– Filha, me diz uma coisa.

– Fala pai. — ela suspirou.

– E o capirotinho? — Gael pegou na mão da filha.

– Não quero saber dele pai, eu odeio aquele idiota.

– Calma Karina, calma.

– Então para de falar dele, por favor. — ela puxa a mão e se vira de costas para o pai.

Gael ficou ali ao lado da filha até que um médico entrasse e o mandasse embora para casa para a menina poder descansar. O mestre beijou a testa da filha, lhe desejou boa noite e saiu. Karina ainda estava acordada e não pretendia dormir tão cedo com tantas coisas passando pela cabeça. Era Cobra, Pedro, Bianca, Duca, Gael e até ela mesma. Tudo veio como um tapa da cara da loira que a fez ficar sem sono por várias horas.

Por outro lado Cobra ao chegar no QG apé logo que entrou não conseguiu nem trancar a porta, pela tristeza que sentia naquele momento. No pensamento dele a culpa de tudo ter acontecido era dele, afinal não deixou que Karina falasse com ele, entrasse na loja e nem pudesse vê-lo. As causas sabia que era o nervosismo e agonia, porém nunca pensava que algo daquele tipo poderia acontecer ainda mais com Karina, sua única e melhor amiga que existia.

Karina em algum momento conseguiu pegar no sono assim como Cobra, mas nenhum dos dois saíram da cabeça e dos sonhos dos outros que tiveram pensamentos parecidos no decorrer da madrugada. Eles tinham uma ligação difícil de explicar, porém eram como duas bombas prestes a explodir assim que acendessem-lhe o pavio.

Com a chegada da manhã Cobra levantou e ao abrir a loja deu de cara com Duca em frente ao QG. Ele estava uma fera e estava quase derrubando a porta para enfrentar o rapaz. O amigo de Karina ainda resistiu e não fez nada para dizer que ainda continuava ali, porém o pupilo de Gael não sairia dali tão fácil sem respostas e justificativas para o que aconteceu com Ka, já que o mestre havia-lhe falado.

– COBRA ABRE ESSA PORTA! — Duca gritava e batia na porta do QG.

– Qual foi Duca? — Cobra veio até a porta calmamente.

– Qual foi? O que você fez com a Karina seu marginal?

– Eu não fiz nada.

– Ah não? E como ela foi parar no hospital de novo? — Cobra abriu a porta.

– Como sabe disso?

– Não interessa.

– Gael, já sei. — ele cruzou os braços.

– Vai responder ou não?

– Se quer tanto saber pergunta pro seu mestre querido. — Duca pega Cobra pelo colarinho da blusa e o levanta um pouco acima do chão.

– Não brinca comigo, fala logo.

– Ela teve um infarto e uma parada cardíaca, feliz? — Duca soltou Cobra e se chocou.

– Como? — ele não acreditava.

– A Karina tem problema no coração, a saúde dela é frágil.

– E você só piorou seu maluco. — Duca desferiu um soco no rosto de Cobra.

– Tá louco? — Cobra examina o rosto e logo devolve o soco em Duca.

Os dois saem se debatendo e se socando para o meio da rua e só param quando Lobão e Gael veem e separam os garotos. O mestre de Duca o leva para a antiga fábrica onde Bianca pega gelo e um copo d'água para o rapaz enquanto o de Cobra o carrega para dentro do QG novamente o colocando sentado em uma das cadeiras de frente aos computadores.

– Qual a tua Cobra? — Lobão ficou irado.

– Nada mestre.

– Como nada? Olha isso. — ele aponta para o rosto de Cobra que sangrava em um ponto da bochecha e da testa.

– Duca, o que houve dessa vez? — Gael ajuda o aluno a se sentar em um dos bancos da academia.

– O Cobra mestre, desculpa mas não deu pra aguentar.

– Ai meu saco! — Gael respira fundo e encara Duca.

Gael e Lobão logo se estressam com os alunos preferidos pela futilidade do motivo da briga dos dois, mas depois os entendem e pedem para que deixem esse assunto para lá. Duca até promete para o mestre mas no fundo sabia que não ia conseguir, já Cobra não confirma e nem fala nada porque sabe que Karina é uma parte dele e que estaria ao lado dela mesmo que todos o impedissem disso.

Karina por outro lado estava acordando nesse horário e nem imaginava o que se passava bem em frente a sua casa, porém teve mau pressentimento ao lembrar de Cobra assim que abriu os lindos olhos azuis brilhantes. A luz do quarto iluminava todos os cantos sem exceção e quando teve esse sentimento logo se sentou na cama, mexeu no cabelos curtos e loiros e passou a pensar no que poderia ter acontecido ou iria vir a acontecer. Não sabia que era um fato ou ficção, porém quando o amigo fosse lhe visitar saberia.

O restante do dia foi um tento solitário a Karina que não recebeu visitas em nenhum horário daquela tarde, já para Cobra estava sendo puxado e cansativo por ter treinado sem parar para aliviar o estresse e a culpa que ainda sentia sobre o que tinha acontecido com a amiga e o de Duca continuava na mesma de todos os dias exceto pelo fato de pensar em Ka e no que ela estava passando ou deveria estar. Bianca já ficara sabendo do que tinha acontecido e também se sentiu culpada, mas preferiu não visitar a irmã para que nada saísse do controle e nem desse errado.

– Gael? — Cobra entrou na antiga academia.

– Tá fazendo o que aqui Cobra? Vai embora. — ameaçou Duca.

– É...Vai embora Cobra. — Bianca reforçou o que o ex-namorado disse.

– Duca...Bianca..., deixem que isso eu resolvo. — Gael mandou os dois ficarem quietos. — O que foi Cobra?

– Posso falar com você?

– Pode, vamos lá fora. — os dois então saíram e ficaram na porta da antiga fábrica.

– Posso visitar a Karina, preciso dizer algumas coisas para ela.

– Não sei Cobra.

– Por favor, é importante. — Cobra implorou.

– Tudo bem, mas me avise assim que chegar e sair de lá.

– Tudo bem, obrigado.

– De nada e melhoras aos cortes.

– Obrigado.

Cobra saiu depois de se despedir de Gael e foi direto ao QG avisar Luiz que estava cuidando de tudo que iria visitar Karina. O amigo de Cobreloa apenas disse que ficaria tudo bem e que ele poderia ir sem problemas, então foi isso mesmo que o rapaz fez. Pegou o capacete e as chaves da moto, se posicionou e partiu em direção ao hospital onde a menina estava e em menos de meia hora chegou.

– Karina? — Cobra bateu na porta com o capacete em uma das mãos.

– Cobra? — ela sorriu. — Que bom te ver.

– Sim. — ele colocou o capacete, a carteira e as chaves em uma das cadeiras dentro do quarto.

Karina já estava tomada banho e logo chegaria o café da tarde.

– Então tudo... o que foi isso no seu rosto? — ela olhou direto onde os machucados se mostravam.

– Nada Ka, relaxa.

– Que nada, fala.

– Não foi nada. — tempo — Sério.

– Sabe que odeio mentiras.

– Sim.

– Então fala.

– Briguei com o Duca. — o garoto abaixou a cabeça.

– Com o Duca? Por que? — a menina se sentou.

– Por que ele sabe o que aconteceu. — ele a olhou nos olhos.

– Quem contou?

– Seu pai.

– Mas que saco!

– Pois é. — ele chegou mais perto. — Mas fora isso tá tudo bem sim.

– Que bom, mas como pararam de brigar.

– O Gael e o Lobão nos separaram.

– Ah.

– Karina, eu vim aqui por outro motivo. — ele se virou de costas e foi até a cadeira onde apoiou os braços em uma delas.

– E que motivo seria esse? — ela desconfiou.

– Ka, eu sei que não devia mas...

– Não devia o que? — ele começou a respirar ofegante.

– Como falar isso? — ele sussurrou para que ela não escutasse.

– Cobra? Dá pra falar? — ela tentou sair da cama, mas não conseguiu.

– Karina, fica ali. — ele chegou perto dela e a abraçou.

– Cobra?

– Karina, me desculpe. — ele falou no ouvido dela e ela o afastou.

– Desculpar? Pelo quê? — ela olhou fundo nos olhos do amigo.

– Tudo talvez.

– Tudo o que?

– Karina, por favor não finja que não está entendendo. — ele se afastou da cama da menina.

– Eu não estou.

– Você sabe do que estou falando, só finge que não.

– Sinceramente? Não sei.

– Da gente Karina, da gente. — ele grita.

– Somos amigos...lembra? — ela tenta pegar na mão dele.

– Sim eu lembro, até o dia que você dormiu lá. — ele a olha respirando fundo.

– O que tem aquele dia? — ela fica desesperada.

– Não deveria ter acontecido. — ele então se vira e se apoia nos pés da cama dela.

– E por que não?

– Porque não sou homem pra você. — ele se vira e ela começa a sentir o coração pesar novamente.