— Estou com fome, papai.

Gaster suspirou pesadamente, sentindo as pequenas mãozinhas do filho puxarem-lhe a barra da capa.

O revenant parou de analisar seu pesado livro de gráficos, baixando-se até a altura do esqueletinho que fungava.

— Eu sei, filho – pegou-o nos braços, afagando-lhe gentilmente o diminuto crânio.

Alana, sua assistente, encontrava-se calada ao canto da barraca, absorta em sua própria dor. Olhou para o outro lado da pequena cabana, onde Ezra, sua esposa, cantava uma antiga música de ninar, velha conhecida de todos os monstros, para Papyrus, o caçula, que tinha poucas semanas de vida.

Durma logo, pequenino

O Sol foi dormir, já anoiteceu

Deixe a noite lhe embalar

Nada tema, contigo irei estar…

Sans abraçou-se, choramingando.

Ele era apenas um dos vários monstros que, na ânsia de escapar para longe dos humanos, sofria com a falta de provisões dos monstros.

Por mais que Desgore e Asula tivessem feito o possível para guardar mantimentos e sementes, não fora o suficiente para alimentar todos os sobreviventes, que agora começavam a enfrentar a fome. A comida começaria a ser racionada, enquanto não encontrassem lugar fértil para começar novas plantações.

Todos já estavam acampados em barracas rústicas há mais de uma semana.

A família real ainda tentava achar uma saída. Com a Guarda seriamente comprometida, desde a morte de Renata, as vigílias começaram a ser revezadas até mesmo entre alguns monstros civis.

Manteve-se uma ansiedade pulsante e angustiante – ninguém ignorava a possibilidade dos humanos realmente voltarem.

Á alguns metros dali, abrigadas numa barraca bem maior, as crianças e monstras grávidas se abrigavam da neve que começara a cair na planície do acampamento. Dentre elas, Undyne e Alphys, amuadas, partilhavam um pequeno biscoito que Muffet lhes dera, alguns minutos antes.

A peixinha encarou a colega limpar os farelos do focinho. Ainda estava se acostumando com a falta martirizante que o olho destruído lhe fazia, e achava a visão unilateral extremamente irritante.

Ergueu o olhar para as mãos, fechando-as em punhos.

Lembrar de sua família e de Renata pareceu extrair todo o ar que havia em seus pulmões, fazendo-a ofegar. Seu olho lacrimejou, e Undyne sufocou um soluço.

Pare com isso, Undyne!, pensou. Renata ia querer que você fosse forte! Se quiser ser uma Guarda real, tem que ser durona como uma!

A monstrinha respirou fundo, sentindo, repentinamente, algo forte e profundo dominar seu pequeno corpo, tirando-lhe todo o medo e a insegurança.

Era algo que jamais sentira antes.

— Acha que vamos conseguir fugir dos humanos, Undyne?

Undyne despertou de seus pensamentos, enquanto Alphys tornava o rostinho em sua direção. Brincava com um tubo de ensaio nas mãozinhas escamosas.

— Não sei – respondeu, passando os dedos magros pelo tapa-olho que Skarlett lhe dera.

Alphys, para sua surpresa, lhe deu uma risadinha.

— O que foi?

— Ah… — Alphys parecia envergonhada, mas risonha – é que… você ficou muito fofa com esse tapa-olho.

Por algum motivo, Undyne sentiu-se ruborizar.

— Ah, para – fez menção de dar um soco falso na coleguinha, que pulou de onde estava, gracejando.

Undyne não conseguiu reprimir um sorriso… o primeiro desde o ataque.

Desceu da almofada, indo passear entre as demais crianças. E, de costas, não pôde ver o olhar de profunda admiração com o qual a pequena Alphys lhe seguiu.

Ainda com o senso de equilíbrio prejudicado, Undyne tropeçou em falso durante a caminhada, quase caindo – não fosse uma bondosa monstra segurar-lhe o corpinho antes da queda.

— Opa. Cuidado, querida!

— Obrigada – Undyne sacudiu a cabeça, erguendo a cabecinha para a mulher que lhe ajudara.

Tinha as feições de uma ovelha, com longos chifres espiralados – e, para a curiosidade de uma monstrinha de quatro anos, uma barriga estranhamente proeminente.

— Você é a Undyne, não é? — a monstra gestante lhe indagou. A menina assentiu, tímida – prazer em conhecê-la, querida… sou Mistrel — acrescentou, sorrindo, vendo o olhinho de Undyne em seu ventre – e essa aqui… — colocou as patas na barriga, rindo baixinho – é a Aayrine.

— Uma neném? — a peixinha pôs as mãozinhas na barriga de Mistrel – e cadê o papai?

Para o desconforto de Undyne, Mistrel retraiu o focinho, curvando as sobrancelhas numa inconfundível expressão de angústia.

— Ah… — a menina guinchou, aflita – eu… desculpa… sinto muito...

— Não se desculpe, pequena – a carneira suspirou, com um nó na garganta – Barthius foi um dos primeiros a serem atacados. Estava nos campos.

Repentinamente, algo maior que qualquer formalidade pareceu se abater sobre a futura mãe e a criança, unindo-as no impulso de um abraço reconfortante.

Mistrel sentiu a garotinha soluçar em seus braços. Teve pena do corpinho debilitado que estremecia em seu colo, perguntando-se por que aquilo havia acontecido com suas famílias.

Permaneceu vários minutos segurando-a, até que sentiu Undyne amolecer em seu ombro, ressonado suavemente.

Assistiu o rostinho escamado finalmente relaxar, e afagou os cabelos rubros da pequena, sentindo a criança em seu ventre chutar outra vez.

A carneira inspirou profundamente, fechando os olhos por um momento.

Por alguma razão, ao qual não sabia explicar, Mistrel sentiu algo que achou estar perdido para sempre em seu coração.

Sentiu esperança.

E também sentia, em seu âmago, que ela seria trazida, num futuro muito próximo, pela monstrinha adormecida em seus braços.



—----------O----------

Vários metros á frente das barracas do acampamento, Blue Hyoko se aproximava, a passos mansos, da rocha onde Skarlett se encontrava sentada.

Insegura, a coelha subiu a grande pedra, pondo-se ao lado da guarda real. Podia ver, pelos tentáculos irritados, que a monstra não estava no melhor de seus momentos.

Murmurou consigo mesma, balançando as pernas contra a dureza da rocha. Encarou o pôr do sol ao longe, se maravilhando com as nuances de dourado e vermelho no céu.

Tentou articular palavra, mas Skarlett o fez primeiro, em sua voz incorpórea e ecoante.

— Não há nada que possa fazer para me animar, Blue.

A outra assentiu, suspirante.

— Eu sei, Sky – voltou a olhar as nuvens alaranjadas – todos ainda estão abalados.

Skarlett sempre fora conhecida por ser praticamente inabalável. Mas, mesmo que não tivesse olhos ou boca para se expressar, era impossível não perceber a tristeza que a consumia.

— Ela não era apenas minha líder – sua voz se embargou – ela era minha amiga.

B. Hyo afagou os próprios braços, sem graça.

— Renata sempre foi valente. Ela se sacrificou… por uma razão.

— É – a guerreira concordou, embora sem firmeza no tom de voz – eu não a questiono. È para isso que a Guarda Real existe. Aplicar as leis e regras. Proteger nosso povo – a monstra fungou – só que… ainda dói.

As duas permaneceram em silêncio por alguns segundos. Foi Blue que o quebrou dessa vez.

— Viu a garota? — perguntou – Desgore foi visitá-la ontem no abrigo. Ela tem uma coleção de facas e espadinhas. Fotos do Gerson, quando ele ainda se chamava de “Martelo da Justiça” – ela riu – ela adora a Guarda. Nunca vi uma monstrinha tão fanática. Vocês são os heróis dela – titubeou — — imagino… o que a pobrezinha deve estar passando agora…

— Sabe… — Skarlett virou-se para Blue – eu não devia… mas, no começo… nos primeiros minutos… eu quase quis culpá-la pelo que aconteceu – rosnou baixo – e agora me remôo de vergonha por ter pensado numa coisa horrível dessas. Não foi culpa dela, mesmo que Undyne pense que sim – os tentáculos finalmente pareceram encolher de tamanho – ela tem um espírito de luta, Blue. Eu vi isso no rosto dela – ficou quieta por mais algum tempo, acrescentando – fiz Asgore prometer que… vai treiná-la pessoalmente, assim que tiverem idade.

— Para a Guarda? — a coelha espantou-se – mas ela é tão pequena… tão frágil! — franziu o cenho – aliás... por que você mesma não…?

O toque da mão pálida da guarda no ombro de B. Hyo pareceu lhe causar um soco imaginário no estômago.

— Por que – Skarlett desejou, pela primeira vez, ter olhos para chorar – algo me diz que a Guarda Real inteira terá de se esvair… se quisermos que nosso povo sobreviva. E eu não irei me demover disso. Mesmo que tenha que pagar com minha vida, eu lutarei e morrerei por essa causa. Por Renata. Pelas nossas crianças. Pelo meu povo. E será com essa força que nosso mundo viverá...

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Ao cair da noite, ainda em sua cabana, W. D. Gaster voltava sua atenção para as planilhas. A dor em seu crânio recentemente aberto não o deixava raciocinar direito. Porém, o revenantcientista ainda fazia suas anotações, mesmo quando todos já haviam ido dormir.

Estava registrando um fato curioso que presenciara há cinco dias.

Um corpo humano, que a caravana havia trazido consigo para as pesquisas solicitadas por Desgore, havia repentinamente voltado á vida – algo que os monstros jamais haviam visto ou ouvido falar até então.

O humano, em seguida, fora neutralizado, e entregue para Gaster, que o preservou na própria magia, enterrado numa cova, escondido de sua família. Apenas Alana – que ainda se apresentava insegura – sabia da localização do corpo.

O cientista inspirou, deslizando a pena sobre o livro.

O corpo humano em questão demonstrou superar seu estado de falecimento. De alguma forma, sua alma pareceu se regenerar, tornando-o vivo outra vez. A raça humana parece ter um poder único e potente, trazido por um forte objetivo ou recusa, capaz de manter sua alma intacta, mesmo após sua morte.

Chamaremos esse poder de DETERMINAÇÃO.