Under Our Stars

8 Capítulo VIII - Caminho Sem Volta


Em um instante, tudo fica escuro. As montanhas no horizonte, os campos verdejantes, até o brilho do sol se vai. Tudo o que sobra é apenas eu, Flann, e seus olhos escarlate. O que pareceu uma eternidade acaba em um piscar de olhos, da Flann pra ser exata, com a cor de seus olhos retornando ao verde de sempre. O mundo ao meu redor volta aos poucos, e sinto uma dor de cabeça imensa. Não consigo segurar um gemido de dor.

"O que foi isso...?" – Digo, e Flann solta uma risada.

"Nada demais, foi só... um pequeno aviso. Ainda quer saber mais sobre os olhos escarlate?" – Ela diz, com um sorriso malévolo no rosto, e eu a encaro irritada.

"Você podia só dizer que não queria contar, não precisava fazer isso!" – Retruco.

"Oh..." – Ela desvia o olhar – "...tem razão."

"... só isso?"

"Hm? A dor de cabeça vai passar em um momento."

"...não é isso o que eu quis dizer."

"Eu não sou adivinha." – Ela dá de ombros. Sério? Nenhum pedido de desculpas? Ser a sabe tudo não tem problema, mas eu gostaria de um pouco de empatia aqui...

"Ugh." – Uma voz jovem e desconhecida grunhe muito perto – "Não dá pra vocês duas fecharem a boca? Eu tô tentando dormir aqui!"

Do meio do feno que nos acompanha na carroça, espia a cabeça de um pequeno carna, com olhos cansados. Eu conheço ele!

"Ori? O que você tá fazendo aqui?!" – Pergunto.

O pequeno carna em um instante puxa uma faca e a aponta pra mim – "Quem te contou meu nome?!" – Levanto ambas as mãos em espanto.

"C-calma!" — Digo, enquanto me afasto da faca.

"Vamos com calma, garoto. Onde quer que esteja indo, não vai querer ir andando, não é?" – Flann diz suavemente, enquanto encara Ori, que a encara de volta. Seus olhos não estão escarlates dessa vez, mas algo em seu olhar parece ser o suficiente pra fazer Ori guardar sua arma.

"Eu só estava querendo dormir até chegar em Auster, e vocês ficam tagarelando igual dois papagaios." – Ori se apoia no feno igual se fosse um grande travesseiro.

"Auster?" – Abaixo as mãos – "Estamos indo pra lá!"

"Perguntei?" – Ori responde. Grosso.

"Poderia ser um pouco mais educado com a garota que salvou a sua vida." – Flann diz, e Ori me encara por um momento.

"Ela fez isso?" — Ele me observa de cima a baixo, e então franze as sobrancelhas – "Tá, o que você quer?"

"Huh? Como assim?" – Pergunto.

"Qual é, eu não nasci ontem. Nenhum humano ajuda um carna sem querer algo em troca." – Ori diz, me encarando – "Então fala logo, o que você quer? Uma lasca do meu chifre não-desenvolvido pra vender?"

"Nada!" – Digo – "Eu só quis ajudar!"

Ori logo cruza os braços – "Nem tente, humana."

"E-eu não quero nada de você!" – Repito, balançando as mãos em negação.

Flann solta um longo suspiro – "Acredite, garoto. Posso não conhecer a Star por muito tempo, mas já conheci o suficiente pra saber que ela não é inteligente o bastante pra perceber o valor que você tem."

Respiro fundo – "Você me chamou de burra?"

"Não. Eu disse que não é inteligente." – Flann sorri.

"É a mesma coisa que burra!"

"Só alguém burra diria isso."

"..." – Espera um pouco... — "... você me chamou de burra de novo?"

"PfffttHAHAHAHAAHAAHAHAHAH‼‼" — De repente Ori começa a rir, e eu não consigo evitar de prestar a atenção em como sua boca é diferente da minha. Seus dentes são afiados, triangulares, e o interior de sua boca é coberto por um azul escuro, quase roxo. Consigo ver levemente sua língua, que é azul clara, o que faz parecer que a sua língua brilha dentro de sua boca. Nunca pensei que iria achar o interior de uma boca tão bonito... — "Tá bom, tá bom..." – Ori diz – "Vou te dar o benefício da dúvida." – Ele me encara, e abre um leve sorriso – "Obrigado." – Eu acabo sorrindo de volta.

O velho carroceiro de repente espirra alto o bastante pra todo mundo ouvir, e em um instante, Ori pula novamente dentro do feno, se escondendo perfeitamente. Olho adiante, e vejo o carroceiro olhar pra trás.

"Tudo bem aí, mocinha?" — Ele pergunta.

Aceno com a cabeça – "Tudo bem sim! E... saúde!" — Ele acena com a cabeça e volta a olhar a estrada e eu volto a observar o feno.

Lentamente Ori põe a cabeça pra fora, olha pras nós duas e volta a se esconder novamente. Mas o que...? Me viro pra Flann, que está sorrindo olhando pro amontoado de feno.

"Flann..." – Digo, e ela olha pra mim – "O que o Ori disse, é verdade? Nenhum humano ajuda um carna sem esperar algo em troca...?"

Seu sorriso se esvai. Ela fica quieta por um momento – "Você viu com os seus próprios olhos. Carnas não são exatamente bem vindos em Hesperia. Na verdade, não são bem vindos em nenhum lugar. Por isso você não vê muitos por aí."

"O que?! Mas... por quê?!"

"Hmpf. Não sou professora de história, então não sei dizer." – Flann dá de ombros.

Ori então sai do amontoado de feno, seus olhos estão cansados, ele parece... triste. Ele cruza os braços, e se deita no feno – "São os olhos."

"Os... olhos?"

Ori levanta sua cabeça, e arregala seus olhos. Diferente das outras raças que conheci, os olhos de Ori não possuem aquele branco que estou acostumada. Seus olhos são escuros, negros, como olhar o céu da noite sem estrelas, e sua íris é branca como um grande anel de luz. Não consigo descrever em palavras o que sinto ao ver seus olhos, mas é um incômodo tremendo...

"Dizem que olhar nos olhos de um carna é como encarar o abismo, enquanto ele te encara de volta." – Ori então pisca e desvia o olhar – "Todo mundo ou tem medo, ou quer como item de colecionador."

"Eu... eu não acho que isso esteja certo!" – Digo, e Ori olha pra mim – "Usar a aparência de alguém pra fazer mal a essa pessoa... isso é uma coisa horrível de se fazer! Ori! Sou uma humana, e digo que seus olhos são lindos como o céu da noite!"

Flann faz um barulho e logo olho pra ela, e percebo que ela está segurando uma risada... — "De que..." – Ela respira fundo e levanta o dedo, como se pedisse um momento de pausa – "...de que contos de fadas você veio?!" – Ela volta a tentar segurar a risada – "Achei que você era a fazendeira ingênua, mas parece mais uma princesinha de bom coração!"

"E-eu só estou dizendo a verdade!" – Acabo me encolhendo de vergonha. Eu disse algo tão estranho assim...?

"...obrigado." – Ori diz, baixinho. Eu olho pra ele, e vejo que ele está de cabeça abaixada, mas logo a levanta com um sorriso.

Sorrio pra ele de volta. Fico feliz de ajudá-lo com minhas palavras. Mas... ainda assim, a situação dos carnas... É algo triste de se saber que acontece. Talvez eu possa fazer alguma coisa... Mas o que? Ah!

"Ei, Ori... você ofereceu uma lasca do seu chifre, por que?" – Pergunto.

"Hm?" – Ori encosta sua mão em um de seus pequenos chifres – "Sei lá, tem doido pra tudo."

"Colecionadores adoram coisas raras, e é bem raro encontrarem crianças carna." – Flann diz, observando o cenário passageiro.

"Aí, eu não sou uma criança!" – Ori diz, pareceu incomodado.

"Hm? E como explica esses chifrezinhos aí?" – Flann aponta pros chifres do Ori.

"E-eu tô em fase de crescimento!" – Ori tenta se levantar, mas o balançar da carroça talvez tenha deixado claro que não é uma boa ideia.

"Ah, é? E quantos anos você tem?" – Flann sorri.

Ori parece que vai dizer algo mas resolve se deitar no feno, e evita olhar pra Flann. Depois de um momento em silêncio ele sussurra algo – "...ze...".

"...doze?" – Pergunto.

"ONZE‼" – Ori grita de repente.

"Onze anos e ainda com esses chifrinhos?" – Flann pergunta.

"Eu sei, tá bom?! Não é culpa minha se eles não cresceram tanto!" – Ori levanta a voz, mas ele se encolhe ainda mais no feno, parece tentar esconder o rosto.

"Então quer dizer que... o tamanho dos chifres de um carna, determina sua idade?" – Pergunto.

"Bom, eu diria que sim, mas o pitoco aqui acabou de provar o contrário." – Flann diz, com um grande sorriso – "Carnas nessa idade já tem chifres maiores que isso."

"Ah é?! E quantos anos VOCÊ tem?!" – Ori de repente se levanta e aponta o dedo pra Flann.

Flann encara Ori por um momento antes de desviar o olhar pro horizonte – "Não é da sua conta."

"Ah, aposto que tu é uma bruxa velha usando a pele de uma moça jovem!" – Ori estica suas mãos e começa a tentar agarrar o rosto de Flann.

"Ei, ei, ei! Mãos fora da minha cara!" – Ela segura as mãos de Ori e ela coloca um dos pés no peito de Ori, tentando empurrá-lo – "Sai de cima, pitoco!"

"Bruxa velha!" – Ori grita.

"Hah..." — Acabo deixando uma risada escapar – "HAHAHAHAHAHAHAHAHAH‼!" — e não consigo segurar uma gargalhada. Começo a rir tanto que quase fico sem ar. Quando finalmente consigo parar, percebo Flann e Ori, agora em trégua, olhando pra mim. Ori coça a nuca, enquanto Flann volta a se apoiar na carroça. Eu acabo voltando a apoiar na carroça também, e respiro fundo, observando o horizonte, sorrindo pra disfarçar a vergonha de ter gargalhado tão alto.

Flann... Ori... eles são legais. A Flann disse que iria me acompanhar até Auster, mas... ela vai ficar a semana inteira comigo? O Ori... vai ficar conosco?

"Ei, Ori..." – Ele pende a cabeça quando eu o chamo – "O que... o que você vai fazer em Auster?"

Ori me encara por um momento, torce a boca, e então – "Ouvi dizer que tem um cara que conhece um lugar seguro pra gente como eu..."

"Outros... carna?"

"Outros escravos." – Ori desvia o olhar.

"Aquele colar de ferro e... aqueles dois que te encurralaram no beco..." – Encaro Ori por um momento — "Você era um... escravo?"

Ori concorda com a cabeça, e fica em silêncio por um momento. Ele levanta a cabeça, olhando para o céu – "Quando eu chegar em Auster, e encontrar aquele homem, vou poder finalmente ser livre." – Ele abre um pequeno sorriso.

Acabo sorrindo também, mas quando vejo Flann, ela está séria observando o cenário. Começo a estender a mão em direção a Flann, mas logo deixo de lado.

"Mas... Ori, você não está livre agora?" – Pergunto.

Ori abre a boca pra falar, mas Flann logo o interrompe – "As correntes que te prendem vão muito além do que os olhos podem ver." – Ela diz, sem olhar pra nenhum de nós dois. Ficamos em silêncio por um momento.

"Hã..." – Abro a boca sem pensar, só para quebrar o silêncio "E—"

"Olha só." – Flann me interrompe – "Uma manada de cervos coralinos."

"Cervos coralinos?" – Ori pergunta, e se vira para olhar para onde Flann está olhando – "Tão longe do mar? Nessa época do ano?"

Flann dá de ombros – "Quem sabe a maré baixou."

"Se a maré baixasse tanto pra cervos coralinos virem pro meio de Hesperia, se prepara que vem um tsunami!" – Ori acaba soltando uma leve risada.

"...do que vocês estão falando??" – Tento me mover até a borda da carroça sem cair, e levanto a cabeça observando o cenário procurando pelos tais 'cervos coralinos'.

Vejo as planícies cheias de grama alta, se estendendo até onde mal consigo ver. Procuro pelos tais cervos, mas tudo o que vejo são alguns fazendeiros cortando e colhendo a grama, cavalos de diferentes cores, vejo um outro vilarejo bem mais adiante... mas nada desses cervos. De repente sinto uma mão segurando meu queixo, que logo me puxa pra outra direção: Uma floresta densa, enorme, que vejo que se estende daqui até... até a minha casa! Então é daí que veio todo esse mato?

"Star, ali." – Flann diz, enquanto aponta pra algumas criaturas azuis correndo, um bando inteiro, saindo da floresta e indo para o campo. As criaturas possuem chifres e parecem bastante com cavalos de patas magrelas. Vendo melhor, elas têm algumas pintas brancas também.

"Que lindos! Esses são os cervos coralinos?" – Pergunto.

"Você não sabe o que são cervos coralinos?!" – Ori pergunta, claramente surpreso.

Olho pro Ori – "...se você falar assim, tenho medo de dizer que não."

Flann solta o meu rosto – "Ela nunca saiu da vila dela. Vai ficar surpreso do tanto de coisa que ela ainda não viu. Vai saber, talvez seja por isso que ela não trata você igual os outros te tratam."

"Ei, eu não preciso de desculpa pra tratar os outros com decência!" – Respondo.

"Isso é porque você não conhece nada dos carna ainda." – Flann diz – "Se você soubesse..."

"Quer falar alguma coisa pra mim, bruxa?" – Ori diz, franzindo suas sobrancelhas.

"Cutuquei alguma ferida, corno?" – Flann retruca.

Ori logo se levanta — "ORA SUA—"

"HOOOOOO!" – O velho carroceiro grita, e a carroça imediatamente para, fazendo Ori se desequilibrar e quase cair da carroça se a Flann não o segurasse pelo manto – "...que coisa." – O velho diz.

Flann puxa Ori, fazendo-o cair no feno – "Algum problema, moço?" – Flann pergunta, bem alto pra ele ouvir.

"A gente vai ter que fazer um desvio." – Vejo o velho descer da carroça, Flann logo desce também, e eu a sigo. Ori vem logo em seguida.

Enquanto sigo a Flann, sinto um cheiro de podre muito forte que quase me faz vomitar. Logo coloco a mão tapando o nariz, e esbarro na Flann que parou de andar de repente. Dou a volta, e vejo o velho parado diante de uma grande carcaça de um animal que não consigo identificar. Possui duas presas imensas viradas para frente, é enorme e cheio de pelos, e seu corpo está aberto e cheio de—Seguro um vômito e desvio o olhar.

"É... tá morto mesmo." – Ori comenta, e não posso evitar de revirar os olhos. Acho que dá pra ver que tá morto, Ori.

"Que bicho é esse?" – Digo, tentando olhar novamente, mas sinto calafrios toda vez que tento.

"Um buffagru." – Flann diz, e vejo ela se aproximar da carcaça. Ninguém tá sentindo o mesmo cheiro que eu?! Flann se abaixa próxima a carcaça e encosta na borda da abertura imensa que a carcaça possui.

"A gente vai ter que dar a volta pela trilha das Cicutas, só vai demorar um pouquinho mais..." – O velho carroceiro diz, enquanto coça o pescoço.

"Que?!" – Ori diz – "Isso vai demorar muito mais!"

"Não só isso..." – Flann continua encostando no corpo do buffaaaaaa... buffagru. Ela encosta em algo gosmento e azul, e aproxima do rosto – "Mas a trilha das cicutas é cheia de... bom, cicutas. E são venenosas."

"Minha filha, já passei muito por lá, é só não chegar perto delas que você nem percebe que tá passando por um mato perigoso!" – O velho carroceiro diz solta uma leve risada.

Flann se levanta — "É, mas minha amiga não conhece a planta. Vai que ela come? A culpa vai ser sua."

"E-ei!" – Digo – "Eu não fico enfiando coisa na boca não, tá?! Eu não sou uma criança!"

Flann cruza os braços e suspira – "Tão sensível..." – Flann então olha pra floresta adiante – "Eu vou investigar o que fez isso, e volto dizendo se é melhor irmos reto ou não. Fiquem aqui."

"Você tem certeza, menina?" – O velho diz – "Têm ideia da coisa que fez isso com o buffagru?"

"Eu—"

"É o Leshy! Espírito antigo que vive na floresta! Deve estar furioso com essa tal de tecnologia se espalhando cada vez mais!" – O velho diz, mexendo os braços enquanto fala. Tecnologia...?

Flann fica em silêncio por um momento e então solta um longo suspiro – "De qualquer maneira, eu estou indo." – Ela dá as costas e começa a andar em direção à floresta.

"Flann!" – Digo – "Eu vou com você!"

"Não." – Ela diz, sua voz está mais séria que antes – "Você vai ficar aqui, com esses dois."

"Mas Flann, eu quero—"

"Ajudar?" – Ela se vira pra mim, seus olhos escarlates como antes – "Eu não te disse antes? Explodir alguns alvos fracos com suas mãozinhas mágicas não te faz uma caçadora, ou alguém útil pra mim. Só mostra que você não é frágil como qualquer outro ser humano. Você já está realizando seu sonho de sair de uma vida pacata..." – Ela dá as costas de novo – "Não vá jogar sua vida fora no primeiro momento." – Ela empunha suas adagas e sai em disparada, rápida como o vento, floresta adentro. Que velocidade...

Acabo abaixando a cabeça... o que Flann disse é verdade, eu só vou atrapalhar se eu for. E um Leshy? Se foi capaz de fazer esse estrago em um buffagru... imagina o que faria comigo. Ela tá certa... é melhor eu ficar onde eu estou. Mas... mesmo assim... estou zangada. Isso é... frustração? Por não ser capaz de ajudar...?

"Vish... espero que aquelas facas sejam tão afiadas quanto a língua dela." – O velho carroceiro diz, e então se vira pra mim – "Você tá bem, minha filha?"

"Sim... eu acho."

"Tsc. Aquela bruxa se acha toda incrível, mas aposto que vai morrer logo, logo." – Ori diz, e eu imediatamente me viro pra ele.

"Não diga isso!" – Digo, e Ori me olha espantado. Foi... muito alto?

"Foi mal..." – Ele dá de ombros – "Vou dar um cochilo até ela heroicamente voltar, beleza?"

"Ah, mas já que vai demorar, que tal me ajudar a pegar um pouco mais de grama, chifrudinho?" – O velho carroceiro diz, e vai até o lado de sua carroça, onde percebo que há pendurado algumas ferramentas, entre elas duas foices de tamanhos diferentes.

"Uhhhhhh......." – Ori grunhe, enquanto encara a foice.

"Se não quiser, tudo bem..." – O velho pega uma das foices e coloca as mãos nas costas, antes de estralar ela bem alto. – "Mas acho que vou ter que cobrar a sua passagem!"

Ori grunhe mais um pouco antes de revirar os olhos e tomar a foice da mão do velho – "Tá bom! Vamos acabar logo com isso."

O velho solta uma pequena risada e então se vira pra mim – "E você, mocinha? Sabe carpir?"

Levanto as mãos, mostrando meus calos que tenho há anos – "Nasci com uma enxada na mão!"

Ele me entrega a outra foice maior, com um grande sorriso no rosto, e eu logo me viro pro campo cheio de grama alta. É uma paisagem linda, e eu poderia ficar aqui o dia todo só apreciando... Mas o cenário lindo perde um pouco a magia quando percebo Ori batendo com a foice no chão, jogando terra e grama pra todo lado.

"Ori..." – Caminho até ele, mas parece que ele não me escutou – "Ei, Ori." – Ele para de bater no chão e se vira pra mim, com o rosto sujo de terra. Mas já? – "Não é assim que se corta grama..." – Digo com um sorriso, e levo minha mão até o rosto de Ori pra limpá-lo.

Ori logo tira a minha mão de perto de seu rosto – "Não diga." – Ele desvia o olhar para a foice em suas mãos – "Como que se usa esse troço então?"

"Olha..." – Seguro bem firme a foice, e encosto a borda da lâmina no chão, sua ponta apontando para a grama – "Você segura firme, bem onde quer cortar... E então, puxe." – E em um pequeno e leve movimento da direita para a esquerda, a grama facilmente sai do chão, com um leve som de "rasgo" – "Viu? Não é força, é técnica."

Ori bufa e então tenta imitar o que eu fiz. Ele acaba puxando a grama de mal jeito, e usa os braços pra puxar.

"Espera, não use os braços, deixe as pernas paradas e mova o corpo pro lado da grama. Não force a foice, ela faz a maior parte do trabalho." – Digo, enquanto demonstro cortando mais uma parte da grama.

"Tsc... tá..." – Ori tenta de novo, e dessa vez consegue, de mal jeito, mas consegue. Acho que assim vai estar bom.

Continuamos a cortar a grama tranquilamente, a brisa batendo e refrescando o ambiente. Me faz lembrar de quando minha avó me ensinou a mexer na enxada pra que eu ajudasse na horta... Eram bons tempos... Bons tempos. Eu era feliz e satisfeita por ajudar minha avó. Será que sou ingrata por querer sair...?

"Então..." – Ori se manifesta, e volto para o momento de agora – "Você acha que ela vai ficar bem?"

Fico em silêncio por um momento. Flann parece saber o que faz, então... — "Sim, acho que ela vai ficar bem..."

Um rugido quebra o silêncio, e percebo que veio da floresta. Vários pássaros voam para fora, e acabo me segurando para não correr floresta adentro. Eu quero muito ajudar, mas...

"Se você quer tanto ir, por que não vai logo?" – Ori diz, enquanto continua cortando a grama, ignorando o rugido.

"Mas eu não... posso. Flann me disse pra ficar aqui, senão eu... vou acabar morrendo." – Digo, sem tirar os olhos da floresta.

"...isso não te impediu antes." – Ori diz, e eu acabo me virando pra ele.

"Como assim?"

"Você podia ter morrido naquele beco quando me... salvou." – Ele tosse um pouco, como se limpasse a garganta – "Não sei porque você tá de corpo mole agora."

"Mas você estava em perigo! Eu só vou atrapalhar se eu for lá agora..."

"Heheheh..." – O velho solta uma risada, e Ori e eu nos viramos pra ele. Ele coça a nuca por debaixo do chapéu – "Parece que você é uma garota de reação, e não ação!" — Ficamos em silêncio encarando o velho, tentando entender o que diabos ele quis dizer com aquilo — "Meu filho é que nem você! Bem, não tão igual, né... ele é preguiçoso, não arranja um trabalho e quase sempre passa o dia deitado na grama com a cabeça nas nuvens." – Ele abre um leve sorriso – "Mas aquele garoto dá o máximo de si quando um amigo precisa de ajuda. É quando ele mais brilha. Acho que vocês dois tem muito futuro, só precisam confiar um pouco mais nas suas entranhas! Seus instintos!"

"Meus... instintos?"

"Diz, minha filha." – Ele se aproxima, e logo pega a foice de minha mão – "O que você sente agora?"

"O que eu sinto...?" – Digo, mais pra mim mesma do que para o velho carroceiro – "Eu... não sei bem o que sinto. Eu só sei que... não poder ir correndo pra ajudar a Flann... tá me deixando bem incomodada."

"Bom, não tem nada te impedindo. Se vai se machucar, atrapalhar ou, que Deus te livre, algo pior... Isso faz parte da vida. Meu pai sempre dizia, 'Tome cuidado com cada passo, e sobreviva. Arrisque um passo em direção ao céu, e viva'."

Um passo em direção ao céu...

"...Você acabou de falar pra uma guria que nunca viu o mundo afora pra se jogar de cabeça no perigo?" – Ori diz, franzindo as sobrancelhas.

"É só fazendo que se aprende, rapaz!" – O velho responde.

"Pffft." – Ori bufa, então se aproxima de mim. Ele puxa algo do bolso, e então me oferece, e eu percebo que é a sua faca.

"Uma faca?" – Pergunto, e pego a faca de sua mão.

"Você é maluca, percebi isso quando se jogou encima daqueles dois pra me salvar. Quem faz isso por um carna?" – Ele dá as costas pra mim, e volta a cortar a grama – "S-só toma cuidado, beleza?"

Percebendo que Ori se importa comigo, eu acabo deixando escapar um sorriso. Olho para o velho carroceiro, que acena com a cabeça, sorrindo. Agarro a faca com força, e me viro em direção a floresta. E então... começo a correr. Eu corro, e corro, em direção ao desconhecido, ao perigo. Não sei o que vou encontrar, ou se vou ficar bem, mas eu vou. Porque eu quero ajudar a Flann. Eu quero ser uma caçadora também.

[...]

Floresta adentro, percebo que o sol tem dificuldade de iluminar o ambiente, deixando a floresta mais escura do que eu gostaria. Caminho mais adentro, tomando cuidado com as raízes dessas árvores enormes, e tento ouvir algo, o rugido, a Flann, qualquer coisa que não seja o sibilar do vento. Nada. Parece que não há vida nenhuma aqui. Continuo caminhando, sempre na mesma direção pra que eu lembre de onde eu vim e não fique perdida. Percebo logo a frente uma área mais iluminada, e caminho rapidamente até lá. No caminho, noto alguns arranhões nos troncos, árvores tortas e algumas até estão no chão. Agarro firme a faca em minha mão, e sinto meu coração bater mais depressa. Percebo que a parte iluminada é uma clareira, e me sinto mais aliviada por estar em um lugar iluminado e aberto. Dentro da clareira, percebo que a floresta adiante não tem as árvores tortas ou arranhadas, só de onde eu vim. Espera... Isso não significa que—

Em um instante, o som de galhos se quebrando e um grande tremor na terra tomam conta do ambiente, eu imediatamente me viro pra trás. A única coisa que consigo ver, por um último momento, é a grande fera que matou aquele buffagru. Seus dentes, garras, e todo o seu corpo imenso vindo em direção à mim. Então, é assim que acaba...? Morta no meio de uma floresta, pega desprevenida...? Algo dentro de mim diz que não. Eu tento mover a faca em minhas mãos o mais rápido que posso para atacar a criatura adiante. Um último golpe, antes que essa fera acabe comigo. Mas, de repente, sou empurrada para longe de suas presas, e caio girando no chão. Depois de uma leve tontura, levanto a cabeça e vejo que Flann está ao meu lado, de olho na fera. Ela... me salvou?

"STAR‼" – Flann grita, e então gira suas duas adagas, segurando-as para trás – "Não tenho tempo pra ser sua babá agora! Sai daqui, AGORA‼"

A luz da clareira revela a fera que me atacou, uma grande criatura de longos braços e pelos verdes, com várias coisas longas e esguias como cipós cobrindo o seu corpo. Possui dois grandes chifres iguais aos galhos de árvores, e apenas uma imensa boca no lugar de um rosto. A fera ruge, e tenho que tapar meus ouvidos de tão alto. Então esse é... o Leshy? Me levanto, e preparo minha faca, tento imitar a pose da Flann.

"Eu não vou fugir dessa vez, Flann! Vou mostrar pra você que posso ser ajudar!" – Digo, e encaro a fera, me segurando pras pernas não tremerem.

"Tsc. Se vai jogar sua vida fora tão fácil assim, eu nem deveria ter te poupado na caverna." – Ela bufa – "Tente não ficar no meu caminho."

Engulo a ansiedade e o medo, e agarro a faca com toda a minha força. Esse é um caminho sem volta agora.