Notas iniciais
Crianças, a ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bem simples: a magia existe. Stephen King

Não se esqueceu mesmo, ao chegar em casa deparou-se com o convite para a exposição da filha de seu antigo amigo Diogo. “Ora ora, aquela garotinha insuportavelmente mimada do Diogo cresceu e resolveu se aventurar pelo mundo das artes, quem diria?” Pensou consigo mesmo.

Resolveu reencaminhar o convite à moça simpática que conhecera naquela tarde e que lhe confidenciou gostar de fotografia. Não seria difícil fazê-lo, como a moça disse ser uma das donas da casa de leilões, enviou o convite para lá, com o nome dela: Clara.

***

Dois dias depois Cadu falou à Clara sobre a correspondência que a mesma tinha recebido. Como isso raramente acontecia a dona de casa ficou curiosa e surpreendeu-se ao se deparar com um convite para uma exposição fotográfica. Leu o cartão e lembrou sorrindo do senhor galanteador que conhecera dias antes. “Ele realmente não se esqueceu de mim” pensou achando graça internamente.

Dentro, ao abrir o envelope, deu de cara novamente com aquele nome: Marina Meirelles.

“É ela”! Ao pensar isso, primeiro seu coração apertou como se tivesse se comprimindo dentro do peito e logo depois passou a bater mais rápido, como se tivesse tendo uma leve arritmia. Ignorou a sensação, pois só conseguia lembrar do dia que havia visto aquelas fotos na revista e de que naquele momento desejara muito ir a uma exposição daquela fotografa, aliás, daquela “artista genial” era assim que Clara se referia internamente a Marina. E agora ela estaria expondo no Rio, era uma oportunidade única, não deixaria de ir de forma alguma.

Foi logo insistindo com Cadu para que eles fossem. O marido que nem conhecia esse interesse recém-adquirido da mulher por fotografia não demonstrou muita vontade, ainda mais que no dia da exposição ele e os amigos (da culinária) já estavam combinando um jantar importantíssimo (pra eles). Sugeriu que a esposa buscasse a companhia da irmã, da mãe ou da tia.

Clara mesmo contrariada aceitou a ideia, afinal de contas, fazer o que?

Acabou convidando, além do marido, a irmã mais velha, a mãe, a tia (Juliana) e o marido (Nando) e de tanto que ela insistiu acabaram todos, menos Helena, aceitando. Clara sentiu-se imensamente feliz, com a perspectiva daquele evento, embora se a perguntassem, ela não saberia precisar o porquê.

***

Chegara o dia. Marina tinha acordado uma pilha de nervos. Estava junto com Vanessa e Flávia (sua produtora fotográfica) no espaço reservado para a exposição. A fotógrafa brandia ordens pra cá e pra lá. Queria que cada painel estivesse posicionado impecavelmente e disposto no lugar ideal, que combinasse com o conceito de cada foto.

As funcionárias acompanhavam o nervosismo sem entender, já tinham realizado várias exposições como aquela e nas outras, Marina tinha delegado essa função para uma delas já que o dia da abertura era seu dia de cuidar da beleza. Passando horas em algum spa se produzindo e relaxando.

Mas, como Marina era geniosa e conhecidamente volúvel nem se quer a questionaram, deixaram que a mesma cuidasse da disposição das obras, afinal de contas, eram suas.

Terminaram o trabalho já no final da tarde, pois, Marina mudou de ideia várias e várias vezes. Só se convencendo porque não havia mais tempo para mudar de ideia mais uma vez. Correram para a mansão da fotografa a fim de se arrumarem e voltarem para grande noite.

No caminho Vanessa aproveitou para chamar a atenção da fotografa:

_ Marina o que aconteceu com você hoje? Meu Deus, nunca vi tanta insegurança, você nunca foi disso.

_ Ih, Vanessa o que, que tem? Só quis dar o melhor de mim, achei que se eu escolhesse e pensasse melhor a disposição das peças no espaço o meu trabalho ficaria mais completo.

_Uhm, foi só isso mesmo?

_ Ai Van, não sei o que me deu. Hoje fiquei assim, aliás, desde que pousamos no Brasil estou me sentindo assim. Inquieta, insegura, com o coração apertado como se alguma coisa ruim fosse acontecer.

_Ai credo, isola.

Vanessa bateu três vezes no ar, como se estivesse batendo em uma madeira imaginária.

_ Pois é, e hoje ali naquele espaço foi como se nada que eu fizesse estivesse suficientemente bom. Como se hoje a noite eu fosse ser vítima dos críticos de arte mais ferrenhos.

_ Mas, você nunca se importou muito com as críticas dos críticos.

Riu da figura de linguagem que acabara de proferir.

_Eu sei, por isso eu disse “como se” mas, sei que não é isso só não sei dizer o que é.

_Eu hein.

_Deixa ela Van, é coisa de artista.

Interrompeu Flavinha, tentando descontrair.

As três caíram na gargalhada já quase chegando a mansão.

***

Ao perceber que quase a família inteira tinha se disposto a ir na tal exposição, Cadu resolveu acompanhá-los também, afinal de contas, com todo mundo junto um “programa tão chato” ficaria mais divertido, sem contar “a comida que deve ser de primeira” disse ele a Clara.

_Ai Cadu, pô. Eu me interessei pela fotografia, acho as fotos dessa mulher sensacionais, o que, que tem uê? Custa você acompanhar a sua mulherzinha um único dia sem reclamar pô?

_ Não amor, não custa, mas ainda tô tentando entender você se interessar por mulher pelada.

Soltou uma gargalhada.

Clara fez uma cara sentindo-se falsamente ultrajada.

_ Ai Cadu, você me respeita, hein? O importante nas fotos não é as mulheres estarem peladas, é a qualidade da imagem, a delicadeza do olhar do artista, nesse caso, da artista. Entendeu?

_ Uhm, não. Más tudo bem amor, tô indo por você... e... pela comida é claro.

Clara desistiu de tentar explicar ao marido, ele não entenderia mesmo. Mas o importante era que eles estavam indo, naquela noite ela realizaria um de seus pequenos sonhos: Estariam numa luxuosíssima exposição fotográfica.

E aquele nome? Marina Meirelles, a atormentava toda a vez que emergia em sua mente.

***

Marina estava em uma sala reservada esperando os convidados chegarem, queria aparecer em grande estilo, chamando a atenção de todos os presentes. E naquele momento experimentava um nervosismo nunca antes vivenciado. Uma ansiedade agonizante, andava de um lado para o outro.

_Calma Marina, até parece que é a sua primeira exposição.

_ Não é por causa da exposição Van, eu não sei o que está acontecendo comigo. Acho que estou ficando doente.

_ O que? Você tá passando mal?

_ Não, não é isso, mas eu não posso estar normal. Tem alguma coisa acontecendo comigo.

_ Ai Marina, isso lá são horas? Você precisava aparecer na abertura da sua própria exposição! Mas, se acha que não está se sentindo bem, eu posso dar uma desculpa, eu fico converso com a impressa dou atenção a alguns convidados e você vai pra casa.

_ Não!

Disse enfática.

_Eu vou ficar aqui, vou abrir essa exposição, é aqui mesmo que eu tenho que estar. De jeito nenhum que vou embora.

Continuou ela.

Vanessa confusa olhou de Marina para Flavinha que devolveu um olhar como se dissesse “Deixa ela”.

E foi o que Vanessa fez.

***

Lady Marmalade começou a tocar lá fora no salão e as três sabiam que essa era a deixa para Marina entrar o que foi feito por ela divinamente sendo aplaudida por todos que ali estavam. Foi descendo lentamente a enorme escadaria que levava ao primeiro piso enquanto era fotografada e ovacionada por todos os lados. Adorava todo aquele destaque, ver as pessoas a admirando fosse por seu talento ou por sua beleza, não fazia diferença o importante era que uma coisa ou outra inflavam seu ego e ela amava isso. Naquela noite porém, algo a incomodava, algo que ela nunca sentira antes. A sensação era como quando você faz muita força para se lembrar de alguma coisa e a todo momento fica a um passo de conseguir e de repente a memória se esvai e você segue frustradamente e continua tentando lembrar. Quando acabou de descer as escadas e se virou para o sentido oposto ao que inicialmente estava, foi como se recebesse a carga de uma vida inteira de lembranças esquecidas e a única coisa que conseguiu pensar foi:

“É ela”. Não entendeu muito bem o que isso queria dizer, mas...

Todo o incomodo sentindo anteriormente, a ansiedade, a sensação de desconforto e de até a ideia de possível doença ficaram claros para ela naquele momento, era para aquela descarga de adrenalina que o corpo estava preparando-a, eram sinais que a alma havia lhe enviado.

Ficou parada por alguns segundos sem conseguir reagir, olhando aquela desconhecida e que ao mesmo tempo lhe era tão familiar. Pela primeira vez na vida, ao menos pelo que se lembrava, sentiu insegurança diante de uma mulher. Pediu a Vanessa que a levasse até ela, sendo obedecida prontamente.

Notas finais
E ai? Foi bom pra vocês? rsrs