Under a Velvet Sky
1 Prólogo
Amo ler. Todos esses anos a leitura tem tido grande valor em minha vida – especialmente quando não há muitas coisas a que possa apreciar. E justamente por ler em demasia não possuo grande afeição por clichês. E é justamente por isso que talvez eu caia em contradição a seguir.
. . .
Era uma manhã de quinta-feira, em meio a Maio. Por mais que eu desejasse permanecer na cama, meus impulsos empurravam-me para fora dela, eu precisava ir para a escola. Não me importei em caminhar pelo chão gélido até alcançar o banheiro para então fazer minha higiene básica — acreditava já ser inerte ao choque térmico. Após o procedimento habitual, desci as escadas com cautela passando pela sala de estar e indo até a cozinha. Abri a geladeira esperando ter algo mais que álcool, sem sucesso.
Saí pela porta dos fundos e a Senhora Carter, uma viúva com quase setenta anos e cabelos curtos tingidos de vinho, regava seu pequeno jardim no quintal com um sorriso agradável. Ela sempre o fazia aquele horário, às seis e meia da manhã.
— Bom dia, Senhora Carter – saudei-lhe como de costume.
— Só será um bom dia se você aceitar tomar o desjejum em minha companhia – sorriu convidativa.
— Senhora Carter, você sabe que se não sair agora chegarei atrasada. Não terei tempo de fazer o percurso a pé – mesmo que eu sempre rejeitasse seu convite, nunca seria fácil lhe dizer não.
— Ah, vamos lá, prometo que não demoraremos e te chamo um táxi.
— Não precisa se incomodar, eu já estou acostumada a ir a pé. Se eu partir agora chego faltando alguns minutos para o sino tocar.
— Querida, por favor, aceite minha gentileza – e quem sou eu para rejeitar gentilezas?
— Tudo bem.
Eu, comendo panquecas e tomando café, sentindo-me mais acanhada possível. Enquanto Senhora Carter passava geleia em sua torrada eu observa insistentemente a toalha da mesa em que estávamos sentadas, branca com pequenos bordados azuis, exatamente o tipo de toalha que eu gostaria que estivesse sobre a mesa da cozinha da minha casa.
— Erin, como andam as coisas em sua casa? – e ela lançou-me aquele olhar. Aquele olhar que as pessoas usualmente apresentam quando querem entrar nesse assunto. Aquele olhar de pena.
— Estão bem – mentira.
— Eu ouvi uns barulhos vindos de lá ontem no final da tarde. Tem certeza de que tudo está bem? – ela estava tentando ser delicada, não a condeno por isso.
— Ah, sabe como é, meu pai tropeçou e quebrou o abajur. Ele sempre tropeça – ri indiferentemente.
Então o olhar de pena se intensificou.
Creio que nunca poderei conversar com qualquer pessoa sem que ela me recorde que meu pai é um alcoólatra desgraçado. Infelizmente é o que ele é. E eu posso fazer absolutamente nada, não porque não tentei, mas porque ele não me permite ajudar. Talvez tenha sido por isso que minha mãe tenha nos abandonado quando eu tinha oito anos. O que continua uma incógnita é o porquê dela ter me deixado aqui, apodrecendo com alguém que nunca demonstrou algum tipo de compaixão por mim. Num lugar onde raramente alguém demonstre esse sentimento por uma garota negligenciada e pobre. As pessoas fogem de tragédias ambulantes como se elas fossem alguma doença contagiosa.
Talvez eu seja.
Talvez também fugisse caso eu fosse outra pessoa.
Talvez eu entenda.
O silêncio já tornava-se constrangedor, portanto decidi evitar prolongá-lo.
— Senhora Carter, eu realmente preciso ir agora. Quero chegar mais cedo pra revisar minha redação de literatura. Você se importa? – depositei o talher em cima do guardanapo e recolhi depressa minha mochila que estava ao lado da cadeira.
— Tudo bem querida, você já pode ir. O táxi já deve estar chegando.
— Eu não me importo de caminhar, eu gosto de andar.
— Se você rejeitar o táxi terá que aceitar um presente – sorriu e levantou num pulo da cadeira, fazendo sinal para que eu acompanhasse seus passos até a garagem.
Uma bicicleta vermelha com uma cestinha de palha na frente.
— Não, eu não posso aceitar – sorri envergonhada.
— Eu insisto – depositou suas mãos em meus ombros e empurrou-me lentamente em direção da bicicleta.
— Não precisa, de verdade – travei.
— Eu realmente – frisou – insisto.
Sorri em agradecimento e me despedi. Eu realmente estava grata.
Pedalei com cautela durante todo o caminho até a escola, aproveitando para sentir a brisa fresca das ruas arborizadas do centro. Parando algumas vezes para apreciar as nuvens. Eu amo nuvens.
Eu adoraria ser uma nuvem.
. . .
Mais tarde aquele dia, após sair da lanchonete onde trabalho, passei no mercado para comprar pão, leite e algumas maçãs. E me senti aliviada pela primeira vez depois de tanto tempo não me preocupar com o peso da mochila e da sacola de compras, já que a cestinha da bicicleta veio a calhar.
Cheguei em casa por volta das sete da noite, tratei de guardar as compras e tomar uma ducha para jantar e ler o assunto de biologia já que as provas começariam na segunda-feira. Optei por estudar e depois jantar, não estava com tanta fome. Sentia uma falsa sensação de tranquilidade enquanto cortava duas fatias de pão e enchia um copo de leite. Talvez por meu pai não estar em casa.
— Abre essa porta! – ele gritava e provavelmente socava a porta da frente, deixando-me assustada.
Corri o mais rápido que pude e abri antes que ele continuasse gritando e chamasse a atenção da vizinhança, que nunca tivera um mínimo de afeição por ele. Por razões óbvias.
— Por que você fechou a porra dessa porta?! – continuou berrando e entrou na casa em um tropeço, armado daquele linguajar ultrajante.
Permaneci calada e voltei para a cozinha, infelizmente ele acompanhou-me até lá. Desconfiava desmaiar com o forte cheiro de álcool caso ele continuasse no mesmo ambiente que eu por muito tempo. Sentei-me à mesa e decidi ignorá-lo como de praxe.
— Eu preciso de dinheiro – por um minuto pareceu sóbrio.
— Eu não tenho – respondi centrada no copo de leite em minhas mãos, armada em indiferença, aparentemente.
— E como você comprou essas merdas? – apontou para o pão e o leite.
— Com o pouco dinheiro que eu tinha mais cedo, não tenho mais.
— Eu preciso de dinheiro! – berrou e bateu propositalmente no copo de leite, derrubando-o em mim e quebrando-se no chão.
Respirei fundo e esforcei-me ao máximo para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer pelo meu rosto. Saí da cadeira e me preparava para ir até meu quarto quando ele apertou meus pulsos com força e deixou-me cara a cara consigo.
— Escuta aqui sua vagabundazinha – falou entre dentes sob um olhar furioso e um hálito forte.
— Eu. Não. Sou. Uma. Vagabunda – pausadamente cortei sua fala, antes que ele ousasse terminar qualquer frase que pretendesse proferir.
— Ah, é sim. Exatamente como sua mãe – sorriu de forma nojenta. Aquele maldito e repulsivo sorriso.
— Não, eu não sou. Se você fosse um homem decente você mesmo arranjaria um emprego e me deixaria em paz! – berrei.
Arregalou os olhos e então consegui afrouxar suas mãos que já me machucavam, virei depressa para me trancar em meu quarto, sem êxito. Puxou-me novamente pelos pulsos e depositou um tapa em meu rosto. E minhas lágrimas já percorriam o ardor em minha bochecha direita. Ele pareceu assustado por um segundo, foi nesse momento que aproveitei para refugiar-me em meu quarto, de uma vez por todas. Arrastei o pequeno armário para detrás da porta, esperando que ele tentasse invadir o cômodo. E ele tentou, mas depois de quinze minutos berrando e empurrando a porta, desistiu. Logo sobraram a mim e meu silêncio, entrecortado pelo choro. Era sempre assim. Sempre seria. Minha sina era acordar todos os dias como se nada houvesse acontecido. As pessoas fazem isso. Infelizmente eu sou uma.
Não sei que horas adormeci, mas despertei assustada com alguns baques na janela. Levantei em um salto, sentindo meu pescoço grudento e lembrando como adormeci. Olhei o relógio na cabeceira, marcava duas e trinta e quatro da manhã. Olhei descrente para a janela. Estaria eu sonhando? Não, eu não estava. Eu tinha certeza que estava sonhando que adoraria ser uma nuvem. Aquilo, aquilo lá fora, não era um sonho. Eu continuava sendo Erin Jones e aquilo lá fora. Eu não sei como explicar.
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