Notas iniciais
É brega mas é bonitinha e convém para o momento: "...Se alguém pudesse adivinhar O que fazer, o que falar Um encanto pra fazer o amor surgir..."

Clara e família haviam chegado todos juntos à exposição, porém, logo dispersaram-se ficando a dona de casa apenas na companhia do marido. Olhava aqueles painéis enormes com um misto de deslumbre e veneração, julgava ser a coisa mais linda que vira em sua vida até agora “Tirando a paisagem do Rio de Janeiro, é claro” pensou.
Cadu, ao ver tantas fotos de mulheres peladas até que se animou um pouco mais em ter ido até ali, apesar de estar com a cabeça quase que totalmente no jantar que estava perdendo naquele momento. “Uma receita nova de risoto pô” se martirizava internamente. Mas, sabia que andava um pouco “relaxado” com a esposa nos últimos tempos então resolveu ir para agradá-la e deixá-la um pouco mais feliz.
Clara naquele momento estava aérea, envolvida nas imagens que via, naquelas fotos, naquelas mulheres. Um filme se passava em sua cabeça, estava em um mundo particular que era só seu, de mais ninguém. No entanto, como se uma força invisível agisse sobre ela, como se o centro da gravidade mudasse e em vez de estar sob seus pés, estivesse à sua direita. Virou-se e deu de cara com um “anjo” olhando-a fixamente. Sim, em um primeiro momento aquela mulher lhe pareceu um anjo, usava vestido branco e olhos castanhos, quase negros, encarando-a como se estivesse lhe desvendando a alma. De repente seus olhos não eram mais capazes de desviar dos dela, suas pernas perderam a força e ela quase não conseguiu se manter de pé, enquanto a outra sorria e se aproximava cada vez mais. Clara só conseguia sentir uma coisa, isso mesmo, sentir. Porque naquele momento ela não foi capaz de nenhum pensamento coordenado: “É ela”!
A sensação de pertencimento atingiu-lhe o espírito e foi invadida pela mesma carga de quem é atingido por uma vida inteira de lembranças esquecidas, sentimentos esquecidos. É claro que a mente, de fato, não tinha se lembrado de nada inteligível, até porque até então elas não se conheciam. Contudo, estava claro que o que o cérebro não foi capaz de recordar, a alma foi plena e completamente.

Antes que tivesse tempo de formular qualquer pensamento coerente a mulher já tinha alcançado-a, estava falando com ela.

_Quem é você?

_Como quem sou eu? Como?

Respondeu Clara se enrolando um pouco com as palavras.

_Não, é porque eu tô te vendo assim pela primeira vez de perto, mas eu já te vi em alguma revista, programa de TV, jornal...

Sorriu nervosamente e Clara retribuiu o mesmo sorriso nervoso.

“Esse sorriso...” Pensaram as duas mutuamente.

_Não você deve tá me confundindo com alguém porque eu nunca fui fotografada. Quer dizer, a não ser nas festas de família lá em casa, mas... não...

Disse timidamente, no entanto, mantendo o sorriso no rosto.

Marina recebia cada uma daquelas palavras em estado de euforia interna, não entendia porque, mas também não se importava. Esqueceu a exposição, os fotógrafos, repórteres, a mídia, enfim, tudo. O motivo da realização daquele evento estava ali na sua frente, ela sabia disso, embora não soubesse como sabia.

_Tudo bem, mas agora você vai ter que me dizer o seu nome, o que é que você e onde foi que você encontrou tanta beleza.

_Nossa, eu não esperava essa entrevista toda, mas tudo bem. Vamos lá... Oi, meu nome é Clara.

Enquanto dizia essas palavras ofereceu a mão à Marina para que a outra pudesse apertá-la, trocando assim, um cumprimento formal.

_Marina.

Disse a fotografa retribuindo.

_Oi.

As duas não paravam de sorrir abobadamente naquele encontro.

_ Eu não faço, quer dizer, nada assim de especial. Sou uma mulher comum, uma dona de casa, mas principalmente uma grande admiradora do seu trabalho.

Falou a dona de casa, olhando em volta em admiração mostrando que o que acabara de dizer era sincero.

_Muito obrigada, mas e a beleza? Onde é que você encontrou?

_Ai, não. Em lugar nenhum, nem me acho bonita.

Respondeu ainda tímida e continuou.

_ Agora se eu disser que você sim é linda vai parecer que eu tô querendo devolver o elogio, mas não é não, é sincero, tá?

_ Vamos combinar que as duas são bonitas e a gente sai pra desfilar nossa beleza pelo salão.

E foi se aproximando dela já lhe dando o braço.

Enquanto Marina pronunciava essas últimas palavras Clara só conseguia pensar “Que olhar”, havia ficado estupidificada com a maneira que aquela mulher a olhara, como se tivesse despindo-a. Não pôde recusar o convite e no momento em que Marina começou a conduzi-la pelo salão ela soube, soube que jamais conseguiria recursar qualquer coisa que aquela mulher lhe pedisse. Ainda tentou fazer com que o marido as acompanhasse, chegou a apresentar os dois, porém, Cadu não saia do telefone e a verdade é que era “melhor assim”, pensou.

Não se desgrudaram mais durante toda a exposição, Marina foi contando uma por uma a história das fotos ali expostas naqueles painéis gigantes, e Clara olhava dela para as fotos, das fotos para ela com ares do mais puro e genuíno fascínio. Por vezes a fotografa precisa parar para atender aos repórteres, tirar fotos e etc, enquanto o fazia Clara permanecia a seu lado, esperando-a terminar pacientemente.

Marina sentia conforto na presença de Clara, mesmo tendo se conhecido há apenas alguns minutos. O ar tímido da dona de casa deixava a fotografa ainda mais encantada. A morena que lhe acompanhava era linda, trazia consigo uma luz própria imensurável e o mais incrível e que parecia

não saber disso, “como é possível”? Pensava Marina.

Clara por sua vez não conseguia acreditar que em meio a tanta gente importante Marina tinha voltado sua atenção justamente para ela, “Existe uma conexão aqui, será que ela também sente isso”? Perguntava-se.

Já quase no final da exposição isso parecia mais evidente entre elas, mesmo que não tivessem comentado nada. Estavam menos nervosas na presença uma da outra, a emoção e tensão do primeiro momento tinha se diluído se transformando em outra coisa que elas não saberiam nomear, mas era um sentimento bom, caloroso.

Marina disse a Clara que faria uma festa particular em sua casa logo mais, com poucos convidados para comemorar a abertura da exposição e sua volta ao Brasil, convidou-a já deixando claro que não aceitaria não como resposta.

“Eu não sei se algum dia eu vou conseguir dizer não para você” Pensou sonhadoramente Clara surpreendendo-se e sobressaltando-se instantaneamente por ter tido esse tipo de pensamento, mas, mesmo assim, aceitou, a princípio esquecendo-se do marido e dos outros integrantes da família.

_ Ai Marina, desculpa. Eu esqueci, estou aqui com um tanto de gente da minha família, inclusive meu marido. Acho que não vai dar, melhor a gente deixar pra próxima.

Falou à fotografa ao lembrar-se deles.

_Nada disso, leva a sua família ué, pronto.

_Nossa, mas....

_Clara, eu já te disse que não aceito não. Você vai na minha festa sim.

Falou fitando-a intimidadora.

Clara assentiu, olhando para os próprios pés. Já havia feito aquilo várias vezes naquela noite porque não conseguia olhar nos olhos da mulher à sua frente por muito tempo. Tinha medo do que podia acontecer, não que tivesse uma ideia clara de que se sentia atraída por ela, era mais uma sensação de se a olhasse por muito tempo, mergulharia e se perderia naqueles olhos. Tinha medo, porém, não se sentia confusa, seja lá o que estivesse sentindo do lado de Marina, não se tratava de um sentimento novo ou desconhecido, era algo extremamente familiar e reconfortante.

***

Após o término da exposição Marina chegou em casa e se recolheu em seu quarto por alguns minutos, até seus convidados tivessem chegado, embora, naquele momento o único convidado que importava era “ela”. “Clara” pensava suspirando olhando-se em frente ao espelho. Seu corpo estava novamente tomado por aquelas sensações estranhas que sentira antes da exposição. Só que dessa vez ela sabia qual era o motivo, não estava doente afinal de contas. Após retocar a maquiagem, ter dado uma arrumada nos cabelos e vestido um casaco leve por cima do vestido que usara, resolveu que era a hora de descer para festa. “Ela já chegou”, Marina sentia.

Quando chegou no alto da escada, seus olhos encontraram, mais uma vez com os de Clara, ela estava lá, olhando para cima com o sorriso mais encantador que Marina já vira. Esperando-a. Na verdade todos os convidados olhavam para a anfitriã, mas, ela só enxergava a morena de cabelos longos que reluzia como o sol ali no meio da noite. Seu coração estava aos pulos, se sentia emocionada e sob os aplausos dos presentes foi descendo as escadas, se encaminhando à festa, se encaminhando para Clara.

Desceu apenas alguns poucos degraus até ser tomada por uma forte vertigem, tentou continuar, mas seu corpo não obedecia e se não fosse seu primo Ricardo para segurá-la quando desmaiou, teria rolado escada abaixo.

***

Todos os presentes ficaram sobressaltados com o acontecimento e não demorou muito para começar um borborinho sobre a causa do desmaio. Uns diziam que o motivo do desmaio seria porque a fotografa estava grávida, outros que era porque ela tinha distúrbios alimentares e etc. Os membros da família Fernandes, menos Cadu que havia desaparecido, também comentavam com curiosidade o que acontecera à Marina. Porém, Clara não conseguia prestar atenção em nada que diziam. Só conseguia pensar na cena de Marina desmaiando e sendo levada para cima as pressas. Seu coração apertava pensando na fotografa tão frágil, estava preocupada e isso estava deixando-a sem lugar.

Queria vê-la, aliás, precisava vê-la. “Cuidar dela” comovia-se. Então, tomada por uma espécie de força invisível, foi se desviando da própria família, caminhando até a escadaria daquela mansão onde nunca tinha estado e sem nem ao menos pensar no que estava fazendo, foi subindo.

Notas finais
Estou meio morta hoje, revisei mas se tiver passado alguma coisa, por favor, relevem. Comentários, please. :)