Undeniable
19 Capítulo 19
Notas iniciais
“Depois que voltamos do show do Passion Pit”, Rachel responde à pergunta de Naomi, sorrindo ao lembrar do momento.
As duas estão caminhando de volta à NYADA. New York ainda está de ressaca, as ruas nunca estão desertas, mas apenas as pessoas que querem aproveitar cada minuto do dia primeiro estão fora de casa. Quinn havia partido há pouco mais de uma hora, e se tornou o assunto principal de Naomi. Ela estava curiosa para saber sobre tudo: como Rachel estava lindando com os sentimentos, como aconteceu a cena que ela viu quando chegou de Portland, o primeiro beijo.
“...O show em si foi muito especial. Eu nunca havia sentido aquela energia, e foi maravilhoso pelo fato de poder sentir aquilo com a Quinn”
Naomi caminha do lado da pequena, “Existem coisas que só acontecem porque a pessoa certa está do nosso lado”
“Definitivamente”, Rachel sorri, “Foi meu primeiro encontro com ela”
“E como ela se saiu? Você ficou pensando no Luke o tempo inteiro?”, Naomi brinca e recebe um tapa de leve no braço.
Rachel estreita os olhos, “Idiota... eu não conseguia parar de pensar o quanto Quinn é maravilhosa”, a morena suspira, “ela é tão inteligente, culta, honesta, apaixonada...”
“Apaixonada... por você, Rachel”, a garota maior sorri com o olhar timido da diva, “Eu sempre soube que vocês iriam se acertar, que a Quinn ia achar um jeito de fazer você enxergar que estava a fim dela também”
“Demorou algum tempo, e muitos machucados”
“Mas valeu à pena?”, Naomi hesita em perguntar, pelo tom melancólico de Rachel.
“Sim”, ela suspira, “Quinn sempre vai valer qualquer esforço meu. Eu abdicaria de coisas muito importantes minhas para não perdê-la”
Elas continuam caminhando em silêncio por um tempo, enquanto Rachel fita o chão.
“E ela beija bem?”
“Naomi!”, a pequena ruboriza.
“Você só disse quando vocês se beijaram pela primeira vez, mas não disse em que condições e como foi!”, Naomi solta uma gargalhada diante da expressão super envergonha da outra garota.
“Eu vou manter alguns detalhes só para mim, ok?”, Naomi concorda e Rachel recupera a compostura antes de terminar, “mas simplificando, Quinn me fez uma surpresa depois que chegamos do show. Fomos dormir logo, porque passamos o dia inteiro nos preparando para o concerto. Quinn se deitou comigo em minha cama e –“
“Espera, o quê?!”, Naomi finge uma surpresa exagerada e Rachel sorri sentindo o sangue no seu rosto, “Quinn não precisou usar a minha cama nenhuma vez?”
“N-na verdade, não”, Rachel admite, “Você... ficou brava, ou algo assim?”
“Claro que não, Rach, eu estou brincando”, ela sorri, “Continue”
“Então...”, ela pigarreia, “Nos deitamos e ela pediu para eu olhar para o céu – que seria o teto do nosso dormitório. Ela apertou alguns botões no controle remoto e de repente, dez segundos depois, eu tinha a via lácta materializada em cima de mim. Era lindo, Naomi... foi perfeito. Quinn comprou um projetor de constelações e instalou ele em um lugar que eu não fosse perceber apenas para usar quando chegássemos. E assim foi...”
“Ouwnn”, Naomi geme, sorrindo para a morena, “Quinn é tão doce”
“Extremamente... ela apertou outros botões e disse para eu fazer um pedido, porque uma estrela cadente havia cruzado o teto, de um extremo até outro... então eu pedi pra ela me beijar”, Rachel desvia seu olhar envergonhado, lembrando-se do que sentiu no momento e sentindo seu coração acelerar.
“...e então?”, Naomi provoca. Ela está satisfeita com a resposta de Rachel, mas não resiste a fazer alguma piada.
“Q beija muito bem”, Rachel diz baixinho, com o rosto em chamas.
“Q deve beijar muito bem mesmo, para fazer você se parecer com um pimentão quando lembra disso”
Elas ficam dois segundos em silêncio antes de explodir em uma gostosa gargalhada.
“Sabe quando uma pessoa respeita tanto você e seu corpo... que até no beijo isso transparece?”, a pequena pergunta tímida.
Naomi faz uma cara pensativa, “na verdade, não”
Rachel bufa, brincando, “Sério”
“Acho que sim, Rach... Quinn foi assim com você?”
“Sim. Quinn parece ter uma hesitação em relação à gestos românticos comigo. Ela hesita em me beijar, e quando beija, parece pensar muito se deve avançar ou não... eu não sei explicar corretamente”
“Talvez porque Quinn goste de você há tanto tempo – ela tenta se manter calma para não perder o controle”
Rachel fica séria, “mas... vo- você acha que...”
“Rach, Rach”, Naomi interrompe qualquer conclusão errada que a morena poderia ter, “Eu não acho nada. Você não tem que pensar sobre isso agora, a menos que você queira. Mas não deve ser forçado”
“Eu sei, Naomi, mas você mesma disse que Quinn se força a manter o controle...”, ela choraminga.
“Ela tenta se controlar quando vocês estão se beijando, por exemplo, para não avançar as coisas que ela sabe que devem ser naturais, ainda mais com vocês duas, Rach”, Naomi conforta a amiga, “vocês ultrapassaram qualquer barreira que ainda existia na amizade para ir até algo além disso. É natural que Quinn se intimide com esse novo tipo de contato porque ela sempre desejou isso. Ela não quer deixar tudo atravessado e, sei lá, usar uma mão boba com você”
“Será?”, ela pergunta sentindo o fluxo de sangue no rosto aumentar. Ela ainda se sente insegura. Ela sempre vai se sentir.
“Eu sei que você ainda tem aquela chata dificuldade de aceitar que você é linda, Rach”, Naomi comenta percebendo a expressão da morena, “...e gostosa. Quinn não é cega e não é virgem, então você soma dois mais dois e vê que aquela loira deve estar adoecendo de tanto sentimento que ela tem que botar de volta para dentro de si para não te assustar”
Rachel tem a boca aberta em um perfeito O.
“Naomi!”, ela reclama, e Naomi solta uma risadinha, levantando as duas mãos abertas.
“Você sabe que é verdade!”, ela argumenta. Rachel suspira e se rende à brincadeira.
“Terminando o assunto, Quinn beija muito bem”
“Ah, sim”, Naomi continua sorrindo.
“Eu nunca fiquei com muitas pessoas”
“Algo contra quem fica com muitas pessoas?”, a garota maior pergunta em tom autoritário, fingindo braveza.
“Não! Eu só quero dizer que talvez para Quinn... não sei, eu me sinto insegura em relação à muita coisa quando eu estou com ela, Naomi. Pelo amor de Deus, é a Quinn. A garota mais bonita que eu já conheci na vida. Ela se parece... com algum membro da realeza de um reino longínquo da Inglaterra. Primeiro eu me acostumo com o fato de que ela é apaixonada – entre todas as pessoas possíveis da terra que estão pelo menos à altura dela – por mim. Eu me sinto, honestamente, grata e muito, muito lisonjeada. Depois eu tenho que lidar com o sentimento devastador que ela provoca em mim... o fato de ser Quinn Fabray, de ser minha melhor amiga, de ser minha pessoa... se eu perder alguma coisa de todas as coisas que temos na nossa relação, por menor que seja, vai me quebrar em pedaços... eu posso até adoecer! Então ela me beija e me faz sentir tão bem... e- eu não sei se eu retribuo tudo o que ela me faz sentir, se consigo estar à altura dela... dos beijos ou dos doces gestos que ela me dá... e se agora que ela consegue se relacionar comigo ela percebe que eu não sou tudo isso que ela vem idealizando há anos? E se a neblina da paixão que ela sente começar a dissipar e o que ela realmente ver não agradá-la, a ponto de ela me deixar? Eu... e-“
“Rachel! Respira!”, Naomi corta o diálogo introspectivo em que Rachel estava começando a se afundar.
“Eu estou apaixonada por ela, Naomi”, a pequena se agarra ao braço de Naomi, e caminha ao seu lado.
Naomi se lembra de algumas semanas atrás, quando a morena disse a mesma frase, mas toda a situação parecia ser inversa. As palavras antes soaram como uma sentença de morte para uma futura relação sadia das duas, onde nenhuma saísse machucada. Atualmente, tais palavras saíam com doçura e honestidade da boca de Rachel, sinal de que elas conseguiram transformar isso em algo que irá unir as duas garotas, ao invés de separá-las de uma forma irrefutável.
“E agora você sabe o que fazer?”
“Eu não sei muito bem... mas eu tenho Quinn pra me ajudar sobre isso”, Rachel apoia a cabeça no pescoço da amiga.
O telefone de Rachel vibra.
“Quinn já chegou em New Haven?”, Naomi pergunta enquanto Rachel se separa dela para olhar o celular.
“Acho que não... pelo menos essa não é a hora prevista”
Rachel desbloqueia o telefone e uma foto de Quinn aparece.
Ela está sentada, com suas malas em volta de si, seu cabelo um pouco úmido, chegando até os ombros.
No seu rosto, uma expressão diferente.
Ela claramente estava chorando. Seus olhos estão vermelhos, seu semblante parece triste, como de quem recebeu uma péssima notícia.
Sua boca traça uma linha voltada para cima. Ela está dando um sorriso entristecido, ainda sensível.
A pequena não consegue desviar a atenção daquela foto. Um nó se forma em sua garganta e lágrimas já perfuram a borda de seus olhos. Ela engole seco.
“Quinn me mandou essa foto”, ela vira o telefone para Naomi, que observa confusa.
“Por que ela está chorando?”
A morena responde com a voz embargada, “...Eu não sei”
A carta. Quinn leu a carta.
Mas aquelas palavras eram de amor... eram uma prece. Quinn não deveria ficar triste por causa delas.
“Eu vou ligar pra ela”
O celular vibra outra vez. Rachel lê em voz alta.
“Rach, essa sou eu, depois que terminei de ler as lindas palavras que você escreveu. Você não tem a mínima noção, certo? Você definitivamente não faz ideia do quanto mexe comigo. Suas palavras, seus gestos, suas emoções. Eu vou cuidar de mim, mas simplesmente porque cuidando de mim eu sei que posso te ter. Eu não me importo mais comigo, Rach. Com meu corpo, com minha mente, minha sanidade. Tudo vai embora e vira supérfluo se comparado à você. Obrigada por tocar aonde não se deve, e por querer sarar feridas que não são suas, nem a causa nem a origem. Eu sou completamente, irrefutavelmente, indiscutivelmente apaixonada por você. Desde quando abro os olhos, até me deitar novamente, a única coisa presente em mim é você, Rach. Você é minha pessoa, e nunca mais vai estar sozinha. E nessa foto, apesar da minha cara de choro, eu estou feliz. Eu sou a garota mais feliz da Terra. Simplesmente a pessoa mais feliz que já habitou esse planeta. Eu te amo. XOXO”
Naomi observa o modo como Rachel lê a mensagem. Sua voz quebra em alguns momentos, e lágrimas saltam facilmente de seus olhos, parece natural. Ela as seca à medida que termina de ler.
“Wow”, a garota maior comenta. Rachel ainda está parada, no meio da calçada.
“E-eu escrevi uma carta para ela”, a morena volta a caminhar e limpa o rosto, “e aparentemente as palavras fizeram efeito”
“O efeito que você queria?”
“Se Quinn está feliz, sim”, ela responde, se permitindo sorrir depois do choque da mensagem e da foto.
“Quer responder ela agora?”
“Depois que eu chegar no dormitório, tomar um banho... quero ligar para os meus pais também”
“Ok”
“Jantar?”
“Perfeito”
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Quinn chega em Yale algum tempo depois da mensagem que mandou para Rachel. Ela ainda está se recuperando... tudo o que leu foi tão profundo em tantos níveis. A morena realmente era supreendente.
Com um pouco de dificuldade ela leva sozinha as duas malas para o lobby de seu dormitório.
Ela sentiu falta desse lugar. Em Branford, ela conseguiu alcançar muitas coisas que pareciam inantingíveis quando ela era apenas uma garota de Lima, Ohio.
A arquitetura, os jardins. As pessoas mal encaradas e as simpáticas. Tudo fazia parte do ambiente que Quinn tinha na lembrança. Os encontros na biblioteca, os livros obrigatórios. Tomar café da manhã com Jordan.
Quinn não fala com ele há algum tempo.
Muito tempo. Aliás, ele não sabe nenhuma novidade sobre ela e Rachel.
Depois de entrar no dormitório e ter certeza que sua colega de quarto não está lá, como previsto, Quinn manda uma sms.
“Jordan! Onde você está? Sinto sua falta, tenho mil coisas pra te contar. XX”
Dois minutos depois uma ligação.
“Hey, Q!”, ela ouve Jordan animadíssimo do outro lado da linha e sorri, se encostando mais na sua cama.
“Oi, Jordan!”
“Seu lesbro sentiu sua falta! Achei que tinha me esquecido”
Ela sorri ainda mais, “Eu jamais te esqueceria, Jordan”
“Hmmmm, alguém está feliz”, ele comenta rindo.
“Eu estou mais feliz que todos, e você, amigo?”
“Estou feliz que você esteja, está bom agora?”, Quinn solta uma gargalhada.
“Onde você está?”
“Eu só volto semana que vem... eu estou na casa dos meus pais. Mudança de planos”
Quinn se lembra que os pais de Jordan não iriam visitá-lo no feriado, “Ah...”, ela suspira, “Suas aulas não começam amanhã?”
“Não; eu tenho uma série de palestras de ciências políticas para assistir nessa primeira semana de volta às aulas, mas eu prefiro fazer isso online, já que é possível”
“Vou sentir sua falta até lá”
“Me conta como foi seu feriado”, ele pergunta animado.
Quinn se sente à vontade com Jordan. Ele se tornou seu confidente, de muitas formas. É estranho pensar sobre o quanto ela se acostumou a contar as coisas para ele. Nem sempre foi imediatamente, mas mais cedo ou mais tarde, ela conta. Esse é o jeito que os dois funcionam.
Duas horas e meia depois, Quinn está desajeitadamente deitada em sua cama, com os pés para cima.
Estranho, mas ela se sente confortável.
Ela desligou seu telefone há alguns segundos, depois de contar para Jordan como tudo aconteceu com Rachel. Desde o momento que ela pisou em New York, passando pela crise de choro e confissão da morena, depois as conversas na madrugada, os sentimentos de Rachel dissecados e descritos, o show, o primeiro beijo, as inseguranças, as caminhadas no Central Park, a visita ao Empire State Building e depois à Times Square.
Terminou falando da noite de ano novo, que acabou por ser a melhor noite de sua vida, e as últimas horas em New York. Os beijos de despedida. Rachel dizendo “eu te amo”. Rachel lhe entregando uma carta sincera e sensível.
Jordan perguntou muito sobre quais as intenções de Quinn a partir de agora.
Rachel e Quinn tinham muita história; tinham feridas e machucados demais pra duas garotas que acabaram de entrar na fase adulta. Além do passado conturbado, elas não viviam na mesma cidade e não poderiam se ver todos os dias. Como levar um relacionamento à distância? Adicione isso ao fato de Quinn e Rachel serem melhores amigas.
A saudade seria suportável? Os limites da confiança alguma hora iriam aparecer?
E pior: iriam atrapalhá-las?
Quinn não respondeu essas perguntas com precisão, simplesmente porque ela não poderia. Ela deu à Jordan a mesma coisa que deu à Rachel, apenas uma certeza: ela vai estar amando a pequena a distância. Porque dentro dela, nada vai mudar. Ainda mais agora que Rachel não é mais algo inantingível.
Elas terão um relacionamento, ela garantiu, e Quinn vai fazer de tudo para mantê-lo firme e saudável. Porque Rachel Berry vale qualquer esforço necessário.
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Algumas horas se passaram; a noite já abatia tanto New York quanto New Haven.
Naomi e Rachel jantaram fora e aproveitaram para conversar ainda mais. Naomi se lembrou do quanto se sentia à vontade com a morena e Rachel adorou ter seus momentos com a amiga de volta. Ela realmente havia sentido falta.
Quinn não havia mandado outra mensagem para Rachel, porque depois que chegou em Yale, foi direto para seu dormitório e ficou no telefone com Jordan por quase um par de horas. Depois foi tomar um banho, colocar roupas confortáveis e se preparar para dormir.
Rachel não conseguia parar de pensar em Quinn.
Quinn não conseguia parar de pensar em Rachel.
Ambas seguravam firme seus telefones, na esperança de ele vibrar a qualquer momento.
Rachel queria dar espaço para Quinn.
Quinn queria dar espaço para Rachel.
Era bobo as duas pensarem da mesma forma. Mas elas não eram mais apenas melhores amigas; elas ultrapassaram essa linha. Seus corações já não agiam dessa forma. Eles esperavam mais. E ambos batiam no mesmo ritmo, sincronizados. Todo medo e emoção de quando se está apaionado, eles sentiam. Sentiam muito bem.
Quinn estava deitada confortavelmente em sua cama, segurando o iPhone com as duas mãos em cima de seu rosto. A foto dela e de Rachel estampava o celular. Ela viajou para o momento em que a foto foi tirada: as duas, ainda apenas amigas, em um tempo que parece que aconteceu há eras. O vento batia forte em seus cabelos, e Quinn pediu para um desconhecido registrar o momento em que duas garotas de Lima estavam em frente à estátua da Liberdade-
“Q, eu posso te ligar?”
“Eu estou esperando desde que saí da estação”
Segundos depois Quinn recebe uma chamada por vídeo de Rachel.
O rosto da morena, lindo e sereno, aparece na pequena tela do aparelho. O sorriso de Quinn se ilumina.
“Oi, Rach”, a loira sente seu coração dar pulos no peito.
“Oi, Q”, ela responde doce, “você consegue me ver?”
“Sim, e você? Me vê bem?”, Quinn tira o cabelo escorrido da frente dos olhos.
“Vejo”, Rachel sorri. A loira não está mais com os olhos avermelhados de choro e isso a acalma um pouco.
“Eu queria te ligar...”
“Você deveria, eu fiquei preocupada”
“Mas você estava com Naomi, eu queria que você curtisse a companhia dela. Sei que você sentia falta desses momentos”, Quinn diz compreensiva. O coração de Rachel se aquece.
“Eu realmente estava. Naomi está tomando banho agora, mas tenho certeza que várias pessoas pararam ela no meio do caminho. Ela aparentemente só manteu contato comigo, e apenas algumas mensagens. Os amigos dela aqui no campus estavam malucos atrás de notícias dela”
“Vocês voltaram logo depois que eu vim para Yale?”
“Sim, nós viemos conversando. Comemos em um lugar novo que abriu na cidade, vegan, perto de NYADA. Eu comi, na verdade. Naomi pediu um suco, esperou eu terminar minha refeição e me obrigou a ir ao Grey’s Papaya para comprar a comida processada e industrializada que ela ama”, Rachel bufa.
Quinn sorri, “Você quer dizer- um hot dog”
“Sim”, Rachel estreita os olhos, “que não deixa de ser a descrição que eu falei anteriormente”
“Eu sei”, a loira solta uma risadinha, “Estou brincando com você”
As duas suspiram.
“Eu estou tão nervosa”, Rachel confessa. Quinn sente o coração martelar dentro do peito. O que ela não daria para envolver a pequena em seus braços nesse momento?
“Eu também estou nervosa, Rach”, a loira admite com a voz suave.
“Eu sinto a sua falta de uma forma completamente diferente agora”
“Eu sinto a sua falta da mesma forma que eu sempre senti, então eu sei qual é a sensação”, Quinn sorri entristecida, “mas me fala... que horas você tem aula amanhã?”
Rachel sorri, grata por Quinn conhecê-la tão bem.
“Eu tenho História do Teatro II pela manhã. Expressão Sonora na primeira parte da tarde, Cenografia após o intervalo e Interpretação Definitiva até quase de noitinha... meu dia estará cheio amanhã”
“Wow”, Quinn se ajeita de lado e coloca o telefone à sua frente, no travesseiro. Rachel faz o mesmo, “Você já está preparada para dormir?”
“Sim... Naomi levou o cartão dela para eu não precisar abrir a porta, e eu estou só com esse abajur aceso”, Rachel pega o telefone e vira a câmera para a luz. Quinn sorri.
“Eu não li nenhuma palavra dos livros que levei para New York”, a loira confessa em um tom brincalhão.
“Sério, Q? Por quê?”, Rachel parece desesperada, “eu atrapalhei sua rotina de estudo, não foi? A todo momento eu queria que você fosse comigo passear, no Central Park, jantar fora... desculpa, Quinn, de verdade!”
“Rachel, pára”, a loira pede com a voz doce e terna, “não foi nada disso. Eu simplesmente deixei para lê-los quando viesse para Yale novamente. Meu tempo em New York era só seu, por direito. Nada iria me roubar a atenção. Não se sinta culpada, porque eu tenho tempo de recuperar essas leituras. Como ainda é a primeira semana de volta às aulas, alguns buracos na grade foram feitos para os alunos que não voltaram de casa por causa do feriado. Assim eles não perderão aulas importantes, e nesses momentos vagos eu posso adiantar várias coisas”, ela garante. Rachel ainda permanece séria.
“Mesmo?”, ela pergunta inocentemente e com a voz aguda, fazendo Quinn fechar os olhos pela fofura.
“Mesmo”
“Ok... eu aceito essa sua desculpinha de buraco na grade de matérias”, Rachel brinca.
“Hey!”
As duas riem e ficam em silêncio, logo depois. Quinn olha atentamente para os olhos de Rachel, tão lindos e chamativos.
“Sabe... Naomi me perguntou se você beija bem”, ela fala baixinho, e Quinn demora um tempo pra processar essa informação.
“Sério?”, a pequena assente com a cabeça, “E o que você respondeu?”, ela pergunta curiosa, sorrindo.
“Hmmmm”, Rachel faz um ar de mistério.
“Rach! Me diz”, a loira pede carinhosamente. Rachel sorri envergonhada, “Você acha que eu beijo bem?”
Quinn sente seu coração sendo estrangulado dentro do peito. As borboletas estão fazendo um estrago em seu estômago, e os segundos que se passam antes de Rachel responder parecem eternos.
“Eu acho”, ela finalmente diz.
Quinn sorri abertamente. Seu orgulho e seu ego ficam felizes com essa notícia.
“Você não invade a minha casa”
“O quê?”, Quinn dispara e começa a rir. Ela definitivamente não esperava essas palavras.
Rachel sente suas bochechas corarem do outro lado, “Tem alguns tipos de beijo onde a pessoa simplesmente não é gentil... como se ela invadisse nossa casa, entende? Eu tenho que abrir a porta de deixar a pessoa entrar, mas ela simplesmente entra e toma conta de tudo como se aquilo fosse dela”
A loira espera mais alguns segundos para ver se aquela era toda a explicação, “...e?”
“E...”, Rachel continua, ainda mais envergonhada, “Você não é assim. Você é tão gentil e doce, tão carinhosa”
“Você gosta?”, Quinn sente o rosto ser invadido pelo calor, “Eu digo, do meu beijo?”
“Sim”, a pequena responde ainda mais nervosa.
“Que bom... porque eu amo o seu beijo, Rachel. É simplesmente melhor do que eu imaginei”
“Você leu minha carta”, Rachel muda o assunto, envergonhada.
“Eu li. Você abriu meu presente”
“Abri”
Elas soltam uma gostosa gargalhada, que deixa o clima mais leve.
“Como eu disse antes, suas palavras realmente mexeram comigo, Rach. Porque você não tem ideia... você consegue me iluminar de uma maneira que nada nem ninguém mais consegue”
“Q...”
“Eu sou sua, Rach... mas do que eu sou minha. Mais do que você é minha. Como você mesma disse, eu sou sua mesmo se você não me quiser mais”
Rachel se emociona com essas palavras, e Quinn não consegue segurar as lágrimas que acompanham seu discurso.
“Você escreveu naquela carta palavras que eu sonhei ouvir durante todos esses anos. Eu entendi toda a intensidade com que você falou de mim antigamente. Eu senti a delicadeza com que você tocou em assuntos difíceis...”
“Eu não queria deixar você triste com nada do que eu escrevi, Q, eu só queria deixar alguns pontos bem claros... inclusive para mim. Foi terapêutico escrever aquilo...”, Rachel se lembra de quando ela pegou sua câmera de vídeo e filmou a si mesma falando da relação das duas desde o começo. Foi algo parecido com aquilo.
“Eu amo você, Rach, amo você de uma forma que me destrói todos os dias por estar longe”, Quinn confessa, sofrida, “mas você me reconstrói, desde as bases. Desde o começo... você sabe como fazer cada coisa funcionar em mim. O melhor e o pior. E eu te amo ainda mais por isso”
“Eu te amo, Q... eu queria poder te abraçar nesse momento”
Quinn quase sente seu coração parar de bater, por causa das emoções que atravessam seu corpo nesse momento.
Ela limpa mais uma lágrima e decide que essa será a última da noite.
“Já que você esta se preparando para ir deitar, eu posso ler algo para você?”
“Sim!”, Rachel responde animada, fazendo Quinn sorrir.
“Deixe-me pegar meus óculos e preparar a luz aqui”
“Ok”
A loira limpa a lente com o paninho que há dentro da caixinha de seus óculos, e deixa eles um pouco mais afastados dos olhos, colocados quase na ponta do nariz. Ela volta sua atenção para o telefone onde Rachel olha para tela cheia de expectativa.
“Você não parece com sono”, Quinn solta uma gargalhada.
“Eu estou animada que você vai ler pra mim”, ela responde doce.
“Só tente não pular enquanto eu faço isso”
As duas abrem um sorriso que quase atravessa seus rostos. Esse momento é tão novo no relacionamento delas. Ambas sentem que é algo especial, e que com certeza vai ser repetido no futuro.
“O que você quer que eu leia pra você, Rach?”
“O que você acha que eu vou gostar”
A loira franze a testa e seu cérebro começa a trabalhar. Ela vasculha na mente todos os livros que já leu na vida e reduz o número para os que estão à seu alcance no momento. Quinn tem muitos livros, que ela comprou para as aulas da faculdade e que eram obrigatórios, mas também tem dezenas de volumes que pegou emprestado da biblioteca apenas para sua própria satisfação. Autores que ela acha que sõ maravilhosos mas não são cobrados em seu curso, ou que pelo menos não foram ainda.
“Hmmm”, ela se levanta e Rachel fica encarando seu travesseiro apenas por um momento, “eu acho que você vai gostar desse título”
“Quem é o autor?”, a morena pergunta, mas ela só consegue prestar atenção em uma coisa.
Quinn está de óculos.
Ela nunca percebeu o quão diferente Quinn ficava de óculos. Mais bonita. Mais inteligente.
Mais sexy.
Óculos caia tão bem no rosto de Quinn Fabray quanto Barbra poderia interpretar Fanny Brice.
A loira percebeu a pausa da pequena, seus olhos pareciam nunca piscar.
“Rach, está tudo bem? Você está estática”
“E-está, claro”, ela pigarreia, “Quem é o autor do livro que você vai ler pra mim?”
“Pablo Neruda”
“Nunca ouvi falar”, Rachel reclama, “Será que eu nunca vou conhecer suas bandas e seus autores preferidos?”
Quinn sorri, “Melhor assim, eu posso mostrar essas coisas novas para você e assim elas serão nossas”
Rachel aceita aquela resposta. Era maravilhosa.
“Pablo Neruda foi um poeta chileno, e provavelmente eu vou estudá-lo porque ele foi um dos poetas mais importantes da língua castelhana do século XX”
“Ok”, a morena responde ansiosa. Quinn parece tão linda, culta, tão apaixonante.
“Quero apenas cinco coisas... primeiro é o amor sem fim, a segunda é ver o outono, a terceira é o grave inverno, em quarto lugar o verão. A quinta coisa são teus olhos. Não quero dormir sem teus olhos. Não quer ser... sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando”
“Q... é lindo”, Rachel sente o nó na garganta ameaçar aparecer, mas logo trata de engolir tudo aquilo de volta.
Quinn olha para a tela do telefone, sorrindo de leve.
“Eu quis dizer cada palavra, Rach. Não foi por acaso que escolhi esse poeta e esse poema”
Rachel suspira, e diante do silêncio da morena, Quinn continua.
“Saberás que não te amo e que te amo, posto que de dois modos é a vida, a palavra é uma asa do silêncio, o fogo tem uma metade de frio. Eu te amo para começar a amar-te, para recomeçar o infinito e para não deixar de amar-te nunca: por isso não te amo ainda. Te amo e não te amo como se tivesse em minhas mãos as chaves da fortuna e um incerto destino desafortunado. Meu amor tem duas vidas para amar-te. Por isso te amo quando não te amo e por isso te amo quando te amo”
Quinn termina de ler todo o livro, que tem por volta de oitenta poemas. É madrugada quando ela está terminando de ler o último poema, e Rachel avisou minutos antes que iria apenas fechar os olhos para descansar a visão da luz do iPhone que estava fazendo sua cabeça doer um pouco.
“...Não te quero senão porque te quero, e de querer-te a não te querer chego, e de esperar-te quando não te espero, passa o meu coração do frio ao fogo. Quero-te só porque a ti te quero, odeio-te sem fim e odiando te rogo, e a medida do meu amor viajante, é não te ver e amar-te, como um cego. Tal vez consumirá a luz de Janeiro, seu raio cruel meu coração inteiro, roubando-me a chave do sossego, nesta história só eu me morro, e morrerei de amor porque te quero, porque te quero amor, a sangue e fogo”
A loira olha para a tela de seu iPhone onde Rachel se encontra de olhos fechados, com uma mão sobre o travesseiro. Ela fica em silêncio por alguns segundos e escuta o leve ressonar da morena. Sorri diante da cena. Guarda o livro na cabeceira da cama e tira os óculos, guardando-o com cuidado.
“Eu te amo, Rach... durma bem”
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