Unchained Melody
51 Interação
Notas iniciais
Clara estava imóvel, apenas se deixava bolinar. Marina a olhava com o olhar predatório que a intimidava desde o primeiro dia e sempre intimidaria. Ela sabia que era a fotógrafa quem entre as duas sempre teria o controle de qualquer situação e não se importava. Ali deitada na cama com ela, sentindo-se de certa forma acuada, a assistente por vezes a olhava de volta, por outras desviava o olhar fitando o teto ou fechando os olhos porque se olhasse por muito tempo julgar-se-ia perdida. Marina roubaria o que restava de sua alma, e nessa noite, bastava que invadisse seu corpo e fizesse o que quisesse dele.
A fotógrafa por sua vez sentia-se a pessoa mais sortuda do mundo com aquela mulher em sua cama, entregue. A ela parecia inacreditável. Havia tantas coisas em Clara que a encantavam, que a deixavam fascinada. A capacidade dela de mudar diante de cada situação. As vezes tão forte e decidida, as vezes confusa, as vezes tão tímida, as vezes com comentários e opiniões tão inocentes que a deixava mais encantada ainda, mas uma coisa era sempre constante: Ela reluzia, reluzia com seu entusiasmo inabalável, com sua disposição quase sempre também inabalável. Enfim, Marina a amava e a admirava, e agora, deitadas na cama, mais precisamente, a desejava. Ela, habilidosa desatou o nó da blusa que estava presa por ele e abriu o sutiã que trazia a presilha na parte da frente. Com os seios da namorada livres se aproveitou deles com calma meticulosa. A mesma mão que os deixaram livres, fazia o serviço ora massageando um, ora o outro, ora estimulando-a em um mamilo deixando-o enrijecido apontando firme para o teto, ora fazendo o mesmo com o outro. Um tempo depois ela deixou os dedos correrem delicados pelo corpo da outra, da divisão entre os seios até a calcinha que ela percebeu estar, à esta altura, úmida. Clara arrepiava, respirava com dificuldade e era só. A fotógrafa, então se moveu ficando mais próxima, porém, ainda apenas ao lado dela.
_ Gosto de você assim quietinha, toda pra mim, pra eu poder abusar de você. — Sussurrou no ouvido de Clara e imediatamente lambeu com delicadeza provocadora o lóbulo da orelha dela que não se conteve em permanecer imóvel, embora soubesse que essa era o desejo da fotógrafa, assim a puxou para cima de si.
_ Eu não disse que queria você quieta? Precisava ter sido mais clara de que aquilo era uma ordem, Clarinha? — Perguntou Marina autoritária.
_ Desculpa, não resisti. — A assistente respondeu submissa.
_ Uhm, mas vai ficar quietinha agora, não vai? Clara apenas balançou a cabeça em sinal afirmativo.
_ Maravilha! Deixa eu ver... por um onde eu começo? — Perguntou olhando a outra de cima a baixo com um olhar devorador.
_ Não sei. Eu não sei o que você pretende fazer comigo.
Marina riu safada com a resposta. Clara entrara na fantasia. Ficaria quieta como ela ordenara. E ela ficou. Permaneceu um longo tempo como se estivesse paralisada mesmo que a fotógrafa a estivesse, sobremaneira, torturando-a. A primeira ação desta após o breve diálogo foi levar a mão dentro da calcinha dela e percorrer o sexo quente e molhado detendo-se sobre o nervoso pulsante massageando-o e arrancando suspiros da amada. No entanto, deu prosseguimento ao ato e quando tirou a mão de lá deixou uma Clara decepcionada fato que à Marina não importou nem um pouco.
Em seguida, a mão melada deixou propositalmente um rastro molhado pela barriga desnuda.
_ Gostosa! — Marina manifestou.
Clara suspirou, mas permaneceu muda, subserviente.
A fotógrafa beijou-lhe os lábios rapidamente como se estivesse de partida e se despedisse, porque dali deixaria a boca vagar sem freio pela pele morena que nesse momento encontrava-se em brasas. E assim ela o fez. Desceu pelo pescoço entre lambidas, chupões e mordidas, se detendo por instantes nos seios entumecidos que a chamavam e gritavam pedindo para serem degustados. Deles ela foi por entre as curvas da cintura e de lá para a barriga sarada, tudo com calma tibetana. O que causava na outra uma espécia de aflição louca, não só por querer mais como por seu corpo não entender como o que estava sobe si desenvolvera tamanho autocontrole. Chegou à virilha sensível fazendo com que involuntariamente Clara se arquejasse e quando se posicionou, enfim, com o corpo todo por entre as pernas dela e sua cabeça ficou na altura do sexo os olhos vidrados fitaram o tesouro a sua frente escondido pela calcinha. Dessa forma, as mãos foram às nádegas de modo que estar servissem-lhe de apoio para que puxasse o corpo da namorada ainda mais para si, ficando mais perto do sexo. Não desperdiçando a proximidade mordeu-o por sobre o tecido encharcado. Clara mais uma vez arquejou, dessa vez desejosa que aqueles dentes agissem não apenas por sobre o tecido fino, mas também sob ele.
Todavia, Marina continuou seu caminho ascendente causando certo desespero na outra que esperava que a boca ficasse retida ali pelo menos por um tempo e de preferencia sem a barreira imposta pela calcinha. Ela, Clara, mal conseguia permanecer quieta, embora fizesse o possível para atender o desejo da namorada as pernas insistiam em querer se contorcerem, se juntarem, fecharem de modo que pudessem exercer pressão o nervoso insano no meio delas. Mas, como a fotógrafa se encontrava entre elas impedindo o anseio restou a ela, usar as mãos. Aliás, a mão. A mão direita desceu sendo levada diretamente ao próprio sexo, porque, julgava ela, se não o fizesse, explodiria. A mão trespassou a calcinha e se alojou na fenda ensopada. O contato e a pressão exercida por ele lhe causou demasiado alívio. Porém, a namorada que agora descia com a boca por uma de suas coxas direcionou a ela um olhar de desaprovação. Assim, a fim de compensar seu deslize Clara tirou a mão e levou os dedos melados à boca da fotógrafa, presenteando-a, mas abrindo mão do prazer que proporcionava a si mesma.
A fotógrafa, é claro, deleitou-se com o presente oferecido abocanhando por completo os dedos da outra e chupando-os com afinco. Ao que o olhar que a mesma direcionava a ela era ao mesmo tempo sugestivo e suplicante: Marina precisa fazer o mesmo que fizera a seus dedos com o órgão que originara aquele líquido que ela tanto gostava. A fotógrafa permaneceu por um momento com um semblante de dúvida deixando-a apreensiva. No entanto, não resistiu, fez-lhe a vontade. Tirou-lhe a calcinha e com a mesma vontade que abocanhou-lhe os dedos, abocanhou-lhe o sexo que pulsava a frente de seus olhos.
Clara delirou, o que para ela mesma não era novidade, sempre delirava quando a boca perfeita da namorada invadia seu ponto mais íntimo. Aquela mesma boca que a deixava desconcertada quando a namorada estava trabalhando, ou dando aulas, ou conversando com alguém, porque ela sabia que era a mesma que a noite faria com ela o que estava fazendo agora chupando a fenda sensível em meio a suas pernas sem pudores, sem receios e demonstrando-se muito, muito satisfeita em fazê-lo.
Na medida em que a intensidade da língua da fotógrafa vasculhando seu sexo aumentava, mais a assistente tinha o ímpeto de se mover até o ponto em que não resistiu e desobedeceu novamente às ordens da outra, segurando sua cabeça a fim de que o ato acabasse por pressionar-lhe mais o clitóris. Marina não esboçou contrariedade, apenas continuou o que fazia com muito gosto, porém, quando sentiu os primeiros espasmos da namorada ela se afastou, não deixaria que Clara gozasse tão rápido.
A assistente teve vontade de chorar, queria, precisava loucamente alcançar o ápice do prazer e quem sabe assim seu juízo voltaria, pois em algum momento desde que a outra começara a bolina-la ela o tinha perdido. Só que era exatamente isso que a fotógrafa queria, por isso esperou ali apenas admirando a beleza que a visão privilegiada lhe proporcionava, esperando que a outra esfriasse. Durante a espera ela, inclusive, soprou suavemente diretamente o clitóris inchado a sua frente o que, em absoluto, fez com que a outra desanimasse perdendo a empolgação, ao contrário, só a fez endoidecer ainda mais. Com clitóris chegando a doer, como se a qualquer momento fosse explodir.
_ Marina – Clara pausou em um ofego – por favor.
Ela pediu ao mesmo tempo em que com as mãos que seguravam a cabeça da namorada tentou obriga-la a continuar o que havia parado, mas sem sucesso. Marina se esquivou.
_ Não faz isso comigo, amor. Continua.
Marina a olhava com olhos que pediam que ela falasse mais e ela falou: Me chupa, vai. Chupa a sua mulher.
_ Uhm, só se – pausou em suspense – você rebolar gostoso na minha boca.
Era o que Clara mais queria fazer. Enfim a idéia da imobilidade caíra por terra e ela poderia manifestar o tesão e prazer que sentia. Nem precisou responder, o sorriso ofuscante em seu rosto respondeu por ela, então Marina voltou ao que fazia anteriormente com ainda mais empenho, lambendo, sugando e pretendo o clitóris entre os dentes estimulando-o a língua dura e sendo agraciada com uma Clara que a segurava de novo pela cabeça, porém, agora usando-a como apoio para fazer o que ela pediu-lhe, isto é, rebolando efusivamente em sua boca.
Após o gozo da namorada a fotógrafa deitou-se a seu lado e elas ficaram com pernas e braços entrelaçados trocando um beijo demorado com gosto de sexo. Enquanto o faziam, Clara enfiou a mão por dentro da calcinha cintura alta e masturbou Marina. O beijo seguiu-se ininterrupto, embora a fotógrafa ofegasse e gemesse dentro da boca dela.
O beijo a ambas era irresistível, como se suas bocas estivessem destinadas a permanecerem unidas para sempre. Após algum tempo de uma massagem intensa e precisa a fotógrafa gozou e quando tirou a mão do sexo dela, Clara levou os dedos, como havia feito antes, para que ela os chupasse, dessa vez, porém, degustando o próprio gosto. Então, depois disso, voltaram a se beijar.
Na manhã seguinte, Marina surpreendeu a namorada com café na cama.
_ Eu mesma fiz o café – Na expressão que esboçava Marina buscava aprovação.
_ Não acredito! — Clara tirou sarro.
_ Ain, não faz essa cara. Eu sei que meus dotes culinários não estão entre as minhas maiores virtudes, mas eu me esforcei. — Falou oferecendo a xicara à outra. — Prova.
Clara respirou fundo, divertida e tomou o café fazendo um sinal de positivo com o dedo causando alívio em uma Marina que aguardava em expectativa.
_ Nossa! Eu dormi demais, tanto que até você acordou primeiro que eu.
_ E o que que tem? Você tava cansava ué, foi bom ter descansado um pouco mais.
_ E vai saber o porquê de eu estar tão cansada, né? Marina a gente foi dormir muito tarde. Aliás nós temos dormido muito tarde sempre, você sabe porque...
_ Sei e acho que nós estamos fazendo tudo o suficiente. Dormindo e as outras coisinhas mais... Não foi bom? Não te fez dormir bem?
_ Ô, muito.
_ Pois então. Não tem problema ter acordado um pouco mais tarde.
Marina falava em um tom safado e cínico.
_ Meu Deus. Um dia você ainda vai me matar.
_ De prazer ou de amor?
_ As duas coisas – Clara respondeu se aproximando dela mesmo com a bandeja no meio a fim de dar-lhe um beijinho.
_ Perfeito! — riu e Clara riu de volta.
_ Eu fico assustada com o que você faz comigo. Eu era uma dona de casa, dedicada a família, hoje me dedico quase que inteiramente a você. — Ela falou enquanto elas comiam e tomavam o café que embora Clara não tenha dito, ficou muito surpresa por estar bebível. — Quer dizer, tô falando de entrega, sabe? Não de tempo. Entrega física, emocional, sexual que é uma junção entre as duas outras porque é a hora dele, digo do sexo que eu me sinto fazendo parte de você como um todo, entende?
_ Entendo. Também me sinto assim. Ao ponto de as vezes me sentir agoniada, angustiada.
_ Como assim? Por que?
_ Porque uma vida não vai ser suficiente.
_ Pra que?
_ Pra te amar.
Clara se desmanchou e declarou:
_ Não sei o que seria de mim se eu te perdesse.
_ Não vai acontecer. Nunca.
**
Levantaram-se, arrumaram-se e partiram apressadas para o galpão. Estavam mais que atrasadas para a aula e aquele era o dia da apresentação de fotos, trabalho que Marina havia pedido aos alunos dias antes mal sabendo ela o tamanho da surpresa que teria.
Clara que havia tirado cuidadosamente fotos escondida ou fotos que a princípio pareceram despretensiosas da namorada trabalhando no estúdio, dela acabando de acordar com cara de sono, dela lendo na cama e assim por diante preparara uma apresentação de tirar o fôlego, tanto pela surpresa do ato como também pela delicadeza do foco. Enquanto a seqüência das mesmas foi passando a fotógrafa ia sentindo um rubor subindo para as bochechas. Clara também teve a mesma sensação ou pior pois era a primeira vez que se expunha, isto é, a sexualidade recém-descoberta para um número tão grande de pessoas. Porém, a idéia era boa até como preparação tendo em vista que a exposição estava chegando e nessa ocasião o número de pessoas para quem se exporiam seria, sobremaneira, superior.
Nela o amor delas estaria em pauta para quem quisesse e pagasse para ver inclusive para seu filho, seu ex-marido e toda a sua família. Falar sobre isso como já o havia feito era uma coisa, mas na exposição isso estaria descrito em imagens. Não delas, mas do olhar delas... como um único olhar e tudo isso seria explicado no discurso de inauguração que Marina estava preparando e não a deixaria ver até o momento em que o dissesse na frente de todo mundo.
A apresentação dos trabalhos de modo geral superou as expectativas da fotógrafa. Os alunos foram bem originais. Um deles fotografou vários espaços do galpão demonstrando nas imagens que o espaço dedicado à cultura era digno de emoção genuína. Uma aluna fotografou a família, os pais e irmãos justificando que os mesmos eram seus alicerces motivo pelo qual, suas imagens a emocionavam. Outra apresentou paisagens despretensiosas do Rio, aquelas que não estão em cartões postais e assim os trabalhos foram se seguindo. O mais original fora o de um garoto que fotografou plantas exóticas. Clara, embora Marina a tenha convidado para ser a primeira, ficou por último e o trabalho mostrado causou tamanha comoção que a manhã de apresentações terminou com salvas de palmas de uma platéia de emocionada, além de em parte surpresa, é claro.
_ Beija, beija, beija. — Gritaram os alunos em coro.
As duas estavam envergonhadas, mas, ao mesmo tempo, felizes com a receptividade. Os jovens de hoje em dia. Era animador saber que os adultos do futuro não estavam se formando com uma carga tão grande de preconceito.
_ Tava soando repetitivo dizer "eu te amo" — Clara falou baixo para a professora tentando se justificar, mas sendo ouvida por todos o que provocou um reboliço maior ainda. Então, ela se levantou e aluna e professora trocaram um breve beijo nos lábios levando a turma ao delírio.
_ Tá bom, tá bom gente. Foi lindo a atitude da Clara. Mais ainda a de vocês, mas não vamos esquecer que ainda estamos em horário de aula e que eu preciso avaliar as apresentações de vocês.
Houve um muxoxo coletivo, no entanto, ela, apesar da emoção conseguiu prosseguir com a aula e foi falando de um por um, tecendo elogios e corrigindo o que julgava necessário corrigir.
_ Bom, agora sobre o trabalho da Clara, acho que todo mundo aqui entende que pra mim é impossível fazer qualquer avaliação… — Até porque além de emocionada a fotografa também ficara impressionada com a sensibilidade do olhar da namorada ao fotografar, porém não disse isso na frente dos outros alunos.
Todos entendiam.
_ Ê tia, fez isso pra ganhar um 10 da professora, né? — Brincou a sobrinha de Clara, Luíza.
_ Ué, acha que a sua tia é boba? — Clara brincou e piscou para a sobrinha, mesmo que ainda estava bastante envergonhada e comovida pela reação positiva generalizada da turma.
Ao final da aula quando todos já haviam se retirado e as duas estavam a sós e finalmente puderam se aproximar de forma mais intimida, a fotografa não conseguiu deixar de repreender a namorada:
_ Bandida. Me enganou direitinho, disse que ia fotografar o Ivan e eu acreditei.
_ E que graça teria se eu tivesse dito a verdade? Eu só quis fazer uma singela homenagem à pessoa que amo e que mudou a minha vida, meu destino. Além do mais, a culpa foi sua quando sugeriu o tema.
**
Dias depois, em uma tarde em que Clara ficou no estúdio auxiliando um ensaio de Flavinha, Marina foi ao galpão se reunir com Laerte e Verônica. Na saída, inevitavelmente deu de cara com Cadu. Ela até então tentara evitar, mas precisa arrumar um jeito de conviver bem com o pai de Ivan, então...
_ Eu quero te pedir desculpas pelo papelão daquele dia. — Foi ele dizendo assim que se aproximaram.
_ Não tem problema, eu entendo o seu choque. E queria que você soubesse que não tenho nada contra você, muito pelo contrário, sempre te achei um cara muito legal.
_Brigada.- Enquanto Marina estava falando Cadu notara que seu semblante estava abatido – Mas, — pausou – tá tudo bem? Tô te achando um pouco pálida.
_ Tá sim, só tô com um pouco de dor de cabeça. — Ele a olhou solidário. — Mas, daqui a pouco passa.
_ Não quer tomar uma água? Um suco?
_ Bom, já que você tá oferecendo eu vou aceitar. Tô precisando mesmo sentar um pouco.
Cadu serviu-lhe o suco e a cor dela voltou, antes de ir embora, porém, ela pediu ao “chef” que não comentasse nada sobre aquilo com Clara pois ela ficaria preocupada atoa. Cadu assentiu embora desconfiado.
**
_ A Vanessa anda muito misteriosa ultimamente vocês não acham meninas? — Marina chamou a atenção do pessoal do estúdio.
Clara e Gisele riram em corro concordando.
_ Também tô achando. O que você tá aprontando, hein Vanzinha? — Perguntou Gisele brincando.
_Ih, vocês estão muito curiosas. Uma coisa eu posso dizer: Tô aprontando sim, confesso. Mas é só isso que vocês vão saber – pausou – por enquanto.
Clara, Marina, Gisele, Flavinha e Vanessa seguiram conversando animadas até serem surpreendidas por uma visita inesperada.
_ Oiiii.
_ Chica! Gisele anunciou a visita alegremente surpresa.
_ Mãe! -Clara correu em direção à presença ilustre. Gisele, a enteada, por assim dizer já que a essa altura embora ainda casado legalmente com a mãe o pai havia mudado-se para casa da namorada, seguiu Clara indo ao encontro da madrasta. Chica carinhosamente abraçou a filha, Gisele e por último Marina que a recebeu de braços abertos.
_ Vim fazer uma visita surpresa, conhecer melhor o trabalho de vocês, mas tô vendo que aqui vocês não tem trabalho, só farra é isso? — Perguntou e riu.
_ Ah Chica, você devia ter avisado, dai a gente combinava um dia de ensaio. Hoje tá parado – falou Marina.
_ Mesmo assim valeu a caminhada pra ver o meu amor – apertou a bochecha da filha – que anda sumida lá de casa né – falou em tom de repreensão.
_ Mas, não vou deixar você perder a viagem. Na última vez que veio aqui nem viu nada. Vem, vou te mostrar tudo. — E Marina mostrou se gabando do espaço que tanto se orgulhava.
_ Cada cantinho daqui fui eu que pensei, decorei …
_ É muito bonito, agradável, aconchegante e deu pra ver pelo clima na hora que eu cheguei que vocês são muito felizes aqui. — Clara e Marina sabiam que a declaração era capciosa mesmo assim a filha fez questão de ratificar o que a mãe acabara de afirmar.
_ Somos sim.
_ E a Clara, Chica? É ótima assistente tem que ver.
_ Eu fico feliz de ouvir isso. A gente que é mãe fica muito gratificada ao vermos nossos filhos sendo aplaudidos.
Ouve um momento de amabilidade silenciosa em que a mãe via a filha e a namorada próximas, unidas e sentimento que a atingiu não foi de estranhamento, mas de felicidade por ver que a filha reluzia mais do que nunca.
_ Quer alguma coisa mãe, Uma água? Um café?
_ Vou aceitar um café...
Assim a filha puxou a mãe rumo a um canto estúdio. Clara estava muito feliz porquê sabia que a visita da mãe fora uma iniciativa de se aproximar delas enquanto casal e teve mais certeza disso quando Chica as convidou a todas para almoçar em sua casa. Clara sabia que o almoço era a forma que a mãe encontrara de aproximar Marina da família além é claro, de se aproximar da filha do namorado/marido.
Na hora de ir embora, Clara aproveitou e acompanhou a mãe. Antes de irem, porém, Chica ratificou o convite dizendo à Marina que não aceitaria recusas. Ficou combinado então para o sábado o almoço em família.
**
No sábado, a fotógrafa acordou nervosa e ansiosa. Era a primeira vez que se reuniria com a família completa de Clara depois de se assumirem como namoradas. Aliás, era a primeira vez que se reuniria com a família de qualquer namorada, exceto Vanessa que já era da família antes mesmo delas se relacionarem. Para piorar, a ruiva e Flavinha tinham informado que não iriam, porque embora tivessem sido convidadas aquilo era “coisa de família” e elas não queriam se intrometer. Gisele por outro lado, aceitou com animação o convite. Essa, porém, “não tinha motivos para sentir-se nervosa” Marina. Pensava consigo mesma.
Até a hora de sair de casa Marina já tinha ligado cerca de 5 vezes ou mais para a namorada, perguntando como devia se vestir, se devia levar alguma coisa para o almoço, se deveria levar um presente de agradecimento para Chica.
Na última Clara não resistiu, começou a gargalhar.
_ Tá rindo do que?
_ De você ai, toda nervosa parece adolescente. Meu amor, você já conhece todo mundo não tem nada demais nesse almoço.
_ Ah, mesmo assim...
_ Mesmo assim nada, deixa eu ir que tô aqui na mamãe cheia de coisas pra fazer e pra arrumar e você tá me atrasando. Te esperando mais tarde e fica calma, tá? Beijo.
Desligou despertando um “O” na expressão da namorada que ficou parada olhando para o telefone desacreditada de que ela havia mesmo desligado.
Quando Gisele chegou pouco depois ela estava em desespero por não saber o que vestir e quase desistindo.
_ Que isso, prima?
_ Ai, Gi. Não tenho o que vestir! Eu queria ter tempo pra fazer compras.
_ Você? Você não tem o que vestir? Conta outra, né.
_ Não tenho o que vestir pra um almoço assim, em família. Não tô acostumada com isso, você sabe.
_ Marina, é um almoço em família, não é uma ida pra Marte não. Veste qualquer coisa, você anda sempre bem vestida prima.
Gisele estava achando a situação engraçada, nunca vira Marina nervosa daquele jeito principalmente diante de uma situação tão simples, mas também nunca a tinha visto tão apaixonada então... O tempo passou e ela teve quase que arrastar a fotografa para que elas pudessem sair.
Chegaram no apartamento de Chica e o resto da família toda já havia chegado. Até Luíza, que embora brigada com a mãe por causa de Laerte não deixou de atendeu ao convite da avó.
Marina era uma pilha de nervos, no entanto, a presença da prima e do primo que a recebeu com amor, a reconfortavam. O pequeno Ivan também ajudou quando saiu correndo, com Bolinha nos calcanhares, pela casa em direção a ela logo que a vira
chegando. Logo depois a dona da casa se aproximou recepcionando-a com carinho e um após outro seguiram-se os cumprimentos.
_ E aí cunhada, já não era sem tempo que a gente pudesse se conhecer melhor, conversar... senta aqui. — Falou despreocupado Filipe, o mais descolado da família e apesar de ter despertado um pouco de constrangimento o termo “cunhada” foi bom para quebrar o gelo e amenizar o nervosismo da situação.
Marina foi até ele e se sentou aonde ele indicava, conhecia muito pouco o irmão de Clara. O viu apenas uma vez antes no jantar de apresentação de Ricardo, assim em pouco tempo se viu envolvida em uma conversa agradável com o médico que apesar dos problemas com o álcool era extremamente agradável, também um médico muito inteligente e aparentemente dedicado. Aos poucos a tensão da fotógrafa foi passando e ela foi sendo invadida por uma sensação nova. Emoções contraditórias: pesar por não ter tido uma família assim e conforto por estar agora no seio de uma.
Não tinha uma família grande, por isso não sabia qual a espécie de sentimento que mantinha as pessoas unidas embora as vezes tivessem problemas, como por exemplo o caso de Helena e Luíza, mas ela descobriu naquela tarde que era uma sensação muito boa. A de estar rodeada de pessoas que se amavam e continuavam unidos apesar dos problemas e ficou feliz por fazer parte daquilo. Sim, o clima confortador da família de Clara junto ao fato de que agora os primos Ricardo e Gisele faziam parte daquela mesma família a fez sentir-se parte dela também.
Em determinado momento Chica se aproximou, nessa hora Marina já estava em uma conversa com Helena. Assim, a mãe de Clara aproveitou para conhecer e saber um pouco mais sobre ela.
_ O Ricardo já me falou tanto do seu pai que tô curiosa pra conhecê-lo me diz, quando é que ele vai aparecer por aqui?
_ Ih, Chica desse... a gente nunca sabe. Tem dia que eu ligo ele atende, tem dias que ligo e a secretária diz que tá viajando.
_ E é sempre assim?
_ Sempre desde que eu me lembro, pelo menos depois que eu vim embora de Nova York.
Chica se comoveu com a ausência do pai de Marina.
_ E você? Como se sente em relação a isso?
_Ah, eu me acostumei, né. Sempre foi assim, não conheço outra vida. Mesmo quando minha mãe era viva e nós morávamos juntos nunca foi assim como a família de vocês.
_ Bom, então no que depender de nós pode se sentir adotada – riu — Não é Leninha?
_Ah, Claro.- A irmã de Clara ratificou agradavelmente o que a mãe dissera.
Após conversas, algumas bebidas e aperitivos todos se reuniram ao redor da mesa para o almoço que acabou sendo tardio tendo em vista que a reunião e as conversar anteriores se estenderam tanto que perderam a hora.
Durante o almoço, aparentemente despretensiosa Clara começou a morder os lábios. Fez isso várias vezes e a fotógrafa sabia... Aquele era o sinal delas. Não pôde também deixar de se lembrar do dia do jantar ali naquele mesmo apartamento e da fuga para o banheiro. A lembrança somada ao comportamento da namorada causara nela um rubor que percorreu todo o corpo. “Onde é que Clara estava com a cabeça que resolveu agir daquela forma num momento tão pouco propício”? Pensou. Depois, inevitavelmente, se animou.
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