Uncommon Love
17 Kalleo
Notas iniciais

Nathan não questionou ao entregar um pedaço de papel com o nome, o endereço e os três telefones de contato de Virginia Perks a Damon na manhã seguinte. O movimento do escritório estava voltando ao normal e três pilhas de papeis estavam empilhadas cuidadosamente sobre a mesa dele, não que ele estivesse com cabeça para o trabalho. As 15h30, após um banho quente demorado, digitou o endereço em seu GPS e deixou que ele o guiasse por Manhattan. Não achou que a mulher morasse longe e estava certo, em meia hora chegou ao apartamento em que ela morava.
Ainda com receio de que ela não estivesse, seguiu em direção a portaria e pediu para que fosse anunciado, esperando que se ela estivesse, reconheceria seu sobrenome e ligaria ele a Elena.
O porteiro liberou sua entrada e ele foi até o apartamento informado, tocou rapidamente a campainha e logo foi atendido. A senhora estava com óculos de meia lua, um hobby preto e alguns papeis em suas mãos, provavelmente seria dia de folga da equipe.
– Meu jovem, você é parente da Elena Salvatore, não? – ela perguntou o fitando.
– Sim, sou mais...
– Novamente – ela recomeçou cortando a fala dele — eu sinto muito pelo acidente de Elena, mais eu não posso fazer...
– Não é sobre isso – disse rápido a fim de acabar logo com aquilo antes que se arrependesse — Na verdade, eu gostaria de falar sobre Alexia Branson, dona Virginia.
– Alexia? A moça que está trabalhando comigo? – Perguntou em tom preocupado.
– Sim, não se preocupe, não aconteceu nada com ela. Nós fomos amigos na época da universidade e a muito não nos víamos. Naquele dia no teatro, não podemos nos falar como gostaríamos então eu vim aqui para perguntar a senhora se sabe algum dos contatos dela ou o endereço. Eu gostaria muito de a fazer uma surpresa – falou um tanto rápido de mais, a mulher estranhou.
– Meu jovem, eu não sei...
– Por favor, me ajude – ele pediu mais uma vez. Decidido a voltar para casa e enterrar Lexi novamente se a mulher não o ajudasse.
– Espere um estante – ela disse e ele assentiu. Não teria jeito, teria que ir falar com Lexi. Ela voltou alguns minutos depois com o endereço e um numero de telefone anotado.
Agradeceu e voltou ao carro. Sentiu o coração apertar quando começou a digitar o endereço fornecido no GPS, ela morava no Brooklin e ele não conhecia bem essa parte de Nova Iorque.
Ligou o rádio na esperança de ser distraído por alguma musica pop da atualidade de uma dessas bandas que ele odiava escutar, mais foi pego de surpresa por Tracy Chapman e uma das musicas que ele menos queria escutar aquele momento “Baby, Can I Hold You?”. Ao perceber, aprumou o indicador na direção do botão de desligar, mais foi travado quando Tracy fez soar a letra.
Sorry? Is all that you can say? (Desculpe? É tudo que você pode dizer?)
Years gone by and still (Os anos se passam e mesmo assim)
Words don’t come easily (Palavras não vem tão facilmente)
Like Sorry? (Como desculpe?)
Like Sorry? (Como desculpe?)
Fechou os olhos rapidamente ao lembrar dela cantando aquela musica enquanto ele tocava violão. Provavelmente ela o devia odiar, simples assim. Não pediria desculpas, não agora, seis anos depois do que aconteceu e por não ter ido se despedir dela. Não esperava que ela o desculpasse, nunca. Mais e se for isso o que eu deva fazer? Me desculpar com a garota que eu era apaixonado e teria um filho o qual eu perdi logo depois de descobrir sua existência? Não, não pedirei desculpas. Concentrou-se na estrada e diminuiu o som do radio até que Tracy parasse de cantar. Quando ela o fez, ele o desligou a fim de evitar outra musica que o fizesse retornar ao passado.
Havia sido guiado por 47 minutos até uma rua ampla e bem arborizada, com casas semelhantes e de tamanho médio. A de numero 22, indicada pelo papel que Virginia o dera, era pintada em verde claro com detalhes como o do parapeito da janela pintados em branco. Como as demais casas, possuía uma cerca baixa com um portão destrancado, que apenas servia para delimitar a propriedade dos limites da calçada. Damon empurrou a cerca e seguiu pelo caminho de pedra pelo jardim de grama baixa até a porta, onde tocou a campainha. Esperou por poucos segundos até que ela a abriu com um sorriso no rosto. O mesmo sumiu instantaneamente ao perceber que estava parado a sua frente.
Não conseguiu prever a reação que Lexi teria. Se fosse a sete anos atrás, teria imaginado que ela o xingaria com o pior dos nomes que conseguisse lembrar, mais agora, não havia como prever, não sabia o quanto ela havia mudado.
Ele abriu a boca para falar, mais a lágrima que escorreu pelo olho direito de Lexi não deixou que ele prosseguisse. Ainda estavam parados, encarando um ao outro quando uma voz brincalhona soou do que ele imaginou ser a sala.
– Mãe! Mãe a panqueca vai queimar! Mããããeeee! Eu não quero comer nada queimado! – Damon viu de relance uma mãozinha branca agarrar o vestido florido de Lexi e a puxar com toda a força que conseguia. Ela desviou os olhos da expressão confusa de Damon e seguiu com a criança para o interior da casa deixando a passagem livre para que Damon entrasse.
Ele hesitou em entrar na casa por algum tempo, mais Lexi estava demorando demais a voltar. Pensou seriamente em retornar para o carro, dar meia volta e seguir para Manhattan mais abandonou esse pensamento quando ouviu a voz, agora curiosa, soar novamente.
– Quem é aquele?
– Amigo da mamãe – disse rápida a voz de Lexi, menos audível para Damon. Ele continuava parado na porta – Agora, filho, fique aqui, coma as panquecas, enquanto eu vou lá falar com ele, ok?
– Ah, não mamãe! Eu conheço todos os seus amigos, mais esse ai eu nunca vi...
– Ele é Nova Iorque, você está vindo pela primeira vez aqui, lembra? – sua voz era doce, carinhosa – Não poderia conhecer ele ainda...
– Então você vai me apresentar? – ele apurou a audição o melhor que pode, mais não conseguiu distinguir as palavras seguintes dela. Ouviu um barulho de cadeira e logo depois ela estava novamente a sua frente.
– Damon, eu... Não esperava você aqui. Entra – pediu e ele atendeu.
– Lexi eu vim por que eu queria... Eu... Aquele dia no café... – passou a mão pelos cabelos tentando clarear os pensamentos. Respirou fundo antes de continuar – Quem é essa criança? – Perguntou por fim, sem se conter. Em seu rosto, um misto de tristeza e desespero se faziam presentes e sua voz denunciava a confusão em seu interior. Seus olhos azuis acompanharam a figura dela até o sofá de couro preto a sua frente ao qual ela se sentou, depositando as mãos sobre o rosto tentando escondê-lo dele – Lexi...?
– O nome dele é Kalleo, Dam...
– Kalleo? – perguntou baixo ligando o nome da criança ao de um personagem que ele gostava. Ela imaginou que ele faria isso, levantou-se do sofá decidida a o impedir antes que ele chegasse a resposta.
– O que você quer afinal, Damon? – Disse alto, sem se lembrar que o menino estava no outro cômodo e facilmente escutaria. As lágrimas agora escorriam finas e devagar pelo seu rosto, mesmo ela tentando conter aquilo ao máximo – O que você veio fazer aqui? Como descobriu onde eu morava? Anda responde Damon! O que eu menos quero, é ouvir desculpas agora!
– Hey, HEY! O que tá acontecendo aqui? – Uma voz alarmada soou pela sala antes de Damon despejar o que pensava em Lexi. Havia jurado para si que não pediria desculpas agora. Mais ele conhecia a dona da voz, tinha certeza e suas expectativas se confirmaram quando ele a encarou parada a frente da porta da casa a antiga amiga ainda ruiva e com seus inconfundíveis olhos azuis. Genevieve.
– Ai, não... Damon... – Ela falou em seu tom de voz mais triste balançando a cabeça negativamente.
– Tia Gê, me diz o que ta acontecendo aqui porque a mamãe com certeza não vai falar! – Todos os olhares se dirigiram para a pequena figura em frente a porta que Damon imaginou levar a cozinha. Tinha um copo de plástico com algum super-herói preso entre suas duas mãos pequenas.
Ele observou o pequeno rosto que agora o encarava. Tinha os olhos castanhos como Lexi, porém as bochechas eram rosadas e rechonchudas como as dela nunca foram, mais ele sabia que conhecia alguém com bochechas assim. A altura do garoto e a forma com que ele já falava fez Damon presumir sua idade, Ele deve ter entre quatro e cinco anos. Agora eram os cabelos do menino que prendiam a sua atenção. Tão escuros, brilhantes e rebeldes eram os fios grossos que ele tinha.
– Genevieve, pega o Kalleo – A ruiva a obedeceu pegando a criança em seus braços. Damon não imaginou que ela conseguiria o erguer mesmo Kalleo sendo consideravelmente magricela. Ela saiu fechando a porta atrás de si com o menino no colo e Damon novamente encarou a loira.
– Você teve um filho? – ele disparou em voz alta. O rosto de Lexi não exibia mais lágrimas, mais sim uma descompassada agonia – Teve um filho logo depois que perdeu o nosso?
– Não, Damon! – ela rebateu mais ele não permitiu que ela continuasse.
– Claro que foi! Esse menino não tem menos de quatro anos, Lexi! E eu tenho certeza que eu conheço o pai! Ele parece muito familiar... Qual dos nossos amigos é pai dele? – gritou. Ela abriu a boca e arfou em choque, sem acreditar que ele o havia dito aquilo.
– Esta me acusando de que exatamente? Que eu te traia com algum cara da faculdade?
– Não, eu to dizendo que esse menino é filho de alguém que eu conheço ou conheci...
– Eu pensei que você ME conhecesse! Você é um idiota, Salvatore! – Ela enfatizou o “me” visivelmente indignada. Era sempre assim. As brigas dos dois eram sempre ligadas a desconfianças ou mentiras, não que eles brigassem muito e ela sempre o chamava de Salvatore, fazia questão de lembrar o pai dele, o rei da desconfiança, das acusações, da intolerância e do machismo. Dava certo, fazia Damon sentir-se mal, odiava ser comparado ao pai, nem de longe se parecia com ele.
– Eu? Eu sou um idiota? Esse menino Lexi, o teu filho é grande demais pra... Porra! – gritou socando a parede, contendo o quanto pode as lagrimas que se acumulavam em seus olhos. Nem ele sabia exatamente o que sentia ou o que queria com tudo o que estava falando a Lexi, afinal de contas, porque diabos, depois de quase seis anos sem pelo menos ter notícias da ex-namorada, ele estava gritando com ela, na sala de sua casa e sobre uma criança que não tinha nada haver com ele?
– Pela ultima vez, o nome dele é Kalleo, Damon! – ela respondeu rapidamente, mais em tom mais calmo. Ele agora apoiava a cabeça na parede de costas para ela, os olhos estavam fechados para que não fosse traído pelas lágrimas – Ele não é meu, ele é nosso filho! Tem cinco anos completados no dia 14 de fevereiro, você o achou tão familiar porque ele é quase que uma versão mirim sua e, DROGA! O nome dele, Damon! Ele só se chama Kalleo porque você me disse, em alguma vez a sete ou oito anos atrás que quando tivesse um filho, colocaria o nome dele de Kal-El, como o nome do Superman. Liga os pontos, faz as contas Salvatore!
Não, não pode ser! Era impossível, a do filho havia sido mais uma vida perdida naquele acidente, Danny o havia dado a notícia. Seu cérebro se negava a processar aquela informação, o amigo nunca mentiria, tinha certeza.
– Não, Lexi! – Ele virou em sua direção, sentiu o rosto finalmente molhado e a dor dissipando por seu corpo, conhecia aquela história e odiava ela com todas as forças – Não – Balançava a cabeça negativamente – Danny... Danny me disse que o bebê não havia resistido... Ele nunca mentiria!
– Mais a minha mãe mentiu. Eu também pensei que tivesse perdido quando voltei para Illinois, todos me disseram isso, inclusive o médico desgraçado que a minha mãe pagou!
– Você tem noção do quanto eu fiquei acabado depois do que aconteceu? Da culpa que eu tive que carregar pela morte de dois amigos e do meu filho, Lexi! NOSSO FILHO!
– E quanto a mim, Damon? Você não pensou no que EU senti? Eu vi Kol desistir do que ele mais amava na vida. Eu perdi dois amigos, dois melhores amigos! Foram Vicki e Jeremy que eu tive que enterrar!
– Eu estava no volante! Eu não freei o carro! – gritou. Percebeu que estavam transformando aquilo em mais uma de suas disputas e isso não poderia acontecer.
– Eu ia ser mãe! – Damon foi o mais rápido que pode em seu encontro e a abraçou. Precisavam daquilo e ambos sabiam. Não estavam jogando ou assumindo a culpa e muito menos tentavam descobrir quem havia sofrido mais. Esse não era o propósito. Os gritos, as lágrimas e a confusão fora a maneira que aqueles dois amigos encontraram para finalmente soltar um ao outro o que acumularam durante quase seis anos. Agora, naquele abraço, davam um o apoio que o outro precisava – Eu quis te contar, mais eu vivi presa, iludida pelas mentiras da minha mãe até que eu descobri o que ela estava fazendo comigo e afastando de você o seu filho, eu nunca quis isso, mais já era tarde de mais, já se passavam quatro anos. Então eu voltei, fui chamada para coordenar o elenco de Malévola e trouxe Kalleo pra Nova Iorque, mais não fazia ideia de como encontraria você ou Danny, Nathan, até mesmo a Caroline eu estava procurando... Matt eu sei que vive viajando. Com Genevieve vocês não tinham mais contato... Ela me ajudou, encontrou e mobilhou essa casa... Quando soube do Kalleo teve um susto...
– Calma – ele disse a soltando do abraço, ela despejava as palavras rápido demais e ele não conseguia mais absorver. Ela respirou fundo, reordenando as ideias. Ele se afastou um pouco e fez a mesma coisa.
– Eu tenho que pegar o Kalleo com a Genevieve, ela tem turno extra essa noite na empresa que trabalha – disse devagar. Tentava desesperadamente limpar as lágrimas que restavam, agradeceu por não estar tão maquiada.
– Eu vou com você – disse. Parecia decidido, mais na verdade não tinha certeza sobre aquilo. Tinha um filho, um filho de cinco anos. Quis parecer o mais calmo possível como um bom advogado treinado para casos complicados, ele era assim, mais não conseguiu. Deixou escapar um sorriso bobo de canto de boca. Eu sou PA, meu filho está vivoi!
– Não, Damon – ela falou vendo o sorriso do moreno sumir de um salto – Desculpe, mais eu preciso preparar o Kalleo para isso, encontrar o pai... Acredite – ela falou quando ele fez menção de contestar – Eu queria ter feito antes, no dia em que descobri que você era tio de uma atriz... Eu tentei falar com ele, cheguei no assunto, mais acabei recuando quando lembrei do que aconteceu no café, todo aquele clima, a sua estranheza... Eu não tive coragem, recuei, como eu tentei recuar depois que disse o nome dele pra você mais cedo. Eu odeio essa minha fraqueza! – Ela gritou, mais ele não estranhou. Ela não havia mudado, não tanto. Era a Lexi que lembrava ainda abaixo de uma casca grossa de mulher feita, talvez ele ainda fosse o mesmo também, escondido e aquela parte poderia ser culpada por ele querer Elena. Apenas assentiu. Elena. – Onde você está morando? Deixe o endereço. Levarei Kalleo a você quando ele estiver pronto.
(...)
Elena chegou em casa por volta das 19 horas. Bonnie a levara para passar a tarde na casa dos Mikaelson, Rebekah inventou uma “Tarde das meninas” sobre a alegação de estarem muito desunidas esses dias. Assistiram dois filmes clássicos onde comentavam a atuação enquanto comiam um mouse de chocolate feito a pedido da loira. Elena só foi por que Bonnie havia insistido bastante e porque já não tinha nada para fazer a tarde, já que havia sido cortada da peça. Mais seus pensamentos iam e voltavam em um ritmo frenético de tango trazendo sempre um nome para ela Damon Salvatore. Decidiu descer para tomar água, seu pé já estava bem melhor, mancava, mais conseguia andar sem tanta dificuldade e sem o latejar infernal dos cortes. Não conseguia prestar atenção no filme ou no que as meninas falavam. Quando voltou, encontrou Elijah em um terno escuro digitando algo em seu Iphone. Ela respirou fundo, já não se viam a algum tempo e ela imaginou o que viria a seguir.
– Elena? – Ele soou cordial como sempre, sem olhar o pé com ataduras – Não sabia que estaria aqui...
– Rebekah e Bonnie acharam que andávamos desunidas esses dias... – ele assentiu e ele esperou que ele continuasse.
– Elena, sobre a peça... Eu sinto muito. Liguei para você, mais não me atendeu. Não fui ao apartamento do seu tio, porque – deu uma pequena pausa – achai que pudesse estar me evitando... – disse sem jeito mais sem desviar o olhar.
Estava certo, ela o estava evitando. Não atendeu e nem retornou as mensagens de Elijah de propósito.
– Elijah eu...
– Lena – ele continuou, não queria que ela inventasse uma desculpa qualquer, era experiente o suficiente para saber o que estava se passando ali – Eu sei identificar os sinais que uma mulher dá – ele estendeu a mão direita em direção a dela e ela depositou a sua palma sobre a dele. Ele a apertou levemente e sorriu sem graça – Está tudo bem – Disse e ela sorriu. Não demonstrando felicidade, mais a mesma cumplicidade demonstrada por ele – Seja feliz.
– Você também, Elijah – falou soltando sua mão e o envolvendo em um abraço – Sorte e sucesso com a peça, você possui um enorme talento.
– Você também – falou se separando dela.
Nunca um término havia sido tão rápido e calmo para Elena como com Elijah. Sabia que o que tinham não era sério e que era outra pessoa quem rondava seus sonhos a noite. Seria mais fácil se essa pessoa fosse ele, mais ambos sabiam que não era. Sentada em sua cama e encarando um caderno grosso de capa dura preto nas mãos, ela se viu novamente pensando nele.
A breve relação com Elijah havia sido muito mais do que tivera com Damon desde que chegara, fora a relação tio/sobrinha, mais com Damon, havia sido tão intenso como nenhuma outra em sua vida. O diário em suas mãos atestava isso. Não havia escrito desde que chegara a Nova Iorque, por um medo idiota de que se escrevesse sobre essa nova etapa, ela acabasse virando outro capítulo ruim de sua vida como os outros ali. Decidiu que se livraria daquele diário e começaria um novo, sem o peso da bagagem de anos atrás.
Esticou o corpo e puxou um saco plástico que havia guardado a um tempo na primeira gaveta do criado mudo. Abriu a primeira página do diário onde leu o nome de Carla Maia escrito a cinco anos atrás quando morava no Brasil. A garota era sua vizinha e seu pior pesadelo na escola, a havia apelidado de “pequena órfã” quando descobriu sobre a origem de Elena através dos pais, muito amigos dos avós de Elena. Carla era o motivo pelo qual Elena começara a escrever suas lembranças, precisava desabafar e sabia que nem o avô e nem a avó acreditariam nas acusações feitas ao anjo da casa ao lado. Elena arrancou folha após folha de lembranças, não queria mais ler o que havia escrito, sabia cada história de trás para frente, precisava se livrar daquilo o mais rápido possível.
Restava a ultima folha e nela leu de relance Vou construir minha felicidade apartir de agora. Ele é a única pessoa capaz de me ajudar. Não se lembrava de ter escrito isso e sorriu pensando a quem ela estava se referindo. Seu tio Damon. Havia escrito uns três meses antes de se mudar para NY logo após a noticia ser dada a ela. A morena sorriu boba, a única previsão que já fizera e a mais correta. Ele era a única pessoa capaz de ajudar. Ela sabia que o que estava prestes a fazer poderia ser loucura ou até mesmo acabar com a relação que tinham construído depois de tantos anos separados, mais iria até Damon aquela noite e expressaria o que estava sentindo.
Danny e Bonnie haviam saído para jantar, então depois do banho, Elena limpou sozinha os ferimentos e fez o curativo em seu pé. Não era nada difícil, mais gostava da sensação de ter alguém cuidando dela. Decidiu que não vestiria a sua habitual regata de renda e seu short de algodão, queria estar diferente, então pegou o único vestido que tinha, um tomara que caia preto que ia até os joelhos, com algumas flores brancas na beirada, simples e que ela pouco havia usado desde que comprou. Não sabia se ele já havia chego, mais decidiu ir até o quarto assim mesmo. Bateu na porta três vezes e ouviu um baixo “entre”.
Damon estava parado de costas para ela, procurava alguma coisa em seu armário. Vestia apenas sua calça de moletom cinza, o cabelo estava bagunçado e a toalha ainda estava pendurada em volta do pescoço. O silencio dela provocado pela admiração o fez virar-se para ver quem estava ali. Pensava que Danny havia batido na porta, mais era Elena parada a sua frente. Estava de vestido, ele ainda não a havia visto de vestido, aquele era simples, mais a dava um ar jovial e menos sério, mais brincalhão, não que ela precisasse, só tinha 18... 18 anos comemorados na festa a fantasia surpresa que ele e os amigos haviam preparado para ela. Gostou do que viu.
– Elena – disse passando a toalha pelos cabelos. Sorriu cordialmente ao pronunciar seu nome – Pensei que era o Danny.
– Ele foi jantar com a Bonnie – ela recomeçou. Sentiu o coração acelerar ao pensar no que diria a ele. As coisas pareciam menos certas agora com ele a sua frente – Eu...
– Elena, nós precisamos conversar novamente – falou inserto sobre o que ela fazia em seu quarto, jogando a toalha sobre a cama dando a ela a vista total de seu peitoral definido. Aquele homem é um deus e nem se esforça pra isso. Não haviam mais textos ensaiados ou palavras improvisadas que ela pudesse dizer. Seguiu ao encontro dele o mais rápido que pode ignorando a dor dos cortes ainda abertos no pé. Sem o dar tempo de reação ela o beijou.
Damon se manteve parado a princípio. Era o que ele queria, desejava Elena, desejava a sobrinha de 18 anos e chegou a se achar um criminoso por isso. Era um criminoso perante a lei mais o coração não reconhecia isso. Apertou suas mãos na cintura dela dando passagem a sua língua, tornando o beijo ainda mais urgente. Pararam quando o ar lhes foi necessário e com ele, retornaram os problemas.
– Elena, nós temos que conversar – voltou a falar ainda com a respiração ofegante. As mãos dele ainda seguravam ela junto ao seu corpo. Ela o olhou nos olhos sem acreditar no que havia ouvido.
– Eu não preciso ouvir o quanto a nossa relação não é certa, Damon – ela falou por acreditar ser isso que ele diria, mais estava enganada. Ele apenas fechou os olhos e ela se calou.
– Não é isso, Lena... – falou baixo em sua voz calma e trêmula. Voltou a olhar em seus olhos e pode ver a confusão refletida neles.
– Se não é isso...? – ele a soltou e deu alguns passos a frente antes de se virar novamente na direção dela.
– Lexi não perdeu o bebê no acidente. Ele está vivo. Eu sou pai, Elena.
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