Unchained Melody
23 Good Bye
Notas iniciais
Ao chegar em casa, Clara se deparou com a visão de Cadu e Ivan sentados à mesa, jantando animadamente. O que fez com que seu coração se enchesse de alegria, o ainda marido havia seguido seu conselho, não restava dúvidas quanto a isso. E ao ver a felicidade no rosto do menino ao correndo para abraçá-la, teve a certeza definitiva de que fizera a coisa certa, deixando-o.
_Vem mãe, vem jantar com a gente. O macarrão do papai tá muito bom hoje.
Ivan puxava-a pela mão.
_Olha, quer dizer que meu macarrão só tá bom hoje é, pestinha?
Falou Cadu repreendendo-o em tom de brincadeira. Ele também direcionou um olhar tenro e carinhoso à esposa, fazendo com que a mesma relaxasse de uma vez por todas. O clima era amistoso o que a reconfortava. Sentou-se a mesa e os acompanhou no jantar. Por sorte, não houve muitas perguntas sobre sua suposta viagem e ela mais os ouviu contar como tinham passado na sua ausência do que falou. Ivan contou empolgado que fora trabalhar com o pai e que o mesmo o estava ensinando a cuidar do negócio deles. Clara ficara profundamente satisfeita com o relato. Emocionada vislumbrando, enfim, que o bem-estar do filho não estaria comprometido com sua separação.
Seus olhares e os de Cadu durante a reunião da família eram cúmplices, de certa forma, eles se apoiavam através deles. Curtiram o clima agradável durante algum tempo após o jantar também, então, Clara decidiu que já estava na hora do filho dormir. Mandou-o para o habitual ritual de todas as noites, escovar os dentes, colocar o pijama para que a mãe pudesse colocá-lo na cama. O menino se retirou dando boa noite ao pai e ela o acompanhou.
Quando voltou, Cadu já não estava mais na sala. Concluiu que ele havia se retirado para o quarto do casal e respirou fundo antes de se dirigir até lá. Chegara a hora da conversa definitiva, inevitável.
Entrou calmamente no próprio quarto. A ela parecia que tinham se passados vidas desde que estivera nele pela última vez. Estava constrangida, não sabia o que diria ao homem que a olhava, tranquilo, sentado na cama. Então, após alguns segundos de silêncio, quem primeiro falou foi ele, só que já não mais olhando para ela, fitava os próprios pés.
_Bom, acho que não tem um jeito certo de se começar esse tipo de conversa, né?
O tom soou mais engraçado do que ele pretendia e Clara sorriu, sem saber se realmente tinha achado alguma graça ou se era só nervosismo.
_É, acho que não.
_Sendo assim, é melhor ir direto ao ponto. Eu pensei muito no que você me disse lá no galpão e mesmo que ainda não tenha entendido boa parte, percebi que sobre o Ivan você tinha toda razão.
Clara escutava-o atentamente e ele continuou:
_Eu não sei. Eu quis tanto esse restaurante, sonhei tanto em ser um “chef” que quando consegui mergulhei nisso tão fundo que nem percebi. Eu tava quase me afogando, perdendo o que eu tenho de mais precioso nessa vida e você me puxou de volta, Clara. Brigada.
Falou sincero e olhando-a ao terminar a frase.
_Que isso, Cadu? Também não é assim cara. Todo mundo tem seus momentos de distração, de se deixar levar, principalmente quando há um sonho envolvido. Não se culpa desse jeito. Quando eu falei disso com você não foi minha intenção te fazer sentir assim. Pô cara, nós somos pais, só que isso não significa que sejamos perfeitos, eu, por exemplo, sei que estou longe de ser.
Falou ela a ele.
_Eu sei, mas, eu não posso falar por você. Posso falar apenas por mim. E pra mim o nosso filho é a coisa que eu mais importante nesse mundo e o fato é que você abriu os meus olhos pra conivência que eu estava perdendo com ele no momento em que quis por fim ao nosso casamento. Casamentos acabam todos os dias, relações entre pai e filho, não. A não ser que a gente deixe.
Clara demonstrou por alguns instantes refletir sobre o que ele havia dito, e por fim se pronunciou:
_Sabe que eu tenho muito orgulho por ter escolhido você pra ser o pai do meu filho? — falou sincera enquanto se sentava ao lado dele na cama – Porque você Cadu, é um cara incrível.
Comovia-se ao concluir, ao mesmo tempo em que dava voltas para avançar mais um ponto naquela conversa, a separação deles.
_Ser um cara incrível, não faz de mim um marido incrível, não é isso, Clara?
Diante dessa pergunta a dona de casa teve medo de que dali em diante a conversa tomasse um rumo mais áspero, no entanto, Cadu continuou falando:
_Isso não foi um questionamento, na verdade foi quase uma pergunta retórica. Mas, enfim, acho melhor a gente não se estender tanto com isso. Como eu te disse no começo dessa conversa, ainda não entendi tudo daquilo que você me disso lá no bistrô, em alguns pontos permaneço confuso. As coisas realmente parecem ter acontecido assim, do nada. Só que eu sei que não dá pra conservar um casamento quando uma das partes afirma que ele nem se quer existe mais. Nesse caso, a parte é você e pelo que eu pude perceber você está muito certa disso, por isso, só cabe a mim aceitar a sua decisão.
_Cadu, eu não queria que isso parecesse uma sentença minha, uma condenação. Foi por isso que eu pedi pra que você pensasse, cara. Eu preciso que você sinta tudo isso da mesma forma que eu.
Estava angustiada.
_Calma Clara, deixa eu continuar. Acho que você não me entendeu, ou eu me expressei mal. O que eu quis dizer é que eu concordo com você. O que eu não consegui entender não foram os seus motivos, mas sim como ou quando chegamos a esse ponto, onde foi que nós nos perdemos. Mas, eu concordo que de fato, nós nos perdemos! A gente até podia tentar se reencontrar, só que eu acho mesmo que nenhum de nós dois está disposto a fazer isso, tô errado?
Clara não queria ter que dar a resposta sincera, mas não havia outra.
_Não.
_Pois é, acho que vai levar um tempo pra ficha cair em relação ao que aconteceu com a gente, sobre como nossa relação se desgastou ao extremo num lapso tão curto de tempo, mas a gente pode seguir em frente pensando no que a vida ainda tem que bom pra nos oferecer ou ficar olhando pra trás tentando achar respostas. A segunda opção faz mais o meu estilo, você sabe.
_Nós dois merecemos ser felizes, Cadu.
Disse mais para si mesma do que para o homem que se encontrava sentado ao seu lado.
_Eu também penso assim. Fomos felizes juntos e tenho certeza de que vamos conseguir ser separados também e antes assim do que levar um casamento em crise por meses, anos e acabarmos nos desrespeitando ou magoando no processo. Isso desmereceria tudo o que tivemos de bom.
Diante dessas últimas palavras de Cadu, Clara se lembrou do porque haviam vivido bem durante tantos anos. Eles se conheciam, se respeitavam e principalmente, pensavam de maneira bastante semelhante. Ela ainda não conseguia se condenar por ter se envolvido com Marina, nem encarar o fato como desrespeito a ele ou ao a tudo que eles viveram, porque ela sabia que enquanto se amaram tudo tinha sido verdadeiro e correto. Como ela poderia se culpar por amar outra pessoa, quanto nesse mundo o amor é tudo o que de fato importa?
Não que não amasse mais o Cadu, sempre o amaria, porém, de forma diferente e ela seguia respeitando-o dentro dos limites desse novo amor.
Enquanto ela refletia ele prosseguiu:
_Acho que agora não temos que falar mais sobre “nós”, a gente pode deixar o “nós” guardado aqui – levou a mão ao peito- o que precisamos é pensar no nosso filho e no que vamos dizer a ele.
A dona de casa sabia que essa seria a parte mais difícil, o filho, tadinho, seria pego completamente de surpresa com a separação dos pais. O homem pôde observar a tensão no rosto dela e acabou abraçando-a em conforto tentando transmitir-lhe calma. `
_Bom, acho que a melhor maneira de tratar isso é com naturalidade. Nosso filho é esperto, ele sabe que casais se separam, inclusive, tem um monte de coleguinhas nessa situação. O fundamental é que ele saiba que mesmo nós estando separados, vamos sempre estar aqui pra ele.
_Isso é o que eu mais quero.Mas, você já resolveu onde vai morar?
_Essa foi a parte fácil – riu- a bruxa tá solta, tá todo mundo se separando. O Nando e a sua tia como você bem sabe, e agora a Verônica e seu primo Laerte também.
_Sério? Esses dois eu não sabia.
_Sério. Então, ela, eu e o Nando decidimos criar o clube dos separados.
Falou rindo, ao que Clara gargalhou pensando na configuração inusitada daquele trio.
_Você e o Nando morando com a Verônica? Coitada!
_Uhm, o que é que tem?
_Tem que tadinha, morando assim com dois homens relaxados, ela não vai dar conta.
_Ah, para! Eu e o Nando somos dois Lordes, vai ser um privilégio pra ela conviver com a nossa presença. Principalmente levando-se em consideração que seu primo, vamos combinar, não é flor que se cheire.
_É, nisso você tem razão.
_Enfim, continuando. O apartamento é aqui no Leblon mesmo, perto do galpão, então, eu vou poder continuar muito perto do nosso filho.
_Isso é ótimo, Cadu.
_E eu queria te pedir pra gente levar essa questão da convivência com ele numa boa. Não queria impor horários pra ele estar comigo ou com você. Queria que a vidinha dele continuasse mais ou menos a mesma, sabendo que sempre que quiser vai poder estar com qualquer um de nós dois. Mesmo que em casas separadas.
_É, eu acho que isso seria o melhor pra ele. É claro que tudo isso sem deixar de obedecer aos horários da escola, do judô e etc.
_Sim. Dai o ideal é que a gente se comunique sempre, enfim, nada muito diferente do que a gente já faz.
_Perfeito.
Sorriam com ternura um para o outro.
_Vamos dormir? Amanhã o dia será longo
Falou Clara levantando-se.
_Verdade.
Prepararam-se para dormir como se a conversa de momentos antes não tivesse sido a respeito do fim do casamento deles, e pela última vez se recolheram dividindo carinhosamente a mesma cama. Já deitados, prosseguirem conversando e se acertando sobre como lidariam com o filho a partir do dia seguinte.
A certa altura, Clara se aninhara nos braços dele, buscando, de certa forma, despedir-se de um longo período de sua vida. Do amor que a tornara mulher, mãe. Que a ensinara a compartilhar, dividir. Que lhe dera segurança nos momentos de dúvida e tantas outras coisas.
_Seriam tão bom se todas as pessoas pudessem ser assim. Resolverem seus problemas dessa forma.
Disse ela após um instante em silêncio.
O homem deu-lhe um beijo na testa.
_Verdade. Acho que as pessoas complicam demais as vidas delas e a dos outros, as vezes levam séculos e muitos conflitos para resolverem coisas que poderiam ser resolvidas com uma simples conversa, tolerância e entendimento.
A dona de casa não respondeu, permaneceu calada. Pensativa. Sentia-se privilegiada por ter dividido parte de sua vida com aquele homem, sem dúvida nenhuma Cadu era uma das melhores pessoas que havia conhecido. Antes de conseguir pegar no sono, Clara questionou-se também “Se Cadu agiria de outra forma se soubesse de toda a verdade” Provavelmente sim.
Lamentava-se por não lhe poder lhe contar tudo. Esse seria o único arranhão ao final daquela história, que surpreendentemente vinha se resolvendo de forma tão admirável. No entanto, um dia Cadu também encontraria outra pessoa que o faria feliz e qualquer coisa que tivesse ficado entre o fim do casamento deles não teria mais importância. O esquecimento tem o poder de transformar tudo em fumaça, e esta, como se sabe, esvai-se entre os dedos.
***
_Oi, Marina.
_Nossa, finalmente você me ligou. Eu tava aqui dando voltas e voltas de nervoso querendo saber como você tava, como foi tudo ai na sua casa.
_Desculpa, o dia foi pesado, pareceu durar uma semana, mas finalmente chegou ao fim.
_Me conta, como foi ai com o Ivan, com o Cadu?
Clara contou a ela a conversa que tivera com Cadu na noite anterior e narrara também a conversa que ambos tinham tido com o filho na tarde daquele dia. Tinha sido uma conversa difícil já que não é nada fácil para uma criança entender que seus pais não vão mais viver juntos. Ao contar tudo a Marina, Clara não pôde deixar de frisar o quanto Cadu a ajudou nisso, o ex marido tinha sido perfeito ao assumir a maior parte da conversa, tentando explicar tudo da melhor forma ao menino.
_Ai Clara, por tudo que você tá me falando, parece que tudo deu tão certo quanto poderia dar, né? O Cadu realmente é um cara muito legal.
_Se é.
_Mas, então. Continua. Eu quero saber tudo.
_Bom, não tem mais muita coisa pra saber. No final o Ivan desceu com o pai ajudando ele a levar as malas pro outro apartamento. Foi bonitinho porque ele já voltou empolgado com o que vai vir a ser o novo quarto.
Marina riu.
_Criança é fogo, né? Eles sempre acabam encontrando algo bom em qualquer situação.
_Verdade. Mas, ai depois quando ele voltou ficou um pouco amuadinho tadinho o que também é normal, deve tá passando muito coisa na cabecinha dele, por saber que não vai ter mais o pai aqui acordando com ele todas as manhãs ou colocando-o pra dormir todas as noites.
_É. Vai levar um tempo pra ele acostumar com a nova rotina. E nesse momento deve estar com medo de que a nova não seja tão boa quanto a velha.
_Isso. É isso que eu acho também. E é com isso que eu e o Cadu temos que tomar cuidado, ele tem que se sentir confortável. A gente já combinou que precisamos criar maneiras para fazer ele gostar dessa nova vida, sabe?
_Sim, esse é o ideal. E tenho certeza de que vocês vão conseguir. São bons pais e não tem como o filho de vocês não sentir o amor que vocês têm por ele.
_Deus te ouça.
_Ele vai ouvir, você vai ver.
Assim, ficaram em silêncio por algum tempo.
_Mas e você Marina? Como tá?
Marina suspirou antes de responder:
_Ai, eu to aqui batendo nas paredes. Perdida. Sentindo a sua falta.
Clara derreteu-se e toda a tensão que tinha tomado conta dela durante o dia todo se dissipara.
_Também senti muita a sua falta. Me sinto tão desamparada longe de você.
_Tô com tanta saudade. Chego a sentir o seu cheiro aqui comigo, o toque das suas mãos.
De repente o clima da conversa havia mudado. Adquirira um tom mais sensual.
_Você não faz ideia da vontade que eu estou sentindo de você. Parece que não te vejo há séculos.
Era verdade. Clara sentia-se como se passasse pela fase de abstinência como a de um dependente.
Marina revirava-se na cama, seu corpo pegava fogo, sentia necessidade angustiante da outra e lhe ouvir a voz peculiarmente rouca intensificava isso. Ainda mais ouvi-la dizer estar com vontade dela. Por isso, sua respiração ficou mais pesada, o que foi perfeitamente audível à Clara ao telefone. Causando-lhe arrepios múltiplos e sobressaltando-a.
_Marina, o que você tá fazendo ai, hein?
_Eu? Nada. Ainda.
Respondeu ofegante
_Como assim, ainda?
Perguntou uma Clara muito curiosa e desejosa do que sabia que ouviria.
_Eu não consigo ficar aqui sentindo toda essa falta de você assim, amor. Preciso...
_De que? Precisa de que? Fala pra mim.
A assistente quase implorava pela resposta.
_Preciso imaginar você aqui, me tocando.
A mão enfim encontrou o objeto de seu prazer, que se encontrava já ostensivamente molhado só pelo efeito que a voz de Clara provocava-lhe. Então, ela soltou um suspiro baixo.
_Ai Marina, não faz isso comigo.
Agora quem ofegava era a assistente, sua cabeça girava.
A fotografa levou um tempo que lhe pareceu infinito para responder, e nele podia-se ouvir apenas seus suspiros e a respiração ainda pesada.
O coração de Clara quase batia fora do peito quando a outra se manifestou.
_Amor, minha – pausou — buceta tá muito molhada.
No mesmo instante que as palavras a atingiu Clara sentiu sexo pulsar violentamente entre as pernas. Gemeu baixo sem nem ao menos perceber que o tinha feito.
_E o que você tá fazendo com ela?
Perguntou em expectativa.
_Aquilo – pausou ofegante – que você gosta.
Clara pensava que enlouqueceria. Não teve forças para falar.
_Mas, e a sua, como tá?
_Doida querendo você.
_Coloca a mão nela também.
Sugeriu a fotografa no que, na verdade, tratava-se de uma ordem impossível de ser desprezada.
Clara imediatamente deslizou a mão pelo próprio corpo levando-a diretamente para dentro da calcinha, soltando um suspiro quando atingiu o ponto sensível.
_Tá molhada?
_Muito.
_Que delícia. Agora – pausou- goza pra mim?
Pediu a outra de forma manhosa. Pelos sons que Clara ouvia pelo microfone sabia que Marina estava se empenhando em fazer o mesmo.
_Só se você gemer no meu ouvido.
Pedido este que Marina, obviamente, não teve o menor problema em atender prontamente. A mesma alcançou o prazer desejado primeiro, no entanto, após um gemido longo seguiu em silêncio esperando que a outra terminasse desfrutando, assim, dos sons que ela produzia. Quando ouviu o gemido mais intenso de Clara, sabia que havia acontecido, mesmo assim, perguntou:
_Gozou?
_Uhum. Marina, Marina você acaba comigo até estando longe.
Disse com a voz fraca. Ao mesmo tempo em que refletia que aquele era um ótimo jeito de não terem que ficam sem o que tanto gostavam.
_E você não gosta?
_Gosto. Muito! O tesão que eu sinto por você é surreal.
_O meu também, meu amor. Deve ser o amor.
_Será?
_Bom, eu acho que sim. Não vejo outra explicação. A única coisa que se iguá-la ao tesão que você provoca em mim, é o amor profundo que sinto por você.
Suas palavras tornaram-se doces. Deixando uma Clara abobadamente apaixonada e sorridente do outro lado da linda.
***
Clara reuniu a família no próprio apartamento, estando presentes a irmã e o cunhado, a sobrinha Luíza, o irmão Filipe, a tia Juliana e Rosa com seu Benjamin, pai do marido de Helena. Além desses, compareceram também, a mãe acompanhada do namorado, ambos já tendo conhecimento sobre o que ela tinha a dizer.
Ao lado do filho, que se comportara como um rapazinho dando força à mãe, Clara deu a notícia aos familiares de que estava se separando de Cadu. Todos lamentam, mas na medida em que ela explicou-lhes como a separação se desenvolvera de forma amigável e madura, acabaram concordando que antes eles fossem felizes separados que infelizes juntos. A dona de casa deixou muito claro a todos que ela, Cadu e Ivan nunca deixariam de ser uma família.
Com isso, Chica, a única que sabia o verdadeiro motivo de tudo aquilo, sentiu-se satisfeita por ver a maneira segura com que a filha tinha desenvolvido e resolvido tudo aquilo. Tendo em vista que, uma pessoa confusa pode ser um perigo para si própria, mas principalmente para os outros. E como mãe, ela só poderia esperar que a filha não apenas fizesse o melhor pra si, como também esperava que o fizesse para os outros. Eram esses os valores que ela sempre tentará passar a cada um dos três filhos.
Além da mãe, os outros não tinham como saberem o que estava, de fato, acontecendo, porém, sabiam que ali existia mais do que Clara estava disposta a contar. Todos já tinham notado que fazia tempos que a dona de casa estava diferente, em parte, a mudança tinha sido boa, estava mais bonita, se cuidava mais, mais altiva, por outro lado, estava mais ausente em relação à família o que para eles era muita coisa, uma vez que, sempre foram bastante unidos. Porém, despeitavam-na e esperariam o momento em que ela estaria preparada para compartilhar o quer que fosse.
Como era dia de semana, logo todos tiveram que voltar a seus respectivos afazeres e a dona de casa permaneceu em casa junto ao filho na intenção de distrai-lo e também tentando observar como o mesmo estava lidando com tudo aquilo. Eles fizeram o almoço juntos, depois cuidaram da casa, trocaram alguns móveis de lugar. O menino ajudava a mãe empolgado, como fosse capaz de avaliar que a mesma precisava daquilo, precisava manter-se em movimento para não pensar objetivamente em nada que a incomodasse ou deprimisse. E nisso o pequeno tencionava ajudá-la, queria vê-la feliz e bem, “agora ele era o homem da casa, tinha essa obrigação”. Pensava.
Chegaram ao final do dia exaustos, jogados no chão da sala. Mas era uma exaustão gostosa proporcionada pela cumplicidade de mãe e filho.
_Agora, senhor Ivan. O Senhor vai tomar um banho porque tá um porquinho sujo.
A mãe falou com graça e o menino não conseguiu evitar o riso.
Ela, então, aproveitou para pegar-lhe e fazer-lhe cosquinhas, deixando-o contorcendo-se desesperado nos braços dela. Quando finalmente foi solto ele correu para dentro, não se poderia dizer se movido pela vontade de tomar banho ou se por medo de a mãe o alcançasse com mais cosquinhas.
A dona de casa ainda ficou aonde estava contente e vendo o filho sumir de sua vista a caminho do quarto. Logo após, aproveitou a ausência dele para ligar para Marina, o coração apertava de saudade da amada.
Durante a ligação elas falaram sobre a conversa que Clara tivera com a própria família sendo indagada pela fotografa se eles nem se quer desconfiavam de nada. A dona de casa disse-lhe que desconfiar, era possível que sim, porque ela havia mudado muito nos últimos tempos. Mas que mesmo que desconfiassem que de algo mais, não teriam como saber o que era.
_E já que eu sempre gostei de meninos. Né? Acho que ninguém nem sonha que nessa altura da minha vida fosse me aparecer você e virar a minha cabeça assim.
Marina envergonhou-se do outro lado da linha.Contudo, também alegrava-a ouvir Clara dizendo-lhe aquilo.
_É, acho que você tem razão. E pior, quando as pessoas souberem, vão cair pra trás.
_Ah, disso eu não tenho dúvidas. Mas, quer saber? Não me importo. A única coisa que me importa é o meu filho. Só me preocupo com ele, preciso criar um clima confortável pra ele. Quando ele estiver pronto pra lidar com isso, o resto das pessoas é só um detalhe. E tem mais, sabia que ele tem agido igual a um homenzinho? Tem feito de tudo pra me agradar, cuidar de mim.
A fotografa orgulhava-se por ouvir Clara tão decidida. Além de fazê-la sentir-se muito amada. Saber que a mulher ao outro lado da linha estava mudando toda a sua vida por ela fazia-a sentir-se como a pessoa mais importante do mundo. Sentia-se muito grata por Clara estar disposta a fazer-lhe tão unicamente feliz. Teve, então, uma vontade profunda de fazer alguma coisa, qualquer coisa para retribuir-lhe.
_ Ai que fofo! Sabe que eu não vejo a hora de poder passar mais tempo com ele? Conhecê-lo. Você fica falando tanto, e o brilho nos seus olhos quando fala dele me deixam simplesmente apaixonada. Sabe, eu me apaixonei por ele quase tão rápido e intensamente quanto me apaixonei pela mãe.
Era a vez de Clara de derreter com a declaração. Nada conquista mais uma mãe do que ver os filhos sendo queridos e elogiados.
***
Já se passavam das 23 horas e Clara já tinha, inclusive, colocado Ivan na cama quando o celular tocou. Era Marina novamente.
_Oi, amor.
_Oi. Achei que não ia mais falar com você hoje.
Falou transmitindo a alegria que sentia na voz.
_Vem aqui em baixo, Clara.
_Oi? Aqui em baixo? — Custou a dar-se do que Marina se referia – Aqui em baixo você quer dizer na porta do prédio?
Marina gargalhou com a maneira atrapalhada de Clara concluir o raciocínio.
_Sim, na porta do prédio.
A dona de casa saltou da cama num pulo.
_ O que você tá aprontando dessa vez, hein moçinha?
_Eu? Nada. Só vim te trazer um presente rápido. Vem logo.
_Tá, mas eu não posso demorar. O Ivan tá dormindo, e eu tô de pijama.
_Não vai demorar nada, nada. Vem rápido.
O carro de Marina estava estacionado bem na porta do prédio da dona de casa e ela pulou logo para dentro dele antes que fosse vista por todas na rua de pijamas.
Marina a aguardava atrapalhada com a surpresa que fora levar nos braços. Tratava-se de algo que num primeiro momento Clara só pôde identificar como a bola de pelos mais fofa que ela já vira na vida. A fotografa estava atrás do volante aninhada a um cachorro, um filhote e segurava-o em direção a ela com cara de sapeca, como se estivesse esperando apreensiva aprovação ou a desaprovação dela
Clara olhava-a em questionamento, mas sem dizer nada.
_Bom, mais cedo você falou do Ivan, da maneira com que ele tem se comportado, se preocupando com você, querendo cuidar da mãe. Eu achei muito bonitinho e pensei que talvez fosse bom pra ele ter um cachorro, pra desenvolver melhor essa questão do cuidado, da responsabilidade. Assim, eu não entendo muito de crianças, você sabe, mas achei que seria uma coisa muito boa incentivar ele a desenvolver esse lado da afetividade dele. E também, achei q pudesse ser bom pra você também. Agora o Ivan e o “Bolinha” podem cuidar de você o tempo todo.
_Bolinha?
Clara gargalhou.
_Ah, é só um nome improvisado. Quem tem que escolher o nome de batismo são vocês.
A assistente olhava de queixo caído para fotografa a sua frente. Teve vontade de apertá-la e não soltar nunca mais, perdeu-se em saber onde a outra tinha adquirido tamanha doçura. Parecia mais uma criança falando daquele jeito. Com isso, a alegria escapava-lhe pelos poros. Ela, então, tomou “bolinha” nos braços fazendo um afago em sua barriga. Enquanto isso, levou os lábios para junto dos da fotografa. Trocaram um beijo e este se encerrou com elas cheirando-se a face e os cabelos uma da outra, carinhosamente.
_Bom, continuando. O “bolinha” é um Yorkshire. Me disseram que esses serezinos são muito espertos e inteligentes. Além de que, por serem pequenos, se adaptam muito bem em apartamento. Aqui tá a caminha dele – pegou uma cama de espumas que havia no banco de trás e que Clara ainda não havia reparado — e tem também ai dentro uma ração especial que o veterinário me indicou, o cartão de vacinas. Estão marcadas nele as que ele já tomou e as que falta tomar. Enfim, acho que vocês não terão grandes dificuldades.
_Nossa, você pensou em tudo.
Clara a olhava apoplética. Nem em seus maiores devaneios imaginaria uma atitude como aquela de Marina. Não saberia dizer ao certo porque, mas gostara de ter sido surpreendida de forma absurdamente positiva.
_Eu sempre penso em tudo, meu amor. Agora, acho que você já pode ir. Acordar o Ivan com um motivo desses seria justo, não?
Clara riu.
_Seria sim. Mas, primeiro, vem aqui, vem.
Chamou-a para mais um beijo. O dessa vez fora mais demorado. Como se na intenção de matar a saudade que sentiriam uma da outra antecipadamente.
_Clara. Vai, se não. Não vou conseguir resistir a ideia de te sequestrar agora mesmo.
_Tá bom. Tô indo.
Abriu a porta do carro mandando um beijo a distancia e um “te amo” dito apenas com o movimento dos lábios para ela e saiu levando “bolinha” junto com as coisinhas de cachorro dele.
Clara nem mesmo se deu conta que nem ao menos se importou por estar “namorando” dentro do carro na porta da própria casa, mas se tivesse lembrando disso teria suspirado e apenas se considerado como uma adolescente apaixonada, porque era exatamente assim que ela se sentia. Flutuava.
Clara e Ivan se apaixonaram por “Bolinha” que acabou se chamando “Bolinha” mesmo. A dona de casa não conseguiu pensar em nome mais digno uma vez que a imagem de Marina chamando-o assim tinha sido uma das coisas mais lindas que ela já vira na vida. O filho logo concordou com o nome e Clara, também, não deixou de lhe contar que o presente havia vindo da fotografa.
_A Marina é muito legal.
Falou ele empolgado rolando um “bolinha” ainda mais empolgado pelo tapete.
Ivan iluminara-se com o presente e Clara, de certa forma, também. Nunca havia tido cachorro em casa, mas rapidamente foi descobrindo o quanto era gratificando ter uma criaturinha daquelas em seus calcanhares.
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