Notas iniciais
Envy mal podia esperar para contar tudo ao “velho amigo”. A loira de olhos castanhos e mechas coloridas no cabelo saiu do auditório e foi ao banheiro para retocar a maquiagem. Geralmente não fazia isso, não para qualquer um, mas ele tinha dito que a achava muito mais bonita quando estava com os olhos bem pesados, contornados em negro.
Ela não sabia bem quem ele era, só aparecia para ela. Sempre estava de calça preta e camisa vinho. Os olhos eram castanhos avermelhados e os cabelos negros como carvão. Bonito como um deus, mas mais divertido, era o que ela pensava. A malícia parecia dominar cada encontro dos dois e o sexo não podia ser melhor.
Só faltava o nome. Ele dizia que era apenas um detalhe, mas não era, para ela. Envy sentia-se ligada a ele, seja lá o que o homem fosse.
Correu para a um corredor vazio, deitou-se no chão e pediu que ele viesse.
– Sempre se colocando mais baixa que eu, que bom que aprendeu. – Falou ele sarcástico, se referindo à posição da garota.
Ela não pareceu ligar, ficava encantada sempre que ele chegava.
Levantou-se e o beijou com desejo, cada minuto distante do homem a fazia sofrer. Parecia cada vez mais dependente dele.
O contato dos dois ficou mais ardente e ela já não conseguiria se distanciar.
– Pare com isso. Sabe como odeio quando você não é discreta. – Ele a afastou rudemente. – Não sei por que insiste em me desagradar...
Envy se abalou. Tentava sempre agradá-lo e parecia nunca ser suficiente. Sua paixão não deixava se distanciar e acaba estragando tudo. Sempre.
– Agora vá. Você tem que socializar com seus amiguinhos. — Ele mandou.
– Não quero. Quero ficar com você – Ela disse aflita.
– Eu não tenho tempo. E será bom você se aliar aos poderosos, não perderei meu tempo com uma garota fraca.
Ela sentiu sua garganta fechando e as lágrimas chegando. Assentiu e deu um selinho no homem.
– Não precisa ser tão duro comigo, sabe... – começou – Eu t...
Ele desapareceu.
– Eu te amo. – ela completou, mesmo sabendo que ele não a ouviria.
As lágrimas que tanto queriam cair começaram a escorrer pelo rosto da garota. Ele estava grosso há tempos e a única coisa na qual os dois se entendiam era o sexo. E por mais que o homem fizesse mal para ela, Envy tinha certeza de que poderia fazê-lo se apaixonar. Tinha certeza de que poderia parar de errar e fazê-lo feliz.
Foi para a sala do silêncio. Era uma sala enorme, arejada e um pouco escura, com mandálas pintadas com cores quentes nas paredes e pufes com cores em tom pastel. Alguns tapetes marrons com desenhos combinando com as paredes e mesinhas com livros empilhados.
Envy passou os olhos molhados na sala, para checar se tinha alguém.
No máximo umas dez pessoas, o que não era muito para uma sala daquele tamanho. Sentou-se longe de todos e pegou um livro qualquer, apenas para ninguém se aproximar. Ela só queria pensar.
Deu certo, por uns dez minutos. Mas uma garota foi até ela.
– Não pretende virar a página nunca? – perguntou rindo.
Envy ficou na defensiva.
– Está me observando?
– Não exatamente. Eu estava tentando ver o nome do seu livro e notei que você não está exatamente lendo. – respondeu a garota – Me chamo Manuela, e você?
A loira aceitou a explicação e resolveu interagir.
– Envy. – respondeu a outra – E eu até gostaria de ler, mas não consigo. Minha cabeça está em outro lugar.
– Um garoto, aposto. – a garota de cabelos curtos tentou – Ainda não nos conhecemos, mas quer falar sobre isso?
– Acertou – Envy esboçou um pequeno sorriso – Até gostaria, mas não posso.
Manu estranhou. A outra parecia triste e aflita, não poder falar sobre isso provavelmente só a deixava pior. A menina com mechas nos cabelos pareceu perceber a preocupação da outra e logo falou:
– Mas fique tranqüila, não é nada. E você, deixou algum namorado na terra?
– Algumas ficantes – respondeu, mas parou de falar.
Manu definitivamente não gostava de se abrir com as pessoas, percebeu a outra.
– Garotas? – Envy perguntou curiosa.
Manu conseguiu esboçar um leve sorriso, mesmo que não quisesse falar sobre si.
–Garotas.
Uma pequena pausa na conversa, talvez a garota de cabelos cumpridos estivesse envergonhada por ter feito uma pergunta desnecessária, ou talvez por estar ponderando fazer uma pergunta um tanto embaraçosa, que voltaria o assunto para si.
– Er... Você se importaria de me responder uma coisa? – tentou Envy – Pode parecer estranho, mas você me acha bonita?
A garota dos cabelos cor de gelo teve diversas reações. Primeiro corou levemente e olhou para outro canto, depois pareceu pensar. Envy não conseguiu decifrar e, quando pretendia se desculpar, a outra (que a olhava) respondeu:
– Eu acho que você sabe que é bonita. Você tem um rosto delicado, seu cabelo combina com você e seu corpo... – ela parou nessa parte – Bem, você é linda. E mesmo que não queira me contar dos seus problemas com esse cara, não permita que ele te faça pensar que não é. – parou novamente e prosseguiu – E você está com esse lápis preto todo borrado, aposto que fica ainda mais gata sem maquiagem.
Envy deu um riso fraco e chorou em silêncio. Ela não fazia ideia de como havia chegado a esse ponto.
Manu pareceu perceber que a outra estava envergonhada por chorar em público, então lhe deu um leve abraço e se distanciou.
–Ei, pode me procurar se quiser conversar, viu? – Falou antes de sair da sala.
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