Underwing
2 Malditos Olhos
Tinha errado o tiro, não conseguia acreditar que errou um tiro! Em sua mente muitos pensamentos se misturavam formando uma bagunça enorme, mas então lembrou de algo, uma profecia muito antiga a qual não dera importância quando ouviu, mas agora a compreendia, chegou a hora.
Caminhou tranquilamente para perto do corpo do rei humano, que agora jazia morto no centro da cratera, podia sentir todos os olhos sobre si,não deixando dúvidas de que estavam todos curiosos para ver o que faria.
Assim que ficou frente a frente com o rei, ajoelhou-se e juntou suas mãos, cobrindo o rosto do falecido, enquanto recitava o feitiço em uma língua que nenhum dos presentes conseguia entender. Das pontas de seus dedos começaram a sair faíscas brancas, fantasmagóricas e frias, elas cresceram se tornando longos fios que passavam pelo meio de todos ali, e também do resto do mundo.
Logo depois que terminou de recitar o feitiço sentiu suas forças irem embora, e seu corpo caiu sobre o do rei. Todos viram sua alma entrar no solo, sabendo que estava indo cada vez mais fundo pois a luz que se espalhava por onde mergulhou, aos poucos, foi apagando.
Para os humanos aquilo foi a gota d’ água, sem piedade alguma eles avançaram para cima dos monstros, os massacrando mais do que já tinham feito. Os monstros não tiveram escolha, quando seu rei os mandou pular em um grande, e aparentemente fundo, buraco, eles o fizeram sem questionar.
Os humanos, vendo a cena, gritaram vitória, chamando seus mais poderosos magos para selarem os monstros no subsolo, certos de que nunca mais precisarão se preocupar com essas criaturas.
***
Passaram-se quatro anos desde a chegada de Frisk, e durante todo esse tempo ela nunca saiu de casa, o máximo que se limitava a fazer era espionar o lado de fora pela janela, coisa que a frustrava, pois sempre que avistava um monstro, ele corria; mas era um hábito que não conseguia largar, gostava de ficar observando, embora não tivesse coragem para ir para fora.
Toriel não achava saudável para ela ficar trancafiada, mas também nunca sugeriu que a menina fizesse o contrário, seu medo de que os monstros que habitavam as Ruínas a atacasse sempre falava mais alto toda vez que sequer pensava em levá-la em uma de suas rondas diárias.
Entretanto, houve um dia em que avistou uma estranha flor, ela tinha surgido da terra e parecia ter um rosto. Nisso, a curiosidade de saber o que ou quem estava ali fora foi maior que o medo que sentia, então Frisk decidiu que fugiria.
Claro que iria voltar, mas ela tinha certeza de que se pedisse a Toriel ela não deixaria, Frisk enxergava a aflição no rosto da mãe quando a flagrava encostada no parapeito da janela.
Com o seu plano armado, na calada da noite ela pegou uma mochila e colocou dentro dela um casaco, caso estivesse frio, e um pedaço da torta de canela e caramelo que sua mãe fizera no dia anterior. Ajeitou os travesseiros na cama de forma que parecia que havia alguém dormindo e saiu.
Quando seus pés cruzaram a linha entre a porta e o lado de fora, a primeira coisa que reparou foi um ponto luminoso parecido com uma estrela que girava. Não havia visto ele da janela, então caminhou em sua direção curiosa e o tocou.
Uma tela preta com suas características (seu nome e LV), além do lugar que se encontrava, apareceu a sua frente. Na parte de baixo da tela também havia dois botões: salvar e retornar.
Com incerteza do que ocorreria, clicou em salvar. Apenas ouviu um barulhinho que não soube identificar, então tomou como uma pequena música.
—--Ora ora, parece que você finalmente resolveu colocar o pé fora daquela casa? --- ela ouviu e se virou. Havia uma flor parada a observando — Vejo que está confusa, bem, me deixe me apresentar, eu sou Flowey, Flowey a flor. Não sei se sua mãe lhe educou sobre o funcionamento das Ruínas... --- Frisk balançou a cabeça negativamente --- Não?! --- a flor parecia espantada --- Bom, parece que o bom e velho eu terei que fazer isso, preparada?
A garota assustou-se quando o ambiente ao seu redor piscou e se tornou preto, como se alguém tivesse apagado a luz.
—Vê este coração? --- Flowey pergunta e Frisk olha para baixo, vendo um pequeno coração vermelho colado a sua camisa --- Essa é a sua Alma, a própria culminação do seu ser. Ela no começo é fraca mas pode ficar forte quando você ganhar LV. --- Toriel havia explicado que a sigla significava LOVE, então pensou que era uma coisa boa --- Você quer LV não quer?
Frisk balançou a cabeça em afirmativa. Flowey lhe disse sobre as "balinhas da amizade" e ofereceu algumas. Ela esticou o braço, mas assim que seus dedos entraram em contato com uma delas, sentiu uma dor terrível.
—-- Idiota! Nesse mundo é matar ou ser morto! --- então aquelas balas cercaram a menina --- MORRA!
Ela fechou os olhos com medo. Sua dor só piorou, chegou num ponto em que pensou que realmente iria morrer, mas ela parou. Abriu os olhos, com a visão turva pelas lágrimas, olhou seu corpo não achando um arranhão sequer, olhou para trás e viu a expressão de puro pavor no rosto da flor.
Flowey mergulhou na terra fugindo da luta que ele mesmo iniciara.
Frisk não soube o que fazer, só ficou parada, olhando o lugar onde a flor estivera. Depois de um tempo parada decidiu que não tinha saído para nada, e continuou andando pelas Ruínas.
Ela andou tanto que tinha certeza que se desse mais um passo seus pés cairiam. Encostou-se na parede ao lado e escorregou até o chão. Se encolheu quando ouviu um barulho vindo de uma curva que acabara de fazer. Um monstro como um sapo se mostrou, mas logo correu novamente. Frisk sabia o motivo e, num acesso de raiva, correu atrás do monstro.
Por que todos a julgavam perigosa apenas por seus olhos? Toriel sempre lhe disse que “não se deve julgar um livro pela capa”, mas todos faziam isso com ela.
PARA
Sem consciência de seus atos, só foi perceber o que tinha feito quando olhou suas mãos sujas com poeira. Ela não acreditava nisso, não podia ter feito isso!
Lágrimas de arrependimento e amargura escaparam de seus olhos. Aqueles malditos olhos! Foi por causa deles que tudo tinha acontecido. Não queria que acontecesse de novo, então pegou uma faca de brinquedo que achou em meio a suas andadas, posicionou-a em frente dos olhos, mas na hora H faltou coragem. Tinha muito medo da dor, por mais que quisesse fazer aquilo. Tentou novamente, mas teve a mesma atitude.
Pensou no que poderia fazer e achou melhor que apenas fechasse os olhos. Viver como uma cega sabendo que teria a opção de ver se quisesse seria difícil, disso ela tinha certeza, mas era melhor do que a dor, mesmo que fosse só por alguns momentos.
Com isso em mente, começou sua caminhada de volta para casa se guiando pelas armadilhas que encontrara. Foi muito exaustivo, mas valeu a pena, pois se deparou com mais alguns monstros pelo caminho, mas dessa vez eles não correram. Realmente foi o melhor.
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