Unconditionally
31 Everything.
You calm the storms. And you give me rest. You hold me in your hands. You won't let me fall. You steal my heart. And take my breath away. You are the light.
Abracei meus joelhos, repassando pela milésima vez a sua voz delicada na minha cabeça. Ele estava tão atencioso, tão carinhoso e tinha planejado tudo tão perfeitamente para o final de semana... E tudo fora estragado ontem no final da tarde.
– Droga, esqueci meu celular na cabana — ele havia resmungado quando paramos na porta do condomínio. A chuva caia fortemente, talvez para compensar o dia quente e ensolarado de ontem.
– Amanhã você pega, Percy, está chovendo demais e a via deve estar um caos!
– Não posso, Annie, os acionistas estão me testando... Eles podem me ligar a qualquer momento e pedir para que eu faça um relatório de alguma coisa, não posso deixar para pegar amanhã — ele passou os dedos pelos fios. Acelerando o carro até estarmos parados na frente da nossa casa — Não vou demorar, prometo estar aqui em duas horas.
Bem, já faz vinte e quatro horas e eles ainda não chegou. Ele foi para a cabana buscar aquele maldito celular e ele não voltou, não atende o celular e o rastreador do GPS do carro não está funcionando.
Eu estava enlouquecendo por causa disso, eu havia acabado de resolver tudo com ele, de descobrir que eu o amava e pelo o que parecia, havia perdido ele também, mal havia ganhado ele para mim, aceitado enfrentar todas as barreiras sem medo por ele e o perdi.
Ele tinha razão, o destino é traiçoeiro demais. Ele brinca com todos, tirando tudo quando pensávamos que havíamos ganhado algo bom e que realmente vala a pena.
Ele me tirou o Percy?
– Annie? — me apertei mais, tentando entrar em um mundo onde ele estava bem, onde ele já estava a caminho de casa e que quando chegasse iria dizer que ficou preso no trânsito por causa do acidente. — Annabeth olha aqui... Encontraram o carro dele...
– Ele está bem, não está? — solucei, olhando para seus olhos cinzentos. As lágrimas voltaram a cair quando ela negou com a cabeça, descontroladas e sem rumo. — O que aconteceu com ele?
Quando o silêncio existe, é porque a verdade está presa na garganta, lutando contra deus e mundo para não sair. É ai que começam as mentiras, a gente mente em alguns aspectos porque quer o bem das pessoas, mas talvez o melhor para ela seja ouvir a verdade.
– Mãe, não minta para mim! Como é que ele está? — aumentei o tom de voz, apesar de ainda soluçar por conta do choro.
– O carro caiu no lago e depois de passarem o dia procurando o corpo dele, o encontraram na outra extremidade... Morto.
Meu chão desapareceu, minhas pernas viraram gelatina a e o meu coração falhou várias batidas. O ar me faltou e eu desabei em chorar mais ainda, culpando o maldito destino por ele estar assim, culpando a mim mesma por ele estar assim.
Tentei respirar, mas não conseguia, o ar havia sumido dos meus pulmões. Isso já havia acontecido milhões de vezes por causa dele, mas nunca nessas circunstâncias.
– Oh, Annie... — minha mãe me abraçou apertado.
Acho que ficamos assim por muito tempo, eu chorando no seu peito até dormir e quando acordei estava crente de que tudo isso tinha sido apenas um pesadelo, mas as malas dele ainda estavam no mesmo lugar, eu ainda usava as roupas de ontem de manhã e meus olhos estavam inchados demais.
O mundo estava sem cor, não sabia como conseguia me manter de pé, não sabia como conseguia fazer tudo que havia feito... Eu havia perdido ele, eu havia perdido tudo.
Não aguentaria fechar meus olhos e ver seus olhos verdes me fitarem, seu lábios se puxarem em um sorriso aberto e radiante, no seu cenho franzindo quando ele estava concentrado em algo importante. Como eu iria sobreviver?
– Olá — minha mãe disse. Avaliei ela, vendo que estava usando um vestido preto e saltos da mesma cor.
– Que horas é o velório?
– Já acabou — ela disse e antes que pudesse gritar com ela, continuou — Posêidon achou melhor não levá-la, não queremos que a sua última lembrança dele seja daquela maneira, Annie.
Nem eu queria que a minha última lembrança dele fosse daquela maneira, queria que a minha última lembrança dele fosse dele velhinho e morrendo na sua cama quentinha enquanto dormia.
– Ele estava muito... feio? — murmurei encarando o Declan adormecido. Era melhor assim, não aguentaria ver seus olhos verdes que nem os dele. Minha mãe não respondeu, dessa vez aceitei o silêncio.
Concordei com a cabeça, me sentando e passando os dedos pelos meus fios, engolindo o choro e respirando fundo. Eu não estava bem, mas tinha que aprender a engolir o choro, que seria frequente.
Peguei as chaves do meu carro e caminhei em direção a garagem, vendo que lá estava ele. Dei partida e sai sem rumo do condomínio, vendo a chuva pesada da primavera cair enquanto contava as minhas respirações.
Quando dei por mim já estava dentro de Moutauk, passando pela avenida da praia e indo em direção a um lugar que eu presenciei tantas coisas.
– Já te disse tantas vezes, Annie, eu nunca iriei de deixar... Você sabe, só coloque sua mão sobre seu coração e preste atenção nas batidas dele.
– Quero saber se você sempre vai estar ao meu lado, Percy. Quando digo em nunca me deixar, quero dizer que sempre vai estar ao meu lado me segurando dos tombos e me protegendo dos Luke's e Thalia's que irão aparecer.
– Eu sempre vou estar, Annie — ele disse, depois de um tempo, me apertando mais ao seu peito.
Ele havia quebrado a promessa dele, havia me abandonado. Havia me tirado toda a cor do mundo, me deixado na escuridão e sem qualquer apoio, sem chão.
A brisa do mar me lembrava ele, o barulho das ondas quebrando em meio a chuva me lembrava a primeira vez que eu vim aqui, aonde eu descobri os seus demônios e aonde eu percebi que todo seu passado vazia sentido, que ele não era daquela maneira por que queria chamar a atenção do pai.
Gritei, arrancando o colar que ele havia me dado e o jogando da areia. Deixei meus joelhos cederem e me joguei na areia molhada, misturando minhas lágrimas com a chuva gelada que me deixava encharcada.
Ele não estava mais aqui, os demônios dele não existiam mais.. Ele não existia mais.
– Lembra daquela noite sob as estrelas? Por um minuto pensei que o mundo inteiro era nosso — a voz de uma mulher ecoou ao meu lado. Levantei meu olhar e a encarei, com um guarda-chuva preto e com o meu colar na mão — O que ele te fez, hein? Terminou com você? Te trocou por outra? Você pegou ele na cama com outra garota?
– Ele morreu — respondi pegando o colar da sua mão e acariciando ele na foto pequena — Ele morreu.
– Hei, não chora — ela acariciou o meu rosto. Encarei seus olhos claros e vi a sombra de um sorriso terno nos seus lábios — Me chamo, Medusa e você é...?
– Annabeth. Annabeth Chase — murmurei colocando o colar no meu pescoço novamente.
– O que acha de ir até a minha cabana? Eu posso te fazer um chocolate quente e você pode se secar enquanto isso, pode ficar doente aqui — ela disse. Concordei aceitando a sua mão e me levantando.
Tentei retirar a areia da minha calça, mas não deu muito certo pois ambas estavam molhadas. Então a acompanhei na chuva até uma cabana grande a beira da praia, dali dava para ver a cabana dele.
Respirei fundo para não deixar as lágrimas caírem novamente, apesar dessa ser a minha vontade.
– Fique a vontade, vou pegar umas toalhas para que você se seque — Medusa deu um sorriso gentil e sumiu para dentro da casa quente, enquanto eu fiquei parada no lado de dentro da porta, para não molhar o resto da sua casa adorável e bem decorada. Logo ela apareceu com algumas toalhas e me estendeu algumas enquanto com uma outra secava o meu cabelo — Sempre sonhei em ter fios dourados com cachos, como os seus.
– Os seus são lindos, Medusa — tentei sorrir, mas simplesmente não conseguia fazer isso, então me concentrei em tirar o máximo possível de água das minhas roupas.
Ela não disse mais nada enquanto tirava toda a água do meu cabelo, então tirou as toalhas molhadas da minha mão e sumiu para dentro da casa, voltando novamente com uma camiseta preta.
– Não costumo usar camisetas, prefiro vestidos sabe? — ela sorriu me estendendo a camiseta bem dobrada. Neguei com a cabeça e ela retrucou — Não é educado dizer não a alguém mais velho, aceitei a camiseta... Nunca usei ela e acho que nunca irei usar. É um presente meu para você.
– Tudo bem — disse pegando. Ela rapidamente pegou a barra da minha blusa molhada e a puxou para cima, tirando ela rapidamente.
Engoli em seco e vesti a camiseta que ela havia me dado, era duas vezes maior do que eu ou ela, mas era melhor do que ficar com a molhada.
– Gosta de chá? Estou preparando para nós duas...
– O que você quer de mim? — questionei, cruzando os braços. Me secou, me deu uma camiseta e agora o chá... Nenhuma estranha iria fazer isso — Ninguém faz isso com alguém que não conhece.
– Gosto de ajudar as pessoas, não tenho família — ela deu de ombros.
– Isso não é desculpa.
– Tudo bem, vou ir direto ao ponto então, Annabeth — ela se virou para mim e agora parecia furiosa — Seu pai morreu nessa manhã e deixou tudo para você, sendo que eu estava ao lado dele quando você o rejeitou e o expulsou da sua vida.
– Não quero nada dele, pode ficar para você — Legal, duas perdas em quarenta e oito horas.
– Eu não posso, está tudo no seu nome, só você pode liberar depois da maioridade.
– Ótimo, ache outro homem rico para você então — disse pegando a minha blusa molhada da sua mão e abrindo a porta. Sai dali as pressas e corri até o meu carro.
Tudo o que eu tinha eu havia perdido ontem e hoje uma maluca por dinheiro quer fazer sei lá o que comigo por que o meu pai morreu e deixou todo o dinheiro para mim, se ela o amava devia estar em São Francisco e não em Nova Iorque.
Limpei as lágrimas que voltaram a cair e me concentrei no tráfego, não queria ir para um hospital ou para qualquer outro lugar que fosse depois desse mundo, o destino já tirou muita gente da terra nas últimas horas.
Diferente de Moutauk, em New York não chovia mais. O céu estava acinzentado e o movimento ainda era o mesmo de sempre, tudo estava igual como sempre fora, menos para mim, o vazio parecia se tornar cada vez maior e pior.
– Meu pai morreu essa manhã — joguei minhas chaves no balcão de mármore, onde minha mãe almoçava.
– Quem te falou isso.
– Medusa, ela estava louca por que ele havia deixado tudo para mim e não para ela — dei de ombros, olhando com certo nojo para o que ela comia. Nunca teria filhos, não só por que a dieta pós parto era ridícula, mas porque corria o risco de perdê-lo.
Minha mãe soltou um suspiro, não porque eu havia contado isso a ela, mas porque a babá eletrônica estava avisando que o adorável Declan havia acordado.
– Eu pego ele — murmurei sentindo ânsia de ver o que ela comia.
Subi as escadas e fui até o antigo quarto da Leslie, já que a garota havia se reconciliado com os pais e aceitado ir para uma faculdade em Copenhagen, na Dinamarca. O quarto estava bem decorado pela mãos da minha mãe, misturando os diferentes tons claros e o bebê chorava no seu berço espaçoso.
Peguei ele no colo e vi seus olhos verdes com pontinhos cinzas, ele ainda chorava mas ao mesmo tempo me encarava. Acho que ele entendia a minha dor, que ele a sentia da mesma forma que eu.
Em algum momento deixei algumas lágrimas caírem, teimosas e depois desci com ele para o andar de baixo, percebendo que ele me analisava atentamente e já não chorava mais.
Me sentei no sofá e fiquei acariciando sua bochecha gorda por um longo tempo, com ele me encarando e eu a ele. Eu havia perdido um amigo, um namorado e ele havia perdido um irmão... Ele havia perdido alguém que iria dar apoio a ele, que iria ensiná-lo a jogar basquete e a "pegar" garotas.
Declan também havia perdido. Assim como minha mãe. Assim como ou Posêidon, que apenas nesse ano já havia perdido dois filhos.
Eu havia perdido tudo e nada, ao mesmo tempo. Doía mais que mil balas.
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