Undyne, a pobre monstrinha, trêmula e sem atitude, ainda estava pasma com o que contemplava.

Muda de medo e terror, ela não tinha o que falar para tentar amenizar a dor de sua salvadora. O olho destruído, ensangüentado e cegado pelas armas dos humanos, não acompanhou o piscar frenético e choroso daquele que havia restado.

Renata, mesmo com os graves danos, tinha um sorriso formado no rosto. Sentia as demais Guardas atrás de si, e estava certa de que a pequena monstrinha finalmente estaria segura.

Porém, subjugada pelo ferimento, cai de joelhos diante da menina.

— Heeh... — arquejou, ao sentir a lança ir mais a fundo na coluna — Undyne... me... me prometa... que vai me substituir.... – guinchou, sufocando um soluço.

O olho marejado da pequena já estava misturado a toda fuligem, enquanto os dentes pontiagudos formavam um semblante de tristeza profunda. Os bracinhos magros se ergueram, enquanto Undyne segurou o rosto da guerreira moribunda.

— Renata... não...— implorou, aos prantos, segurando o olho cego – eu... eu prometo.

— Às vezes... é necessário sacrifício... para o bem dos outros, minha pequena. — ditou, com dificuldades pelo agravamento da ferida. — Você é o futuro da guarda... posso ver a força... adeterminação.... dentro de você. Mas... por favor... não tenha ódio dos humanos... — agora seu rosto era uma mistura de dor e aflição — tenha... tenha pena....

Renata não conseguiu mais segurar sua vida.

Sua alma, por fim, rachou-se ao meio

Houve um sonoro barulho de seu interior, e seu corpo foi, aos poucos, se transmutando em uma poeira cintilante, que acabou por se tornar invisível no ar, livre da dor que há pouco carregara.

E no momento que Skarlett e Amy chegavam para protegê-la dos homens restantes, a pequena Undyne assumiu, dentro de si, a responsabilidade de treinar arduamente para consolidar sua promessa com Renata, enquanto deixava para trás a casa e os corpos que, um dia, haviam sido sua família e seu lar.

Faria de tudo para honrar sua salvadora.

Não deixaria que sua morte fosse em vão. Assim como Renata desejara, ocuparia seu lugar na Guarda Real, e defenderia todos de seu povo, decidida a poupar os monstros de mais sofrimento por seus oponentes.

Apenas não prometera – nem a Renata, nem a si mesma — não ter ódio dos homens.

Por que estes haviam lhe tirado tudo que amava.

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Kira estava atônita, oculta entre alguns detritos de casebres deformados e queimados. O odor acre de sangue e objetos incinerados estava lhe incomodando absurdamente, justamente pelo fedor ser uma mistura única e repugnante.

Tinha tido completa e total sorte em não ser vista pelos humanos, enquanto estava ali, sentada de frente a sua casa, apenas tendo um vislumbre do magnífico reino que estava bem á sua frente.

Agora, ela via coisas muito piores.

Enquanto os humanos iam saindo do local em um fluxo feroz, brandindo as lanças e declarando que voltariam para matar os remanescentes, o rei Desgore passeava pela passarela que ligava o castelo até o reino, abismado e horrorizado.

O ataque fora repentino. Mal tivera tempo de pegar as poucas armas que tinha.

Quando finalmente chegara para ajudar os monstros, em sua armadura cintilante, muitos dos seus súditos já jaziam mortos. Aflito, vira muitos rostos familiares entre os corpos que já se desmanchavam.

Kira não tinha uma noção exata do que presenciara — e, na verdade, nem queria ter. Apenas achou que seria sensato seguir com todos os monstros ainda vivos até os membros da realeza: Desgore, Asula, e o jovem príncipe Asgore —além da pequena Toriel, que soluçava desolada contra o longo manto do rei, desconsolada.

Skarlett embalava Undyne nos braços, olhando, penalizada, a órbita oca onde, um dia, existira um olho.

— Qual seu nome, pequena?

— U-Undyne – murmurou a peixinha.

— Bem, Undyne... você é uma garotinha bem durona. Renata não teria dado a vida por uma monstrinha qualquer – ela apanhou algo nos bolsos, expondo um pedaço de algodão, e algo de forma curiosa e cor preta – vamos dar um jeito nesse machucado – colocou delicadamente o algodão no rostinho de Undyne, recobrindo-o com o tapa-olho – eu usava esse tapa-olho quando criança – sorriu, assim que terminou de recobrir-lhe o olho cego – ah... bem melhor

Undyne tentou sorrir e agradecer, mas sufocou a vontade de chorar outra vez, ao lembrar-se do carinho semelhante com que seus pais lhe cuidavam. Angustiada, deitou a cabeça no ombro da guerreira, que compreendeu, abraçando-a delicadamente.

Alguns metros dali, a pequena Alphys observava sua amiga de infância, agarrada á perna de uma de suas professoras. Também havia perdido os pais naquele mesmo dia, e mal reunia forças para ir consolar a coleguinha.

— Por quê? — a voz retumbante do rei ecoou na cabeça de todos, enquanto o pequeno Asgore olhava, horrorizado, para todos os lados, se deparando com cadáveres humanos e vestígios do pó dos corpos dos monstros abatidos — o que fizemos para eles? – rilhou os dentes, sentindo a dor e angústia o consumirem – O QUE FIZEMOS PARA ELES??

Kira resolveu se manter quieta, como todos os outros estavam a fazer. Alguns choravam silenciosamente por seus entes. já outros não tinham como expressar o choque que estavam sentindo.

— Os humanos tendem a temer tudo que não compreendem< Desgore — W.D Gaster se pronunciou, tomando a frente, com Sans e a esposa Ezra, que carregava o bebê Papyrus, ao seu lado — essa é a triste realidade.

— Mas o que fizemos? — Desgore insistiu. — Nada! Absolutamente NADA, Gaster! Olhe para eles... – encarou os monstrinhos que pranteavam – olhe essas crianças!

W.D Gaster, o voluntário e mais qualificado para cientista do reino — até por que todos já o tratarem com o sufixo — tinha medo de que houvesse mais ataques. Não era uma situação tranqüilizadora, mas também não era um estado deplorável.

O revenant encarou a família, inseguro.

— A Guarda Real está desfalcada, meu rei. — falou Amy, se posicionando um pouco a frente de Skarlett e Undyne, segurando o choro — eles... eles mataram Renata.

Undyne aparentou se abalar momentaneamente, mas tentou permanecer firme, estancando as lágrimas com as mãos finas e esqueléticas.

Desgore respirou fundo. Renata, a líder valente da Guarda real... morta.

— Temos de achar um novo lugar. — Asula disse, atuando como a mais materna, em toda aquela situação. — não podemos ficar aqui, esperando que eles voltem e matem nossas crianças – arquejou, abraçando Toriel e Asgore — vamos procurar outro lugar... vamos nos proteger.

Ninguém quis se pronunciar sobre o atentado, ou tampouco sobre a declaração firme da rainha. Tudo que se puseram a fazer foi armar suas coisas em panos de diferentes cores, prendendo-os nas carroças ou em uma vareta grossa, e acompanhando a procissão que começava a fugir daquele local.

Enquanto os membros da realeza iam em uma carroça a parte, vigiada pelos protetores da Guarda Real que haviam sobrevivido, os pequenos revenants— Sans e Papyrus — estavam estranhamente quietos, enquanto acompanhavam a mãe — até mesmo para o mais jovem, que, sendo apenas um bebê, sempre se desatava a chorar.

Muffet ia caminhando calmamente, tentando não pensar em todo o incidente — somente manter o foco nas próximas ladainhas para atrair compradores. Não que fosse insensível ao que acontecera – tivera a sorte da família sobreviver ao ataque – mas usava aquilo como uma auto-proteção pata não se afligir.

Napstablook, Mad Dummy e Mettaton flutuavam a poucos centímetros do chão — a não ser pelo fantasma incorporado no Boboneco, que saltitava e resmungava. Todos os três acompanhavam a multidão, dando as costas para seus antigos lares.

Os monstros tinham sofrido baixas terríveis. Confianças abaladas. Esperanças e sonhos destruídos.

Então, agora, tudo que lhes restava fazer era criar um reino provisório. Fugir. Salvar os que haviam sobrevivido.

Mas o sofrimento dos monstros estava longe de acabar.