Notas iniciais
Bom, primeiramente eu gostaria de agradecer a Pâmela e a Ladyaspirine pelas recomendações. É muito gratificante e animador ler palavras de tanto incentivo, por isso, muito, muito obrigada!" Segundamente*: "Confundo as tuas coxas Com as de outras moças Te mostro toda a dor Te faço um filho Te dou outra vida Pra te mostrar quem sou...

_Então, essa era a viagem que você ia fazer, Clara?

Perguntou-lhe uma Chica que trazia uma extrema decepção estampada no rosto.

Quando Clara finalmente conseguiu olhar para ela, sentiu o próprio coração se quebrar. Enxergar a tristeza doera-lhe mais que qualquer outra coisa dentre os acontecimentos recentes.

_Mãe, eu posso explicar.

_Que bom. Porque foi pra isso mesmo que eu vim, minha filha. Ouvir uma explicação pra tudo o que está se passando na minha cabeça.

_O que? O que tá passando na sua cabeça?

Tentou se fazer de desentendida buscando saber até a onde a mãe tinha entendido seu envolvimento com Marina.

_Ah, Clara! Por favor, eu sou sua mãe. Você acha que uma mãe não conhece bem os próprios filhos? Conversa comigo, me conta o que afinal de contas está acontecendo com você. Você não precisa esconder nada de mim.

A mãe da assistente agora tinha os olhos merejados de lágrimas. O que fez com que a filha abaixasse a guarda e se desse por vencida. Até porque, uma hora teriam que ter aquela conversa, então, que fosse logo. Pegou uma das mãos da mãe e levou-a até o sofá que havia próximo a elas. Sentadas poderiam conversar melhor e com mais calma.Ela respirou fundo por um momento tentando encontrar as palavras certas. Enquanto isso a mãe a encarrava, aflita.

_ Me diz, Clara. O que é que está acontecendo com você minha filha? Que estória é essa de largar o seu marido, a sua casa e até o seu filho?

_Não mãe, esperai. Quem disse que eu larguei a minha casa, o meu filho?

_Bom, até aonde eu sei você fez as malas e se mandou. Ou não?

_Sim. Mas, porque eu precisava de uns dias pra pensar e dar espaço pra que o Cadu fizesse o mesmo. Só não trouxe o meu filho comigo, porque não queria bagunçar a vidinha dele. Mas, eu não larguei nada. mãe.

_Só o seu marido...

_É, isso é verdade.

Respondeu desviando o olhar do inquisidor da mulher a sua frente.

_E porque isso, Clara? Até outro dia você estava falando sobre o quanto amava o seu marido, o quanto gostava da vida que vocês levavam. Quando foi que isso mudou?

Era a hora de soltar o que estava engasgado em sua garganta. Até aquele momento, seu romance com Marina parecia-lhe um romance fantasma, algo que habitava apenas dentro delas. Precisava torná-lo real, transformá-lo em algo de “carne e osso” e a única maneira de fazer isso era assumindo-o em voz alta.

_Quando eu conheci a Marina, mãe.

Chica julgou ser atingida por um tapa. Já tinha certeza do envolvimento da filha com a fotografa, mas, ouvi-la admitindo isso acabou sendo mais doloroso que ela imaginava. Tirava a coisa do mundo da ideia e tornava-a real. Mesmo assim, tentou manter-se firme para poder ouvir o que a filha tinha a dizer até o final.

_Você tá tendo um caso com essa mulher, é isso?

_Não sei se dá pra colocar a coisa nesses termos...

A mão direcionou a ela um olhar confuso e ela continuou:

_ Quando você usa a palavra “caso” faz com que pareça algo feio, imoral e não é bem assim que as coisas são.

_E como as coisas são? Me explica. Porque até aqui, tudo está parecendo bem assim mesmo.

Chica estava começando a ficar impaciente, parecia-lhe que a filha estava dando voltas.

_ Como elas são? Bem, elas são... são que eu me apaixonei, mãe. Eu não pedi pra isso acontecer, não procurei. Eu apenas senti ali, na primeira vez que olhei pra ela. Não como se o sentimento tivesse acabado de nascer, mas sim como se ele já estive dentro de mim esquecido há muito tempo. Eu não consigo olhar pra isso como sendo um “caso”. Essa é a minha história e o fato de eu estar casada quando encontrei o amor da minha vida, hoje me parece mais uma fatídica ironia.

_Clara, você está falando como se a partir do momento que conheceu essa mulher, seu marido tenha passado a ser um “nada”.

_Não, mãe. Não é isso. É só que o Cadu era meu marido, meu parceiro, pai do meu filho, mas veja bem, eu sempre me refiro a ele como uma pessoa à parte, uma pessoa além de mim. Enquanto que a Marina, é parte de mim. Dá pra entender? Ela é como se fosse um pedaço de mim, um pedaço que eu nem sabia que faltava antes de me ver diante dele.

A mãe ficou em silêncio por alguns instantes, tentava absorva o que a filha falara. Sem dúvidas haviam sido belas palavras. Ela, Chica, particularmente, nunca ouvira falar no amor definido dessa forma. No entanto, ainda assim era difícil compreender tudo aquilo. Ou talvez, aceitar.

_Minha filha, quando você conheceu o Cadu, se apaixonou, decidiu se casar com ele, engravidar eu pensei que ali estivesse implícita a sua orientação sexual.

Clara deu um sorriso nervoso.

_E tava. E tava, mas...

_Eu sei que você vai dizer que a sexualidade é algo que pode mudar à qualquer momento, em qualquer situação. Mas diz pra mim, o que é que você sente? Como é que você pôde chegar a conclusão de que ama essa moça dessa forma e tão rápido?

_ O que eu sinto? Ah o que eu sinto – Parou pra tentar organizar as palavras da melhor forma a fim de não chocar a mãe com informações demais – atração, vontade, necessidade, afeto, enfim, amor.

Concluiu e seu olhar dizia à outra que não tinha como definir de outro jeito o que sentia.

_E você acha que isso justifica o que você tem feito com o seu marido sabe-se lá Deus a quanto tempo? Foi assim que eu te ensinei a agir, Clara? Foi assim que eu te criei?

_Não mãe. Mas, eu não sei se dá pra ensinar alguém agir corretamente nesse tipo de situação. Até porque eu nem sei se existe forma correta de se agir nesses casos. Porque, o correto pra um, sempre vai acabar sendo incorreto pra outro. Se eu escolhe não agir “mal” — frisou as aspas – com o Cadu, agiria mal comigo mesma. Eu lidei com tudo da melhor forma que eu pude, uma vez que, também foi difícil pra eu assimilar e aceitar o que eu sentia. O que eu fazia.

_O que fazia? Então, eu posso concluir que não é de hoje que você vai pra cama com essa moça?

_Não, não é.

A própria Clara se assustou por ter sido tão franca e direta.

_Clara, eu não queria te julgar. Aliás, não me sinto culpada por te julgar por ter feito o que fez com o Cadu, por não ter sido honesta e leal a ele. Mas, eu não queria te julgar pelo aspecto da sexualidade, só que será que você consegue entender o quanto é difícil pra eu entender isso?

_Mãe, com eu poderia ser honesta e leal com o Cadu? O que eu diria a ele? “Cadu, é o seguinte, eu me apaixonei por uma mulher, fui pra cama com ela e agora estou te deixando pra ficar com ela” Como você acha que ele reagiria a isso? Quer dizer, como qualquer pessoa reagia a isso? O Cadu é uma pessoa maravilhosa, mas, ele é homem e em muitas vezes machista. E mesmo que não fosse, quem lidaria bem com isso? O que aconteceu foi uma fatalidade mãe, ninguém no lugar dele entenderia assim, ele sofreria, sentiria o próprio orgulho ferido, com razão até. E dai como ficaria minha relação com ele? E a convivência com o nosso filho? Além disso, pode ter sido covardia da minha parte sim, não querer enfrentar as consequências da minha escolha, mas eu sou humana, e tô longe de ser perfeita.

Disse essa última parte em voz baixa, fitando mais uma vez os próprios pés,

_Eu entendo, no entanto, será que não era o caso de você esperar, resolver o seu casamento pra só então se relacionar com essa fotografa?

_Eu não teria conseguido. Eu não tive condições de esperar, foi mais forte que eu.

_Do que nós estamos falando agora, de amor ou de sexo?

_Acho que se fosse só o amor, não teria sido assim tão difícil. Mãe, acho que você precisa entender uma coisa. Quando eu falo de amor, não falo de amor fraternal, porque se fosse isso eu podia ter feito da Marina minha amiga. Quando as pessoas se defendem dizendo que o gênero da outra não importa, que o que importa é o amor, elas estão fazendo apenas isso, se defendendo. É claro que o amor é muita coisa, quer dizer, ele é o mais importante, mas ele não vem sozinho. Vem acompanhado de várias outras coisas e também tem o fato de que pra gente sentir essas outras coisas nem sequer precisar amar e também as vezes pode se amar sem sentir essas outras coisas. Entende o que eu quero dizer?

Chica fez que sim com a cabeça.

_Mas, eu sinto todas essas outras coisas pela Marina, mãe. E não é algo vago, são sentimentos que me invadem completamente, que tomam conta de mim, me arrebatam sem que eu consiga controlar. Eles fazem parte de quem eu sou agora.

_ Então, o que você tá dizendo é que a sua sexualidade está bem definida, é isso?

_Não, eu não tenho como saber disso ainda. Mas, eu não posso dizer que é assim só pela existência da Marina. Pode ser que tenha se desenvolvido com ela, mas não significa que o fato de eu ter gostado diga só que foi por ser com ela. Enfim, eu só queria que ficasse claro, que os meus sentimentos não se resumem apenas ao amor, como se a minha vida tivesse sendo apenas um conto de fadas. Eu sou uma pessoa, feita de carne e osso e a minha vida é real, em todos os elementos em que ela deveria ser. Entende?

_Entendo, minha filha.

E Chica entendia mesmo. Entendia que Clara estava dando voltas para dizer-lhe que não era somente o amor que a mantinha arrebatada por Marina, era também a atração, para ser mais direta, o sexo. Clara admitira que tinha gostado de todas essas coisas. Tentando fazer com que a mãe entendesse as nuances de seu novo relacionamento.

De certa forma, Chica admirou a filha por ter sido tão honesta, teria lhe sido mais simples falar única e exclusivamente de amor na tentativa de não chocá-la. Mas a verdade era que definindo as coisas desse forma, tornou-as mais compreensível. O amor podia se apresentar de várias formas, o desejo, não.

_Olha, Clara. Eu nem sei ao certo o que te dizer em relação a isso tudo. Mas, eu agradeço por você ter sido honesta comigo. Eu como sua mãe só te desejo tudo o que há de melhor no mundo, só quero que você seja feliz. E se você acha que vai ser feliz com essa moça eu só posso fazer te apoiar. Lamento muito pelo fim do seu casamento com o Cadu, você sabe o quanto eu gosto dele. Mas, se você diz que não havia outro jeito, cabe a mim acreditar em você e respeitar a sua decisão. Eu não posso te dizer que vou conseguir assimilar de um dia pro outro essa sua nova relação, até porque isso é algo novo pra mim. Nós viemos de uma família tradicional, você sabe. Então esse tipo de relação não é algo comum na minha vida, no meu dia dia, assim como não era na sua. Mas, eu te prometo, minha filha que vou tentar, que vou me esforçar. Diante de tudo o que você me disse aqui, me fez acreditar nessa sua escolha, a sua segurança em relação a isso só me faz acreditar que você sabe exatamente o que quer, e o que sente e eu não posso deixar de te admirar por ter coragem pra correr atrás do seu sonho, do seu desejo, da sua felicidade... E eu te agradeço por isso, quem sabe através de você eu não venha a me tornar uma pessoa melhor?

As duas estavam em prantos agora. Chica achara lindo muitas das coisas que Clara havia lhe dito sobre seu amor por Marina. Agora era a vez da filha maravilhar-se com as palavras da mãe, fez com que seu orgulho e admiração pela mulher que estava a sua frente crescessem ainda mais. Elas se abraçaram emocionadas.

Quando finalmente estavam se recompondo, Clara falou:

_Mãe, você é a primeira pessoa pra quem eu conto da Marina. Me sinto tão mais leve por ter feito isso, contado pra alguém. Eu me sentia escondendo ela, e não queria que fosse assim, e fico muito feliz que essa primeira pessoa tenha sido você. Minha mãezinha.

Apertou a bochecha dela, como se ainda fosse uma criança.

Chica sorriu, e de certa forma, alegrando-se pela filha.

_Posso te pedir uma coisa?

_Pode, o que é?

Perguntou, mas de certa forma, já imaginava o que a filha lhe pediria.

_Deixa eu te apresentar a Marina? Quer dizer, você já conhece a Marina, mas é que eu queria que você a conhecesse de outra forma agora. Não como a fotografa famosa, ou como prima do seu namorado. Queria que você a conhecesse como...

Teve dificuldade ao concluir, até porque nem ela mesma sabia o que ela e Marina eram naquele momento.

_Tudo bem filha, onde ela está?

Deve estar lá dentro, morrendo de preocupação. Há essas horas com certeza a Vanessa já deve ter contado que era você quem estava aqui. Vamos até lá?

_Vamos.

Saíram sorridentes e aproveitando o caminho para secarem as lágrimas de emoção provocadas pela conversa franca que tiveram.

***

Marina estava radiante. Clara a assumira para mãe e as duas tiveram até uma conversa muito agradável, embora breve. O fato de Chica ser namorada de seu primo Ricardo facilitava bastante as coisas, uma vez que assim tinham mais assuntos em comum. A fotografa podia considerar que o dia começara mais que bem. Chica por sua vez, não soube definir exatamente o que sentira com aquele encontro, mas definidamente não tinha sido antipatia. A fotografa sem dúvida nenhuma era encantadora. A mãe de Clara, tal como Vanessa não passou alheia as marcas no pescoço da outra, mas preferiu fingir até pra si mesma que passara, já havia recebido informações demais para se digerir em um dia só.

O decorrer do dia fora, como seu início, perfeito. Tivera um ensaio importante para publicidade, e Clara, mais uma vez fora ótima em identificar, embora ainda de forma inconsciente, ângulos melhores. Se continuassem assim, muito em breve os planos que Marina tinha para elas poderiam se concretizar. Ao darem o trabalho daquele dia por encerado, antes do final da tarde, a fotografa, a fim de comemorar informou a assistente que elas sairiam e aquilo não se tratava de um convite.

***

A princípio foram à praia. Caminharam um pouco na areia vislumbrando a beleza da imensidão do oceano. O mar à frente delas, de certa forma lhes trazia identificação, pois quando pensavam no amor que sentiam uma pela outra “imensidão” era uma palavra que lhes fazia muito sentido. Depois de uma breve caminhada se sentaram num canto reservado em um barzinho ainda à beira mar. Marina que não era mulher de horários, foi logo pedindo um champanhe. A alegria transbordava-lhe, precisava comemorar. Enquanto esperavam a mesma aproveitou para tocar no assunto da conversa que Clara tivera mais cedo com a mãe:

_Você quer me contar como foi a conversa com a Chica?

E Clara contou, deixando uma Marina emocionada e sem palavras ao seu lado. Nunca imaginara que algum dia alguém descreveria o amor que sentia por ela de forma tão profunda e ao mesmo tempo tão delicada, imaginava menos ainda que um dia tudo isso seria recíproco.

_Eu amo você. Amo você, muito.

Falou a fotografa em retribuição ao que a amada contara, fazendo-lhe um carinho no rosto.

Clara absorvia essas palavras em câmara lenta deixando-as navegarem até o fundo de sua alma. Achava que se não tomasse cuidado, mais dia ou menos dia, o coração pudesse explodir dentro do peito.

Prosseguiram conversando.

Marina achara Clara muito corajosa por tentar expôr à mãe não somente o amor que sentia, como também o desejo. Ela julgara que essa tinha sido uma forma digna de tentar se fazer entender, e aproveitou para continuar seguindo por esse assunto. Haviam coisas sobre a amada que lhe despertavam curiosidade.

_Mas, me conta uma coisa. É sério que você nunca se interessou por mulheres antes?

_Sério, pela vida que tive isso nunca nem me passou pela cabeça, por quê?

Perguntou Clara já com um meio sorriso, pois podia imaginar o que a fotografa diria a seguir.

_Uhm, porque não parece. Assim, é que sei lá. Não notei nenhum estranhamento da sua parte.

Clara corou demonstrando a timidez que lhe era habitual, pelo menos em momentos como aqueles.

_Mas, eu não estranhei mesmo. Pra mim veio naturalmente.

Riu, um pouco encabulada.

_É, acho que é assim mesmo que acontece, quando acontece.

Disse pensativa.

_E pra você, como foi?

_Ah Clarinha, veio naturalmente também, só que mais cedo.

_Cedo quanto?

_De certa forma, desde sempre. Sempre me senti diferente, sabe? Não me enquadrava aos interesses das outras meninas da minha idade.

_Mas, quando foi que você se percebeu atraída de fato por uma mulher?

A curiosidade de Clara era imensa, em parte, ocasionada pelo despertar tardio da nova sexualidade.

_ Foi na escola. Eu te contei que estudei num internato?

Clara desacreditou.

_Você, num internato? Choquei!

_Pois é, passei boa parte da minha infância e adolescência sendo criada por freiras e convivendo em um ambiente exclusivamente feminino.

Clara ria enquanto tentava imaginar aquilo. E Marina prosseguiu:

_Não é nada engraçado, sabia? Uma vez que eu nunca fui nem um pouco comportada, você pode imaginar – e Clara realmente podia – Então, a partir do momento em que eu me dei conta do que eu gostava e queria, fui atrás disso.

_Como assim?

_Ah Clara – era a vez de Marina ficar tímida – digamos que tenha sido ai que eu comecei a desenvolver o meu poder de sedução e persuasão.

Falou rindo, mas em um tom de verdade.

Clara caiu na risada. Não somente pelo que a fotografa dissera, como pelo jeito que dissera.

_Meu Deus! Você é mesmo terrível. E quantos anos você tinha?

Marina se sentia ainda mais constrangida com a reação da outra, mas gostava de estarem tendo aquela conversa, se conhecendo ainda mais.

_ Se você parar de rir eu conto. Se não, vou parar.

Fez bico.

_Tudo bem, vou tentar. Prossiga.

_Bom, a primeira vez que eu beijei uma menina eu tinha 12 anos.

Clara ficou perplexa novamente.

_Só isso?

_E pra mim ainda foi muito. Eu me lembro muito bem da espera, do nervosismo. A sensação de fazer algo “proibido”.

–Acho que eu sei bem como é isso. Mas e a sua família, como lidou com isso?

_Bom, como você já sabe, minha mãe morreu eu era muito nova, tinha 10 anos. E o meu pai, sempre ausente, só soube da minha sexualidade quando eu tinha 16 e fui expulsa do internato.

Agora Clara definitivamente não conseguiu contar a gargalhada.

_Você foi expulsa? Mas, essa estória tá ficando cada vez melhor.

_Pára! Se não eu vou parar de contar.

A assistente fez esforço para se conter e só quando finalmente conseguiu se manter séria a outra continuou:

_Então, as freiras acabaram me pegando em um momento, digamos, intimo com a minha nova colega de quarto.

Agora foi a vez das duas caírem na risada, uma se lembrando da cena e a outra tentando imaginá-la.

A essas alturas o champanhe já havia sido servido, junto a um pequeno acompanhamento e elas já tinham brindado em meio a conversa descontraída.

_Dai, o colégio chamou meu pai, informando o acontecido e dizendo que devido a isso, eles não poderiam mais me aceitar lá. Já que eu era uma péssima influência pras minhas colegas, “contrariando a palavra de Deus”.

Caçoou.

_E o seu pai, como reagiu?

_Preferiu não comentar o que a diretora disse. Mandou eu buscar minhas coisas, que eu moraria em Nova York com ele e eu fui.

_Assim, simples desse jeito?

_Sim – respondeu sorrindo- Acho que meu pai nunca julgou ter muito tempo pra se importar com esse tipo de coisa. Homem se relacionando com homem, mulher com mulher, que diferença faria na vida dele? E continuou não fazendo tendo uma filha assim.

_Acho que ele é que tá certo.

Disse Clara, pensativa.

_Eu também acho.

_Ai ai, eu sou uma boba mesmo. Sabia que eu não tenho nenhuma estória assim pra contar? Sempre fui muito certinha, fiz tudo muito certinho. Cadu, inclusive, foi meu segundo namorado.

_Quer dizer que você quase se casou virgem?

Marina fez piada.

_Pois é. Então eu casei com tudo o que se tem direito. Vestido de noiva, véu, grinalda, buquê e logo depois engravidei.

_Realmente, uma vida extremamente certinha.

Marina caçoou.

_Extremamente certinha até te conhecer né, dona Marina?

_Uhm, do jeito que você fala fica parecendo que eu te influenciei mal.

_ E não foi?

_Eu? — Marina demonstrou indignação – Me diz, o que eu fiz pra te influenciar?

_ Você existe.

Respondeu a outra com um semblante apaixonado. Marina teve vontade de beijá-la na hora, mas sabia que a amada ainda não estava preparada para se expor daquela maneira, então enviou-lhe um beijo estalado, de longe, que foi retribuído da mesma maneira.

_Aposto que desde que você saiu do colégio tem sido ainda mais terrível.

_Ah Clarinha, eu não vou negar. Tive sim algumas paixões.

_Algumas? Sei...

_ Você é um perigo Marina.

Marina direcionou a ela um olhar de quem está sendo injustiçada.

_Pára de fazer essa cara de inocente e me conta mais dessas suas histórias ai.

_ O que? Da minha vida amorosa?

_Uhum.

_Ih. Ai complicou. Eu disse que tive algumas paixões, não que tive uma vida amorosa propriamente dita.

_ Oi? Como assim?

_ Bom, digamos que eu nunca tenha sido muito tradicional como você. Pra mim as coisas sempre foram muito bem separadas. Nunca misturei amor e sexo ou amor e posse...

_Você tá dizendo que não teve uma vida amorosa propriamente dita porque teve várias ao mesmo tempo?

_É, acho que isso resume bem.

Respondeu rindo, mas, ao mesmo tempo, nervosa com medo de que Clara se decepcionasse ou a entendesse errado.

_ Então, fidelidade nunca existiu no seu dicionário...

Não era uma pergunta, era uma conclusão.

_Não, pelo menos não até aqui.

Respondeu uma Marina sincera.

_Mas, e a Vanessa?

_ A minha estória com a Vanessa foi o meu relacionamento mais longo, quase uns três anos. Nós nos dávamos bem, ela entendia o meu jeito de ser e de certa forma não se incomodava com ele porque sabia que no final do dia era pra ela que eu voltava. Não tinha esses grilos de posse, nem nada do tipo. Talvez seja por isso que tenha durado mais tempo.

_Engraçado, porque pra mim, ela não parece ser tão tranquila quanto você diz.

_É porque de você, ela tem ciúme, com as outras ela não era assim. Você pode ver isso em como ela e a Flavinha se dão bem.

_Espera aí. Você já teve alguma coisa com a Flavinha?

Clara ficava a cada momento ainda mais chocada com as revelações de Marina. Não que as tivesse levando para um lado ruim.

_Não sei se pode-se chamar de “alguma coisa”. Tivemos algumas boas noites, só isso.

_E isso enquanto você estava com a Vanessa?

_ Sim.

_Meus Deus! Parece que ir pra cama com você é tipo um rito de passagem pra quem trabalha naquele estúdio.

Gargalhou e a outra acabou rindo junto.

Clara não precisou perguntar o porque que Vanessa a tratava diferente das outras, ela sabia que Vanessa enxergava que o sentimento que as unia era diferente.

Alguns pensamentos inevitavelmente dominavam a cabeça da assistente. Marina já havia vivido tanto, visto e sentido tantas coisas. Enquanto ela estava se descobrindo apenas agora. Teve vontade de ter estado do lado dela no lugar de Vanessa, de ter vivido tudo, inclusive, os conflitos.

_ Sabe, eu nunca imaginaria que a Flavinha... Ela é lésbica?

_ A Flavinha é uma incógnita, Clara. Acho que já deu pra você perceber o quanto ela é calada e séria. Não gosta muito de comentar sobre a vida pessoal.

_É, mas ela não foi séria ao se jogar na cama com você, né?

Marina riu mais uma vez.

_Verdade.

O fato era que embora Clara tivesse ciúmes de Marina, pensar nela na cama com essas mulheres a fazia lembra-se dela mesma. Do que as duas faziam juntas, do efeito que estar com ela nesses momentos provocava. Lembrar disso, trazia de volta os seus já habituais calores.

_Mas, e você? Agora que você se descobriu gostando da sensação de estar com uma mulher, como se sente?

Indagou-a Marina, mudando a direção das perguntas.

_Bom, diante desses seus relatos, estou me sentindo atrasada. Como se tivesse passado anos dormindo.

_Porque?

_Não sei, de repente, me deu vontade de ter vivido mais coisas.

_Transado com outras mulheres?

_Talvez...

Disse de maneira incógnita.

_Você tá excitada!

_Eu?

_Sim. Tenho certeza.

_E como é que você pode saber disso, hein?

_Por que eu conheço a cara que você faz ai. Sei que quando você morde os lábios desse jeito é porque tá com tesão.

_uhm, nada a ver.

_Ah, é?

_Simples então, confere e me mostra!

_Oi? Aqui na frente de todo mundo?

Olhou para os lados, mais como um reflexo.

_Sim, isso me excita, a você não? E outra, daqui onde estamos, nem tem como ninguém ver nada. Anda, me mostra.

Mantinha um sorriso lascivo no rosto.

A assistente permanecia sem saber o que fazer, queria corresponder ao pedido da outra, mas a ideia do local público lhe travava. Era “muita loucura”, pensava. Até que se questionou se não era exatamente isso que vinha fazendo desde que conhecera a mulher que estava a sua frente aguardando ansiosamente um ato ousado seu. Sem contar que sim, aquilo a excitava, mais do que já estava em decorrência da conversa que tiveram. Saber da liberalidade sexual da fotografa definitivamente mexera bastante com ela. Então, se decidiu, o que a outra pediu, afinal de contas, por que não? Entendia que a vida ao lado de Marina seria sempre assim, leve, cheio de surpresas, e principalmente de loucuras. Levou a mão direita, a que ficava escondida pela posição que se encontrava sentada dentro da calça, não se deteve pela calcinha foi direto à parte que interessava à outra e tirou lá de dentro não apenas um dedo lambuzado, mas três.

Marina pôde ver o líquido refletindo nos dedos dela, assim como sentir o cheiro inebriante que exalava deles. Salivava, sobremaneira, queria-os. Aliás, queria beber da fonte, já! No entanto, como sabia que isso não seria possível instantaneamente, conformou-se, a princípio, com os dedos lambuzados.

_Eu não disse?

Tentou divertir-se com o constrangimento da outra, porém, não se demorou, havia outra coisa mais importante a fazer.

_Me dá?

Clara mal podia acreditar que a fotografa estava fazendo aquilo, quer dizer, pedindo-lhe aquilo. Mas, fez o que ela queria. Sempre o faria. Deu-lhes a ela, um a um. E enquanto ela os chupava, o local da onde a assistente acabara de tirá-los era inundado cada vez mais.

_Que safada!

_Até a onde eu sei não sou eu quem está ensopada.

Divertiu-se mais uma vez.

_Vai querer me dizer que não tá do mesmo jeito?

_Bom, depois de sentir o seu gosto, o seu cheiro seria impossível não ter ficado, né?

_Então sinto te comunicar mocinha, mas estamos no mesmo barco.

Riu.

_Eu ficaria feliz se estivéssemos no mesmo barco sozinhas e que você estivesse pelada.

Clara simulou ter ficado chocada.

_Marina, que absurdo, comporte-se.

_Eu não, nunca fui comportada. Vamos embora?

Olho-a como se dissesse a ela que não iam para um barco, porém, em breve fariam o mesmo que se em um estivessem.

_Achei que não ia perguntar nunca.

Respondeu chamando o garçom, com pressa.

Notas finais
Eitaa Chica, caiu na lábia da Clarinha.. Mas, quem não? rsrs E ai, tão curtindo a viagem a trabalho da Clara? :P