Underwater

1 Prólogo - A tempestade


Notas iniciais
Hey, hi, hello ;3

A tempestade estava piorando.

Dominique se apertou no deposito que servia como quarto. A náusea revirava o estomago da jovem de formas horríveis. Uma onda se quebrou contra o lado do navio, que envergou para um lado e a fez agarrar uma corda para não sair rolando junto dos barris e caixotes.

Ela sentiu um arrepio se alastrar pelos braços e descer até a base da coluna. O deposito que lhe servia de quarto se iluminou com um trovão, e ela percebeu que a água começava a entrar por baixo da porta. Dominique escutou os berros ficarem mais altos e ela tentou forçar a pequena janela – a única janela – a abrir. Emperrada.

Mas mesmo assim, ela teve a visão da ação ocorrendo lá fora. Via os tripulantes gritando uns contra os outros, berrando ordens, desesperadamente tentando diminuir a quantidade de agua dentro do barco. Mas não conseguiam vencer a ferocidade da tempestade. A garota teve o pressentimento que não conseguiriam, mesmo se continuassem tentando pela noite toda. Dominique voltou a se abaixar contra a parede. Puxou o vestido esfarrapado para perto de si, tentando se aquecer.

Um trovão explodiu.

Dominique puxou os joelhos contra o peito. O vento estava ficando cada vez mais forte, o barco indo de um lado para o outro com mais frequência. Os berros começaram a ficar mais exigentes. Os rangidos do barco começaram a ficar mais fortes. Sentiu a bile queimar a garganta quando o navio se envergou perigosamente para a frente, fazendo-a rolar contra a parede. Não conteve um grito de dor.

O barco tombou para a direita, e Dominique conseguiu engatinhar para longe de um caixote antes que ele a esmagasse contra a madeira. Não percebeu quando a porta abriu, apenas se assustou e tentou gritar quando duas mãos calejadas a agarraram.

-Você vem conosco. – O homem parecia tão assustado quanto ela. Ele puxou o braço dela com força, a trazendo para o meio do vendaval.

Um segundo homem o ajudou a arrastar Dominique pelo navio que balançava. O vento fez dos cachos da garota chicotes contra seu rosto, e o vestido ensopado parecia guiar o frio para dentro dos seus ossos. Uma onda acertou o lado do navio, levando ela e os dois homens para o chão. Sentiu outras pessoas a agarrarem. Dominique era guiada com lagrimas de desespero, tentando entender o que estava acontecendo. Viu que era guiada em direção a outros dois homens, que esperavam perto da amurada do navio. Não entendeu o que queriam com ela.

Dominique viu que um dos homens segurava uma corda, e a compreensão a acertou.

-Não... – a voz dela foi sussurrada, rouca por ter passado muito tempo sem ser usada. – Por favor, não! – Dominique tentou correr, escapar, fazer qualquer coisa, mas a mão de um dos homens a garrava firmemente pelo pulso.

-Eu lhe disse – o capitão, que segurava a corda, repreendeu um dos homens que ajudavam a segura-la – que ter mulheres abordo dava má sorte. Agora, se todos nos morrermos por causa de você – ele enfiou um dedo no peito do homem -, você vai ter que aguentar mais de cem fantasmas assombrando seu traseiro.

-Ela estaria morta se a deixássemos no porto. – Dominique reconheceu aquele homem. Ele havia a recolhido quando seus pais a abandonaram no porto. – Não conseguiria deixar ela para trás sabendo que poderia fazer alguma coisa.

O capitão deu um sorriso cínico.

-E agora sua boa ação vai ser recompensada com a morte de todos nós.

Dominique foi levantada facilmente por um dos homens, enquanto outros dois amarravam suas pernas juntas fortemente para não conseguir nadar. Seus braços logo tinham sido amarrados atrás, não deixando espaço para ela se movimentar.

-Ela teria sido uma boa esposa. – Um dos homens murmura, olhando para ela com pena.

A indignação queimou o corpo de Dominique. Sem conseguir se segurar, cuspiu no rosto do homem, o que levou os homens ao redor a xingarem sem limites a moça. Um deles se adiantou e lançou um tapa contra o rosto da garota, que a deixou vendo estrelas. Sentiu alguém a agarrar pelas amarras que mantinham os braços presos.

Ela tentou se contorcer para se livrar das cordas. Foi arrastada para a beira do barco, chutando e esperneando o máximo que conseguia para tentar se soltar. Uma pequena voz dentro da sua cabeça a mandou parar. Se ela conseguisse se soltar, ainda estaria dentro do barco com aqueles marinheiros e sabia que se conseguissem sobreviver a tempestade, a matariam de qualquer forma. Essa frase pesou no peito dela, e ela foi colocada sentada na amurada do navio.

O olhar do homem que a segurava fez Dominique querer vomitar. Havia medo. Remorso. Pena. Mas sabia que se parasse, ia ser morto pelos outros. E a compaixão que sentia daquela mulher não era maior do que sua vontade de voltar para sua casa com vida.

-O mar é frio. – Ele tirou o casaco e o prendeu ao redor dela. – E cruel. Sinto por fazer isso. Mas a culpa é sua, mesmo que indiretamente.

O homem suspirou. Ele parecia que iria repensar sua próxima ação. O coração de Dominique se encheu de esperança por um único momento. Ele talvez não a jogasse. E então, o estomago afundou mais rápido do que ela quando se sentiu caindo para seu tumulo aquático, o mundo ao redor dela girando.

Alguma coisa tinha sido jogada com ela. O corpo da menina caiu rápido demais, de forma violenta demais. Não houve tempo para ela respirar antes do choque das aguas frias tirar o folego dela. O homem estava certo. O mar era frio. E cruel. Uma onda a acertou em cheio, mandando-a para baixo. Mas o instinto de sobrevivência de Dominique era mais forte.

Ela se recusava a desistir. Se retorceu para tentar se livrar das cordas, mas principalmente para se livrar do peso que a puxava. Dominique conseguiu chutar e a corda que segurava seus tornozelos escapou junto com o peso e naquele momento, ela percebeu que podia nadar com mais facilidade, mas que também estava exausta.

A vontade de sobreviver fraquejou. O peito ardia. As pernas não aguentavam mais. Mas ela não ia desistir. Quando abriu os olhos, sentiu o sal da água queimar, mas também viu que estava mais próxima da superfície do que achava. Uma onda a empurrou ainda mais para baixo, e Dominique sentiu o corpo relaxar contra a sua vontade.

Jurou que estava morrendo. Seu peito não doía mais, nem suas pernas. Deus, jurava que estava morta. Mas alguma coisa a acordou. Um rosto. A lembrança a incomodou, mesmo que não tivesse conseguido se segurar a ela por tempo suficiente para descobrir quem era.

A água a envolveu. Dessa vez, não cruel ou fria. Ela a acolheu como semelhante. Como irmã. Dominique abriu os olhos e eles não arderam, o corpo ganhando força contra as águas raivosas do mar. A água estava se tornando parte dela, e ela da água.

As cordas escorregaram pela pele lisa. Ela estava livre.

Ela sentiu a raiva da tempestade a envolver, se juntando com a raiva que sentia pelas pessoas que tentaram assassina-la. Dominique subiu o mais rápido que conseguiu, a cauda cortando a água sem maiores problemas.

Na superfície, ela não encontrou problemas para se manter fora da água, mesmo com a violência dos ventos e ondas. Sentiu um sorriso maldoso tomar conta do rosto. O capitão estava certo, de certa forma. O mar era frio e cruel, e Dominique era, agora, o mar. Os dentes afiados arranharam sobre o lábio inferior, mas ela não se importou.

Ela sorriu.

Notas finais
E aí? Mereço no minimo um "continua?". Se gostou, deixe um review, por favor :3