Unchained Melody
32 Memory
Notas iniciais
Cadu que mesmo estando apaixonado por Verônica há tempos, antes mesmo de se separar, começou a se questionar sobre a natureza do relacionamento da ex mulher com a chefe e não gostou nada do que lhe passou pela cabeça. De certa forma, já havia notado a proximidade exagerada, no entanto, nunca se quer tinha cogitado a possibilidade de existir algo a mais entre elas, até aquele momento. E mesmo agora e ideia ainda lhe parecia absurda, embora julgasse bastante estranho o fato de Clara nunca ter comentado com ele nada sobre a sexualidade de Marina.
_Cadu?
Chamou a musicista notando o outro distante.
_Oi Vê, desculpa eu tava pensando umas coisas aqui do bistrô.
Verônica percebeu a mentira e estranhou a reação do amigo ao saber sobre a sexualidade da chefe da ex esposa, no entanto, sempre muito discreta, preferiu não estender o assunto. O mesmo se aplicou a Cadu, Clara certamente não comentou nada porque provavelmente julgara que aquilo não era algo a se sair gritando, por isso, o chef preferiu seguir desfrutando da companhia de Verônica deixando que as desconfianças se dissipassem.
***
_O senhor jantou mocinho?
Perguntou Marina ao filho de Clara já dentro do carro.
_Já. Meu pai fez um tanto de coisa gostosa pra eu e a Verônica experimentarmos. Tô cheião.
Falou indicando a barriga, gesto que a fotografa pôde ver pelo retrovisor.
_Que garoto sortudo você é por ter um chef de cozinha especialmente pra você – o menino assentiu. Já eu tô morrendo de fome. Será que a sua mãe já jantou?
_Bom, só se ela foi jantar na tia Helena porque duvido que tenha cozinhado pra ela sozinha. Minha mãe não gosta muito de cozinhar não.
Falou como se contasse um segredo.
A revelação fez com que ambos rissem bastante.
_Então, vamos arriscar e levar alguma coisa pra ela? O que você acha?
_Pizza! Vamos levar pizza, ela adora.
Marina olhou para ele como se estivesse em dúvida sobre quem realmente adorava pizza, a mãe ou o menino, mas seguiria a sugestão dele.
_Vamos levar pizza então.
Sorriram-se cúmplices.
***
A campainha tocou e Clara correu para atender a porta pensando ser Cadu e preparada para chamar-lhe a atenção pelo horário. Passava da hora do filho ir para cama, por isso, nem sequer olhou pelo olho mágico. Com a porta aberta os dois, Marina e Ivan pularam a sua frente gritando “surpresa”. Um sorriso de ponta a ponta surgiu instantaneamente na face da dona de casa. Quem também fez festa ao com a surpresa foi o pequeno cão abanando alegremente o rabo pela chegada do melhor amigo.
Clara apesar de feliz quis logo saber que novidade era aquela dos dois andando sozinhos por ai, então eles lhes explicaram que Cadu estava enrolado no bistrô e Marina oferecera-se para levar Ivan em casa. Ao terminar de ouvir Clara agradecera-a com o olhar, além de mal se aguentar de felicidade pelo contato espontâneo da namorada com o filho.
_Mas e essa pizza ai na sua mão, Marina?
_Bom, eu – pausou- quer dizer, nós – piscou para Ivan – pensamos que talvez você estivesse com fome, então...
Clara teve vontade de abraçar e beijar a namorada em manifestação de carinho pela iniciativa, mas se conteve. Ao invés disso se aproximou dela dando uma olhada dentro da caixa:
_Quatro queijos? Como você adivinhou que é a minha preferida?
_Um passarinho me contou. E eu adorei saber.
Sorriu para a outra sem conseguir disfarçar muito bem o semblante apaixonado.
Piscou para Ivan mais uma vez e os três riram.
_E você mocinho, já comeu ou além de estar atrasado pra dormir também tá atrasado no jantar?
_Não mãe, já comi e tô cheião.
Passou a mão na barriga.
_Uhm, que bom. Então, o senhor vai logo tomar seu banho, colocar o pijama e depois volta aqui pra dar boa noite pra gente.
_Tá bom, tá bom.
Disse contrariado indo para dentro com Bolinha correndo e pulando em seus calcanhares.
Assim, as duas ficaram sozinhas, se olhando apaixonadas até que o menino desaparecesse.
_Eu fico tão feliz de ver você se dando bem com ele. Parece um sonho.
Falou contemplativa.
_Não tem aquela música que diz que “sonho que se sonha junto é realidade”? Então... Até porque não é nenhum sacrifício ele é muito fofo, Clara. Você e o Cadu fizeram um belo trabalho, eu adoro esse menino, de verdade.
Falou sincera, fazendo com que a outra se desmanchasse ainda mais.
Na tentativa de resistir à vontade que tinha de manifestar qualquer gesto de carinho que o filho pudesse flagrar, Clara desviou-se chamando-a para arrumarem a mesa para a refeição, e também aproveitou para perguntar a Marina sobre a relação com Cadu.
_Agora me conta direito essa história de você e o Cadu próximos.
_Pois é menina, pensa bem. Que situação.
Sorriu constrangida.
_Ah, mas apesar de tudo é bom que ele conviva com você, que te conheça. Assim, vai ser mais fácil quando souber porque de qualquer forma, com ou sem o trabalho no galpão vocês teriam de conviver...
_É, por causa do Ivan. E eu espero sinceramente que quando ele saiba tudo continue do mesmo jeito. Acho ele um cara muito legal.
_Outro dia ele veio me falar de você, até esqueci de comentar.
_Falando o que?
_Tecendo mil elogios. Eu quase fiquei com ciúme pensando que talvez ele estivesse apaixonado.
Brincou.
_Olha que ele é boa pinta hein – entrou na brincadeira – Mas, acho que outra chegou na minha frente. Acho que o galã tá apaixonado pela Verônica.
Confidenciou Marina.
_Você também notou?
Marina assentiu.
_Apaixonado não, tá de quatro, todo bobo só ela não percebe. Ainda fica dando corda pro doido do meu primo. Qualquer dia vou conversar com ela, dar uns conselhos, pois ela tá achando o que? “Bom partido” e apaixonado como o Cadu não fica dando sopa por ai não – riu e pausou por uns instantes — Ele só não tá mais apaixonado que eu. — parou a arrumação da mesa para fazer um carinho no rosto da fotografa que o recebeu de muito bom grado.
_Vamos comer se não vai esfriar.
_Se é que já não enfriou.
Se sentaram à mesa e na medida em que foram se servindo continuaram conversando.
_Eu amo pizza.
_Jura? O Ivan falou mas eu não sabia se era o seu gosto ou o dele.
_Juro, eu amo. Quer dizer amo todo o tipo de massa.
_Olha, isso eu não sabia. Então, qualquer dia vou te levar num restaurante italiano ótimo.
_Oba!
Falou Clara quase como uma criança empolgada.
_Nos últimos tempos foi tudo tão corrido que nem tivemos tempo de fazer coisas desse tipo, mas tem muitos lugares aonde eu quero te levar.
_E eu vou adorar conhecer esses lugares – disse sincera — Só não vai exagerar hein Marina a gente não tá podendo, ainda.
Falou o “a gente” sem pensar e só após ter falado que se deu conta disso. O termo tinha colocado-as como mais que apenas namoradas e ela teve medo de ter parecido estar se adiantando. Marina por sua vez, foi invadida por uma alegria extrema, aquela expressão nunca antes tinha personificado tanto o que ela sentia, o que ela queria como agora. Porém, nenhuma das duas disse nada, seguiram conversando era o melhor a fazer, por enquanto.
Quando ainda estavam comendo o filho de Clara voltou sempre acompanhado de perto pelo cachorro.
_Mas já? Que banho é esse que o senhor tomou?
O menino fez uma cara de culpado.
_Seu sujinho, vem aqui deixa eu conferir.
A mãe puxou o filho para perto de si e além de cheirá-lo também fez cosquinha o que o fez sair correndo de perto dela se aproximando da fotografa, no entanto, essa também tratou de fazer-lhe o mesmo. Os três riam e se divertiam juntos
Um certo tempo depois Ivan beijou as duas e as duas deram boa noite ao cãozinho também. Aquele momento ilustrava perfeitamente a família que um dia seriam. Pensaram e desejaram ambas, cada uma individualmente.
_Não vai esquecer o que a gente combinou no carro hein Marina.
Falou o menino antes de se retirar de vez.
_Sim senhor.
Bateram as mãos, deixando Clara curiosa.
_O que vocês estão aprontando?
_Segredo nosso.
Respondeu Marina piscando mais uma vez para Ivan.
_Cúmplices vocês dois, sei.
Disse a mãe do menino em falsa reprovação.
***
Elas namoravam na sala. Clara deitada no sofá com a cabeça no colo de Marina que lhe fazia cafuné e eventualmente levava os lábios aos seus colando-os em um selinho. Ambas sabiam que a fotografa tinha que ir embora, mas a despedida era sacrificante, por isso enrolavam.
Em dado momento Clara pegou uma mecha dos cabelos de Marina admirando-lhes e chamando a atenção para a cor que tinham.
_Você gosta?
_Muito. Esse tom mais escuro em cima e um pouco mais claro nas pontas dá um contraste perfeito, fica lindo em você.
_Por que você não experimenta? Posso te levar no meu cabeleireiro.
_Ah não, pra mim não. Sempre usei essa cor, é a cor natural dele. Nunca fui muito fã de mudanças, você sabe.
_Por isso mesmo. Não acha que o momento é propício? — a fotografa sorriu.
Ambas sabiam o que ela quisera dizer, afinal de contas, no momento Clara vivia a maior mudança de todas.
_Porque? Você não gosta dele assim?
_Eu – pausou – eu acho você linda de qualquer jeito – falou sincera – só não vejo motivos pra você não fazer o que tem vontade.
Clara pareceu pensar por um momento e depois desatou a rir.
_Tá rindo do que? O que eu falei de tão engraçado?
_Nada. Tô rindo é de nós duas aqui com esse assunto de “mulherzinha”.
_Uma das vantagens de se namorar uma mulher, meu amor.
Foi a vez de as duas desatarem a rir e elas ainda riam quando a campainha tocou.
_Ué, quem será essa hora?
Perguntou retoricamente Clara se levantando do sofá e indo em direção a porta. Enquanto isso Marina aproveitou para se recompor. Não ia querer que ficasse evidente à visita inesperada que elas namoravam jogadas no sofa.
Era Helena na porta, a mesma tinha acabado de chegar de um jantar com a mãe e Ricardo, e estava um pouco alegre.
_Uhm, agora entendi o porque você não quis subir irmã... Espero não estar atrapalhando...
Disse ao dar com Marina sentada no sofá. Ao que a fotografa tentou desconversar:
_ Eu já tava indo embora, vim trazer o Ivan ... e acabamos agarrando no papo e perdi a noção da hora.
_Sei...
Respondeu um pouco irônica a outra e nada constrangida.
Marina que já havia se levantado, sem demora pegou a bolsa, se despediu quase formalmente das duas irmãs e se retirou. Obviamente Helena já desconfiava ou tinha certeza de tudo, no entanto, a fotografa raciocinava que caberia apenas a Clara julgar se estava ou não preparada para assumir.
Após a saída relâmpago de Marina, Helena encarava Clara divertida enquanto a irmã mais nova tentava desviar o olhar, como se imaginasse que se a olhasse de volta, ela veria toda a verdade estampada em seus olhos. Então, diante do silêncio da outra Helena falou:
_Linda ela. Vocês formam um belo casal.
_Oi? Vocês quem? Como assim um belo casal?
_Você e a fotografa — Helena ainda falava divertida – e não me venha falar que não, porque disso todo mundo já sabe.
Clara arregalou os olhos, então a irmã consertou:
_Quer dizer, todo mundo não. Só eu e o Filipe.
Clara relaxou.
_E a Luíza também.
_Aff, mais alguém?
A pergunta de Clara, por óbvio, significava também uma confissão.
_Não. Acho que só nós três.
Helena agora a olhava com um olhar confortador. Via confusão na expressão da irmã mais nova. Assim, Clara procurou o seu abraço.
_Vem aqui irmã. — Helena puxou-a até o sofá e nele elas sentaram – Me conta, desabafa. Sei que você deve tá precisando.
_É muito difícil pra mim falar sobre isso. Achei que fosse ser.mais fácil, mas eu simplesmente travo toda vez que me dou conta que -pausou- namoro uma mulher. — pausou novamente — E não conseguir falar ta me agoniando tanto.
Terminou pesarosa.
_Pois agora você conseguiu — Helena tentou animá-la — Mas me conta. Como foi isso?
_Eu – pausou — me apaixonei por ela.
_ Assim do nada?
_Sim. Assim do nada.
Respondeu sonhadora..
_Quando eu olhei a primeira vez pra ela... pronto. — Continuou ainda com a expressão sonhadora.
Helena fitava-a desacreditada.
_Então, isso significa que já tava rolando quando você ainda era casada? Essa foi surpresa pra mim.
_De certa forma sim...
_De certa forma, Clara? Ou tava ou não tava.
_Tava, tava sim. — respondeu fitando os próprios pés.
_Você, hein? Sempre tão certinha com as suas coisas, suas questões...
_Ai, é. — Falou escondendo o rosto com a mão em sinal de vergonha — Você acha eu tô muito louca?
_Acho que você ta é muito bem, isso sim. Ta linda, reluzente, anda com um sorriso no rosto que dá gosto.
Na medida em que Helena ia falando Clara ia se emocionando era o efeito que sensação que subir mais um degrau rumo ao objetivo de se assumir proporcionava. Por isso, enquanto a outra falava, transmitia a ela a gratidão no olhar pelas palavras proferidas.
_Então, tava tão na cara assim que todo mundo notou?
_Como não ia notar? Vocês não se desgrudam. E os olhares? Vocês se olham de um jeito... Impossível não perceber. Eu já desconfiava que você tava escondendo alguma coisa desde antes de se separar do Cadu. Tava meio distante e quando eu perguntava você ficava toda estabanada tentando mudar de assunto. Ai semana passada quando ela veio fotografar as obras do Virgílio pra exposição em Goiânia eu descobri, enfim, qual era o motivo. E além disso, o Ivan também já havia tecido um milhão de elogios à Marina o que deixava evidente a convivência constante.
Clara preocupou-se com essa última declaração.
_Você acha que o meu filho pode estar entendendo alguma coisa?
_Bom, eu não estive presente nos momentos que vocês compartilharam, os três. Mas acho que assim, objetivamente não. Ele demonstrou gostar muito da Marina, tá encantado, como toda criança fica quando aparece alguém novo na vidinha deles e que os trata bem, com carinho e etc.
_Mas, se você disse que está na cara...
_Calma irmã, assim, não acho que dê pra todo mundo notar. É porque eu sou sua irmã mais velha, praticamente criei você. Te conheço como a palma da minha mão. E no caso do Filipe também, já que você é nossa caçulinha – falou com carinho.
A outra pareceu relaxar.
_Mas por quê? Você pretende simplesmente manter isso em segredo pra sempre?
_Não! — respondeu mais que prontamente – Mas não sei irmã. Acho que ainda não tô pronta pra gritar isso pro mundo, entende?
_Entendo. Até porque deve ser uma situação bem difícil. Eu particularmente não queria estar na sua pele. Desculpa te perguntar isso, mas como irmã mais velha eu me sinto no dever. Você tem certeza disso? Certeza de tudo que tá fazendo?
_É claro que eu tenho, Leninha. Você acha mesmo que eu acabaria um casamento de quase dez anos se não tivesse?
_Eu sei, mas eu precisava perguntar.
_Conheço todas as dificuldades que eu vou enfrentar por ter feito essa escolha. Aliás, eu já as estou enfrentando por exemplo não conseguindo falar sobre elas com as pessoas que eu mais amo, não conseguindo fazer essa ponte entre a minha família e a pessoa que eu escolhi.
Seus olhos enxeram-se de lágrimas em agonia.
_Você tá muito apaixonada mesmo, né?
_Apaixonada não. Eu tô amando.
Disse sem conseguir conter um sorriso, dessa vez.
_Fico feliz por ver a alegria iluminando os seus olhinhos. — Falou Helena condescendente – Então vai fundo irmã! Eu tô do seu lado pro que precisar e no que depender de mim você não precisa mais se preocupar com essa ponte e também pode contar comigo pra te ajudar em relação ao resto da família. Porque o fato de saberem não é a mesma coisa que saberem por você, né?
A pergunta era retórica.
Agora Clara chorava e acabou um abraço apertado, protetor da irmã mais velha. O choro era manifestação do alívio que sentia, para ela era como se tivesse tirado toneladas das costas.
_E a nossa mãe? Já sabe?
_Sim. Assim como você, ela percebeu só que mais rápido.
_É irmã você nunca foi muito boa em guardar segredos – riu – Quando era pequena e fazia alguma coisa errada rapidinho eu e a mamãe percebíamos pelo seu jeito de se portar. Até quando quem fazia a coisa errada era o Filipe a sua expressão denunciava, dai era só te apertar um pouquinho que você soltava logo o que ele tinha feito.
_E ele ficava furioso comigo.
Riram lembrando do passado.
_Mas e ai? Como a mamãe reagiu?
_Bem, eu acho. Assim, a princípio tenho certeza de que foi um choque e também ela puxou minha orelha por causa do Cadu, né? Mas fora isso, nada demais. Mas, até hoje não entramos mais nesse assunto e eu preferi deixar assim, dar um tempo para ela assimilar. Mas acho que com o tempo ela vai conseguir lidar bem com isso. Pelo menos foi o que me pareceu e rezo pra estar certa.
_Tô impressionada com a dona Chica, confesso que não achei que ela fosse lidar com isso dessa forma. Você sabe que a mãe vem de família tradicional, por isso, inclusive, nunca teve coragem de se separar do nosso pai, não queria ser vista como uma mulher “separada”. Agora taí dando lição de vida.
_Pois é, mas não dizem que o amor muda as pessoas? Então, depois que começou a namorar o Ricardo a mamãe mandou muito, irmã. E pra melhor, pelo menos eu penso assim.
_Verdade.
Helena assentiu reflexiva. Ao que após instantes Clara voltou a falar:
_Mudando de assunto e por falar em exposição em Goiânia, eu não vou poder ir. Tenho muito trabalho e … — por instantes esqueceu que a irmã já tinha conhecimento do relacionamento com Marina e quase inventou uma desculpa, esfarrapada como sempre. Então consertou – Nós. Eu e a Marina temos muito trabalho e resolvemos colocar tudo em dia no sábado, já que o Ivan vai com vocês e também – corou – aproveitar pra ficarmos juntas, só nós duas.
Helena achava graça da dificuldade da irmã, mas a entendia. Ela mesma tinha ficado bastante assustada ao perceber o envolvimento das duas. Nunca imaginara que Clara tivesse tendências homossexuais. Questionou-a sobre isso, inclusive:
_E eu não tinha. Quer dizer, não sabia que tinha. Mas agora eu sei é como se sei lá, sempre tivesse me faltado alguma coisa.
_Como assim? O que você tá querendo dizer é relacionado ao sexo?
_Também...
_Porque? 'É tão bom assim, é?
Helena estava um pouco constrangida, mas a curiosidade era maior.
_Mais que isso. Não tenho nem como explicar. Quer dizer, pelo menos pra mim é... Maravilhoso.
Nesse momento ela lembrou especificamente do sexo de Marina. Os lábios carnudos e o ponto rosado no meio que a boca podia facilmente prender, já que era avantajado, principalmente quando a fotografa estava muito excitada. Até nisso elas combinavam perfeitamente. Seus clitóris eram grandes. Embora seus sexos diferenciassem-se em outros aspectos. Amava a visão que tinha daquele órgão.
O sorriso de Clara veio fácil lembrando disso, tão fácil que mal conseguia evitá-lo.
_Com você falando desse jeito eu fiquei até curiosa para experimentar.
Brincou a fim de deixar a irmã confortável.
Conversaram por mais alguns minutos, então Helena foi embora alegando estar muito tarde e que conversariam mais sobre aquilo em outra oportunidade. Disse também que queria muito saber todos os detalhes desde quando ela e Marina começaram até ali.
As últimas palavras de Clara para ela foram de agradecimento, dizendo-lhe também, que não via a hora de conseguir unir a família e a vida família que ela tanto amava, com a pessoa que ela escolheu para compartilhar a vida. E Helena entendia isso, perfeitamente. Clara sempre fora muito ligada a família, ter que se dividir entre as duas coisas devia ser muito pesaroso a ela.
A demonstração de interesse da irmã por sua vida e por sua felicidade fazia com que Clara se sentisse muito bem e ela quis dividir isso com a namorada, por isso, após se despedir da outra, correu imediatamente para o quarto a fim de ligar-lhe.
_Clarinha, nossa! Eu tava preocupada, correu tudo bem ai?
_Mais que bem – disse contente — finalmente consegui dividir a minha alegria de ter você na minha vida com mais alguém.
_Então – pausou – você contou tudo pra sua irmã?
Perguntou já se permitindo aliviar-se.
_Na verdade ela já sabia, quer dizer, só ela não, meu irmão e minha sobrinha também e muito provavelmente meu cunhado.
Marina estava surpresa.
_Ou seja...
_Tudo mundo – completou Clara – aliás, quase, porque ainda falta o meu filho.
_O mais importante.
_Isso.
Respondeu suspirante de pesar. Agora que tinha conversado com Helena não via a hora de o filho também ter ciência de tudo e acabar de uma vez por todas com aquele segredo sufocante.
_Tenho certeza que isso logo vai acontecer também.
Afirmou a fotografa transmitindo-lhe positividade.
_Tomara – pausou – mas sabe que teve uma hora que foi até engraçado?
_Porque?
_Porque, assim, minha irmã casou nova, logo depois de o Laerte ter sido preso no altar …
_ Nem me fale dessa história, toda vez que escuto fico impressionada – interrompeu a fotografa.
_Pois é, e ela tá casada com o meu cunhado há vinte anos, então isso, tanto quanto pra mim quando te conheci, não faz nem de longe parte da realidade dela, então ela quis saber tudo! Tudo mesmo, se é que você me entende. Eu morri de vergonha.
Marina levou segundos para captar o que a outra estava tentando dizer, até que soltou uma gargalhada em compreensão.
_E você contou tudo? Tudo mesmo?
Perguntava em tom de cumplicidade.
_Não! Tá louca? Não quero que a minha irmã me coloque numa camisa de forças. A princípio eu disse só que tudo era maravilhoso.
Ambas sentiram um leve arrepio com essa última palavra. Mas ela deixou claro que depois quer mais detalhes.
***
Marina sentia-se nas nuvens com a notícia que a namorada lhe dera. Sabia que em breve poderiam viver totalmente às claras, e quando esse dia chegasse ela tinha uma surpresa para a namorada, talvez a maior surpresa de todas.
Sorria sozinha sonhando acordada.
***
Apos desligar o telefone e já tendo se aprontado para dormir Clara deitou-se na própria cama e ficou lembrando das coisas que a irmã havia perguntado, assim, a mente acabou vagando até um momento em particular dela e Marina:
Flashback on
Clara chegou no estúdio no inicio da noite, saíra de lá horas antes para buscar o filho, no entanto o garoto acabou preferindo um programa entre ele, o pai, o tio Nando e Verônica. Desse modo, a assistente teria a noite livre, por isso, correu de volta à Santa Tereza para aproveitá-la ao lado da namorada.
Marina estava sozinha, concentrada analisando algumas fotos, então Clara chegou sorrateiramente sem deixar que ela notasse sua presença. Estando próxima o bastante a abraçou por trás indo com a mão diretamente dentro da calça dela.
Sentindo o calor do corpo da namorada colado ao seu, primeiro Marina sorriu confortada, depois os pêlos de todo o seu corpo arrepiaram quando ela se viu totalmente envolvida.
_Não faz isso comigo, Clara.
_Isso o que?
Perguntou cinicamente com a voz rouca no ouvido dela.
_Me pegar por trás assim.
_Porque não? Você não gosta?
Perguntou enquanto a mão ultrapassava a barreira da calcinha o que causou na outra muitos outros arrepios como se fossem choques e uma certa dificuldade em responder o que havia lhe sido perguntado.
_Hein?
Perguntou a assistente de novo, agora pressionando o ponto rígido ali no meio.
Marina tremeu.
_Gosto. Gosto não, adoro, amo — Já estava desconcertada – Mas eu tô trabalhando.
_Pode continuar, não tô te impedindo.
Clara riu.
_Como se eu fosse conseguir com você me provocando desse jeito.
_Desse jeito como? Assim – começou a dar mordidas no lóbulo da orelha da outra.
Sentir tanto os dentes quando a respiração quente da namorada deixava a fotografa cada vez mais transtornada.
_Covardia.
Falava tentando afastar a orelha do julgo da boca da outra.
_Covardia? Covardia seria se eu não pretendesse terminar.
_E você vai?
_Vou. Vou fazer você gozar pra mim, bem gostoso. Posso?
As palavras da namorada fizeram com que Marina se rendesse de vez aos seus carinhos.
Assim, ela levou uma das próprias mãos ao encontro da mão Clara e apertou contra seu sexo, dando-lhe o sinal verde.
_Deve! Faz a sua mulher gozar pra você, agora!
Desse modo, Clara seguiu massageando o ponto sensível responsável por dar prazer a mulher que amava e enquanto a fotografa gemia baixinho ela também sussurrava em seus ouvidos dando-lhe dose extra de excitação.
_Eu amo ouvir os seus gemidos – falava de forma lenta e suave — Sentir o meu dedo deslizando nessa buceta gostosa que fica assim toda molhada só de eu encostar em você e que fica ainda mais quando eu toco nela. Aqui – pressionou de maneira mais firme o clitóris dela – tão duro quando você tá excitada
Cada palavra pronunciada pela assistente provocava uma reação de prazer na fotografa que ia desfalecendo mais nos braços dela. “Como Clara era deliciosa, em todos os sentidos” era o que ela conseguia pensar, no mais, apenas sentia e o que sentia só poderia descrever como “Muito gostoso” e seguia gemendo. Não respondia, deixava que apenas Clara falasse, queria desfrutar de suas palavras.
_A sua pele arrepiada – passou a mão livre pela pele do braço da fotografa – sentir você trêmula nos meus braços. Seus espasmos incontroláveis – tudo o que Clara falava, falava bem devagar, prolongando o efeito do que era dito – o gemido mais alto e forte que você solta quando goza. Você totalmente vulnerável, entregue pra mim querendo mais, mostrando cada vez mais que é minha putinha e que eu posso fazer o que quiser com você.
Assim, a fotografa gozou, atingida por uma intensa descarga de prazer acabando realmente trêmula e vulnerável nos braços da namorada, do jeito que a mesma tanto gostava.
A lembrança de Clara terminou com as duas nuas jogadas no tapete do estúdio de Marina, tomando champanhe e comendo morangos.
Flashback off
Quando despertou para realidade de seu quarto, todas aquelas lembranças tinham deixado-a excitada. Muito excitada. Por isso, primeiro pensou em resolver o problema sozinha, depois achou melhor não. Guardaria a excitação para a fotografa no dia seguinte mas, pensar nisso, também a deixava excitada, aliás, mais excitada ainda, então, resolveu que resolver-se-ia sozinha sim, por que não?
***
Marina acordou com o celular vibrando, acusando o recebimento de sms:
“Coisa maravilhosa é alcançar o ápice do prazer pensando em você” . Te amo. C
"Safada" pensou. Clara era muito safada e ela julgou, não pela primeira vez, que amava-a ainda mais por isso.
***
Dois dias depois.
Marina foi logo cedo para o galpão trabalhar e lá esperou que a namorada aparecesse por todo o período da manhã, estranhando sua ausência. Como teve a manhã cheia, nem sequer pudera pensar em pegar o telefone para ligar para ela, fazendo isso apenas no horário do almoço quando já voltava para casa. No entanto, Clara não atendeu e também não retornou o que deixou a fotografa sobremaneira preocupada.
Já se passavam das 14 horas quando Clara finalmente deu sinal de vida, ligando-lhe.
_Oi amor!
_Clara, meu Deus! Eu já tava quase colocando a polícia atrás de você. Onde você se meteu?
A outra riu do outro lado.
_Que exagero! Eu estive ocupada, mas foi por um bom motivo, amor. Tenho uma surpresa pra você.
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