Unraveled
15 Jealousy, Jealousy
Notas iniciais
Capítulo 15: Jealousy, Jealousy
“I'm getting kinda sick of human nature / 'Cause all I see is girls too good to be true…”
— Olivia Rodrigo, Jealousy, Jealousy
O cheiro característico de hospital, uma mistura fria de antisséptico, álcool e ar condicionado estéril, sempre funcionou como um gatilho para os meus nervos. Mas, naquela manhã de terça-feira, o motivo da minha visita era teoricamente rotineiro: uma bateria de exames de acompanhamento do meu peito, agendada por Carlisle para monitorar a função do meu buraquinho no coração.
Eu trajava uma calça jeans confortável, um suéter de tricot bege e segurava uma sacola de papel pardo recheada com pães de queijo quentinhos e um café especial que eu havia parado para comprar. O anel Toi et Moi brilhava no meu dedo anelar esquerdo, a gota e o quadrado de ouro reluzindo sob as lâmpadas fluorescentes dos corredores do hospital de Forks, um lembrete físico de que o Edward era meu noivo e de que estávamos construindo uma estrutura juntos.
No entanto, a mente doida é uma máquina incansável de comparação e veneno.
Enquanto eu caminhava em direção ao posto do Bloco Cirúrgico, meus olhos mapeavam as pessoas ao redor. Médicas, residentes, enfermeiras. Todas pareciam ter uma postura impecável, peles descansadas, carreiras brilhantes e corações perfeitamente saudáveis. Eu me sentia a representação viva da imperfeição: uma mestranda atolada em prazos, com olheiras de ansiedade e uma cardiopatia congênita no prontuário.
Ao virar o corredor principal perto da sala de descanso dos médicos, meus passos desaceleraram até pararem por completo.
A poucos metros de mim, escorado na bancada de mármore, estava Edward. Ele usava o jaleco branco sobre a roupa social, o cabelo bronze impecável, parecendo um modelo de editorial médico. Mas ele não estava sozinho.
Ao lado dele, rindo de algo que ele acabara de dizer, estava uma mulher deslumbrante. Ela vestia um jaleco com o bordado elegante: Dra. Carmen Santiago — Cardiologista.
A Dra. Carmen parecia ter sido esculpida para aquele ambiente. Cabelos escuros e ondulados caindo perfeitamente sobre os ombros, uma postura confiante de quem dominava cirurgias de alta complexidade e um sorriso luminoso que exalava uma beleza sem esforço. Ela segurava um tablet e tocava o braço do Edward com uma intimidade fluida, profissional e absolutamente charmosa.
Uma onda violenta e amarga de ciúme puríssimo subiu pelo meu gargalo. O azedo da comparação me corroeu em segundos. Olha para ela, a minha paranoia sussurrou imediatamente no meu ouvido. Ela é uma médica brilhante, linda, madura, que entende o trabalho dele, que compartilha a mesma linguagem cirúrgica... e você é só a paciente poética que ele precisa cuidar.
Apertei a sacola de papel pardo com tanta força que o papel amassou. Tentei engolir o nó na garganta, mantendo o rosto o mais neutro e impassível possível para não transparecer a tempestade que me destruía por dentro. Ajeitei a postura e me aproximei a passos lentos.
Assim que os olhos verdes de Edward se voltaram na minha direção, o rosto dele se transformou por completo. A distância profissional deu lugar a um brilho radiante e devoto.
— Meu amor! — ele disse, com aquele sorriso torto devastador que sempre me tirava o ar.
Edward não hesitou. Ele deu dois passos na minha direção, envolveu a minha cintura com o armamento macio do seu braço e me puxou para junto do seu corpo, selando nossos lábios em um beijo fofo e demorado bem na frente da Dra. Santiago.
— Eu estava falando justamente de você agora mesmo — ele confessou contra a minha bochecha, com os olhos verdes brilhando de um orgulho genuíno. Ele se virou para a médica, mantendo a mão espalmada na minha lombar com uma possessividade terna. — Dra. Carmen, esta é a minha noiva, Isabella Swan. Bella, a Dra. Carmen chegou esta semana de Seattle para liderar a nova ala de hemodinâmica conosco.
A Dra. Carmen me olhou com uma gentileza sincera, inclinando a cabeça com simpatia.
— Olá, Bella! É um prazer enorme finalmente te conhecer — Carmen disse, a voz calorosa e sem qualquer traço de falsidade. — O Edward não para de falar de você por um segundo desde que cheguei. Sério, ele mostrou as fotos do anel para a equipe inteira no café da manhã. É um prazer.
— Prazer, Dra. Santiago... — respondi, forcando um sorriso educado, embora o meu peito estivesse queimando em ciúme e inadequação. Eu me sentia tão pequena ao lado da imponência dela.
Tentei agir com maturidade, mas a minha cara devia estar transparente. Passei a sacola de papel para as mãos de Edward, evitando encarar os olhos dele por muito tempo.
— Eu trouxe um lanche para você... pensei que estaria com fome antes das cirurgias. Mas eu já preciso ir, tenho a bateria de exames no subsolo agora com a equipe do Carlisle.
Edward pegou a sacola, mas a sua expressão analítica de cirurgião não deixou passar nada. Ele franziu sutilmente a testa, notando a rigidez dos meus ombros, o tom frio da minha voz e o jeito como eu evitava olhar para a Dra. Carmen. Ele me conhecia bem demais para não perceber quando a minha cabeça começava a criar veneno.
— Obrigado pelo lanche, meu amor — Edward disse com a voz grave e calma. Ele se virou para a médica com uma polidez rápida: — Carmen, com sua licença. Eu vou acompanhar a minha noiva nos exames.
— Edward, não precisa — me apressei em dizer, tentando dar um passo para trás. — Você tem a reunião de casos e a médica nova para orientar... eu posso descer sozinha, é só um ecocardiograma e sangue.
— Eu vou com você, Bella — Edward insistiu firmemente, sem dar margem para discussão. Ele se despediu da Dra. Santiago com um aceno profissional e segurou a minha mão, entrelaçando nossos dedos e fazendo questão de exibir o anel Toi et Moi para quem quisesse ver no corredor.
Enquanto caminhávamos em direção ao elevador, o silêncio entre nós era pesado da minha parte e atendo da parte dele. Olhei para o reflexo no espelho do elevador assim que as portas se fecharam: a Dra. Carmen parecia uma capa de revista de medicina; eu parecia uma garota insegura segurando a mão do homem mais cobiçado daquele hospital.
— Quem é ela? — a pergunta escapou da minha boca antes que eu pudesse conter o ciúme, a minha voz saindo menor do que eu gostaria.
Edward parou no centro do elevador, virando-se de frente para mim. Ele colocou as duas mãos nas minhas bochechas, obrigando-me a encarar a imensidão verde dos seus olhos, que transbordavam uma paciência infinita e compreensiva.
— Ela é apenas uma colega de trabalho que chegou para somar na equipe do Carlisle, Bella — ele explicou mansamente, os polegares acariciando o meu rosto. — Mas o meu universo inteiro começa e termina em você. Ficou com ciúmes, meu amor?
— Ela é perfeita, Edward... — confessei, os olhos enchendo de água pela raiva de sentir aquela inveja boba. — Ela é médica, é linda, fala a sua língua. Eu me sinto uma garotinha insegura perto das pessoas com quem você convive.
Edward soltou um suspiro terno, aproximando a testa da minha e deixando um beijo carinhoso na ponta do meu nariz.
— Ninguém naquele andar chega aos pés da mulher que eu escolhi para ser minha esposa — ele declarou com uma firmeza avassaladora, fazendo meu peito acalmar aos poucos. — Carmen pode ser uma ótima médica, mas você é a minha única mulher que me interessa, Bella. Eu não quero a perfeição de um jaleco, eu quero você. Com todas as suas neuras, com todo o seu ciúme e com esse coração que é completamente meu.
As portas do elevador se abriram no subsolo dos exames, e enquanto o Edward me guiava pela mão para a sala do ecocardiograma, a música da minha mente continuava a tocar, mas o veneno do ciúme começava a ceder espaço para a certeza absoluta de que, mesmo em meio a garotas "perfeitas demais para ser verdade", o olhar dele nunca deixaria de ser exclusivamente meu.
A agulha fina perfurou a pele macia da dobras do meu cotovelo, e eu encolhi os ombros instintivamente, soltando um pequeno arfar. Edward, que estava de pé ao meu lado na sala de coleta estéril, imediatamente segurou a minha outra mão com uma firmeza morna, passando os polegares sobre os meus nós dos dedos para distrair a minha atenção do tubo de ensaio que começava a se encher com o meu sangue vermelho-escuro.
— Pronto, meu amor... já está acabando — a voz grave e mansamente melodiosa dele ressoou perto da minha orelha, atuando como um anestésico imediato para a minha ansiedade crônica. Ele se inclinou, deixando um beijo carinhoso na curva do meu pescoço, ignorando completamente o olhar discreto que a enfermeira da coleta nos lançou. — Sabe de uma coisa? O meu aniversário está chegando...
Olhei para ele de lado, franzindo levemente as sobrancelhas enquanto a técnica trocava o tubo de coleta no meu braço.
— E o grande Dr. Cullen pretende comemorar trabalhando doze horas seguidas no bloco cirúrgico, como faz todos os anos? — perguntei com um toque de ironia carinhosa.
Edward abriu aquele sorriso torto devastador, os olhos verdes brilhando sob as luzes brancas do subsolo do hospital.
— Na verdade, não. Eu conversei com o Carlisle e com a junta médica esta manhã. Consegui sete dias inteiros de folga seguidos — ele anunciou com um orgulho contido, apertando a minha mão com mais força. — E eu quero levar você para a Europa, Bella. Quero que passemos alguns dias passeando pelas ruas de Londres, depois pegamos um trem para Paris e finalizamos a semana em Florença, na Itália. Só nós dois...
Um alarme interno soou na minha cabeça. O meu pé atrás característico acionou imediatamente as engrenagens de autossabotagem e pânico. Inglaterra, França, Itália. Uma viagem internacional de luxo, financiada pelo meu noivo rico e cirurgião de ponta, enquanto eu era apenas uma acadêmica sem orçamento com um coração com defeito de fabricação.
— Edward... eu não sei — comecei, hesitante, a minha voz saindo pequena enquanto a enfermeira retirava a agulha e pressionava um algodão no meu braço. — Nós acabamos de voltar de San Andrés. Eu tenho os relatórios do Dr. Harrison para entregar, e viajar para a Europa é algo tão... grande. Tão caro. Eu me sinto mal com você gastando tudo isso comigo e...
— Bella — Edward me interrompeu com uma firmeza doce, colocando os dois polegares nas minhas bochechas e me obrigando a focar na imensidão verde dos seus olhos, cortando o meu surto de inferioridade pela raiz. — Não existe "caro" quando o assunto é criar memórias com a minha noiva. O meu aniversário é o meu pretexto perfeito para ter você só para mim no continente europeu. Eu não estou pedindo, estou praticamente implorando. Venha comigo.
Suspirei, sentindo a minha resistência desmoronar diante da devoção nos olhos dele e da forma como o anel reluzia no meu dedo sob a luz do consultório.
— Tudo bem... eu vou com você para a Europa — cedi, soltando uma risada trêmula e rendida.
Edward sorriu abertamente, um sorriso radiante de pura vitória romântica, e selou nossos lábios em um beijo profundo e demorado bem ali na cadeira de coleta. Quando se afastou, seus olhos adotaram um tom mais sério, compenetrado e profundamente protetor.
— E quando nós voltarmos da Europa, meu amor... nós vamos focar completamente na sua cirurgia — ele afirmou com uma autoridade médica madura e inquestionável. — Vamos alinhar os exames com o Carlisle, fechar a data do procedimento e consertar esse coração de uma vez por todas para que possamos viver os próximos cinquenta anos sem esse peso. Combinado?
Engoli em seco, sentindo o buraquinho no meu coração dar uma pontada de ansiedade pela menção ao bisturi, mas assenti com a cabeça.
— Combinado.
Vinte minutos depois, eu caminhava em direção à saída principal do hospital de Forks, onde o conversível vermelho e chamativo de Rosalie Hale já me aguardava na guia. Como Edward precisava voltar para uma reunião de emergência do conselho, Rose havia se oferecido para me buscar. O plano do dia era simples e perfeito para espairecer a mente: um "dia de garotas" no apartamento de Alice Brandon, nossa amiga e confidente inseparável.
Assim que entrei no carro e fechei a porta, Rosalie deu partida de forma agressiva, cantando pneu no asfalto molhado enquanto ajustava os óculos escuros sobre os cabelos loiros impecáveis.
— Se aquele urso ridículo me mandar mais um buquê de orquídeas para o escritório, eu juro por Deus que vou atear fogo no apartamento dele! — Rose disparou sem nem me dar boa-noite, a voz carregada de uma indignação fervilhante.
Soltei uma risada fraca, ajeitando o cinto de segurança.
— Deixa eu adivinhar... o Emmett continua no seu pé?
— Ele não aceita o fim, Bella! É inacreditável a cara de pau daquele homem, só porque você esta namorando o irmão dele, ele acha que podemos sair em "casais"...— Rosalie resmungou, batendo com os dedos perfeitamente pintados de vermelhos no volante. — Ele fica correndo atrás de mim em todo lugar que eu vou, mandando mensagens, ligando para a minha mãe, fazendo cena de coitado para vocês... O Emmett acha que só porque é um gigante engraçadinho e um gostoso, eu vou esquecer os vacilos que ele deu no passado e cair nos braços dele de novo.
Olhei para o perfil deslumbrante de Rose, notando a forma como os olhos dela brilhavam quando ela falava dele. Havia raiva, sim, mas também havia uma mágoa profunda de quem ainda se importava demais...amava demais...
— Sabe de uma coisa, Rose? — comentei suavemente, virando-me de lado no banco. — Eu acho que você deveria dar uma chance para o Emmett novamente. Dá para ver de longe que ele é completamente doido por você, você por ele e que o grandalhão se arrepende do que fez...
Rosalie freou o carro com um solavanco no sinal vermelho e se virou para mim com os olhos arregalados, chocada com a minha audácia.
— Você me odeia, garota?! — ela exclamou de forma dramática, colocando a mão no peito. — Nem que eu estivesse completamente louca, varrida e surta da cabeça! Eu prefiro entrar para um convento a ter que aguentar as galinhagens do Emmett Cullen de novo!
Eu caí na gargalhada com a reação visceral dela, e o trajeto até o prédio residencial onde Alice morava foi preenchido pelas nossas risadas e pelas reclamações dramáticas de Rosalie.
Estacionamos na garagem do edifício moderno e subimos pelo elevador até o andar do apartamento da Alice. Caminhamos pelo corredor de carpete silencioso até a porta número 502. Parei em frente à madeira e toquei a campainha duas vezes.
Nenhum som.
— Que estranho... ela juro por Deus que já estaria pronta com as fofocas e o vinho — resmungou Rose, franzindo o cenho.
Toquei a campainha novamente e bati na porta. Nada. Ninguém respondeu.
— Ah, quer saber? Deve estar com o fone de ouvido vendo os desfiles de Paris — Rosalie disse, impaciente.
Sua mão foi até a maçaneta prateada e forçou a peça para baixo. Para a nossa total surpresa, o trinco cedeu com um clique suave e a porta se abriu de par em par.
— Alice? — chamei, dando um passo para dentro do hall de entrada.
O que vimos a seguir fez o tempo congelar e o queixo de Rosalie cair literalmente até o peito.
A sala de estar de Alice estava em um caos absoluto. Peças de roupa, um vestido de seda rosa de Alice e uma calça social masculina, estavam jogadas pelo chão de madeira. E bem no meio do tapete felpudo da sala, parada como uma estátua apanhada no pulo, estava Alice Brandon. Seus cabelos curtos e repicados estavam completamente desalinhados, as bochechas coradas com um tom vermelho-púrpura e ela ostentava uma cara inequívoca de pós-sexo recente, vestindo apenas uma camiseta três vezes maior do que ela.
Mas o verdadeiro choque estava logo atrás dela.
De pé perto do sofá, tentando inutilmente se esconder atrás de uma almofada grande, estava ninguém menos que o Dr. Jasper Hale, o meu terapeuta analítico, o homem sério dos conselhos cirúrgicos... e o irmão gêmeo de Rosalie.
Jasper estava como veio ao mundo, usando a almofada felpuda lilas para esconder suas partes íntimas, com o cabelo loiro bagunçado e uma expressão de absoluto, completo e mortal constrangimento. Seus olhos azuis arregalaram-se ao dar de cara com a irmã e com a sua própria paciente na porta de entrada.
Um silêncio sepulcral e mortal pairou sobre o apartamento por três segundos inteiros.
— Mas que porra... — Rosalie começou, a voz travada no gargalo enquanto alternava o olhar entre a melhor amiga e o próprio irmão pelado na sala.
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