Undeniable

20 Capítulo 20


Notas iniciais
eu bebo mesmo! hahahahhahahah

“Oh, graças a Deus”

“Naomi, você é atéia”

“Isso é irrelevante, Rach”

Naomi toma mais um gole de café preto antes de deixar a xícara na mesa e levantar seu olhar para Rachel.

“Agora que você já fez sua prece para a cafeína, podemos ir?”

“Claro”

Rachel se levanta, arrumando a bolsa nos ombros e saindo do refeitório de NYADA.

As duas se despedem, pois vão para diferentes áreas do Campus. A morena dá um breve abraço na amiga, e avisa seu horário: aula até o começo da noite.

A pequena acordou no horário correto, como sempre, chamou Naomi e esperou a garota maior dizer seus habituais chingamentos matinais antes de se levantar e realizar sua higiene. Não importa quanto tempo passe, Naomi nunca vai se acostumar a acordar antes das sete, e isso resulta em um leve mau humor pela manhã. Mas apenas até ela degustar seu café preto e forte, sem açúcar, para balançar o corpo.

Assim que abriu os olhos, Rachel se viu encarando o telefone.

Lembranças do que aconteceu noite passada invadiram instantaneamente sua cabeça.

Quinn de óculos. Quinn de óculos absurdamente deslumbrante, lendo lindos poemas de Pablo Neruda para ela.

Como ela pôde dormir?

Bufando, ela desbloqueia o celular e vê uma sms da loira.

“Você é linda dormindo. Nesse momento, tudo faz sentido, Rach”

Rachel poderia rasgar seu rosto tamanho seu sorriso.

Ela vê a outra mensagem, enviada há poucos minutos. Aparentemente, Quinn também começou cedo em Yale.

“Sinto sua falta”

Quinn Fabray.

Há tempos atrás, elas passaram uma semana inteira sem se falar; Rachel havia enviado um e-mail explicando o porquê de precisar de um tempo na relação – de apenas amizade – das duas. Quinn havia se declarado e Rachel não queria que ela sofresse e não a queria da mesma maneira, então essa foi a única solução viável.

Mas quando os dias passavam, as horas lentamente se arrastando, ambas se focando no estudo e na competição em suas salas de aula, Rachel lembra de estar com Naomi no Central Park, e lá contar toda a história de Quinn para a garota. Desde seu reinado nas Cheerios, passando por Beth, entrando nosseus breves relacionamentos com homens até seus dias atuais em Yale.

No meio da conversa, Quinn enviou uma sms. “Sinto sua falta, Rach”, dizia.

E aquilo quebrou o coração da morena.

Elas passaram tanto tempo sem contato, algo quase inaceitável. Uma semana era como meses, depois dos acontecimentos que haviam ocorrido. Como elas chegaram nesse ponto? Nenhuma sabia exatamente.

Quinn estava arrependidíssima de confessar à Rachel seus sentimentos.

Rachel estava se corroendo entre a culpa e a incredulidade.

Mas aquela mensagem tirou-as da borda do precipício e empurrou as garotas para terreno firme.

Elas iriam seguir em frente.

Era impossível conseguir isso sem uma na vida da outra.

Rachel lembra desse sentimento, de quando ela respondeu à essa sms de Quinn no parque, antes de responder à loira naquele instante, deitada em sua cama. Ela pensa em como o mundo dá tantas voltas e tanta coisa pode mudar para melhor quando tudo parece seguir apenas na direção contrária.

Sua relação com Quinn – e uma espécie de relação amorosa – estava devidamente comprometida. Porém ambas conseguiram reverter isso. Destino? Universo? Probabilidade de pessoas perdidas encontrarem outras pessoas perdidas e se apaixonarem uma pela outra? Quem poderia afirmar com certeza o motivo?

Ninguém.

Mas não importa, Rachel pensa antes de apertar o botão enviar.

“E eu sinto a sua, Q ♥”

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“Alguém sabe me dizer todos os gêneros do teatro?”, o professor calvo e magro pergunta, olhando à todos os alunos, um a um.

Rachel se sente um pouco intimidada com o olhar desse professor. Ele parece um pouco desconectado da realidade, falando sempre com seu tom letárgico. Muito diferente da maioria de seus professores, que também são formados em Artes Cênicas, e muito diferente da própria morena. Talvez por isso algo nele desagrade à ela.

“Tragédia, Comédia, Tragicomédia, Farsa, Drama, Melodrama, Pantomina, Teatro do Absurdo, Ópera, Musical, Teatro de rua...”, uma garota morena de óculos cita alguns e o professor espera atentamente ela terminar.

“Ótimo. Estes são apenas alguns. Existem dezenas de gêneros teatrais, e na minha aula, vamos estudar cada um deles”

A pequena sabia de cor todos os gêneros que existem. Ela provavelmente havia decorado eles por volta de doze anos, quando seu papai Leroy comprou para ela uma Enciclopédia do Teatro, com figuras ilustrativas e um CD para computador.

Depois de uma breve explicação sobre cada gênero, a aula está quase em seu fim. Apesar de o professor usar frases curtas e objetivas para embasamento de sua explicação, a lentidão com que as palavras saiam de sua boca fizeram toda a matéria parecer monótona e dispersa.

Um trabalho foi requisitado: em dupla, sendo que cada dupla faria uma demonstração do gênero teatral designado. Rachel ficou eufórica com a notícia.

“Hum –hmm, hey, Rachel, certo?”, ela ouve uma voz feminina e suave a chamar enquanto arruma o caderno e seus pertences dentro da bolsa.

“Oi”, a morena se vira e olha para a mesma garota de óculos que respondeu à questão do professor no início da aula, “Posso te ajudar em alguma coisa?”, ela pergunta educadamente, diante do silêncio que se estabeleceu.

“Ah, sim”, a garota pigarreia, nervosa, “meu nome é Megan, eu... você pode me chamar de Meg, se quiser”

Rachel sorri e franze um pouco a testa, “ok, Meg...?”

“Eu sou uma grande fã de musicais”, Megan suspira, revirando os olhos diante do olhar confuso de Rachel, “Eu não comecei isso muito bem, não é?”

A pequena solta uma gargalhada, “Acho que não”

“Eu queria perguntar se você quer fazer o trabalho de História do Teatro II comigo, porque... eu sei que, eu vi você um dia em uma loja de discos, quer dizer, eu estava lá aleatóriamente com alguns amigos e você estava com uma garota de cabelo roxo...”

Rachel levanta as sobrancelhas. Parece que ela encontrou alguém parecida com ela, até em sua mania de divagar sobre os assuntos.

“Eu lembro desse dia! Eu cantei Don’t Rain on My Parede para minha amiga Naomi, porque ela meio que me desafiou”, ela sorri.

“Exato!”, Megan responde com animação, mas logo se acalma e empurra um pouco mais os óculos que protegem os grandes olhos azuis claros, “eu vi você cantando naquele dia e nunca mais esqueci”

Rachel estreita os olhos e fita a garota em silêncio.

“Ok, isso saiu errado”, a garota põe a mão na nuca, “porque depois eu percebi que estávamos na mesma sala, e que fazemos algumas matérias juntas, então eu me lembrei do seu rosto, eu quero dizer isso, não que eu não tenha te esquecido de outra maneira ou algo assim...”, ela vai terminando de falar devagar, porque Rachel não consegue segurar uma gargalhada sincera.

“Desculpa, desculpa”, Rachel pede, “é só que você parece comigo, algumas vezes”

Megan empurra os óculos mais uma vez, confusa e nervosa, “Como assim?”

Rachel olha para os lados e se depara com a sala vazia. Seu professor observa as duas garotas da porta, mas aparentemente ele não está escutando a conversa delas, apenas esperando elas saírem da sala. A garota da mesma estatura de Rachel continua observado seus olhos.

“Eu acho que o professor quer que a gente saia da sala”, a morena sussura para Megan, que sai de seu transe e olha para a porta onde o professor se encontra parado, batendo os dedos na parede.

“Oh! Ok!”, Megan ajeita o casaco e arruma a bolsa de lado que leva, enquanto caminha em direção à saída, “Você tem aula agora?”

“Sim, tenho. Expressão Sonora, com um professor novo também”, Rachel comenta.

“Eu estou livre nessa. Fiz semestre passado...”

“Oh... então, você quer fazer o trabalho comigo?”

Elas estão no corredor, enquanto Rachel caminha para sua sala e Megan a acompanha.

“Sim! Eu gostaria. Eu sei que pelo menos você gosta de musicais também, e canta divinamente... aliás, eu nunca tinha ouvido outra pessoa cantar Barbra como você fez. Parecia que você estava no teatro, apresentando! Foi demais!”

Rachel sorri apenas em ouvir o nome de Barbra, e cora um pouco pelos elogios.

“Barbra é minha maior inspiração... fico feliz de saber que alguém aqui a conhece. Óbvio que todos a conhecem, mas ninguém parece querer demonstrar, sabe? Eu vim pra NYADA achando que todos seriam que nem eu, e eu iria encontrar admiradores das mesmas coisas que eu e formaríamos, sei lá, um grande grupo que ficaria discutindo filmes, peças, performances...”

Foi a vez de Megan abrir um enorme sorriso.

“Definitivamente somos parecidas”, ela olha amavelmente para Rachel, “Eu sou de Savannah, Georgia. Vim pra New York achando que as pessoas que eu estudaria com seriam pelo menos... falantes que nem eu. Elas estudam teatro, pelo amor de Deus!”

Rachel solta outra gargalhada, “Acredita que eu fiquei apenas amiga da minha colega de quarto? Eu conheci outras pessoas, e até conversei com algumas da minha classe, mas nunca estabeleci uma amizade, nem algo sólido, por exemplo”, ela para diante de uma porta e vê os alunos se arrumando para inciar a aula, “Eu fico por aqui...”

“Ah, sim! Eu... pego- eu não sei se... é melhor eu pegar seu número? Para a gente se comunicar durante a semana? Assim você me passa seu facebook ou outra rede social que tiver”, Megan pergunta nervosa.

“Claro”, Rachel passa seu número para a garota e logo ela liga, apenas para a morena gravar Megan em sua agenda.

“Você vai almoçar aqui pelo campus? Ou em algum outro lugar fora de NYADA?”

“Eu sempre fico por aqui”, a pequena responde, “Você quer almoçar comigo?”

“Sim! Aí conversamos sobre o trabalho, entre outras coisas”, Megan responde desviando seus olhos para a sua bolsa, “eu sempre fico no refeitório dois, na parte esquerda. Te encontro lá, garota Streisand?”

Rachel abre um sorriso vendo os olhos azuis amigáveis e gentis de Megan esperando uma resposta.

“Eu te encontro lá”, ela diz se virando para entrar na sala, “Você não é uma fã da Barbra Streisand?”

“Andrews”, Megan grita chamando a atenção de Rachel e mais algumas pessoas no corredor, ruborizando logo em seguida, “Eu sou uma garota Julie Andrews”

A morena se senta na cadeira, ajeitando seu material, e sorri enquanto olha para trás e vê Megan desaparecendo no corredor.

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“Eu sou vegan”, Rachel diz antes mesmo de Megan perguntar alguma coisa, “caso você esteja pensando porque só tem verde no meu prato. Eu não estou de dieta ou nada do tipo”, ela ri.

“Eu também! Você nem percebeu o meu prato!”, Megan solta uma gargalhada e Rachel olha para o prato da outra garota, que tem basicamente os mesmos vegetais que ela escolheu.

“Desculpa!”, ela pede, “eu não olho para os pratos das pessoas assim”

“Tudo bem, eu estou brincando”, Megan mastiga um pouco de sua comida, “Então, Rachel, como você veio parar aqui?”

Rachel termina de mastigar antes de devolver, “Não! Você primeiro! Estou curiosa sobre sua cidade. Savanah, certo?”

Megan confirma, “Sim... bom, Savanah é uma cidade bem planejada e repleta de praças, o clima é muito agradável. Há vários museus, alguns fimes inclusive já foram rodados por lá. Dizem que é a cidade mais graciosa dos Estados Unidos... tem um parque lá chamado Forsyth Park, e é lindo. Definitivamente o local que eu mais amo sobre minha cidade. Não é um Central Park da vida, porque lá temos verde por todo o lado. Mas é muito agradável, e sempre nos finais de semana eu ia com minha família”

A morena termina de ouvir Megan tomando seu suco, “E você sempre quis vir pra New York?”

“Sempre. Desde pequena eu sonho com teatro... é algo que está no meu sangue. Minha mãe era atriz quando jovem, chegou à trabalhar numa peça off-off Broadway mas engravidou do meu irmão mais velho, e acabou voltando para Georgia, de onde meu pai era também. Eu nasci e ela largou definitivamente essa profissão, e depois teve minha irmã mais nova”

“Wow”, Rachel se surpreende, “isso é incrível”

“Sim... e você?”, Megan pergunta enquanto termina de comer.

“Eu sou natural de Lima, uma pequena cidade no estado de Ohio... é muito conservadora e a família dos meus dois pais moram lá desde... sempre, eu acho. Eles se conheceram lá, nunca saíram do estado nem nada do tipo”, Rachel comenta e espera para ver se Megan entendeu.

“...Dois pais, tipo, em dois homens? Pais?”, ela pergunta, mas sem malícia ou constrangimento em sua voz, apenas curiosidade. Era esse tom que Rachel esperava, e não algo mais agressivo.

Ela suspira aliviada, “Sim... Leroy e Hiram me adotaram, e desde então eu sou criada com muito amor, em um lar que nunca me faltou nada, nem fisicamente muito menos emocionalmente”, Rachel termina orgulhosa.

“Isso é ótimo”, Megan comenta, “E você sempre sonhou com teatro? Como você veio parar em New York?”, ela usa o mesmo tom que Rachel usou anteriormente, e a pequena ri.

“Digamos que eu nasci sabendo que meu destino seria esse”, ela responde, “sem querer parecer presunçosa, já que muitas vezes eu duvido do meu talento e capacidade, por diversos motivos, mas eu sempre soube que mesmo se eu não entrasse em NYADA, eu terminaria o ensino médio e tentaria a vida como uma atriz. Uma atriz de musicais, se possível. É minha paixão, está no meu sangue, no meu cerne...”, Rachel termina com um brilho intenso nos olhos e Megan limpa a boca com guardanapo.

“Nossa!”, ela comenta, “Eu não sei por quais motivos você chega a duvidar do seu talento, mas é algo que eu tenho certeza que você não deve... eu vi você cantar Rachel, e te garanto que esse brilho nos olhos quando você fala sobre o que vai ser é verdadeiro e genuíno, ninguém vai poder roubar ou afastar isso de você. Como você mesma falou, é destino”

Rachel sente as bochechas ficarem quentes e vermelhas, “Obrigada”, ela responde tímida.

Megan volta a atenção para seu suco e Rachel observa a face da garota.

Ela tem basicamente a sua altura, logo, também é baixinha, já que deve ter por volta de dezoito ou dezenove anos. Os cabelos castanhos escuros são lisos e ela tem uma franja lateral, escorrida no olho esquerdo. Seus olhos são grandes, azuis claros como o céu em um dia sem nuvens e parecem ser calmos, ao contrário da personalidade da garota, que parece um pouco com a de Rachel. Ela certamente é desastrada e borbulhante, ansiosa com assuntos de seu interesse e deve ser tímida quando se trata de algo que não seja sua paixão – o teatro.

Seu rosto é bonito, seu nariz é fino e combina com seu semblante de garota calma de uma cidade grande, porém da natureza como Savanah. Ela tem os lábios grossos sempre fechados em um leve sorriso, mesmo quando está nervosa. Rachel acha graça disso.

“Algo me diz que você é tímida”, ela comenta, “Eu também sou, quando não envolve coisas como teatro, musicais, dança ou Barbra”

Megan ri, “Definitivamente... eu sou um pouco desastrada e desligada, mas também sou... ansiosa. Minha mãe achava que eu era um terror. Nunca ficava parada quando ela ligava o rádio e sempre saía dançando e batendo nos móveis da casa, quebrando alguns deles, inclusiva”, a garota ri com a memória.

“Então... teatro musical será o nosso tema?”, Rachel olha as horas no telefone, já que terminou de comer e Megan também, “Ainda temos tempo para conversar sobre isso”

“Claro! Só eu que achei o professor meio... lunático e estranho?”, ela sussurra como se estivesse contando um segredo e Rachel solta uma gargalhada, franzindo o nariz.

“Não, eu também prestei atenção nisso. O modo como ela fala... não sei, há algo de diferente dos outros professores que estão sempre animados e bem dispostos...”

“Pois é! Ele falou nosso tema, mas não a didática, e aquela explicação sobre todos os tipos de teatro... por Deus, achei que ia dormir”, Megan sorri quando vê que Rachel continua gargalhando.

“Você disse que era mais uma garota Julie Andrews...”, a morena solta no ar e espera Megan comentar.

“...Sim?”, ela responde brincalhona.

“Mas, Barbra... deixe-me ver por onde eu começo”, Megan ri, “ela foi indicada à três Oscars, levando duas estatuetas para casa, tem oito Grammys, quatro Emmys, um Tony Award especial, é uma das artistas mais bem sucedidas tanto comercialmente como de crítica na história do entretenimento moderno, vendeu mais de cento e quarenta milhões de albuns ao redor do mundo – sendo que eu tenho uma cópia de cada um deles – já fez duetos memoráveis com Neil Diamond, Donna Summer, Frank Sinatra, Celine Dion, é referenciada com frequência em séries e filmes, musicais ou não, como Sex and the city e Family Guy!”

Rachel termina seu monólogo e Megan está rindo, pensando o quão rápido a morena conseguia falar.

“Wow, você realmente sabe muito sobre Barbra, e também como falar sem respirar”

A pequena estreita os olhos, “Hey”, ela brinca.

“Quero te lembrar que Julie também ganhou um Oscar, um Globo de Ouro, um Emmy, um Grammy, um BAFTA, diversos People’s Choice Award, além de ser escritora, cantora e atriz. Barbra nunca foi homenageada pela Rainha do Reino Unido com a Ordem do Império Britânico”, Megan zomba, fazendo Rachel bufar.

“Barbra nasceu no Brooklyn, Julie nasceu numa pequena cidade da Inglaterra que eu nem lembro o nome, de tão insignificante... é só questão de geografia!”

“Calma, Rachel”, Megan sorri quando vê a morena alterada, mas brincando, “eu meio que gosto das duas”

“Eu também! Mas Barbra é Barbra”, ela argumenta, como se fosse óbvio.

“Ok!”, a outra garota se rende, levantando as mãos, “Eu tenho a mesma classe que você, se eu não me engano... então acho melhor irmos”, ela aponta para a saída, onde a maioria dos alunos estão se dirigindo.

Rachel se levanta e observa Megan sair na frente, encostando a mão em seu ombro e freiando a garota.

“Megan...”

“Rachel...?”

“Eu gostei de ter te conhecido”, ela sorri tímida e Megan acompanha seu sorriso.

“Eu também”

Elas caminham até a sala de Cenografia juntas.

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“Constantin Stanislavski foi um ator, diretor, pedagogo e escritor russo de grande destaque entre os séculos XIX e XX. Seu legado é inegável, crianças, e é basicamente sobre ele e suas técnicas e seu sistema que vamos aprender na classe de Interpretação Definitiva”

Rachel olha para Megan, que está sentada ao seu lado, e devolve o mesmo olhar.

“Eu tenho o livro dele em casa”, a morena comenta sussurrando enquanto a professora continua sua explicação.

“Eu também”, Megan sorri.

“Eu quero o conceito de fé cênica”, a professora aumenta seu tom de voz e os vinte alunos presentes caem em um silêncio sepulcral.

Rachel levanta o braço timidamente, “Fé cênica é uma expressão criada por Stanislavski para designar a capacidade do ator de acreditar na ficção a ponto de convencer o espectador de que aquela ficção constitui uma realidade para o personagem”

“Perfeito”, a professora comenta orgulhosa e todos olham para Rachel, que desvia o olhar.

Megan sussurra brincalhona, “isso foi profundo”

“Boba”, Rachel empurra os ombros dela.

“Depois que você reuniu as linhas ao longo das quais se movem suas forças interiores, para onde é que elas vão? Como é que um pianista exprime as emoções? Vai para o piano. Para onde vai o pintor? Para a tela, pincéis e tinta. Assim o ator volta-se para seu instrumento criador espiritual e físico. Sua mente, sua vontade e seus sentimentos combinan-se para mobilizar todos os seus elementos interiores”

A professora caminha entre a sala enquanto gesticula e explica apenas o embasamento que os alunos devem ter para começar a entender a primeira parte de sua matéria.

Rachel está muito animada com essa classe, já que é algo que ela sempre desejou estudar e aprofundar ainda mais seu conhecimento. Megan parece acompanhar a mesma linha de pensamento; sempre anotando conceitos e mantendo a concentração nas palavras da professora.

“Na próxima aula eu quero um ensaio de vinte páginas sobre o capítulo dois do livro A Preparação do Ator, Quando atuar é uma arte. Pode ser em dupla, ou individual, para entregar semana que vem”, a professora aponta para a porta da sala, “podem sair, crianças, estão liberados”

A turma saí em peso, enquanto alguns alunos ficam para tirar dúvidas com a professora e outros esperam seus colegas, como Rachel.

“Onde fica seu dormitório?”, ela pergunta enquanto Megan termina de fechar a bolsa.

“Na parte C, virada para o leste da cidade, e o seu?”

“Do lado exatamente oposto”, ela ri, “Acho que nos separamos aqui então?”

“Sim... até amanhã, Rachel”

“Tenha uma boa noite, Meg”, Rachel sorri e Megan avança sobre ela em um inesperado abraço, rápido e estranho. Elas se fitam, envergonhadas, “Pode me chamar de Rach”

“Ok... até mais, Rach”, a outra garota acena e sente o rosto vermelho e quente.

Rachel vai caminhando até seu dormitório, pensando em como o dia foi diferente. Ela realmente adorou conhecer Megan, devido à suas semelhanças, até mesmo de curso. Algo dentro de si dizia que Megan entraria para seu círculo de amigos, e isso deixava a morena mais feliz.

Megan até fez nublar seu pensamento em Quinn.

Não que isso fosse uma coisa boa.

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Rachel está vestindo apenas um suéter e uma calça confortável, deitada em sua cama, enquanto espera seu computador ligar. Naomi ainda não chegou, e Rachel não fala com Quinn desde a mensagem enviada pela manhã.

Ela clica no ícone de Quinn no skype.

“Oi, Rach!”, Quinn responde animada.

“Como você está, Q?”, ela ajeita a tela de seu notebook.

“Eu estou bem”

Quinn morre de vontade de acrescentar “meu amor” a cada final de frase dita à morena. Mas ela não o faz.

“E você?”

“Eu estou ótima”, Rachel arruma a franja, tirando-a dos olhos.

A loira sorri tímida, estreitando seus olhos para a tela.

“Você está diferente”, ela comenta. A saudade faz seu peito apertar.

Rachel encara Quinn pela tela, com uma expressão confusa, “Diferente como?”

“Como foram suas aulas?”, a loira pergunta, sabendo que Rachel contando como foi seu dia ela logo irá descobrir o que aconteceu e porque Rachel tem um semblante diferente.

“Magníficas!”, a morena responde super animada e Quinn não se priva em sorrir, “Eu adorei a nova grade, e meus professores são muito bem gabaritados. Apesar de um ser estranho e meio diferente... mas o resto realmente tem um nível acadêmico muito bom”

“Como assim ele era estranho e diferente?”, Quinn pergunta interessada.

“Não sei explicar, mas algo nele... parece me irritar, de tão diferente”, ela ri com a lembrança, “Megan até comentou comigo que quase chegou a dormir com a explicação sobre os gêneros do teatro”

Quinn levanta a sobrancelha esquerda.

“Megan?”

Quinn não é ciumenta. Ela nunca foi. Todos os garotos que ela namorou, simplesmente eles agiam como garotos, olhando para outras meninas que achavam bonitas ou até fazendo comentários grosseiros na frente dela, mas ela nunca sentiu um pingo de ciúme. Mas ela sempre sentiu ciúmes de Rachel.

Rachel com Finn, Rachel com seus primos, Rachel com algum amigo que parecia estar interessado nela. Rachel com Puck, Jewfro tentando sem conseguir dar em cima de Rachel. Rachel com Luke. Ela fuzilava cada um com seus olhos vingativos e tentava se livrar daquele ódio crescendo em seu estômago e tomando conta de seu ser, fazendo a loira ter idéias mirabolantes.

Ela jamais desejaria a infelicidade de Rachel por causa de seus ciúmes, jamais. Quinn sabia que ciúme é apenas vaidade, e que ela teria que aprender a ignorar esses sentimentos e empurrá-los de volta ao abismo se quisesse mantes uma relação saudável com a garota por quem era apaixonada.

Mas era tão difícil amansar um animal selvagem como o ciúme quando Rachel sorria e lembrava de uma situação engraçada que passou com uma desconhecida chamada Megan, cujo nome saiu muito amável da boca da morena.

Diferentemente de Naomi, que Quinn sabia o quão profunda era sua amizade com Rachel, ela não conhecia Megan. Megan não a conhecia, porém, Rachel estava ali, agindo um pouco diferente porque conheceu alguém novo.

“Uma garota que eu conheci no primeiro período que tive hoje. Ela disse que me viu com Naomi em uma loja de discos há tempos atrás, e eu cantei Don’t Rain On My Parade junto com um cd que estava tocando... Naomi chegou a fazer um rap e o dono da loja adorou... enfim, Megan disse que nunca esqueceu esse dia porque ela adorou minha voz e o modo como eu cantava, porque parecia que eu estava atuando em um palco quando estava apenas cantando para uma amiga. Almoçamos juntas, conversamos bastante sobre onde nascemos e vivemos antes de vir para New York e até discutimos depois, porque ela prefere Julie Andrews à Barbra Streisand”

“Mesmo?”, Quinn pergunta, ainda absorvendo cada informação.

“Sim... temos vários trabalhos em dupla para entregar na próxima semana... e como foi seu dia, Q?”

Rachel pergunta tão amável e sincera, sem consciência do que se passa na cabeça e no coração de Quinn, e a loira se enche de culpa. Porque ela sabe que Rachel jamais faria sentir esse mal de propósito. Não a sua Rachel. Ela conhecia bem a garota para colocar a mão no fogo por ela, mas é tão horrível sentir isso. A culpa, o ciúme, o nervosismo.

“Meu dia foi normal, Rach... como eu lembrava do semestre passado. O professor nos indicou vários livros para análises, alguns para semana que vem, outros para o fim do semestre. Shakespeare outra vez...”, ela ri e Rachel acompanha seu sorriso.

“Eu senti muito sua falta durante o dia, Q”, Rachel comenta com a voz chorosa e o peito de Quinn se aperta ainda mais.

Culpa. Culpa. Culpa. Culpa. Culpa.

Como Quinn poderia sentir ciúmes de Rachel quando a morena admitia que sentia sua falta?

“Eu senti muito mais... como eu sempre sinto”

“Desculpe por dormir ontem enquanto você lia... juro que não foi minha intenção. Eu apreciei muito esse momento e espero que ele se repita mais vezes”

“Tudo bem, Rach... eu amei ler pra você, e não me importo se você dormir, porque você meio que dormiu com um sorriso no rosto... estava sonhando algo bom?”, Quinn pergunta sedutora.

Rachel ruboriza, “E- eu não lembro muito bem”, ela desconversa.

“Eu queria te beijar”, a loira diz olhando profundamente os olhos castanhos que ela tanto ama.

A morena sorri envergonhada.

“Tem vezes que eu me vejo sentada na escadaria do Campus, antes de começar a aula, enquanto eu leio alguma coisa... mas quando me dou conta eu percebo que parei na mesma página por uma meia hora, porque eu fiquei parada no tempo, pensando em você... Nos seus olhos, no seu abraço, no seu beijo”

“Q...”, a morena toca a tela do notebook, como se pudesse ultrapassá-la, e Quinn fecha os olhos, sentindo seu coração apertar.

“Eu sei que é só o primeiro dia, mas vamos conseguir, certo?”, a garota maior pergunta com a voz quebrada e Rachel engole o nó na sua garganta antes de responder.

“Vamos, Q... Eu jamais deixaria você ir”

“Eu também!”, ela se apressa em dizer, “o que eu quero explicar é que é tão, tão difícil, Rach, passar vinte e quatro horas sem você. Então eu imagino que será sempre assim e terei que me acostumar. Eu já estava acostumada antes, você sabe, mas agora... é diferente”

“Eu sei...”

“Oi garotas!”, Naomi grita da porta para que Quinn possa ouvi-la, depois gesticula um “Desculpa atrapalhar, Rach”, enquanto guarda seu material na mesa do dormitório.

“Hey, Naomi”, Quinn responde, “Rach, acho melhor desligar, vou deixar vocês dormirem à vontade”

Rachel concorda, “Tudo bem, Q... durma bem”

“Você também”

Meu amor. Rachel Berry, a garota que me faz ficar louca imaginando qualquer tipo de situação bizarra, que faz estragos na minha cabeça, no meu estômago, no meu coração — mas Quinn não fala nada disso, apenas sorri para Rachel desejando ultrapassar as barreiras da física e manter seus braços bem apertados em volta da morena.

“Tchau, Naomi”, Quinn grita e Naomi responde o mesmo cumprimento antes de Rachel desconectar o Skype e desligar o notebook.

“Desculpe atrapalhar o momento outra vez”, Naomi pede.

“Tudo bem, eu já estava com sono mesmo. Meu dia foi cheio”

“Eu vou trocar de roupa e deitar... você quer que eu pegue alguma coisa, um copo d’água?”

“Não, obrigada”, ela guarda o notebook na mochila e dá um beijo no rosto da amiga, “Boa noite Naomi”

“Boa noite, Rach”

Ela se deita e Naomi fecha a porta, levando seus pijamas e escovas de dentes para o banheiro comunitário. Rachel fica com o telefone ao seu lado, enquanto a cento e trinta quilômetros de distância dela, Quinn faz o mesmo.

Quinn sabe que o mal estar que está sentindo é vil e desprezível em relação à seus verdadeiros sentimentos por Rachel. E que a pequena, vivendo em New York, está sujeita a conhecer todos os tipos de pessoas, inclusive pessoas que se interessarão por ela. A loira lembra do terror que foi escutar da boca de Rachel que ela havia conhecido Luke, e que ela estava animada por conhecê-lo melhor.

Mas a situação agora é completamente diferente, Quinn tenta colocar isso na cabeça.

Megan é uma total desconhecida, interessada apenas na amizade de Rachel. A coitadada garota nem deve saber sobre sua complicada história de Rachel com o bullying, muito menos da existência de Quinn, já que elas se conheceram hoje e são apenas colegas.

Porém Rachel parecia tão diferente...

Não, Quinn não vai pensar assim. Ela não pode fazer isso à sua saúde mental, e como Rachel pediu em sua carta, “cuide de si mesma para cuidar da nossa relação”.

Como a morena conhecia tão bem os sentimentos bons e ruins que passavam pelo coração de Quinn?

Ela apertou os olhos, esfregando a têmpora e afastando algumas lágrimas.

Seu celular vibra e ela desbloqueia a tela para ver que Rachel mandou uma sms.

“Eu te amo”

Notas finais
dois dias sem falar com você são muitos dias sem falar com você