Under Our Stars

7 Capítulo VII - Abra Suas Asas


A noite está fria, acabo de deixar Ted em sua casa. Seus pais estavam mortos de preocupação, e choraram ao ver que seu filho estava bem. Admito que mesmo feliz, fiquei com um pesar no peito ao ver Ted sendo abraçado pelos pais. Momoka e Flann foram para outro canto, fora da vila, enterrar novamente o Billy. Sinto pena de ambos... Ted mal havia perdido o cão, e uma fera o captura e o leva pra longe, pra uma caverna escura... Tive sorte de encontrá-lo. Caminho de volta pra casa, as ruas estão mais quietas... Parece que todos sumiram. O festival já acabou? Um vento gelado bate e acabo espirrando. Que coisa... odeio o frio.

Andando de volta pra casa, acabo ouvindo um som... várias pessoas conversando, várias vozes. Elas vêm da praça. Olho adiante, e vejo uma luz vindo de uma das esquinas. Vou até lá, e viro a esquina, dando de cara com a praça. Todas as pessoas que haviam sumido das ruas estavam lá, juntas. Satyrs, Natevans, humanos, Porcius... todos aqui, juntos na praça em uma roda. Me aproximo, e começo a procurar uma maneira de ver o que estão todos olhando. Talvez se eu fosse mais alta...

"STAR!" – Sully grita, me dando um susto. Olho pra onde a voz dele veio, e ele logo vem correndo, me dando um abraço forte – "Você sumiu de repente! E eu ouvi dos moradores da vila que havia uma fera por aí! Fiquei preocupado!" – Do nada, ele me solta e coloca os braços atrás dele mesmo – "Eu... fiquei preocupado. Onde você foi?"

Solto um suspiro e um sorriso. Meu corpo ficou pesado de repente, talvez seja porque encontrei alguém que eu confie depois de toda aquela adrenalina... Sully percebe minha leve fraqueza e segura minha mão, me deixando que eu apoie nele – "Ted acabou sendo pego por essa tal fera, e eu fui atrás dele..."

"O que?! Star, você poderia ter se machucado! Ou pior...!"

"Eu sei... eu sei. Mas eu não podia deixar o Ted ali, em perigo. Flann e Momoka foram ajudar, mas iam demorar muito. Eu conhecia um atalho..."

"...as minas perto da sua casa?" – Sully diz, e eu aceno com a cabeça – "Você... atravessou as minas?" – Aceno novamente – "...uou. Você tinha tanto medo daquilo! Como conseguiu??"

"Eu só... pensei que, se eu fiquei daquele jeito quando fiquei presa lá... imagina como o Ted estaria. Eu não podia deixar ele lá..." – Digo.

"Mas poderia ter deixado pra gente, não é?" – Flann diz de repente, logo atrás de mim. Deixo de me apoiar em Sully e me viro pra ela, e vejo que está acompanhada da Momoka.

"Eu teria contado sobre o atalho, mas vocês foram embora correndo...!" – Explico.

"Não tínhamos tempo a perder." – Flann diz, e então abre um leve sorriso – "...eu devo admitir que estou surpresa. Você é bem mais corajosa do que eu pensei, Starlight."

Acabo ficando envergonhada – "Eu? Corajosa?" – Solto uma leve risada – "Não, não... eu só queria ajudar o meu amigo."

"E atravessou o seu maior medo pra isso!" – Sully diz, sorrindo – "Se isso não for coragem, eu não sei o que é!"

"Agradecemos a sua ajudar, Star." – Momoka diz – "Se não fosse por você, Ted não voltaria pra casa... Você salvou a vida dele."

Sinto um calor dentro de mim ao ouvir Momoka dizer que salvei a vida do Ted. Um senso de realização, um... propósito. Eu salvei uma vida. Eu... salvei uma vida... Isso... isso é... isso é incrível! Olho pras minhas mãos, e não consigo segurar meu sorriso. De repente, ouço um assovio alto e desconhecido.

"Olha!" – Sully diz, e eu vejo que ele está olhando para o céu da noite – "Acabaram de soltar."

"O que?" – Pergunto, e olho pra cima também.

"Os fogos." – Sully diz.

Em um instante, o céu da noite fica coberto por luzes roxas, faíscas como as que saem de minha mão. Outro assovio, e mais um estouro. Grandes luzes verdes em espiral. E mais outro, e outro. Não consigo conter a alegria dentro de mim, o sorriso, ao ver todas aquelas cores no céu... e de tão perto. Minha avó sempre me levava pra casa assim que os soldados apareciam, e minha janela não me permitia saber que estouros eram aqueles, mas agora... estou aqui, vendo os fogos. E são tão lindos... Luzes no céu que brilham mais do que as próprias estrelas.

"São... lindos." – Digo, observando-os.

O show de fogos me prende até acabar. Quando a última e maior explosão acontece, o céu inteiro se ilumina com um forte amarelo, como se os raios de sol cobrissem tudo ao nosso redor. Volto a olhar pra praça, e muitos dos que estavam lá já foram embora. Estão se despedindo e agradecendo uns aos outros. É tão bom de ver as pessoas se dando bem...

"Ei, Star. Amanhã eu vou sair logo cedo. Vê se não se atrasa, viu?" – Flann diz, me cutucando.

"Hã? Ah! Pode deixar!" – Digo, soltando um sorriso.

"Hã... vocês vão pra onde?" – Sully pergunta.

Me viro pra ele – "Flann vai me levar até a cidade vizinha!"

"Wekesa?" – Sully pergunta.

Flann nega com a cabeça – "Auster."

"Você chama Auster de cidade vizinha?! Fica há um dia e meio daqui!" – Sully reclama.

"Se você for a pé. Mas de carroça..." – Flann diz, enquanto dá as costas e começa a andar – "De qualquer forma, acabou o show de luzes. Tenho que resolver alguns assuntos..." – Ela vira pra mim, e dá uma piscadinha – "Boa noite, Star." – Fico envergonhada. Se essa garota quisesse, conseguiria me manipular facilmente. Momoka se despede e acompanha Flann.

Eu acabo soltando um bocejo – "Eu também já vou indo pra casa, Sully... essa noite foi fogo."

"Tudo bem.. boa noite, Star. Durma bem!" – Sully se despede e começa a andar.

Eu também começo a andar pra minha casa. Tremendo de frio, subo a colina escura. Percebo que a colina começa a ficar mais clara, e olho pra cima para ver que as nuvens pararam de bloquear a luz da lua... A luz está linda essa noite. Sinto um pesar no peito, e... lágrimas começam a cair. Eu... eu deveria me sentir menos sozinha ao te olhar.... Por que meu coração dói tanto ao ver que está tão longe? Mais lágrimas caem, e me encontro tendo dificuldade de enxugá-las só com minhas mãos... que ideia estúpida foi aquela de arrancar as minhas mangas.

Continuo andando, e finalmente chego em casa. Giro a maçaneta da porta, mas está trancada. Trancada...? Giro novamente. É, está trancada. Bato na porta e aguardo. Nada. Bato mais uma vez. Nada – "VÓ!" – Grito, o mais alto que posso. Nada. Ela está dormindo...? Dou a volta na minha casa, parando logo abaixo da minha janela. Observo a trepadeira que se espalha por toda a parede de madeira, junto a um suporte básico. Bom... hora do plano B. Funcionava quando eu era pequena, então espero que esse suporte ainda me aguente... agarro a trepadeira e começo a subir. Ufa, ainda estou leve o bastante pra não arrebentar. Continuo subindo até a minha janela, e estendo a mão até uma das tábuas tortas... suspiro de alívio, a pequena vareta de ferro que escondo do lado de fora ainda está aqui. Pego a vareta e enfio numa pequena falha da trava, forçando o pino a levantar, e a janela se abrir. Levanto minha perna e a coloco pra dentro primeiro, sujando minha cama de terra. Que meleca... Vou ter que dormir sem lençol hoje. Entro com certa facilidade pela janela e a fecho, travando o pino novamente. Desço da cama, e tiro o lençol. Tiro minhas botas, junto tudo em uma bola e guardo do lado da cama. Vou até a porta do meu quarto, e a abro. Olho o corredor, e então vou até a porta do quarto da minha avó. Giro a maçaneta, e abro a porta devagar pra não fazer barulho. Vejo a cama da minha vó, e ela dormindo sossegada. Caminho lentamente até ela... e aproximo meu rosto para dar um beijo em sua bochecha.

Em um único movimento, minha avó se levanta, e a última coisa que vejo é algo escuro prestes a atingir o meu rosto. Grito de dor e caio no chão, levando as mãos ao meu nariz, que está doendo horrores – "POR QUE?!"

"Star?!" – Minha vó olha de um lado pro outro, pega seus óculos, e olha em minha direção. Ela está segurando uma frigideira de ferro, que me atingiu em cheio – "Quer matar a sua vó do coração?!"

Sinto que meu nariz começou a sangrar. Que bom que está escuro, ver o sangue me deixaria muito mal – "Meu nariz... Ai... Por que você dorme com uma frigideira?!"

"Achei que você fosse um ladrão!" – Minha avó grita – "Sully me disse que você saiu correndo de casa! Onde foi que você se meteu?!"

"Eu fui ajudar o Ted!" – Me levanto, ainda com a mão no nariz – "Uma fera tinha levado ele pras minas! Eu fui atrás!"

"Querida... você foi até as minas? Você tinha tanto medo!"

"Ainda tenho..." – Percebo que meu nariz parou de sangrar, e de doer – "Mas um garotinho estava em perigo."

Minha avó boceja – "Que orgulho... e que bom que você está bem. Agora... tá tarde. Vai dormir, vai..."

"...vó?" – Ela se mexe um pouco – "Você... ficou preocupada comigo?"

"Preocupada? Fiquei não..." – Ela guarda os óculos e se deita, se enrolando no cobertor – "...você sabe se virar. Não preciso me preocupar contigo não..."

Acabo soltando um sorriso – "...boa noite." – Sussurro, e saio do quarto, fechando a porta com cuidado.

Vou até o banheiro, e lavo o meu rosto e minhas mãos. Volto para o meu quarto, e fecho a porta. Vou até minha mesa de desenho, e me sento. Não consigo tirar aquela fera da cabeça, e do terror que senti ao vê-la. Pego o lápis, e começo a desenhar. Começo pela cabeça... parecia a de um urso, com orelhas mais longas.... Seus dentes eram afiados, grandes e tortos... E ele possuía chifres de cervo, também tortos. Seu corpo era imenso... tinha uma grande corcunda, e braços largos. Eu não consegui ver os pés, ou a parte de trás. Infelizmente vou ter que deixar incompleto... me pergunto da onde aquela criatura veio? Teria sido ela que causou o desabamento que me prendeu naquele dia? Se foi... que bom que a Flann e a Momoka deram um jeito nela. Rasgo a folha em que acabei de desenhar, e começo outro rabisco, dessa vez, do fiel cão que sempre acompanhou Ted por todos os lados. Seu pelo escuro, sua postura alegre, e aquele rabo abanando pra lá e pra cá. Acabo soltando um leve riso ao terminar o meu desenho... talvez eu deva dar de presente pro Ted? Não sei...

Me levanto da mesa de desenho e me espreguiço. O cansaço bateu mesmo. Vou até meu guarda-roupa, o abro, e tiro minha camisa. Percebo algo na parte de trás da camisa... rasgos? Não... são marcas de garras. A fera... rasgou as minhas costas dentro da mina...? Tento olhar pra minhas próprias costas, mas é uma ideia sem noção mesmo. Bom... eu não sinto mais nada. Doeu naquela hora... talvez tenha pegado de raspão? Mas se fosse de raspão, não teria rasgado tanto... Lembro da Momoka dizer algo sobre eu ter sido atingida, e a Flann dizendo algo sobre eu ser imune...

Acabo bocejando. Amanhã eu pergunto pra ela sobre isso... jogo a minha camisa num canto e pego outra no guarda-roupa. Fecho o guarda-roupa e me jogo na cama. Tudo se apaga num único instante...

[...]

Acordo, e abro meus olhos lentamente. Meu quarto iluminado, logo me levanto e me espreguiço. Não sonhei com nada, estava exausta... Saio do meu quarto e desço até a cozinha... minha vó não está fazendo os pães... estranho.

"Bom dia!" – Minha avó diz, me dando um leve susto. Vejo que ela está na sala, de pé, com as mãos atrás dela, e um sorriso estampado no rosto. Sorrio de volta.

"Bom dia, vó! Não está fazendo pães pro Frederick...?" – Pergunto, me aproximando.

"Não, não... ele disse que podemos ficar tranquilas por um tempo, fizemos um montão de dinheiro!" – Ela então leva as mãos à frente, estendendo algo.

É aquele vestido amarelo com bolinhas, dessa vez remendado com partes azuis, com mangas bem curtas, e a parte da saia ficou bem curtinho. Acabo engolindo seco, e sinto meus olhos se encherem de lágrimas. Imediatamente abraço a minha avó, bem apertado – "Não precisava, vó... não precisava..." – Continuo a apertando, meu coração não aguenta.

"Que isso, querida..." — Ela dá dois tapas nas minhas costas – "Não pode sair pra se aventurar com essa roupa de dormir! Só não vá se atrasar, hein?"

A solto do abraço e me afasto – "Como você soube que eu ia hoje?"

Minha avó sorri e enxuga minhas lágrimas – "Uma avó sabe das coisas..." – Ela oferece o vestido de novo – "Agora anda! Veste! Quase furei meu dedo um monte de vezes costurando isso!"

Agarro o vestido, soltando uma leve risada – "É pra já!"

Corro pro meu quarto, quase tropeçando nas escadas, e já tiro a minha blusa, jogando-a em algum canto. Olho pro vestido... que lado é a frente? Percebo uma pequena abertura abaixo da gola, essa deve ser as costas. Visto o vestido, ele está bem melhor e bem mais confortável do que antes... minha vó fez um excelente trabalho! Volto pro andar de baixo, minha vó está esperando com um sorriso, que aumenta ao me ver. Eu giro no lugar e então olho pra ela.

"E então?" – Abro um grande sorriso.

Ela bate palmas – "Ai que linda! Ficou uma lindeza! Vou virar costureira!" – Acabo soltando uma leve risada. Minha avó se aproxima, mas desvia o caminho e vai até a cozinha. Eu a sigo, e ela se vira imediatamente pra mim – "Feche os olhos! Isso aqui você não pode ver!"

"Mas—"

"Shhh! Fecha!" – Ela reclama.

Eu obedeço, e fecho os olhos. Ouço alguns barulhos metálicos, e fico tentada a abrir meus olhos... os barulhos logo param, e ouço de leve os passos da minha avó se aproximando.

"Pode abrir!" – Ela diz, e eu abro imediatamente. Vejo ela segurando em minha frente um saquinho de moedas. Ela oferece, e eu pego – "Não vai perder nem gastar tudo, viu? Tem cinquenta moedas de prata aí."

"CINQUENTA?" – E de prata?! Abro o saquinho pra confirmar. São cinquenta moedas de prata mesmo... Minha avó dá uma leve risada – "Pra que tudo isso?! Eu vou só visitar a cidade vizinha! Vou voltar amanhã!"

"Tão cedo? Minha filha, você tem a chance de sair da vila e explorar o mundo afora, e vai voltar no dia seguinte?!" – Ela coloca as mãos na cintura – "Frederick disse que não precisávamos nos preocupar por uma semana, então aproveita essa semana! Explore a cidade vizinha de cabo a rabo! Volte semana que vem!" – Ela abre um sorriso — "Mas com juízo, viu?" – Ela se levanta na ponta dos pés e aperta minhas bochechas – "Eu te amo, minha pequena estrelinha."

Solto um sorriso – "Eu também te amo, vó..." – Fico quieta por um instante – "Tudo bem eu ficar fora por tanto tempo?"

"Claro, claro! Agora vai! Sua amiga passou aqui mais cedo e disse que estaria te esperando." – Ela me leva até a porta.

Abro a porta e saio de casa. Me viro pra minha avó e aceno com a mão, e ela acena de volta. Respiro fundo, e sigo colina abaixo. Flann está me esperando, melhor não atrasar muito. Guardo o saquinho de moedas no bolso da minha calça... tenho sorte de a calça ser folgada, se não ia ficar bem óbvio o que tenho no bolso. Desço a colina, a vila ainda está meio cheia... vou pelo caminho de sempre, e vejo que Frederick está com a loja aberta. Passo em frente ao balcão, mas ele não está lá... que estranho. Dou a volta, entrando no beco onde ficam os porcos, e lá está ele, dando restos de sanduíches pros porcos... ainda é bizarro.

"Oi Frederick!" – Digo, e Frederick solta um grunhido alto, idêntico ao dos porcos que ele cria. Ele se vira e me encara por um momento.

"STAR!" – Ele joga a bacia de sobras no chão – "O que está fazendo por aqui? Disse pra sua vó que vocês podiam descansar tranquilas!" – Ele me observa da cabeça aos pés – "Se bem que você não tá carregando nenhuma cesta..."

"Não, não, não vim entregar nada!" – Nego com as mãos e então me aproximo – "Eu vim... agradecer!

"...como é?" – Ele coça a cabeça.

"Você deu alguns dias de descanso pra minha avó, e com isso tenho a oportunidade de sair da vila por um tempo. Eu sempre quis fazer isso, mas... sempre tive medo de deixar minha avó sozinha subindo e descendo aquela colina todo dia. Agora não me preciso me preocupar tanto! Então... obrigada."

"Ora..." – Ele tosse de leve – "Que isso, ela mereceu, trabalhou duro e catapultou as vendas com aqueles pães!" – Ele pega novamente a bacia do chão – "Só não acho que deveria se preocupar tanto, a Maya pode ser velha, mas não tem nada de frágil." – Ele volta a alimentar os porcos – "Espero que você se divirta em Wekesa."

"Não vou pra Wekesa, vou pra Auster..."

"Nossa... longe hein? De qualquer jeito, se divirta! Agora tenho que voltar ao trabalho!"

"Tudo bem, tchau Frederick! Se cuida!" – Me despeço, e volto a andar em direção ao portão da vila.

Olho por todos os lados, e não consigo ver nem o Sully, nem a Momoka, nem o Ted... Que droga. Queria dizer tchau pra eles antes de ir, mas também não quero deixar a Flann esperando... sigo em direção a entrada da vila, os portões estão abertos, e não há muita gente. Ufa. Percebo uma charrete parada, com um grande cavalo sendo alimentado por um senhor de chapéu de palha. Perto da charrete, lá está ela, tão linda como sempre: Flann, me esperando encostada e observando o senhor de chapéu. Me aproximo.

"Oi, Flann! Cheguei!" – Digo, tentando não fazer meu sorriso parecer estranho.

"Demorou." – Ela diz, sem tirar os olhos do senhor de chapéu – "Pensei que uma fazendeira iria acordar mais cedo."

"Ontem foi... cansativo." – Coço minha nuca – "Desculpa..."

Ela me olha com um sorriso, e sinto meu coração pular uma batida – "Talvez você não esteja pronta pra uma aventura afinal."

"Ah, estou pronta sim!" – Digo – "Nunca tive essa oportunidade antes!"

"Huh." – Ela se desencosta da charrete – "E sua vó não teve problema com isso?"

"Ela..." – Abro um sorriso – "Ela me apoiou bastante nisso. Me deu sua benção!"

"Tudo pronto, mocinha!" – Ouço o carroceiro dizer, e logo subir e se sentar no banco do condutor.

"Hora de ir..." – Flann diz – "Pronta, Star?"

Fico em silêncio por um momento. Eu queria me despedir dos meus amigos...

"STAAAR‼‼" – Ouço Sully gritar, logo me viro e o vejo correr em minha direção, junto com Ted e Momoka. Ele para na minha frente, ofegante – "Ufa, você ainda não foi! Que sorte..." – Ele logo aponta para o Ted – "Ele queria muito te ver..."

Ted se aproxima, ainda com o rosto triste de antes, mas ele dá um sorriso ao olhar pra mim e oferecer uma pequena caixa de presente. Ele não diz nada... pego a caixa de presentes – "Obrigada..." – Digo, e a abro. Dentro, encontro um pequeno lacinho de cabelo vermelho, lindo demais, uma gracinha. Solto um sorriso, pego o lacinho e devolvo a caixa pro Ted – "Eu adorei! Obrigada!" – Me agacho e o abraço bem forte.

"...de nada..." – Ele sussurra, e eu aperto mais forte ainda.

Solto-o e me levanto, logo amarro meu cabelo em um rabo de cavalo, dando um nó borboleta no lacinho. O sorriso de Ted aumenta ainda mais.

Sully logo se aproxima de mim, também segurando uma pequena caixinha — "Nós três queríamos dar presentes pra você antes de ir..." – Sully oferece a caixinha – "Espero que goste." – Ele abre um sorriso.

Pego a caixinha e a abro. Dentro tem um... carimbo? Pego o carimbo e vejo que o selo é de um chapéu, o mesmo que Sully usa.

"É um selo especial pra você enviar cartas pra sua avó!" – Ele diz – "Se você carimbar a carta com isso, pode ter certeza de que ela vai chegar primeiro!" – Ele se inclina e sussurra – "É um selo oficial dos correios pra cartas de extrema importância" – Ele dá uma piscadinha.

"Sully! Obrigada!" – Guardo o carimbo no bolso – "Mas... como você sabia que eu ia ficar lá por uns dias?"

"Momoka nos contou!" – Sully aponta pra Momoka, que se aproxima com um sorriso. Diferente do Ted e do Sully, ela não está carregando nada.

"E você tá bem com isso?" – Pergunto pro Sully, que sempre fica estranho quando digo que quero sair da vila.

"Ah, que isso..." – Ele coça a nuca – "Não nasci grudado contigo! E é só uma semana mesmo." – Ele solta uma risada.

Abro um sorriso. É reconfortante ver o Sully não ficar irritado ao ver que vou sair da vila... me viro pra Momoka, e ela sorri.

"Se a Flann sugerir que vocês comam no Caneco Cheio, não aceite. Ela vai fazer você pagar." – Momoka diz.

"Ei!" – Flann grita – "Acabou de arruinar meu almoço!"

Momoka dá de ombros, e eu tento segurar minha risada.

"Esse é meu presente pra você. Divirta-se em Auster!" – Momoka acena com a mão.

"EI, MOCINHAS!" – O carroceiro grita – "É PRA HOJE OU TÁ DIFÍCIL?!"

"Melhor a gente ir..." – Digo, e abraço o Sully bem forte – "Volto em uma semana, tá?"

Vou até a charrete e subo, Flann sobe logo em seguida. Percebo que há uma carga de palha nos acompanhando, e toda minha roupa já fica logo cheia de palha... Só chacoalhar depois. A charrete começa a andar, e eu aceno pros meus amigos, antes de me sentar direitinho, meu coração batendo forte porque, pela primeira vez, a paisagem que costumava olhar está se movendo. Estou indo pra outro lugar, pela primeira vez... Sinto o vento bater em meu rosto, e acabo fechando meus olhos. O vento nunca esteve tão fresco, o sol nunca esteve tão aconchegante... Olho pro céu azul, e vejo as nuvens se moverem. Uma delas bloqueia a luz do sol, e é nesse momento que percebo algo se movendo dentro das nuvens... algo que parece uma serpente. Antes que eu possa entender o que é, o sol raia em meus olhos, me impedindo de ver qualquer coisa. Volto a olhar pra Flann, que observa o cenário. Observo ao redor também, e percebo que a vila de Theresa já está fora de vista... uma dúvida surge em minha mente.

"Flann..." – Digo, e ela olha pra mim – "...tenho uma pergunta."

"Hm?"

"Naquele momento, nas minas... Você disse que eu era imune. Imune... ao que?"

"Ah... aquilo? Pensei que já tinha descoberto sozinha..." – Eu... não sou a pessoa mais esperta da região. Ela se ajeita e vira pra mim – "Imune à corrupção. Você possui mana em seu corpo, mas não significa que seja imune à energia negativa pura."

"Como assim?" – Pergunto.

"Aquela fera... era um inugami." – Inugami? – "Uma criatura gerada do ódio e desejo. Suas garras podem cortar a carne facilmente e corromper a alma da vítima, gerando ainda mais criaturas." – Ela solta um leve riso – "Mas aparentemente você é imune. Isso é bem raro." – Ela me encara com um sorriso, mas com um olhar ameaçador – "Não está escondendo nada de mim, não é?"

"N-não! Eu mal faço ideia de como a mana funciona, imagina saber que sou imune à inugamis!" – Balanço as mãos negando, mas logo paro para encará-las – "...afinal, por que eu sou imune?"

"Quem sabe." – Flann volta a encarar o cenário – "Sua explosão mágica conseguiu dar sumiço num usui. Talvez você tenha mana o bastante pra aguentar criaturas mais fortes."

"Significa que posso ser uma caçadora igual você!?"

"Significa que você pode não morrer pra qualquer coisa que encontrarmos pela frente." – Ela diz.

Acabo grunhindo, e cruzando os braços. Algo paira sobre minha mente... — "Ei, Flann..." – Ela me encara de canto de olho – "...qual é a dos olhos vermelhos?"

"...hm?" – Ela se vira pra mim.

"Quando a Momoka falou comigo... e quando você falou com o pai do Ted... os olhos de vocês ficaram vermelhos por um instante. O que... o que era aquilo?"

"...Starlight." – O olhar de Flann se torna penetrante, frio. A mera menção do meu nome fez minha espinha arrepiar – "...sei que disse pra que fizesse perguntas e buscasse a verdade..." — Ela fecha os olhos por um momento. Silêncio... apenas o barulho do vento preenche o vazio... e então, Flann abre os olhos lentamente, revelando olhos escarlate.

"Mas tem certeza que está pronta para a resposta?"