que encontram equilíbrio quando caminham juntas. La Push também não foi escolhida por acaso. Depois do paraíso ensolarado de San Andrés, eles voltam para o lugar que mais se parece com eles: um mar frio, um céu cinzento e, ainda assim, cheio de beleza. Os monstros da Bella não desapareceram. Mas, pela primeira vez, ela acredita que talvez não precise enfrentá-los sozinha. 🤍 O pedido de casamento aconteceu cedo demais ou fez sentido para a história? 🤍 Qual foi o momento que mais aqueceu o coração de vocês neste capítulo? Nos vemos no próximo capítulo. E lembrem-se: Às vezes, o amor não cura todas as feridas. Mas pode se tornar o lugar mais seguro para continuar vivendo com elas. 🐝🤍