Notas iniciais
Pessoas queridas, muito obrigada por todos os comentários, fico feliz que estejam gostando. Adorei as análises feitas. É muito gratificante quando escrevemos e vemos que as nossas intenções foram percebidas. Isso significa que estamos obtendo êxito ao que nos propomos. Já sobre a linha que a estória tem seguido, posso lhes garantir que eu sou somente responsável por criar a loucura, os acontecimentos tratam-se apenas de nuances dela. Acredito que essas duas ainda nos surpreenderão bastante, afinal de contas, nunca se sabe a quantos caminhos esse tipo de insanidade tormentosa podem nos levar. É sabido apenas que, no caso delas, todos eles tendem a ser extremante prazerosos. No mais, fiquemos com o nosso habitual inicio de capítulo: "Todo dia é dia E tudo em nome do amor Essa é a vida que eu quis Procurando vaga Uma hora aqui, outra ali No vai-e-vem dos teus quadris..." Cazuza.

Ivan saiu correndo para os braços da mãe assim que a viu entrando pela porta da casa da tia. Ao que Clara fez o mesmo, abraçando-o com força. Estava com saudade do filho, mesmo tendo-o visto no dia anterior lhe pareciam semanas. “Coisas de mãe” ela sabia. Além disso, já estava com saudade adiantada pelo tempo que passaria longe dele.

_Aonde você dormir ontem, mãe?

_Ah filho. A mamãe teve que trabalhar até mais tarde. Mas, e você? Ficou bem sem a mamãe?

_Fiquei sim. Meu pai fez o jantar pra nós dois e nós vimos um filme juntos. Foi muito legal. Tava sentindo falta dele.

Clara comoveu-se com as palavras do menino.

_ É mesmo? E que filme vocês viram?

Perguntou demonstrando interesse.

_Aquele, que o dono do cachorro morre e ele fica esperando, sabe qual?

_Sei sim. Esse é muito legal.

Falou apertando-o.

Distraíra-se tanto com o garoto que mal tinha notado que a irmã também estava na sala. Então, levantou-se, cumprimentando-a com um abraço.

_Oi irmã. Brigada por ter ficado com o meu bichinho.

_Que isso Clara. O Ivan é o príncipe aqui de casa. Nada funciona se ele não estiver aqui. A Rosa, por exemplo, nem capricha tanto nas comidas quando não é pra agradar o Ivan. Não é, garoto?

Falou a tia sorridente.

Ivan sorriu abaixando a cabeça, em uma falsa timidez.

A mãe fez carinho na cabeça do filho orgulhosa, tendo em vista que a maior satisfação de uma mãe é saber o quanto o filho é querido e amado por todos.

Clara abaixou-se até ele novamente e disse-lhe:

_Filho, será que você podia ir lá dentro ficar com a Rosa um pouquinho pra mamãe conversar com a tia Helena?

_Uhm, conversa de adulto. Já sei.

Disse ele, fofo já se encaminhando ao corredor.

Enquanto esperavam a saída de Ivan. A irmã mais velha já fitava a mais nova com seriedade e curiosidade.

Sentaram-se no sofá.

_Agora me diz, irmã. O que, que está acontecendo? Hoje o Cadu deixou o Ivan aqui com uma cara. Disse que você não tinha dormido em casa. Onde você se meteu?

_ Não tá acontecendo nada, Leninha. Sai a trabalho. Eu comentei com você sobre o coquetel, lembra?

A outra assentiu.

_Então, acabou tarde eu bebi um pouco além da conta e acabei dormindo na casa da Marina.

Mentiu e a irmã mais velha notou que aquela não era toda a verdade, porém, não a questionou. Ela falaria o que quer que tivesse para falar quando estivesse pronta. Embora Helena nem mil anos fosse ser capaz de adivinhar a verdade que Clara tinha a dizer.

_E você já encontrou com o Cadu? Já deu sinal de vida pra ele?

_Já sim. Fui ao bistrô antes de vir pra casa.

_Uhm. Que bom. Pelo menos isso né. E tá tudo bem?

Não conseguiu evitar o tom de critíca de irmã mais velha.

Mas, Clara fingiu não notar. Não queria ter que dar explicações. Não agora. Estava inquieta. Precisava voltar pra Marina. Precisava dizer a ela a decisão que havia tomado. Contar-lhe da conversa com Cadu, dizer-se livre.

_Tá sim irmã. Na verdade eu pedi pra conversar com você porque vou viajar, por alguns dias. Uns 3 ou 4 talvez.

_Ahm? Assim, do nada?

_Sim. A trabalho.

Correu em dizer, atrapalhando-se um pouco.

Helena estava ainda mais desconfiada agora. Havia algo de errado com a irmã.

_Clara, tá tudo bem? Tô te achando nervosa.

_Tá, Leninha. — Tentou ser enfática – eu não dormi quase nada essa noite, tô cansada. Só isso.

Essa parte era verdade.

_Mas, então, o que é que você quer?

_Bom, só queria pedir pra você e pra Rosa cuidarem bem do meu bichinho enquanto eu estiver fora. Pedi o mesmo pro Cadu, mas, não sei se ele vai conseguir conciliar o trabalho com ter que cuidar do Ivan. Então queria que você ficasse de olho.

_Ai irmã, mas é claro. Isso você não precisava nem pedir. Afinal não é pra isso que serve a família?

Falou sorridente tentando acalmar Clara. Seja lá por que fosse que ela estivesse nervosa.

_Obrigada, irmã.

Abraçou-a. Foi um abraço apertado. As palavras de Helena fizeram com que se sentisse mais otimista em relação a reação da família à decisão que tomara. A fez crer que tudo daria certo, no fim.

Ao sair do abraço, levantou-se e foi até a cozinha onde Ivan se encontrava ajudando Rosa alegremente. Cumprimentou a mesma e direcionou-se a ele:

_Meu amor. A mamãe vai ter que viajar.

Culpou-se por ter que mentir ao filho.

_Sério, mãe? Pra onde? Posso ir?

Clara sorriu.

_ Ainda não sei bem pra onde filho, é a trabalho.Mas, é claro que não. Ou o senhor tá se esquecendo que tem escola? Judô e um monte de outras coisas?

Ivan fez um cara engraçada, de culpado.

_E quando você volta?

_Não vou demorar, vai ser só alguns dias. Mas, você vai ficar bem com o papai, a tia Leninha, a Rosa, o tio Virgílio e toda a família, não vai?

_Vou sim.

_ Tenho certeza que o seu pai vai ser bem legal com você nesse tempo.

_Será? Se for eu vou me amarrar. Tô com muita saudade dele.

Falou sincero e alegre com a possibilidade de passar mais tempo com o pai.

_Tenho certeza que sim, meu filho.

Abraçou-o apertado novamente. Sentia-se desmoronando por dentro ao ter que deixá-lo. Mesmo sabendo que, de certa forma, era pro bem dele.

_ Agora a mamãe tem que ir. Vou estar com o celular o tempo todo, qualquer coisa pode me ligar, tá? E eu também te ligo todos os dias pra saber como você tá.

_Tá mãe. Já sou grande, sei me cuidar.

Ela sorriu.

_Tá certo, é claro que sabe.

Piscou pra ele.

_Vem levar a mamãe até a porta.

Foram andando de mãos dadas até a porta. Quando lá chegaram. Helena falou:

_Dá notícias, Clara. A gente fica preocupado.

_Pode deixar, Leninha.

_Tchau filho.

Passou a mão nos cabelos do filho e saiu de volta à Santa Tereza. De volta pra ela. Em poucas horas fora capaz de deixar o marido, a casa, o filho e toda a vida que construíra. Tudo isso apenas para poder voltar pra ela.

***

Quando entrou novamente no quarto da fotografa, pôde sentir que o mesmo agora exalava o cheiro inebriante do perfume dela. Marina estava deitada do mesmo jeito que a deixara horas antes, porém vestida. Usava uma camisola longa, preta e transparente. Através dela podia-se ver a lingerie de mesma cor que usava por baixo. Ela estava de bruços, de costas para a porta e não notou a presença da assistente até que a mesma subiu sobre a cama. Então, mesmo sem olhar pra trás, a fotografa sabia que era ela. Clara deitou-se com cuidado sobre ela criando um encaixe perfeito. Marina suspirou ao senti-la daquela forma e ficou esperando que ela falasse o que, de certa forma, a fotografa já sabia que falaria. Sentia.

No entanto, não pôde deixar de se surpreender e se emocionar com as primeiras palavras dela. Sussurradas em seu ouvido:

_ Eu amo você!

Disse a assistente. Firme. Impressionante como agora as palavras lhe saiam com demasiada facilidade.

Marina sorriu com os olhos turvos de lágrimas.

_Eu amo você. Muito.

Retribuiu com a voz embargada e fechando os olhos enquanto dizia, como se o que sentisse fosse intenso ao ponto de ela não conseguir mantê-los abertos.

_Você fez o que eu acho que fez?

Ainda permaneciam sem se olhar.

_Sim. Meu casamento acabou.

Marina não soube o que sentir ao ouvir tais palavras. Por isso, demorou a manifestar qualquer reação. Quanto teve coragem, fez esforço para se levantar, ao que Clara entendeu e saiu de cima dela. Estavam, enfim, frente a frente.

_Você não devia ter feito isso.

A assistente encarrava-a perplexa.

_Porque não?

Perguntou a uma Marina que tentava desviar o olhar.

_Pode ter sido precipitado.

_É sério que você realmente acha isso?

Falou ainda encarrando-a profundamente, tornando impossível que ela não fizesse o mesmo. Estava tensa, sentia-se como se um abismo estivesse se abrindo sob seus pés. Marina não podia realmente estar a dizer aquilo.

A fotografa que a olhava no fundo dos olhos naquele momento demorou, o que para Clara fora a eternidade, para responder.

_Não. Não acho.

Disse-lhe, vencida. Permitindo que a outra finalmente relaxasse ao ouvir tais palavras. Porém, Marina continuou, dessa vez, com os olhos transbordando, estava definitivamente chorando:

_ Clara – pausou- Eu amo você, como nunca amei ninguém. Você desperta em mim sentimentos que eu não conhecia. Em todos os sentidos. Você me faz querer ser uma pessoa melhor, compartilha comigo a luz que irradia.

Agora eram dos olhos de Clara que escorriam lágrimas, desenfreadas.

_Mas, a verdade é que eu sou uma pessoa cheia de defeitos. Talvez você ainda não consiga ver isso porque eu realmente sou melhor ao seu lado. Mas, a Marina que você não vê é mimada, volúvel e egoísta. Talvez você mereça alguém melhor que eu.

Sentia uma dor descomunal ao se definir dessa forma à mulher. Ao mostram-se, expor-se a ela.

_Por que você tá falando isso?

_Porque, embora eu tenha tentado ser uma pessoa melhor desde que te conheci, eu falhei. Me deixei levar pelos meus verdadeiros instintos. Eu te usei, te manipulei sem pensar nas consequências que isso teria na sua vida, com o único intuito de te tirar do seu marido. Porque eu queria, queria você pra mim. Não pensei em você, no que você teria que passar. Não respeitei o seu tempo. Fui egoísta, pensei apenas em mim.

Clara que voltara a ficar tensa enquanto Marina falava, relaxou de novo ao ouvir suas últimas palavras.

_Você tá falando de ontem a noite?

Perguntou a uma Marina de cabeça baixa, que não tinha mais coragem para fitá-la.

_Sim.

Clara, então sorriu.

Levou a mão ao rosto dela, levantando-lhe a face.

_Olha pra mim.

A fotografa o fez.

_ Você não fez nada contra a minha vontade. Não só ontem a noite, nunca. Se eu vim até aqui ontem, aliás, se eu vim até esse quarto no dia daquela exposição foi porque eu quis.

_ Mas, o problema não é esse, Clarinha e sim a intenção. Tudo o que eu fiz ontem a noite foi na intenção de te impedir de voltar pra sua casa. Não foi algo que simplesmente aconteceu, foi algo que eu fiz de “caso pensando”. Eu queria que você não voltasse. Eu queria que vocês se desentendessem, brigassem porque eu não suportava mais a ideia de te dividir com ele.

_Pois, você não conseguiu.

Marina direcionava-lhe um olhar confuso agora.

_Nós não brigamos. Conversamos. E chegamos a conclusão óbvia que o nosso casamento acabou. E outra coisa, você nunca teve que me dividir com ele. O Cadu nunca mais tocou em mim desde o dia que te conheci, Marina.

Nesse momento quem abaixou a cabeça foi a assistente, com medo de que aquilo parecesse à outra tão maluco quanto parecia a ela mesma.

A fotografa olhava-a atordoada.

_E tem mais, qualquer coisa que você tivesse feito, só teria sido errado se tivesse de fato me usado, ou manipulado como você disse. O que também não aconteceu. Eu soube o que você queria desde o momento que entrei nessa casa e quis tanto quanto você, aliás, faz tempo que eu queria. Faz tempo que eu queria me sentir tomada por você. Pode parecer loucura, mas eu sempre tive a necessidade de me sentir assim, como se tivesse um dono, nesse caso, uma dona. — Sorriu de forma tenra para ela — E Se tem alguém errada aqui, esse alguém sou eu que venho enganando o meu marido desde que te conheci. Mas, eu me perdoo por isso, porque se o fiz, fiz por amor. Um amor tão grande que eu não sabia que pudesse existir. Um sentimento tão novo que me deixou atordoada sem saber como agir. No entanto, não me permito julgar isso como algo feio, porque é lindo e você deveria fazer o mesmo. Você diz que é mimada e egoísta, mas desde o dia que entrou na minha vida, só tem me mostrado o contrário. Você só tem compartilhado comigo. Me transformado em uma pessoa melhor, mais feliz. E eu não tenho como enxergar outra coisa em você e acho que você também não deveria.

A felicidade e o choro agora disputavam lugar no sembrante de Marina. Nunca ninguém lhe dissera coisas tão lindas. Julgava que nunca havia sido tão importante pra alguém assim. Não tinha mais o que contestar, aliviou-se. Poderia, enfim se sentir alegre com a notícia que a amada lhe dera. Clara finalmente viera, de vez, para ela.

Ficaram se olhando por alguns instantes, era um olhar de veneração, entrega. Faziam-se carinho em seus rostos e também tentavam secar-lhes as lágrimas que ainda teimavam em cair. Então, depois de um tempo, enfim, seus lábios se encontraram, selando o que, as duas sabiam, seria o início de uma nova vida, para ambas.

***

_Quero que você me conte tudo. Mas não aqui no quarto. Vamos sair, vamos pra piscina, já que eu não posso sair de casa desse jeito, graças a você sua bandida.

Clara soltou uma gargalhada, ao perceber que era verdade. Não havia nenhuma condição de Marina sair em público daquele jeito.

_E você ainda fica rindo.

_Você teve só o que mereceu.

Respondeu de forma sexy.

Deixando Marina com vontade dela, de novo. Mas, também não tinha condições de resolver isso, então, tentou distrair-se com outra coisa.

_Ei, eu não comi nada até agora, acredita? E você?

Somente nesse momento que Clara se deu conta que também não. Naquele dia, em poucas horas, parecia que tinha dado a volta ao mundo. Nem se quer lembrava que o corpo necessitava de alimentação, no entanto, foi só Marina trazer isso a tona que ela sentiu o estômago roncar.

_Não, desde ontem que não como nada.

_Ih, tá vendo? Vou pedir para providenciarem algo pra gente comer lá. Tem alguma preferência?

Perguntou Marina atenciosa, uma vez que ainda não tinha conhecimento dos gostos da outra.

_Não, qualquer coisa pra mim tá bom. Desde que seja rápido.

Riu colocando a mão sobre a barriga em demonstração da fome que sentia.

_Tudo bem, então vamos trocar de roupa, colocar um biquíni, você não deve ter trazido, mas lá no estúdio tem vários, vou mandar trazer um pra você. Eu ainda nem vi o dia lá fora, mas, tenho certeza de que deve estar lindo, aliás, hoje tudo deve estar mais lindo que nunca.

Falou olhando apaixonada para a assistente a sua frente, que corou com a observação.

Marina já tinha notado a mala de Clara depositada em um canto do quarto o que a alegrava de uma forma indescritível. Aquela mala simbolizava o inicio da vida que, ela tinha certeza, construiriam juntas. Não que ela tivesse esperanças que a outra pretendesse ficar ali definitivamente, porém, gostava de imaginar que sim.

***

À beira da piscina da casa da fotografa, existe um espaço gourmet de tamanho considerável. Com várias mesas e cadeiras que dariam facilmente para realizar uma festa para um número grande de pessoas. Foi em uma delas que elas se sentaram esperando até que o chef de cozinha de Marina levasse-lhes a refeição que a dona da casa havia pedido. Enquanto isso, Clara começou seu relato sobre o que acontecera no tempo em que estivera fora. Contou sobre a conversa com Cadu e sobre a relação do mesmo com o filho que vinha sendo negligenciada e com isso se justificou por ter deixando o menino para trás, mas que seria apenas por alguns dias. Sentia-se culpada e contava essa parte à Marina como se se desculpasse com alguém que tivesse lhe chamando a atenção por causa disso.

Marina trouxe as mãos dela para perto de si, envolvendo-as com as próprias em sinal de conforto.

_Clarinha, você não precisa se justificar assim. O fato de você ter deixado o seu filho pra trás por alguns dias, não faz de você uma mãe ruim. Muito pelo contrário, por tudo que você me disse aqui, concordo que foi o melhor fazer. Se acalma.

Clara agradeceu o cuidado com o olhar. Sentia-se segura ao lado da fotografa.

_Mas, então, me fala. Além dessa questão com o Ivan. Como você está se sentindo em relação ao resto?

_Aliviada. Só que ao mesmo tempo, dá um aperto aqui no coração – levou uma das mãos ao peito – sabe? Me sinto como se tivesse um vírus daqueles de computador dentro da minha cabeça e ele estivesse apagando cada uma das informações pouco a pouco e, de repente, tudo estivesse indo embora e eu tentasse desesperadamente não deixar, mas não conseguisse fazer nada pra evitar.

Marina gostou da comparação, deu-se conta que era assim mesmo que a pessoa se sentia quando terminava um relacionamento. Como se quisesse impedir os sentimentos de se esvaírem, com as mãos, segurando-os dentro de si.

_Eu entendo.

_Sem contar que, também sinto que talvez eu pudesse ter feito algo pra que acabasse de outra forma, não sei. Não gostei nada de ter mentido como eu menti.

_Te entendo, Clarinha. Mas, não existe jeito certo de terminar um relacionamento, todo final é assim mesmo, triste. É sempre uma dor. Eu só não quero que você sofra.

Pegou as mãos dela novamente a fim de confortá-la mais uma vez e continuou:

_Olha, eu sei que você veio pra cá. Mas, sinta-se à vontade pra ter o seu tempo. Pra pensar, pra sentir, enfim, não se sinta pressionada por estar na minha casa, porque mais do que ser a mulher que eu amo – o sorriso que Clara deu ao ouvir a outra proferir essas últimas palavras, daria para iluminar o bairro de Santa Tereza por uns três dias – você também é minha amiga.

_Eu sei, Marina. Não me sinto pressionada por você. Eu vim, porque eu precisava. Precisava passar por tudo isso do seu lado. Precisava sentir você comigo de uma vez por todas, sabe? Não como minha chefe, ou como a pessoa por quem eu me apaixonei perdidamente – quem iluminava o dia agora com o sorriso era a fotografa – precisava sentir que agora só existe um nós, um eu e você, construindo uma história só nossa, precisava encontrar em você o meu porto seguro e eu encontrei, e eu sabia que encontraria.

Encaravam-se profundamente, e o amor que transbordava pelos olhos dela, transcendia o distanciamento de seus corpos, elas se abraçavam sem nem ao menos se tocarem.

O chef as interrompeu, trazendo-lhes o que para elas seria o almoço e elas deram, sem demora, início a primeira refeição do dia, estavam famintas. Enquanto almoçavam, Marina começou a contar à outra sobre a ligação do pai.

Ao terminar de ouvir todo o relato, a assistente pôde notar a preocupação que o semblante dela transmitia. A fotografa estava insegura, e realmente tinha seus motivos para estar. Clara tentou acalmá-la:

_Bom, pelo que eu entendi, seu pai de certa forma tem razão, Marina. Mais dia ou menos dia você teria que assumir os negócios, enfim, as coisas que ele tem pra deixar pra você. Melhor que seja aos poucos do que tudo de uma vez, quem sabe em uma situação muito mais conturbada.

_Eu sei, mas sei também que isso vai interferir no meu trabalho aqui no estúdio. Porque eu não vou ter tempo integral pra me dedicar a ele, e também tenho medo que isso interfira no meu processo criativo.

Fez bico ao terminar de dizer isso, o que fez com que Clara tivesse vontade de apertá-la.

_Vai ter que aprender a conciliar tudo, mocinha. Pode até ser difícil no começo, mas eu tenho certeza de que você vai conseguir. Além disso, veja pelo lado bom. Ao menos você vai começar por algo que entende, algo que gosta e isso vai te deixar muito mais preparada pro futuro que te espera. E em todo caso, você pode ter certeza que sempre terá a mim pra te ajudar. Posso não entender nada de negócios, mas sou muito boa em ver o lado bom das coisas.

Ela fez uma cara de sapeca ao dizer essa última parte e Marina sorriu.

_Nisso você é mesmo. Falando desse jeito faz com que tudo pareça menos difícil. Me deu até vontade de virar uma executiva, mulher de negócios.

Falou em tom de gozação.

Clara gargalhou.

_Não, mas é sério. É incrível essa sua capacidade de sempre ver o lado bom em tudo. Essa força que você passa pra quem está do seu lado. Eu já me sinto muito melhor e com mais coragem. Brigada!

Namoraram-se com os olhos. Que se amavam não havia duvidas, no entanto, se apaixonavam-se cada dia mais pela completude que transmitiam uma a outra.

Elas prosseguiram conversando enquanto terminavam a refeição e ao terminá-la foram relaxar à beira da piscina, nas esteiras à beirada da enorme piscina. Estavam verdadeiramente cansada e o ato de se livrarem da fome só potencializou isso. Quase dormiam ali deitadas, cada uma submersa nos próprios pensamentos e na sensação de paz que sentiam na presença uma da outra. Clara naquele momento não tinha mais pressa, jã não tinha lugar nenhum a onde ir e isso refletia em seu estado de espírito, enquanto a fotografa não tinha mais que se preocupar em ver a amada indo ostensivamente embora.

***

A tarde terminara em um lindo pôr de sol, que pôde ser vislumbrado perfeitamente da onde haviam estado deitadas. Agora estavam dentro da piscina. Marina julgava e compartilhou a ideia com a amada de que 30 minutos dentro daquela piscina seria capaz de espantar qualquer problema, no caso dela, por exemplo, o problema se resumia apenas ao corpo ainda debilitado já que a presença e a conversa que tivera anteriormente com Clara, afastaram os outros de sua mente. A assistente, por sua vez, sentia como se, naquele dia, tivesse tirado o peso do mundo de suas costas e o banho relaxante de piscina potencializava o sentimento. Elas se beijavam coladas com seus corpos molhados dentro da água. A sensação era boa, o misto entre a água gelada e o calor de suas peles, suas bocas. O contanto físico exacerbado já lhes provocavam reações de cunho sexual, porém, a necessidade da troca de afeto era maior naquele momento. Assim permaneceram por algum tempo.

***

Clara estava sobre ela, namoravam-se calma e carinhosamente sem o menor sinal o furor da noite passada. Marina voltara a usar a camisola que vestia mais cedo enquanto a assistente vestia uma das camisolas de malha com que costumava dormir. A assistente beijava levemente os hematomas feitos por ela mesma em seu último encontro. Marina de fato estava machucada e Clara pretendia compensar afetivamente a maldade que fizera à mulher que amava.

O calor tão comum às duas sempre que estavam muito perto, obviamente estava presente. Ainda que estivessem muito cansadas. Marina então, mal conseguia se mover, suas pálpebras pesavam anunciando um sono que insistia em querer levá-la. No entanto, tentava manter-se acordada, pois, para ela ter Clara ali ao seu lado era como um sonho. Tinha medo de se entregar ao sono e no dia seguinte dar-se conta que sonhara tudo aquilo.

Enquanto Clara desferia beijos leves por seu ombro e pescoço, ela queixava-se dizendo “ai” por vezes em que os lábios da outra encostavam em sua pele. Era uma queixa manhosa, mais para fazer com que a assistente se sentisse culpada, do que por estar verdadeiramente sentindo dor. O que queria mesmo era continuar sendo cuidada por ela.

_Sua bandida. Você acha certo fazer isso com as pessoas?

Clara que se conservava sã, corava. Mal conseguia acreditar que tinha sido ela a responsável por aquele estrago.

_Desculpa, meu amor. O que eu posso fazer pra compensar, hein?

Falou de um jeito manso, ao mesmo tempo profundamente sexy que fazia com que Marina sentisse arrepios percorrendo-lhe as extremidades.

_Uhm. Proposta interessante. Posso pedir qualquer coisa, mesmo?

Olhou-a safadamente, fazendo com que o calor que já dominava a outra aumentasse.

_Sim, pode pedir. Hoje é você quem manda.

Disse com a voz rouca que lhe era peculiar no ouvido de Marina.

_Eu quero carinho, cuidado, dormir agarradinha.

Disse manhosa.

Clara sensibilizou-se, teve vontade de mordê-la. Não da forma selvagem da noite anterior. Ouvir o que a fotografa dissera no tom que usara, soou-lhe unicamente fofo.

_Claro meu amor, tudo que você quiser.

Acariciou a face da outra, ao que sua mão passou por trás da cabeça dela de modo que seus dedos pudessem fazer-lhe um cafuné e seguiu alternando os beijos carinhosos com um roçar leve entre a pele de seus rostos.Porém, não podia deixar de pensar no quanto Marina era gostosa, enquanto sua mão percorriam aquele corpo, sobre a camisola.

Após desfrutar um pouco do carinho que recebia a fotografa falou novamente:

_Mas – pausou- eu também quero gozar antes de dormir. Me chupa? Faz esse carinho em mim, faz?

Tinha um semblante pidão e ainda manhoso.

Estava sonolenta, porém, os carinhos proporcionados pela outra, atiçavam-lhe. Sabia estar molhada e que o sexo chamava por ela apesar de ele também estar extremamente dolorido. Durante aquele dia tivera dificuldade, inclusive, para sentar. Mas, sabia que nada lhe seria mais relaxante que um orgasmo atingido pelo ritmo da língua da mulher que amava.

O pedido de Marina fez com que o calor de Clara transformasse-se em fogo, queimando-a. Sua voz suave, e o semblante despreocupado ao pedir tal coisa, mexiam com as fantasias da assistente. Pôde sentir a boca enchendo-se d'água na hora.

_Com todo o prazer.

Respondeu mordendo os próprios lábios.

O que Marina sabia ser a forma de Clara exteriorizar o tesão que sentia. E constar que ela estava com tesão, fazia com que o da fotografa aumentasse. O sexo pulsou entre as pernas.

Clara saiu de cima dela.

_Vem aqui, meu amor. Tira essa camisola, tira.

Falava-lhe como se falasse a um bebe. Então, as duas juntas tiraram a camisola transparente que a fotografa usava e ela jogou-se novamente na cama.

A assistente voltou a beijá-la com o mesmo cuidado de antes, seus lábios mal tocavam a pele branca de Marina, gesto que a deixava completamente arrepiada. Porém, agora, ao contrário de antes, Clara ia descendo pelo corpo da outra. Quando alcançou a calcinha preta de cintura alta, tirou-a cuidadosamente, assim os beijos tenros puderam continuaram, sem contenções. Até que, por fim, chegou ao local que objetivava. O local específico que a outra lhe pedira para acariciar e que ela faria com o maior prazer do mundo.

Parada, de quatro, entre as pernas da fotografa permitiu-se por alguns segundos antes de chupá-la apreciar a visão que tinha dali. O sexo de Marina estava molhado, aliás, ensopado o que fazia sua boca salivar ainda mais, mas, também, teve outra coisa que chamou a atenção. Aquela região da fotografa encontrava-se extremamente vermelha. “Mais um efeito da noite passada” raciocinara. Então, permitiu-se levar a boca ao órgão a sua frente que a gritava quase de forma audível. Aproveitou para deitar-se, ficando assim em uma posição mais confortável, pois queria se perder naquele sexo, sem pressa. Ao sentir o gosto único da amada em sua boca regozijou-se, parecia que não o sentia há séculos uma vez que na noite anterior nem ao menos chegara perto de fazê-lo. Hoje compensaria a saudade que sentia, ao menos em parte.

Começou a chupá-la com calma e o máximo de leveza, como se acreditasse que com carinho da língua quente e dos lábios suaves, aquela região de Marina se recuperaria magicamente. Ainda assim, durante a execução do ato tencionava beber cada gota do líquido produzido pelo prazer da fotografa. A língua percorria, sem ajudas, um caminho molhado entre os grandes e pequenos lábios daquele órgão

A outra se sentia no céu, delirante. A textura da língua quente e dos lábios de Clara a levava as nuvens. Sem contar que a visão da amada em meio as suas pernas lhe era demasiadamente afrodisíaca. Por isso, evitou olhá-la. Se o fizesse gozaria mais rápido e não queria impedir que a outra desfrutasse do ato que tanto gostava pelo máximo de tempo possível. Sim, ela notara o quanto Clara tinha apetite por aquilo desde a primeira vez que o fizera. A assistente chupava-lhe com o mesmo gosto ou talvez até mais, que lhe beijava a boca. Nos momentos em que fazia essa analogia, divertia-se pensando em como Clara pudera viver até ali sem conhecer tal prazer. Em outras vezes se pegava pensando se ela chuparia qualquer outra mulher com tanto gostoso. Achava que sim. Talvez não com tanto gostoso quanto a chupava, uma vez que se amam, mas, ainda assim, o faria com bastante. Estava em sua essência, Marina sabia. Clara gostava de mulheres tanto quanto ela, gostava muito. Só tinha descoberto isso tardiamente. A fotografa perguntava-se, também, se em algum momento a amada quereria tirar isso à prova. E se quisesse, ela, Marina, se incomodaria? Ali com a língua de Clara dominando-lhe os sentidos, o que fazia com que ela julgasse raciocinar apenas através do órgão que estava na boca da outra, ela acreditava que não. Era bem provável que sentisse tesão com isso. A ideia, pelo menos, a fazia sentir.

Marina não foi capaz de se segurar por muito tempo. Gozou prazerosamente.

_Vem amor, me beija.

Chamou Clara, imediatamente após o gozo, fazendo-a subir a seu encontro.

Trocaram um beijo com o gosto produzido pelo sexo da fotografa. Coisa que à Clara parecia que Marina adorava.

Em determinado momento, a fotografa, exausta, sem conseguir mais segurar as pálpebras que teimavam em querer se fechar. Virou-se de lado esperando que a outra a abraçasse, ao que foi prontamente atendida. Pegara no sono. A assistente, porém, antes de seguir o mesmo caminho teve tempo de pensar que se daquele dia em diante dormisse todas as noites daquela maneira, seria feliz por toda a eternidade.

***

As duas estavam sentadas sobre o colchão da cama da fotografa, aliás, Clara, na verdade, estava sentada sobre a fotografa com as pernas entrelaçadas em seu quadril. Ambas como vieram ao mundo. O suor que escoria-lhes, se misturavam. Haviam dois dedos de Marina dentro da assistente e ela acabara de gozar cavalgando neles após estocadas precisas e voluptuosas empreendidas pela fotografa.

Enquanto a assistente ainda estava em êxtase pela descarga que acabara de receber, Marina tirou os dedos, tentadoramente melados, lambendo-os com vontade, ao que Clara aproveitou para beijar-lhe a boca buscando compartilhar com ela o sabor que as duas tanto apreciavam.

_Que delícia começar o dia desse jeito.

Clara disse à outra ao saírem de um demorado beijo.

_Por mim, daqui pra frente todos os dias seriam assim.

Respondeu apaixonada.

_Quem sabe um dia?

Falou assistente em tom de promessa.

Dito expressamente ou não. Sem dúvida nenhuma essa era a maior vontade das duas.

***

Tomavam um super café da manhã em uma grande mesa posta na copa da mansão, quando Vanessa, que preferiu não acompanhá-las dizendo ter muito trabalho para colocar em dia no estúdio e por isso se adiantaria ao ir trabalhar, entrou no ambiente

_Er, tem uma visita esperando a Clara lá no estúdio.

Disse a ruiva.

_Eu? Como assim? Eu não disse a ninguém que estaria aqui.

_Bom, Clarinha. Como te acharam aqui eu não sei. Também não me interessa. Só peço que você resolva as suas coisas logo, porque o estúdio é local de trabalho, a gente não pode perder tempo recebendo familiar de funcionária que fugiu de casa.

Disse irônica e desagradavelmente, como sempre.

_Que isso Vanessa?! Isso lá é jeito de falar com uma hospede minha?

Indignou-se Marina, ao que Clara com um sinal de mão interrompeu-a. Marina não precisava defendê-la, ela sabia fazer isso muito bem. E no caso da ruiva à sua frente, nem valia apena.

_Marina, deixa. Ela tem razão, o estúdio é nosso local de trabalho. Mas, enfim, vou lá ver o que e quem me espera.

Disse com o nervosismo e a curiosidade tomando conta dela. Afinal de contas, ela havia dito ao futuro ex marido e a irmã que viajaria, quem teria ido procurá-la ali, sem nem ao menos ligar antes para confirmar seu paradeiro?

Quando entrou no estúdio, viu que a resposta era tão óbvia que se sentiu até estúpida por ter se feito a pergunta.

_Oi, mãe.

Disse em voz baixa, de repente, os próprios sapatos se tornaram objetos irresistíveis de se olhar. Agia como uma criança ao se deparar com a mãe após de ter feito alguma "arte".

Notas finais
E ai? o que acharam das nossas meninas? rsrs Como a Marina é safada, né? :P E a Chica, hein? Mães, não existem seres mais espertos nesse mundo que elas...