Aquele dia o céu estava nublado, excepcionalmente bonito. Eu estava debaixo da grande árvore em frente a escola, lendo um parágrafo do livro pela quarta ou quinta vez. Minha falta de atenção era recorrente da exacerbada delicadeza das nuvens.

Seis e quarenta e quatro da manhã, os arredores pareciam desertos. Nenhum dos alunos costumavam chegar cedo, nenhum além de mim. Estranhei quando um daqueles carros grandes e caros estacionou ali em frente, rompendo a quietude daquela manhã. Ajustei meus óculos de leitura em meu rosto e voltei a buscar concentração naquele parágrafo. Falhei ao ouvir os passos sobre o gramado e não resisti à tentação de checar quem destruíra meu tipo de silêncio favorito.

Certamente esperava qualquer outra pessoa senão ele.

Ele pareceu ignorar minha presença — atitude típica de qualquer outro ali — e seguiu arrogantemente até a porta principal, sequer olhando para os lados. Como sempre fui curiosa, espiei por cima do ombro, vi que ele tirava do bolso um molho de chaves e, ainda sem olhar para os lados, abriu a porta e entrou. O que alguém como ele faria àquela hora da manhã na escola? Encuquei.

Meia hora depois, saiu de lá e refez seu caminho até o carro. Então pela primeira vez na vida, olhou em minha direção. E olhou para o céu, para enfim entrar no carro e dar partida dali. Imaginei se ele era o tipo de pessoa que gostava das nuvens ou só olhava para o céu quando era rasgado pela passagem de um avião.

Com certeza ele preferia aviões.


. . .



Ele não podia estar ali. Não fazia nenhum sentido.


— O que você faz aqui? — perguntei contendo meu susto, tentando achar deduções óbvias e outras ridículas as quais pudessem justificar sem que ele respondesse.

— Deixa eu entrar, por favor? Não é seguro falar do lado de fora — disse e já abria a janela e jogava seu corpo para o interior.

Dei um passo para trás puramente por reflexo e olhei para meu criado-mudo, lamentando não possuir nada duro o bastante que pudesse acertá-lo a cabeça.

— O que você faz aqui? — repeti firmemente, sacando o ferro de passar roupas que lembrei estar debaixo da cama.

Certo que minha vida não era algo digno de viver, mas nunca pensei em facilitar meu próprio assassinato. E eu acreditava que realmente ele poderia me matar. Nunca se sabe quem pode ser um serial killer. Uma mente psicopata disfarçada em um cara rico, popular, arrogante e conquistador não parecia um péssimo lugar para fazer moradia.

— Garota, eu não vou te matar — fez movimentos de proteção com as mãos, mas eu não cairia nessa. Já havia lido muitos livros policiais pra cair nessa.

— Se você não sair daqui agora eu chamo a polícia! — mantive a firmeza na voz e o olhei desafiadoramente. Acho que sou boa nisso.

— Eu NÃO vou te matar, você pode abaixar isso e escutar o que eu tenho a dizer? — pareceu ligeiramente irritado, o que por milésimos de segundos me foi convincente para fazer o que ele pedira.

— O que você quer? O que você faz aqui? Essa hora da madrugada? Você é louco? Qual é o seu problema? — controlava minha respiração para não transparecer meu desespero.

— Cala a boca e me escuta, por favor? Fala baixo — olhou pela janela atrás de si.

— Se você não sair daqui eu vou gritar até que toda a vizinhança acorde! — ameacei.

Memorando agora, pareceu algo infantil. No entanto, meu desespero realmente seria capaz de ter feito aquilo.

— Viaja comigo — isso não foi uma pergunta.

— Que?! — nesse momento eu tinha certeza de que ele iria me matar.

— Eu não estou te pedindo, eu estou te dando uma oportunidade — pra morrer?! Sim, é o que parecia.

— Eu vou chamar a polícia — alcancei meu celular e já preparava o teclado para discar o número.

— Não faz isso! — segurou-me pelo pulso e tapou minha boca com a outra mão, como se previsse que eu fosse gritar. E eu iria.

Mordi sua mão e consegui soltar-me por alguns segundos, sendo presa novamente. Cedi à sua força e resolvi escutá-lo, talvez não fosse me matar. Isso é ridículo, eu sei, mas o que você imaginaria que um cara que só olhou na sua cara uma vez na vida faria ao bater na sua janela durante a madrugada e dissesse para você viajar com ele? Uma garota sem nenhum dinheiro, amigos ou boa família, muito menos beleza. Ou simpatia por ele. Ou simpatia pela maioria das pessoas.

— Sei que parece ilógico, mas preciso que você arrume suas coisas e entre no meu carro. Nós temos que sair da cidade antes que amanheça — soltou-me.

Se ele planejava mesmo me matar, por que pediria que eu arrumasse minhas coisas? Talvez para a polícia pensar que eu fugi dali quando alguém notasse que sumi — o que demoraria a acontecer. E na verdade eu estaria esquartejada e enterrada em algum lugar da estrada.

— Por que você precisa — frisei — que eu faça isso?

— Eu não sei, mas você tem que vir comigo.

Sim, ele me mataria. Talvez em algum ritual satânico. Eu tinha certeza de que ele me mataria. Ainda dava tempo de eu acertá-lo com o ferro, poderia alegar legítima defesa.

Ponderei sua expressão facial.

— Você vem ou não? — falou de forma grosseira.

Dei de ombros e sentei na beira da cama, respirei fundo.

— Só vou perguntar mais uma vez: você vem ou não? — houve um breve silêncio — Você não tem nada a perder — minha vida talvez, mas como todos já sabem, não é grande coisa -, você pode entrar na merda daquele carro com a merda das suas coisas e fugir da merda do seu pai, da merda da sua vida, da merda dessa cidade.

— Por que você está fazendo isso? Quer dizer, você não pode simplesmente invadir meu quarto e me oferecer uma viagem caso você não tenha nenhum objetivo.

— Eu não sou a fim de você — disse desdenhoso.

E eu não acredito que esse nojento pôde achar que pensei que ele era a fim de mim. Ou pior, que eu pudesse ser a fim dele.

— Não pensei isso! E eu não sou a fim de você, deixando claro — respirei fundo para não acertar um tapa em seu rosto — Mas não faz NENHUM sentido você, que nem me conhece e que me ignora como o resto das pessoas, dizer que precisa que eu entre num carro e viaje com você. Pra onde você vai? Por que você está abandonando sua vida perfeita aqui e vem aqui pra que eu vá com você? Você é louco!

Eu estava a beira de um colapso nervoso. Isso não podia estar acontecendo, nem nos filmes ou livros mais loucos isso não aconteceria.

— Você vem ou não? — perguntou impaciente, com raiva.

Cerrei os punhos e dei de costas. Virei minha mochila de cabeça para baixo e deixei que todo o material escolar caísse sobre a cama; fui até minhas gavetas e tirei dali algumas peças de roupa em bom estado e soquei sem qualquer zelo dentro da mochila. Prendi meu cabelo em um coque frouxo e vesti meu moletom preferido por cima da blusinha que usava.

— Você vai mesmo de pijama? — perguntou debochado.

Bufei e saí pela janela, caminhando até o carro preto que vi na semana anterior estacionado em frente a escola, agora estacionado em frente a minha casa. Ele sentou no banco de motorista e eu no de passageiro. No momento em que deu partida, acompanhei a casa onde cresci desaparecer e dar lugar a um sentimento que apesar de já ter sentido anteriormente, nunca fora tão intenso.

Sentimento suicida.

A partir do momento que aceitei uma proposta de Declan Lunhood.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.