Underwing

1 Quem me Jogou?


O cenário da guerra enchia seus olhos, tinha a visão privilegiada de cima do banho de sangue que se estendia por metros, cada tinir dos choques de espadas faziam seus ouvidos zumbirem, cada um a ser morto, humano ou monstro, era só mais um peso em suas costas.

A contra gosto, desceu para o chão, precisava terminar o serviço, afinal ainda haviam muitos soldados fatalmente feridos, mas ainda agonizando... vivos. Seus pés mal se levantavam para andar, por isso se arrastavam pela grama pintada de vermelho, ficando da mesma cor a cada passo que dava. Passava procurando ser indiferente pelos corpos já sem vida e ignorando aqueles que lhe imploravam por ajuda, apenas cravando uma faca em cada um deles, a qual já fizera esse trabalho tantas vezes e ficara tão manchada, que a cor de sua lâmina já se tornou um vermelho vivo.

Caminhou até o meio do conflito, seus olhos começando a marejar com todos que havia matado, seus ombros pesando mais do que nunca quando viu o rei dos monstros lutando com todas as suas forças, já sentindo a culpa de todas as gerações que destruiria. Levantou sua faca, que ganhou um brilho branco, que aos poucos foi se tornando magicamente a cor da própria adaga, se preparava para dar o tiro quando algo, ou melhor, alguém a derrubou.

—-- Para! --- uma monstra de pelos brancos como a neve se encontrava em cima de si, prendendo suas mãos a imobilizando enquanto chutava a faca o mais longe que conseguia --- P-por favor, n-não faç-ça i-isso! --- ela lhe implorava entre soluços, com uma dificuldade tão grande para falar que a outra quase não a entendia.

—-- É o meu trabalho. --- disse friamente.

—-- M-mas esse n-não pode ser o ú-único jeito, tem q-que ter o-outra maneira!

—-- Sinto muito… mas não tem.

A monstra parecia pensar desesperadamente, olhando para todos os lados menos para a outra. Então seu rosto se iluminou, abriu a boca como se tivesse o melhor dos argumentos, mas a fechou logo em seguida por causa de um barulho, vindo diretamente de onde o rei lutava.

—-- Asgore! --- a monstra saiu de cima da outra e correu em socorro de seu marido. Aproveitando a oportunidade, se levantou rapidamente, esticando a mão para pegar sua arma de volta, apontando para uma cratera onde os reis de cada espécie se encontravam desacordados assim que a conseguiu, o mesmo processo de antes se repetiu, e dessa vez não pôde segurar, deixando cair lágrimas de amargura.

—-- Me desculpe… --- sussurrou antes de finalmente atirar.

***

Era noite, a luz da lua fazia sombras assustadoras graças a densa floresta que se estendia até o topo do Monte Ebott e era possível ouvir o piar de corujas ao longe, mas havia alguém ali, correndo desesperadamente até o topo, sem se deixar ter medo do ambiente ao seu redor.

A bela moça de feições juvenis estava ofegante, já não aguentava mais essa maratona, mesmo assim continuou correndo. Quando chegou ao topo do monte desabou, seu cansaço não era somente físico mas também emocional e psicológico. Sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto e apertou os lençóis que tinha em seus braços.

—Eu não queria fazer isso... — ela diz com a voz embargada — Eu só queria... eu só queria que você pudesse viver, meu anjo... mas... — memórias amargas, de momentos antes de subir o monte passam por seus olhos — Mas não dá... é melhor eu fazer isso, do que eles. — então se põe a chorar novamente — Eu só quero que saiba que eu te amo.

A criança que nada entendia olhou a mãe aos prantos e abriu seus pequenos olhinhos, olhos vermelhos como sangue que levaria muitos a acreditarem que ela é o demônio em pessoa. Soltou grunhidos tentando amparar a mãe, o que não passou de uma falha tentativa.

—Por favor, pare! Está tornando tudo muito mais difícil. Só... só me deixe fazer isso... — ela diz se aproximando de um grande buraco que havia ali. Estendeu os braços afrouxando seu aperto na criança, mas antes que pudesse soltá-la hesitou — ... Eu nunca vou te esquecer — então a largou.

*****

Flowey estava entediado, apenas observando a cama de flores douradas a sua frente. "O que mais poderia fazer?" ele se perguntava. Já esgotara todas as possibilidades desse mundo, ao menos pensava que sim. Soltou um suspiro frustrado e fechou os olhos, será que ainda valia a pena continuar?

Seus pensamentos foram interrompidos por um baque abafado vindo das flores. Ele abriu os olhos em alerta, com suas vinhas já preparadas para uma luta. Aproximou-se cautelosamente e viu ali um montinho de panos se debatendo. Com a ajuda de suas vinhas jogou-os longe e encontrou uma criança toda machucada, haviam roxos por todo o seu corpo e um filete de sangue escorria por sua cabeça. Era uma humana.

Seria aquela criança a solução para o seu tédio? Com essa ideia em mente ele sorriu de forma maléfica e apertou a pequena humana com toda a sua força, asfixiando-a e ao mesmo tempo perfurando-a com seus espinhos. Quando terminou de executá-la a deixou no chão e observou aquele corpinho ensanguentado. Tentou carregar seu arquivo salvo, mas não conseguiu fazê-lo. Olhou ao redor assustado, estava de novo na posição em que ficara quando encontrou a criança, que agora estava ali, viva, como se nada daquilo tivesse acontecido.

Sem entender o que aconteceu, Flowey apenas recolheu suas vinhas e mergulhou, mas antes de estar completamente sob a terra pode ver de relance a cor dos olhos da humana, aqueles olhos vermelhos o aterrorizaram. Não voltou para aquele lugar durante todo o resto da noite.

Já de manhã, com fome, com medo e com dor, a criança chorava em plenos pulmões, chorava a tanto tempo e tão alto que ninguém sabia dizer como ainda não tinha perdido a voz. Porém, para a alegria da criaturinha, havia uma figura ali com ela. Tendo consciência disto, ela chorou ainda mais na intenção de chamar a atenção de quem quer que estivesse por ali, e funcionou, a gentil monstra parecida com uma cabra a acolheu como uma mãe e o choro parou imediatamente.

Toriel levou a criança para sua casa onde cuidou de seus machucados e lhe alimentou, deu-lhe também um banho, que foi quando percebeu o nome bordado na roupa que a pequena vestia.

—Frisk? Que belo nome pequenina. Não sei por que alguém lhe abandonaria, que crueldade! — nesse momento a guardiã olhou pelo canto do olho sua "filha", exatamente no momento em que ela abriu os olhos. Toriel levou um susto e num pulo se afastou da pequena. O que fora aquilo? Não podia ser, será que?... Antes que pudesse formular qualquer teoria concreta sobre essa possibilidade, Frisk começou a chorar novamente, e deixando todo o seu medo e espanto de lado Toriel pegou-a no colo e a aninhou — Não se preocupe, minha pequena, eu não farei isso. Ao contrário, tenho certeza de que seremos muito felizes aqui.