Unconditionally
23 Human
But I'm only human. And I bleed when I fall down. I'm only human. And I crash and I break down. Your words in my head, knives in my heart.
Respirei fundo e joguei a bolinha verde para o alto novamente, acertando ela segundos mais tarde e a mandando para o outro lado, onde, irritado com a minha falta de atenção, Will me devolveu. Tive que correr para a lateral para pegar ela antes que caísse, em consequência, torci meu pé.
– Espera ai, Will, parece que você quer me matar — suspirei me sentando e levando as mãos até meu pé, massageando ele com delicadeza. Não havia quebrado, mas doía.
Respirei fundo e só quis que o treino acabasse logo, que eu pudesse voltar a minha casa e dormir tranquilamente. Não queria mais meus pensamentos voltados para a loucura da Thalia, ou para os demônios do Percy, e muito menos para a gentileza e pelo companheirismo de Justin. Queria eu e eu.
– Está tudo bem? — Will perguntou, foi ai que percebi sua proximidade de mim.
– Sim — disse mordendo meu lábio. Estava muito frio e eu estava agradecida por Hércules ter deixado a gente treinar na quadra aquecida, já que jogar tênis com manga comprida e calça é bem complicado — Só pisei em falso.
– Novamente — ele revirou os olhos e me ajudou a levantar. Will estava treinando comigo por um motivo simples: o campeonato de inverno masculino e feminino aconteceria ao mesmo tempo — O que aconteceu? Está bem voada hoje.
– O Halloween não foi um dos melhores da minha vida — respondi limpando a minha saia — Uma última chance?
– Promete não pisar em falso?
– De dedinho — levantei meu dedo mindinho fazendo a promessa. Ele riu e atravessou a quadra, jogando a bolinha verde para o alto enquanto se esperava eu me preparar.
Era exatamente isso que Hércules queria, que eu treinasse com alguém mais forte do que eu para estar preparada. Que Will treinasse com alguém mais rápido e ágil do que ele para ficar preparado, o campeonato era importante para o treinador e ele queria ganhar. Existia uma rixa entre ele e o treinador de Los Angeles, que o venceu nos jogos do ano passado.
Fiquei mais atenta, queria ganhar, já que no último ano fui eliminada depois de três fases, nem cheguei as quartas de finais, eles não apostavam nada em mim, para ser sincera, nem eu apostava em mim. Fiquei meses sem treinar e agora estou tentando me superar e superar o fim do relacionamento que eu finalizei com Percy.
O que me doía era saber que ele não se importou.
Toda a extensão da quadra foi preenchida pelo som da bola sendo jogada de um lado para o outro, pelos nossos passos para não deixá-la cair e hora ou outra pelo meu grito de vitória. Will me fez derrubar algumas bolas, mas eu tinha a maior vantagem.
Ficamos assim por meia hora, até que finalmente o meu tempo de treinamento acabou e eu pude ser livre obras voltar para casa. Queria, mas também não queria.
– Então, qual é o motivo de você não ter gostado do Halloween? — Will me perguntou, enquanto arrumava minhas coisas.
– Terminei com o meu namorado — fiz pouco caso, passando o sobretudo pesado pelo meu braço esquerdo e em seguida pelo direito.
– Devo sentir muito?
– Não — sorri amarelo para ele — A decisão foi minha... Era o tipo de relacionamento que iria acabar em cinzas ou em sangue.
Ele franziu o cenho, sem entender. Era óbvio que ele não entenderia, no máximo iria pensar que eu me relacionei com um bandido ou com um drogado, deixando a minha imagem completamente manchada.
– Ele não era nenhum problemático ou drogado tá? Eu que iria acabar como cinza ou sangue, ele iria me magoar se isso fosse mais longe — tratei de me explicar rapidamente. Ele riu e concordou, ao longe, vi o carro da minha mãe parado — Minha mãe chegou... Até segunda.
– Até segunda, Annie — ele precionou os lábios contra a minha testa e depois saiu andando. Soltei o ar que havia prendido com seu gesto inesperado e comecei a caminhar em direção ao SUV preto parado ao outro lado do estacionamento.
Me surpreendi ao ver Posêidon no volante, e não a minha mãe. Ele estava tão surpreso quanto eu, me encarando incrédulo e com uma sobrancelha arqueada, como se tivesse visto uma criança roubar o doce da mesa antes do parabéns.
– O que foi? Cadê a minha mãe?
– Ela teve um compromisso de última hora e eu já queria conversar com você mesmo... O que foi aquilo ali? Quem era o garoto?
– Will... Ele é meu amigo, tem treinado comigo para o campeonato — cruzei meus braços, enquanto o homem colocava o carro em movimento — O que quer falar comigo?
Ele não respondeu de imediato, estava mais atento ao trânsito da ilha de Manhattan e acho que ele parecia tentar escolher as palavras para falar comigo, por mim, tínhamos todo o tempo do Mundo.
Encostei minha cabeça no couro do banco e deixei minha mente voar para qualquer lugar. Ela vou para a campina que existia na saída da cidade, Percy havia me levado lá a quase dois meses.
Hoje as florestas deviam estar muxas e secas, cobertas pela neve e mortas. Todo aquele paraíso devia ter perdido seu enquanto, se isso fosse possível. Talvez eu iria até lá, mas não sozinha, não tinha coragem.
– Ainda tem algo com o Percy?
– Não. Terminei com ele ontem — respondi ainda com os olhos fechados, Posêidon havia me tirado do meu País das Maravilhas — Por que a pergunta?
– Ontem ele chegou cedo e desacompanhado em casa, achei que vocês chegariam pela madrugada e quase transando pelo corredor. Mas não, ele chegou sozinho e se trancou no quarto... Só fui vê-lo novamente hoje pela manhã.
Não respondi, soltei um suspiro cansado e voltei ao meu refúgio. Seria assim a partir de agora, perguntas sobre ele e eu, sempre se direcionado a mim, pois deveria estar sofrendo com isso.
– Era apenas isso? — indaguei, minutos mais tarde.
– Não... — acho que ele viu que era a hora de contar a verdade — Deixaria sua mãe se casar comigo?
– Isso não cabe a mim decidir, Posêidon. Sou filha dela, não pai — revirei os olhos, era coisa mais idiota que já havia ouvido hoje — Mas se quer saber se não iria atrapalhar os dois, a resposta é não. Acho que a minha mãe merece um pouco de felicidade.
Ele soltou um suspiro aliviado, talvez tivesse medo de que eu fosse fazer alguma coisa, mas então me lembrei do que aconteceu com suas duas ultimas esposas, ambas acabaram da mesma maneira: mortas. Minha mãe não merecia morrer por causa de um homem.
Mordi meu lábio e parei para refletir sobre isso. Anfitrite pode estar morta, Sally morreu e a minha mãe seria a próxima da lista. Tritão convivia com fantasmas e Percy com demônios, Thalia era atordoada e psicótica... As únicas pessoas comuns naquela família eram a família do Nico, eles eram normais.
– E se... E se nos tivéssemos um filho junto? — ele me encarou e eu retribui, de uma forma incrédula e pronta para explodir.
– VOCÊS NÃO SABEM QUE A CAMISINHA EXISTE EXATAMENTE PARA ISSO? VIVEM FALANDO PARA NÓS ADOLESCENTES USARMOS, MAS VOCÊS NÃO PRECISAM NÃO É? Ah, vá se fuder — explodi vendo o condomínio tão conhecido.
Ele se assustou com o meu ataque explosivo. Por isso veio falar comigo, caso fosse a minha mãe, seria pior, pois sua ficar grávida quando se está beirando os quarenta, a gravidez é complicada.
Ele parou em frente a casa dele e tratei de pegar minhas coisas o mais rápida possível, não querendo ouvir mais o que ele tinha a falar. Não iria impedir o casamento ou o nascimento desse bebê — se ele não fosse uma tese -, mas se caso a minha mãe morresse, ele iria junto.
Minha bolsa com as raquetes caiu e quando me agachei para pegá-las, bati minha cabeça com a da pessoa que iria me ajudar. Seu cheiro de maresia me atingiu em cheio e eu controlei minha respiração.
– Obrigada — engoli em seco, pegando a bolsa da sua mão — Gentil da sua parte.
– Não foi nada... Desculpe pela cabeçada — ele deu um sorriso torto e mínimo.
– Acho que eu que deveria me desculpar — dei uma sorriso sincero, levando a mão livre até o local da cabeçada — Mas não foi nada demais, se me dá licença, preciso entrar.
Encarei ele por alguns longos segundos, esperando sua resposta, quando percebi que ela não viria, dei um sorriso tímido e pequeno, depois sai andando as pressas até a minha casa. O carro da minha mãe não estava ali.
Não consegui chegar na porta, a mão do Percy segurou meu braço e me virou para encará-lo. Fiquei surpresa com o gesto, ele havia mê abraçado e estava me apertando cada vez mais.
– Hm... Percy, está tudo bem? — mordi meu lábio, um pouco sufocada — Er... Eu preciso de ar.
– Desculpe — ele falou me soltando. Pude ver Posêidon olhar nos dois com uma certa esperança antes de entrar na sua casa com o celular no ouvido — Será que podemos conversar?
Ele estava desajeitado e receoso, até um pouco medroso. Foi fofo ver ele enfiar as mãos nos bolsos e começar a balançar o corpo para frente e para trás, esperando uma resposta minha. Era impossível dizer não a esse garoto.
– Eu preciso de um banho e comer algo... Pode ser daqui uma meia hora? — mordi meu lábio. Ele concordou e repetiu o gesto de Will, mas levando mais tempo para separar seus lábios da minha testa — Até já.
Esperei ele se virar e entrei na minha casa, recebendo a escuridão e a solidão da mesma. Leslie estava em algum lugar do mundo, quase nunca a via em casa, e a minha mãe parecia que não iria chegar tão cedo. Eu estava refém da solidão.
Não demorei no meu banho, tendo a consciência do meu cansaço e da minha fome, logo estava na cozinha com um pijama de flanela quentinho e confortável preparando panquecas para mim. Foi quando vi que a secretária eletrônica piscava, anunciando a mensagem.
– Hm... Oi, Annabeth ou Tia Atena, quero que vocês saibam que eu estou muito bem e que não precisam mais ficarem preocupadas com a minha pessoa, estou em Long Island com uns amigos meus e irei passar o fim de semana aqui, não precisam colocar o FBI, a CIA ou a Interpol atrás de mim, okay? Não vamos criar uma confusão gigantesca só por causa de um fim de semana de festa. Bem, é isso e eu só liguei por ligar mesmo, para que não ficassem preocupadas comigo e contassem para os meus pais... Acho que o velho teria um infarte. Beijos e sintam saudades, é uma ordem!– Leslie, sem duvida, precisava aprender a ser mais humilde e parar de achar que o mundo gira ao seu redor. Eu ainda a odiava demais, não se esquece dezessete anos de crueldade em apenas alguns meses.
Virei a panqueca enquanto a secretária anunciava o horário e a data da próxima mensagem. Comecei a cantarolar baixinho enquanto comia a massa crua da panqueca, tinha esse vicio.
– Eu sei que esse não é o jeito correto de se começar uma mensagem, mas eu sinto sua falta, princesa... Queria ser mais presente na sua vida e não deixar vocês nas mãos da sua mãe, tenho medo do que possa vir a acontecer com a convivência maior de vocês duas, por que antes não era assim. Talvez nem terminei de ouvir essa mensagem, mas me perdoe pelas vezes que não pude te atender e só queria te dizer mais uma coisa: Estou indo passar o dia de amanhã em Nova Iorque e queria que você passasse o dia junto a mim. Por favor, estarei ai pela manhã e quero que fiquei comigo. Não aceito não como resposta, você é a minha filha, é o meu direito passar o dia junto a você, caso contrário, sua mãe vai se ferrar no tribunal. Quero você pronta as dez, adeus.
– MERDA! — gritei jogando a colher na pia e me controlando para não cair em lágrimas. Isso não era justo, ele não podia fazer isso, ele não tinha o direito de chegar até mim e me intimar para um dia de pai e filha depois de tantos anos nem se lembrando do meu aniversário. Não mesmo.
Quando não aguentei mais, deixei as lágrimas caírem e a dor tão conhecida invadir meu corpo. Eu era apenas um criança, queria amor, atenção e acima de tudo, queria seu carinho. Queria seu afeto de pai e a sua proteção, queria que ele olhasse embaixo da minha cama toda noite para ver se não havia monstros, que ele me desse um beijo e falasse um simples boa noite. Isso nunca aconteceu.
Meu corpo entrou em convulsão por causa dos soluços, dos gritos e das lágrimas que escapavam de mim. Por que eles não levavam junto a dor? Por que em vez de me aliviar em lágrimas, eu apenas tinha a impressão de que estava sendo consumida por ela?
Desabei no chão, abraçando meus joelhos para diminuir — ou pelo menos tentar diminuir — os tremores do meu corpo, mas era em vão, só piorava, só doía mais, eu só me afundava mais.
Gritei. Solucei. Mordi. Me fiz de criança.
Ele não tinha esse direito. Ele não podia fazer isso comigo, simplesmente não podia fazer isso comigo, eu tinha coração, eu sentia dor, eu me magoava. Não era feita de pedra como ele.
Não era de pedra... Era de carne e osso, era humana. Errava, amava, caia e levantava como qualquer outro humano, mas para ele eu tinha que ser mais que um ser humano, tinha que ser além deles, tinha que ser perfeita.
– Annabeth? — era Percy me chamando de algum lugar, mas se tremores e soluços estavam tomando conta de mim. A dor estava me afogando cada vez mais.
As lembranças do meu passado me atormetavam até de olhos abertos, eu sabia que esse dia chegaria, mas não queria que chegasse agora. Sei lá, daqui uns cinco anos, quem sabe.
– Annabeth! — os braços de Percy me puxaram para cima e ele me abraçou, eu precisava dele.
Abracei sua cintura e chorei mais ainda, sentindo minha dor aumentar enquanto ele acariciava meu cabelo e tentava me acalmar. Ele não conseguiria, ninguém nunca conseguiu me acalmar dessa dor, eu sempre chorava, gritava e soluçava até dormir.
– Annie, o que aconteceu? — ele perguntou. Não respondi, não conseguiria falar sobre isso com ele, ela doloroso, difícil e só iria piorar a minha atual situação.
Depois de um tempo agarrada a sua cintura e deixando sua camisa toda molhada com as minhas lagrimas, ele me pegou no colo e começou a caminhar para algum lugar. Eu estava em prantos, chorando e totalmente desnorteada do mundo ao meu redor.
Senti meu corpo sendo colocado sobre algo macio e confortável. A minha cama.
Antes que Percy conseguisse se levantar eu o puxei e abracei seu pescoço, inalando seu cheiro natural de maresia se misturando com o cheiro do perfume forte e amadeirado. Uma batida do meu coração falhou, e depois ele começou a se acalmar.
– Não... Não... — não consegui finalizar a frase, o apertei mais contra mim, sentindo sua relutância para não deixar todo o seu peso cair sobre mim. Me inclinei um pouco e ele me abraçou mais confortavelmente, me sentando e me puxando para o seu colo.
– Calma, seja lá o que aconteceu, vai passar — ele sussurrou no meu ouvido, me apertando um pouco mais contra ele.
O encarei e respirei fundo, sentindo seus dedos limparem as minhas lágrimas e seus lábios serem precionados contra a minha testa. Encarei o teto por alguns segundos e me virei totalmente para ele, passando minhas pernas no seu quadril e tomando seus lábios para os meus. Era dele que eu precisava, que eu queria.
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