Unchained Melody
45 Revival
Notas iniciais
_Tudo bem. Quer sentar? Beber alguma coisa?
_Não vem com essa não, Marina. A mim você não seduz, não conquista.
Marina olhou-o incrédula, depois fez, porém firme, uma cara que dizia “pois bem, então pode falar”.
_Eu vim aqui porque eu quero saber o que foi que você fez com a minha mulher — Deu ênfase nessa última parte.
_Oi? — Ela soltou um riso nervoso — Sua mulher? Pelo que eu sei vocês estão separados, e até onde eu sei também, você concordou com a separação numa boa.
_Não desconversa. Você entendeu bem o que eu quis dizer. Como é que você fez pra Clara mudar de gosto?
_Mudar de gosto? Parece que a gente ta falando de uma das suas receitas. E eu não fiz nada disso que você tá pensando, não precisei.
Cadu se enfezou mais ainda com essas últimas palavras. Para ele, Marina estava sendo arrogante, soou como se ela afirmasse que fora Clara quem se jogou voluntariamente nos braços dela e ele não conseguia conceber a ideia.
. _Você é muito cínica mesmo. A Clara nunca gostou de mulher ai aparece você oferecendo “mundos e fundos” desfilando essa sua vidinha besta e fútil...
_Você ta procurando coerência ou verdade? — Marina o interrompeu em um tom áspero antes que ele terminasse.
Cadu abaixou a cabeça. Estava irritado e confuso. De fato não entendia como aquilo tinha acontecido. Porque era tão difícil para ele que a ex se relacionasse com uma mulher? Perguntava a si mesmo. Mas, não encontrava respostas. Seria o preconceito? Talvez, mas se fosse este havia nascido dentro dele só nessa altura da vida porque até então nunca o tivera. Ou seria orgulho ferido? Fosse o que fosse agora ele estava descobrindo o quanto era difícil aceitar uma relação homossexual vinda de uma mulher que um dia foi sua. Será que isso acontecia porque soava como se ele, enquanto homem, não fora bom o bastante a ponto dela preferir se relacionar com outra? Todas essas questões circundavam sua mente.
Como Cadu não disse mais nada. Marina continuou.
_Cadu, eu não fiz nada pra virar a cabeça da Clara, como você diz. Apenas aconteceu.
_Quer dizer então que você se recusa a assumir que enfeitiçou a Clara com esse seu mundinho besta, fútil? — repetiu — Que não deixou ela deslumbrada com tanto luxo?
A fotografa agora se indignara.
_Se você acha que ela se deixaria levar por essas coisas é porque você não conhece a mulher com quem viveu por tanto tempo. E outra, esse mundo pode ser estranho a você, mas é a minha vida! É real. E se por acaso ela se encantou com qualquer coisa, quer dizer, comigo dentro desse contexto, não é responsabilidade minha porque eu sou assim. Como eu te disse antes, aconteceu.
Os ânimos estavam bastante exaltados.
_E você conhece, né? A ponto de falar por ela.
_Não tô fazendo isso. Tô apenas repetindo o que ela mesma te disse.
_Foi por sua causa que ela quis se separar, não é?
_Há coisas que se diz melhor calando.
Ele riu em desespero.
_Você é muito baixa, mesmo. Não tem vergonha de levar uma mãe de família pra esse seu — pausou e nessa hora seu semblante transmitia repulsa, porque a cena que presenciara no galpão não parava de se repitir em sua cabeça — mundinho sujo?
Agora Marina perdeu a paciência.
_Mundinho sujo? Você não sabe do que ta falando. Só porque duas mulheres se amam e vão pra cama — aumentou o tom de voz — sim, vão pra cama! Isso significa que é sujo? Me poupe e não pensa que me ofende porque eu já sou escolada no trato com gente preconceituosa como você. Eu amo a Clara e amo o seu filho também.
_Não falo do meu filho! Não toca no nome dele. — gritou. Nessa hora pareceu que ele avançaria nela, deixando-a assustada e estarrecida, no entanto, não abaixou a cabeça.
_Eu falo o que eu quiser. Estou na minha casa e foi você quem veio aqui sem ser convidado. Essa virilidade toda e esse discurso de pai preocupado não me botam medo, nem me convencem porque se você estivesse tão preocupado com seu filho nem cogitaria a possibilidade de fazê-lo sofrer à toa só por causa do seu brio de homem ferido. Porque é isso que vai acontecer caso você resolva levar adiante essa disputa absurda de guarda.
Cadu estava furioso e o tom de sua pele denunciava isso. Ela continuou:
_Porque uma coisa eu posso te garantir. Você nunca vai conseguir tirar um filho de uma mãe como a Clara e os meus advogados se certificarão disso.
_Ah, claro. O dinheiro. Porque não me surpreende você jogando o dinheiro que tem na minha cara? Até porque esse deve ter sido um dos artifícios que você usou com ela.
_Não, eu não precisei e também não preciso de dinheiro pra garantir que você não consiga tirar o Ivan dela. Juiz nenhum tira o filho da mãe sem motivos. Se não acredita, procura um advogado e pergunta pra ele. Agora faz o favor de se retirar da minha casa porque não é bem-vindo aqui. — Terminou firme, embora, por dentro sentisse uma dor de cabeça “daquelas” se aproximando e o corpo um pouco mole.
Ele ameaçou proferir mais alguma ofensa, mas, desistiu. Cadu sabia que o que a fotografa dissera era verdade. Na raiva nem pensara na falta de fundamento de suas ameaças. Ele saiu. Mas não conseguiu deixar de falar uma última coisa:
_Isso não vai ficar assim.
No instante em que Cadu se retirou, Marina com o coração acelerado sentiu o corpo amolecer ainda mais. Teria caído se Vanessa, que ouviu os gritos e chegou a tempo de ver o ex de Clara saindo, não a amparasse.
_Marina, Marina. Acorda! — A ruiva tentava segurá-la quando ela desfaleceu nos seus braços. O desmaio foi rápido, ela não perdeu completamente os sentidos e quando se recuperou o suficiente para ficar de pé por conta própria, Vanessa a levou até o sofá, deixando-a repousada nele.
_Que foi que aconteceu? — A ruiva era pura preocupação.
_Não sei. Acho que me excedi na discussão com o Cadu e minha pressão abaixou. — Falou ainda um pouco mole e continuou — Minha cabeça ta doendo, Van. Me ajuda aqui a ir pro quarto.
_Você devia ter me chamado quando esse grosso chegou. Ouvi um pouco da conversa e fiquei com medo dele te bater.
Marina riu.
_Ah, não exagera Vanessa. — Tranquilizou-a, embora em certo momento ela também tivesse tido essa impressão. — Ele tá nervoso só isso. Quando acalmar vai se dar conta das besteiras que anda fazendo e falando.
_Eu não teria tanta certeza.
_ Eu conheço o Cadu, ele é um cara legal.
_Se você diz...
_Sim. Agora me ajuda aqui. Tô mole ainda e minha cabeça estourando.
**
Eu ainda estava abalada com a visita do Cadu e conversava com Vanessa sobre isso quando fui surpreendida por uma bela surpresa. Clara, Ivan e Bolinha.
_Viemos fazer uma visita e trouxemos o jantar. — Clara falou e Ivan confirmou animado.
Ela trazia no braço uma cesta como as de piquenique.
Me aprumei e por hora, esqueci a vista de Cadu.
_Oba! -Falei. Vamos lá pra baixo. Já quero saber o que tem dentro dessa cesta ai e tô morrendo de fome. Vem também, Van.
A Vanessa ficava constrangida diante da Clara pelas coisas que aprontou, mas eu já tinha contado sobre o apoio que recebera da ruiva, então ela, Clara, resolveu baixar a guarda.
_Vem Vanessa, come com a gente.
A Vanessa tinha me dado um comprimido para dor de cabeça e esta estava bem fraca agora, pensei que comendo ela passaria de vez e eu estava certa.
Nos reunimos na mesa da copa e durante o “jantar” improvisado, Ivan me surpreendeu com uma pergunta:
_Marina...
_Oi, meu amor. — Respondi carinhosa e ele pareceu refletir.
_ Você e minha mãe podem casar? Eu corei ao mesmo tempo em que a Clarinha engasgou.
_Que isso filho, isso lá é pergunta?
_Ué, quando as pessoas namoram e se amam, elas casam, não?
Nós três, inclusive a Van rimos.
_Sim filho, mas ainda é muito cedo pra isso – Clara respondeu me dirigindo um olhar de cumplicidade — Entendeu?
_Acho que sim. — Terminou pegando um pedaço da torta que a mãe preparou e dando na boca do melhor amigo que o olhava vidrado em posição de guarda ao lado de sua cadeira.
_Ivan! Já te falei que não pode ficar dando essas coisas pro cachorro.
_Ah, mãe foi só um pedacinho.
_Mas a sua mãe tá certa Ivan. Cachorros têm que comer a comida deles, que é feita especialmente pra eles. Se não podem ficar doentes. — Vanessa explicou paciente ao menino deixando eu e Clara totalmente surpreendidas. Ivan, por sua vez, abaixou a cabeça encabulado.
_Tá bom. Eu não quero que o Bolinha fique doente.
_Nem nós – eu falei – não é, Clara?
_Claro que não. Mas, e ai? Vamos terminar de comer ou não? — Falou alegre em direção ao filho.
_Vamos! Eu adoro essas coisas que você fez, mãe. — E atacou um sanduíche de atum.
Após a refeição a Van se retirou, acho que ela quis nos deixar sozinhos. Ou, estava aprontando alguma coisa que eu não sabia o que. Haviam dias que estava estranha, parecia estar me escondendo alguma coisa. Será que tinha alguma mulher nessa história? Me perguntei, e a ideia muito me agradava. Queria vê-la feliz.
_E nós viemos pra ficar hoje, né filho? — Clara me disse logo após a saída de Vanessa.
_Jura?
Eles confirmaram e eu vibrei.
_Marina, vamos jogar videogame?- Perguntou empolgado o menino.
Antes, porém, que a fotografa pudesse se manifestar, Clara o fez.
_Nada disso. Eu avisei que viríamos jantar, mas que você ia pra cama em seguida, lembra mocinho? Já tá na hora.
_Ah, mãe. Só um pouquinho.
_Nada disso. Sem exceções no horário de dormir. Você sabe disso.
Ele se deu por vencido e eu o olhei como se dissesse “mãe, é mãe, tem que obedecer”.
Levamos os dois amigos (Ivan e Bolinha) até o quarto de hospedes e enquanto ele se preparava para dormir, acabou nos convencendo a assistir a um filme primeiro. Nos apertamos os três na cama de solteiro com ele no meio, claro, e Bolinha querendo ficar entre nós de todo o jeito.
Com menos de 15 minutos de filme, Ivan caiu em um sono pesado.
_Eu sabia que isso acontecer. — Clara falou baixinho e rindo.
_Conhece bem o filhote, né?
_Uhum. Vamos pro quarto?
Concordei.
**
É claro que os carinhos entre elas eram comedidos na frente do garoto, mas era maravilhoso poderem se olhar apaixonadas sem precisar disfarçar. Também foi muito bom terem podido conversar, e se tratar carinhosamente. E na hora de dormir, mesmo que ele não tivesse apagado antes delas se despedirem dele, não haveria constrangimento ao se dirigirem para o mesmo quarto. Pois, não havia mais o risco do menino fazer qualquer pergunta que elas não soubessem responder.
**
_Comprei umas coisinhas pra você. — Eu falei quando já estavamos no quarto principal.
_Ah, Marina. Não acredito que você fez isso.
_Não é nada demais. Só achei que você devia ter mais coisas aqui além da escova de dentes. — Ri — Pra não ter que ficar trazendo toda vez que vem.
Eu havia comprado os cremes que eu sabia que ela usava, shampoo, condicionador, etc.
_Agora, acho que você devia trazer algumas roupas...
A ideia de casamento estava na minha mente e achei que passou pela dela também, eu só não sei dizer se ela gostou ou não, mas concordou em fazer o que eu sugeri.
_É tão bom ter vocês dois aqui em casa, sabia? Eu queria que fosse assim sempre. Eu sou filha única, você sabe. Meu pai sempre viveu viajando e minha mãe ia com ele, então, antes de ir pro internato na maioria das vezes eu ficava muito sozinha. É bom ver a casa assim, com mais gente. Ainda mais com meus dois amores.
Clara se derretia por saber que o amor da fotografa se estendia ao filho e eu conseguia vislumbrar isso em seu sorriso, em sua alma.
_O Ivan quis vir e eu além da saudade de você, claro — me deu um beijo rápido — também fiquei com medo do Cadu aparecer...
_ Pois – pausei- ele apareceu aqui.
_ O que? — Ela perguntou chocada.
Contei como a “conversa” fora exaltada e ela se indignara a tal ponto que eu tive dificuldades para convencê-la a não procurá-lo no dia seguinte. Se o fizesse, as coisas podiam sair ainda mais do controle. No entanto, eu tinha uma maneira de fazê-la se acalmar ainda mais, se é que vocês me entendem.
Então, eu me aproximei lentamente dela, mas não me detive a sua frente. Dei a volta por trás e sem tocá-la sussurrei em seus ouvidos:
_Esquece isso e vem pra banheira comigo?
Ela, arrepiada, fez apenas um gesto de cabeça afirmativo.
_Deixa eu te ajudar com isso então. — falei baixinho ainda mais perto do ouvido ao mesmo tempo em que minhas mãos alcançaram a barra da blusa que usava. Imediatamente ela içou os braços e me deixou fazer o trabalho de tirá-la. Tirei a blusa lentamente e quando terminei, minhas mãos contornaram seu corpo, passando propositalmente pela cintura e foram parar dentro da calça. Só a provoquei com o ato, nada fiz a não ser despi-la também daquela peça de roupa. Enquanto o fazia eu respirava propositalmente em seu pescoço. Queria provocá-la, desorientá-la, fazê-la esquecer qualquer preocupação ou aborrecimento. Os pelos eriçados de sua nuca confidenciavam-me que eu estava obtendo êxito. Além da nuca, eu, com minhas mãos que agora percorriam seu corpo sem a barreira imposta pelas roupas sentia a pele bronzeada e macia toda arrepiada.
_Isso é covardia, sabia? — ela disse ainda de costas para mim.
_Sabia, mas – pausei em um suspense instigador. — Não é relaxante? Não te faz esquecer os problemas?
_Faz. E eu quero que você faça mais. Me faz esquecer de tudo, daquele jeito que só você sabe fazer. — Me pediu em um tom safado, provocativo e ousado.
Eu faria,, é claro que eu faria (…)
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