Notas iniciais
"Se entornaste a nossa sorte pelo chão Se na bagunça do teu coração Meu sangue errou de veia e se perdeu..."

A assistente de Marina acordou com a chefe aninhada em seus braços, as duas ainda estavam nuas, exceto pela minúscula calcinha da outra. Haviam dormido entrelaçadas. Logo ao despertar Clara notou que o quarto penumbre ainda exalava um aroma característico. A lembrança da noite anterior a atingiu-a com toda força, teve que fazer uma força maior ainda para desanuviar a mente e conseguir levantar-se, tirando Marina dos braços com cuidado para não acordá-la. No entanto, a fotografa encontrava-se em um sono profundo, talvez nem um trator fosse capaz de fazer-lhe isso.

Clara saiu a procura da própria bolsa, uma vez que precisava saber as horas e se alguém havia ligado, até que lembrou que a deixara cair na entrada da casa, assim que passaram pela porta. Como não poderia sair para buscá-la do jeito que se encontrava, desistiu, momentaneamente, da ideia do celular. Avistou um relógio sobre a cômoda e constatou que passava do meio-dia. Sobressaltou-se. “Quantas horas eu dormi”? Pensou horrorizada, mas depois sorriu lembrando do esforço físico responsável por deixá-la tão cansada, valera apena. Ela juntou as roupas espalhadas pelo quarto e, logo após, tomou um banho rápido. Ao começar a vestir-se notou que a calcinha branca usada na noite anterior estava irrecuperável, então buscou por uma da fotografa, abrindo-lhe algumas gavetas. Elas definitivamente não vestiam o mesmo número, mas teria que servir. Quando terminou de se arrumar e ainda diante do espelho tomou posse de um dos batons da mulher que estava a poucos metros dormindo como “um anjo” raciocinava ela e deixou-lhe um bilhete simples, ali, escrito no espelho:

Volto logo.

S2

Novamente no quarto, deu um beijo tenro na testa dela antes de sair.

***

Clara pegou um táxi ao sair da mansão. Já com o celular pôde ver que o marido havia ligado algumas vezes, mas isso já não importava. Ligou para casa de Helena, queria saber do filho. Àquelas horas Cadu provavelmente estaria no bistrô, mesmo sendo domingo, e ela queria saber se ele havia o deixado lá ou se o levara para o trabalho com ele.

Quem atendeu foi Rosa, empregada da casa., o que para a dona de casa foi um alívio, uma vez que a essas horas era bem provável que todos soubessem de seu “desaparecimento” e começariam a fazer perguntas. A doméstica informou-lhe que o filho estava ali, Cadu o havia deixado logo cedo antes de ir para o bistrô Ela, então, decidiu que seu destino seria o galpão onde o marido trabalhava, informando isso ao motorista. Despediu-se de Rosa, antes de desligar o telefone e partiu rumo à sua libertação. Resolveria sua situação de uma vez por todas.

Chegando no estabelecimento, encontrou Cadu conversando com Verônica, ex mulher de seu primo Laerte e uma das donas do galpão cultural. Cumprimentou-a ao mesmo tempo em que pôde notar o semblante sério do marido.

_Oi Verônica, tudo bem?

_Oi Clara, tudo bem sim e com você?

Respondeu a outra sorridente e simpática, abraçando-a.

_Tudo bem sim.

Disse em poucas palavras, encerrando o assunto.

A outra pôde. Então, notar seu constrangimento e seriedade. Clara não estava ali para uma simples visita e a expressão no rosto de Cadu dizia o mesmo.

_Bom, acho que vocês dois precisam conversar. Vou deixá-los a sós.

Clara assentiu, agradecendo-a com o olhar

Sozinhos, os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes, era um silêncio incômodo, como se fossem dois estranhos.

Quem primeiro teve coragem para se pronunciar foi Cadu, embora sem olhá-la diretamente. Meio que fitava o chão:

_ Aonde você se meteu, Clara?

Antes de responder, a dona de casa enxergou uma sombra no semblante do marido como se finalmente a realidade sobre o casamento deles tivesse se abatido sobre ele.

No caminho até ali, Clara não tinha pensado muito bem sobre o que diria. Apenas foi. Sabendo muito bem o que queria. Queria o divórcio, queria ser livre. Mas, como diria isso ao Cadu? De repente, constatou que não seria capaz de dizer-lhe a verdade. Naquele momento tudo o que vivera com Marina no último mês soou-lhe sórdido demais, pelo menos se olhasse isso do ponto de vista do marido. Jamais conseguiria estabelecer uma relação cordial entre eles se fosse sincera, honesta. Pois, a verdade, é que já tinha deixado de sê-lo há tempos.

_Na casa da Marina.

Respondeu seca.

_Na casa da Marina. Só isso que você tem pra falar?

Perguntou o outro em tom de impaciência e antes que ela pudesse responder, continuou:

_O que é que está acontecendo com você, Clara? Saí a noite para ir a uma festa sem o seu marido, dorme fora, não atende o telefone e volta no dia seguinte nesse estado – Apontou para a roupa dela – Com a mesma roupa que saiu na noite anterior. Como se não tivesse casa e filho. Como se nem ao menos fosse casada.

_E o fato de eu ser deveria me impedir de viver?

_Esse é o ponto, Clara. Viver o que? O que é que você está vivendo que eu e o seu filho não podemos participar? Que te faz agir como se nós nem existíssemos? Por que é isso que você tem feito desde que começou a trabalhar.

_É sério que você quer ir por esse caminho, Cadu? Tem certeza de que sou que tenho agido como se o meu filho não existisse? Que eu saiba é você quem sai de casa pela manhã e ninguém sabe a que horas vai voltar. Eu estou trabalhando sim, mas nunca deixei de me preocupar com o meu filho, de estar com ele, de cuidar das coisinhas dele.Nunca. Estou trabalhando sim, muitas mães trabalham, mas isso não significou que eu deixei de me importar com o meu filho. Já você...

_Você tá insinuando que eu não me importo com o Ivan, é isso?

_O que você acha? Acha que tem sido um bom pai pra ele ultimamente?

Cadu revoltou-se, agora olhava diretamente para ela, encarrando-a.

_Se eu tenho estado ausente é porque eu preciso trabalhar, preciso colocar os negócios em ordem, fazer isso daqui crescer. Isso aqui não é só meu não Clara. É dele também. E você está dando voltas, fugindo do assunto. O que é que você estava fazendo até essa hora que não pôde nem ao menos atender o telefone ou ligar de volta?

A dona de casa gelou. Queria soltar de uma vez a verdade. Livrar-se do peso, mas não podia. Pensava no filho e na relação conflituosa que ela e o pai dele teriam se ela lhe dissesse a verdade.

_Nada. Não estava fazendo nada. O coquetel acabou tarde, a Marina estava sem motorista e decidimos que o melhor seria que nenhuma das duas fossem embora pra casa sozinha. Então, fomos as duas pra um lugar só. Exageramos um pouco na bebida e eu acabei apagando. Quando acordei vim direto pra cá. Foi só isso. E eu realmente não me preocupei com telefone, foi uma noite agradável, eu me diverti. Não pensei que tinha que ficar grudada no telefone para o caso de ter que dar satisfações a qualquer hora.

Mentiu.

_ Como se fosse solteira...

_Não Cadu. Como se fosse livre. Porque o fato de eu ser casada não significa que eu tenha que ser prisioneira.

_E é isso que o nosso casamento é pra você, uma prisão? Se o seu marido se preocupa com você e te liga significa que está te aprisionando? Por favor né, Clara. O que é que está acontecendo com você? Da onde você tirou essas ideias? Sai se dizendo a trabalho com a sua chefe que é solteira – Cadu nem sequer fazia ideia da orientação sexual de Marina — dorme na casa dela e volta falando do quanto se divertiu – o tom aqui era de deboche — Isso não é coisa de uma mulher casada fazer, aliás, é geralmente por isso que não é nada bom que mulher casada conviva com mulheres solteiras. Sem contar que não é nada convencional esse tipo de relação com o(a) chefe. Ela não devia nem ter te arrastado pra esse evento. Vai pagar hora extra, por acaso?

Nesse momento a dona de casa indignou-se, as palavras do marido tinham sido extremamente machista.

_Primeiro Carlos Eduardo, eu não sai “dizendo” que era a trabalho. Realmente era a trabalho, mas isso não significa que não possa ter sido divertido, mesmo que se tratando apenas de trabalho. Segundo a Marina não é minha “chefe”, antes de ser minha chefe é minha amiga, minha melhor amiga, aliás, minha única amiga e você teria notado isso se não estivesse tão ocupado cuidando apenas da sua própria vida. E terceiro, quem disse que ela me arrastou? Eu fui porque eu quis. Eu quis conhecer as pessoas que ela tinha a me apresentar, eu quis conhecer o universo dela – Sentia certo orgulho em dizer essas palavras, como se assim pudesse, ao menos em parte assumir o que Marina representava em sua vida. Seu amor era tão grande que a vontade mesmo era gritá-lo — Até porque, embora você não se importe, eu gosto do meu trabalho e eu quero crescer, quero evoluir, isso responde a sua primeira pergunta. Foi isso que aconteceu comigo. Eu deixei de querer ser apenas a sua esposa, a mãe do seu filho. Eu deixei de viver pra você e comecei a viver pra mim. A pensar em mim. Descobri que eu posso ser o que eu quiser, quem eu quiser. E essa mudança eu devo sim ao meu trabalho, devo à Marina. Isso pode até ser algo ruim pra você, mas pra mim não, pra mim é tudo.

Não conseguiu conter o sorriso que lhe escapava pelo canto dos lábios ao fazer aquele breve resumo de tudo que Marina havia significado para ela até ali. Não sabia também ao certo se antes de dizer isso ao marido tinha conseguido reunir todas essas informações em um único raciocínio. Marina em tão pouco tempo a transformara em outra mulher. Uma mulher mais firme, segura, que se amava em primeiro lugar e que por isso era mais feliz. Nesse momento apaixonara-se um pouco mais por ela.

_Tá, que bom que você tá bem. Tá feliz. Mas e a gente? O que a gente faz em relação a nós? Porque se você enche a boca pra se defender como mãe, como esposa parece que já jogou a toalha.

Questionou ele.

_A gente não faz, Cadu.

Respondeu em uma calma impassível. Ao que o outro arregalou os olhos como se assim fosse ser capaz de entender melhor. Antes que ele tivesse a oportunidade de pedir-lhe maiores explicações ela prosseguiu falando:

_Nosso casamento acabou. E não faz essa cara de surpresa não. Porque não é possível que você ainda não tenha se dado conta disso.

Ele a olhava incrédulo.

_ Como assim não é possível, Clara? Do que, que você tá falando? Tá doida? Como assim nosso casamento acabou?

_ Assim cara, acabou. Do mesmo jeito que começou, acabou. Não dá pra ser mais clara que isso.

Falava numa tranquilidade que a ele pareceu absurda.

_Espera ai. As coisas não são assim. Você não pode chegar pra mim e dizer que um casamento de dez anos acabou, assim do nada.

_ Do nada? Cadu, há quanto tempo a gente nem ao menos conversa direito? Outra coisa, por exemplo, você se lembra qual foi a última vez que nos amamos?

_Você fala como se estivesse jogando a responsabilidade toda pra cima de mim. Como se apenas eu estivesse ausente, como se você também não estivesse sempre ocupada. Quantas vezes você se importou ou quis saber sobre isso daqui? — sinalizou apontando para o bistrô – Em momento nenhum você esteve do meu lado, me apoiando. Sempre agiu como se isso fosse só meu.

_E é cara. Isso aqui é um sonho seu, só seu. E se eu não estivesse presente foi porque eu fui correr atrás dos MEUS sonhos. Mas, essa não é a questão. Não tô jogando a responsabilidade de nada em cima de você. Até porque não acredito em “responsáveis”. Como eu disse, acho que simplesmente acabou, quando tinha que acabar.

_ E essa é a justificativa que você tem para jogar tudo, todos esses anos fora?

_ Não tô justificando nada. Tô concluindo. E também não tô jogando nada fora. Tudo o que nós dois vivemos vai ficar pra sempre guardado dentro de mim, e tenho certeza de que dentro de você também. Não podemos dizer que nossa relação não deu certo, porque ela deu. Deu pelo tempo que tinha que dar. Eu fui muito feliz com você e isso eu vou sempre levar comigo onde quer que eu vá.

_Foi muito feliz? E quando é que deixou de ser?

_ Quando eu me descobri mais feliz sem você.

_Espera, Clara. Essa conversa tá muito estranha. Mais feliz sem mim? O que você quer dizer com isso? Tá dizendo que tem outro?

_Porque você acha que pra ser feliz eu preciso ter outra pessoa?

Tentou desconversar.

_Porque nada nessa conversa faz sentindo, parece loucura.

Respondeu com sinceridade.

_Parece mesmo, mas eu nunca estivesse mais lúcida.

Ela falou, também com sinceridade e prosseguiu:

_ Eu sei que falando assim, desse jeito, é difícil de compreender. Mas, eu te conheço Cadu. Sei que apesar de um pouco desligado você é sensato. Sei que vai acabar chegando à mesma conclusão — e ele, no fundo, também acreditava nisso, embora fosse difícil reconhecer naquele momento -

Do que adianta nós continuarmos casados, vivemos na mesma casa se já não agimos como um casal? Não existe mais companheirismo e não somos mais felizes. Reparou que desde que começamos a conversar nem ao menos nos preocupamos em falar de amor?

_Por que, você não me ama mais?!

Foi mais uma afirmação que uma pergunta.

_Amo. Sempre vou amar. Mas, é de uma forma diferente agora. E o fato de continuarmos vivendo juntos, acaba impedindo que esse amor se desenvolva e eu quero que ele se desenvolva. Quero que nos tornemos outra coisa e que sejamos felizes com isso.

_ Amigos?

_ Sim.

O silêncio incômodo entre eles voltou. Clara ainda o encarrava com ternura, mas ele fitava os próprios pés, perdido em pensamentos. Estava atordoado com tudo aquilo que ela despejara sobre ele.

_ Eu sei que é difícil assimilar, parece loucura que, de repente, nossa vida esteja mudando de maneira tão radical. O comum seria que mantivéssemos essa situação por mais tempo, empurrando o inevitável com a “barriga”, porque todo mundo tem medo do desconhecido, medo de seguir em frente. Mas, eu não quero isso pra nós dois, Cadu. Nem pro nosso filho. Ele merece ter pais felizes, ainda que separados.

Seu coração agora apertava. A consciência do quando sua vida mudaria estava atingindo-lhe tardiamente. Deu-se conta que não mais se depararia com o sorriso dele ao acordar, que não mais se irritaria com sua peculiar e, de certa forma, charmosa falta de responsabilidade, que não passariam mais aquelas tardes na cama agarrados com o filho e tantas outras coisas. Abateu-se, no entanto, em meio a todas essas lembranças e ao saudosismo antecipado era a imagem dela que sobressaia, a imagem sua Marina.

O marido assentiu ao que ela havia dito, embora não tivesse muita certeza.

_ Eu vou pra casa agora. Buscar algumas roupas.

Cadu olhou-a, não entendera o que ela tinha querido dizer.

_Roupas? Pra que roupas? Vai a algum lugar?

_Sim. Nós dois precisamos de um tempo pra pensar.

_E o Ivan, Clara?

_Vai ficar com você.

_Além de querer se separar de mim, você vai também abandonar o seu filho?

_Tá maluco, Cadu? Eu nunca abandonaria meu filho. Mas, eu não vou tirá-lo de casa, da rotina dele enquanto a gente coloca a cabeça no lugar. Não estou abandonando ele, estou deixando-o com o pai. Eu poderia pedir para você sair de casa, mas não quero fazer isso agora. Porque você tem que recuperar a convivência que perdeu com o seu filho, cara. É você quem tem abandonado ele todos os dias. Por isso, e só por isso – frisou essa parte – que eu tô deixando ele com você. Tô fazendo isso por você, e principalmente por ele. Ele sente a sua falta e se você sair de casa agora, talvez essa convivência nunca mais seja recuperada da maneira que deveria e quem mais sofreria é ele. Eu não vou desaparecer, muito menos ficar longe por muito tempo. Tô te dando só um tempo pra absorver a conversa que tivemos. Eu não vou abandonar a minha casa muito menos o meu filho. E espero que você cuide muito bem dele nesses dias, confio em você pois sei que é um bom pai. Que você vai fazer a coisa certa, por ele.

_Pra onde você vai?

_Vou viajar. Pensar. Mas, antes. Vou conversar com ele.

Mentiu mais uma vez. Parecia que a mentira estava se tornando um hábito difícil de se corrigir.

_Você vai dizer que vamos nos separar?

_Não. Ainda não. Quero que isso seja dito por nós dois. Juntos e conscientes de que essa escolha foi o melhor pra nós. Por isso, é tão importante termos esse tempo para aceitar a ideia. Espero que você também não converse com ele sem mim.

_Tudo bem. Também acho melhor assim.

Ela sorriu, apesar de sem graça.

Aproximou-se dele segurando-lhe a face abatida, e depositou sobre ela com carinho um beijo demorado. Daquela forma, desejava transmitir-lhe tudo o que ainda sentia por ele. Amor, afeto, admiração.

Ao soltá-lo despediu-se, com um “Tchau”.

_Tchau, Clara.

Virou as costas, firme. Embora o coração estivesse em cacos. Deixando um Cadu desconcertado atrás de si.

No caminho foi pensando no quanto havia mentido, e até que ponto isso fazia dela uma pessoa horrível. Porém, será que tinha mesmo a obrigação de expor o que vivera com Marina até ali? Tudo lhe parecia tão intimo, tão delas. Raciocinava. Se referia não ao aspecto sexual, mas ao sentimento. Tinha mesmo a obrigação de compartilhá-lo? Até porque sabia que se o fizesse, aquilo que julgava ser tão puro e tão bonito seria visto como sujo, sórdido pela maneira que se desenvolveu. E isso ela não podia permitir. Seria leal a si mesma, antes de qualquer pessoa e concluiu que isso definitivamente não fazia dela uma pessoa horrível.

Ao chegar no prédio onde morava, foi primeiro ao próprio apartamento. Arrumou uma mala com tudo o que julgou necessário para passar alguns dias fora, três ou quarto, não mais que isso. Pensou. Trocou de roupa. Antes de sair deixou a mala sobre o sofá e dirigiu-se ao apartamento da irmã para ver o filho.

***

Quando Marina despertou, seu primeiro impulso foi procurar a assistente ao seu lado. No entanto, viu-se sozinha na cama que lhe parecia imensa agora com a ausência da amada. Foi tomada por uma tristeza profunda ao concluir que Clara tinha ido embora, voltado para casa. “Pra ele” e nem mesmo se despedira. A fotografa sequer tinha se dado conta ainda do quanto o corpo estava dolorido. Levou a mão ao pescoço que doía de forma pulsante e pôde notar que havia feridas ali. Teve que fazer um grande esforço para se levantar. Tudo estava dolorido, sobretudo a região inferior e mais ainda o meio de suas pernas. Tanto as pernas em si por elas terem permanecido por demasiado tempo abertas, como o órgão que havia entre elas que fora, sobremaneira, violado na noite anterior. Contudo, não se incomodava. A lembrança da noite que passara era perfeita e isso fazia com que ela se sentisse ainda mais triste pela ausência da assistente ao acordar. Andou com dificuldades objetivando o banheiro. Precisava de um banho demorado, de banheira, é claro.

Ao que a tristeza foi contraposta à felicidade extrema quando finalmente viu o recado escrito no espelho. Embora após alguns segundos de alegria irracional, tenha passado a temer pelo que Clara faria. Depois de alguns minutos de nevrosismo, acabou distraindo-se com batidas na porta. Estava com o corpo submerso na grande banheira de seu quarto quando Vanessa entrou.

A ruiva não pôde deixar de notar o escrito no espelho.

_Olha, a dona de casa é romântica. Quer dizer, nem tanto. Se deixeu um bilhete no espelho é porque nem sequer se despediu ao sair sorrateiramente para voltar pra casa. Pro maridão.

Disse irônica.

Marina não respondeu a provocação. Ainda guardava raiva pelas palavras proferidas na última briga que tiveram. Palavras que fizeram que ela agisse de forma tão errada.

_Que, que foi Vanessa? Você não entrou aqui só pra destilar veneno, entrou?

_Não. Entrei porque já são quase duas horas da tarde e o seu pai já ligou várias vezes querendo falar com você.

_Uhm. E o que ele queria?

_Bom, primeiro ele disse o mesmo de sempre. Que você está gastando demais, que precisa ter mais responsabilidade com o dinheiro e... O resto você já sabe. Conhece o discurso.

_É conheço mesmo.

Disse olhando pro teto ao lembrar o sermão do pai.

_Dai ele disse que você precisava entender que ele não viveria pra sempre. Que até podia querer ser uma artista, mas que precisava aprender a cuidar do que um dia vai ser seu.

Marina arregalou os olhos, teve medo de pensar o que o pai quisera dizer com isso.

_Por isso, ele resolveu te transferir algumas responsabilidades. Alguns negócios que ele tem aqui no Brasil. Disse que dá muito bem pra você viver deles e que sendo assim, não vai precisar mais de mesada.

O queixo de Marina estava caído agora.

_ Como assim negócios Vanessa? Meu pai sabe muito bem que eu não entendo nada dos negócios dele.

_Foi o que eu disse a ele. Mas, ele disse que desses negócios você entenderia. Já que todos dizem respeito à arte.

_Uhm, continua.

_Ele disse que entrou como investidor em várias galerias de arte, aqui no Rio e em São Paulo e que como investidor capitalista não pode interferir na gestão delas e tal, mas que a partir de agora caberia a você gerir o capital. Disse que é coisa simples. Basta você se dedicar um pouco.

Marina duvidava.

_ Além das galerias. Ele disse que investiu um bom dinheiro em um negócio que eu não entendi muito bem, acho que nem ele sabe o que é ao certo. Na verdade se tratou de um favor que fez a uma amiga, sei lá. Falou que era um galpão de artes, culturas e não sei o que lá mais. E que no caso desse, o investimento converteu-se em sociedade. E que de lá você vai ter que cuidar. Administrar, gerenciar, não sei. Claro que junto aos outros sócios.

Marina estava desacreditada e atordoada ao mesmo tempo. Era como se em alguns segundos tivesse sido uma das vítimas de um terremoto.

_Pega meu telefone pra mim, Vanessa. Eu preciso falar com o meu pai, agora.

_Ih, não vai adiantar. Ele disse que vai sair de viagem por tempo indeterminado e que estaria inacessível. Você conhece o seu pai. Ele falou que um advogado vai te procurar pra explicar tudo.

A fotografa ficou tão perdida ao ouvir o que a ruiva dizia, que na hora nem conseguiu fazer a conexão entre o negócio que Vanessa definira e o espaço onde ela sabia ficar o bistrô do marido de Clara.

_Meu Deus, e agora? O que eu vou fazer?

Levou as mãos ao rosto.

_ Vai ter que fazer o que seu pai mandou. Isso se você quiser continuar tendo a vida confortável que tem.

Respondeu a outra já se aproximando da borda. Aproveitar-se-ia que Marina abaixara as defesas.

_ Sai dessa banheira, vem. — Chamou-a oferecendo-lhe o roupão — Deixa eu te fazer uma massagem.

E marina cedeu.

Nesse momento havia um turbilhão de coisas em sua cabeça, massacrando-a. Preocupava-se demasiadamente com o que Clara estaria fazendo naquele instante. E agora mais essa que o pai lhe aprontara. Sentia-se insegura. Nunca havia feito outra coisa na vida que fotografar, nem o próprio estúdio era ela quem administrava e sim Vanessa. Além disso, mesmo que Vanessa não o fizesse bem essa nunca foi uma preocupação sua, já que sempre teria dinheiro para investir nele e em si mesma. Como o pai achava que ela poderia tomar conta dessas coisas, agora? Ainda por cima gerir o que quer que fosse? Seus pensamentos foram interrompidos por uma Vanessa horrorizada.

_O que é isso Marina?

A fotografa já se encontrava deitada sobre uma esteira que havia no banheiro, com as costas nuas. A ruiva estava pronta para começar a massagem que já lhes era habitual sempre que Marina estava tensa, nervosa, ou apenas tencionava relaxar sem maiores motivos, quando visualizara as marcas, primeiramente em seu pescoço.

_Oi? Isso o que?

_Essas marcas.

Marina gargalhou irônica.

_A Van, vai dizer que você não sabe o que é isso? Como se eu nunca tivesse deixado nada parecido em você, né?

_ Rárá, muito engraçado! Mas isso daqui não tá parecendo nada comum. Você está cheia de hematomas, Marina.

Agora a ruiva observava mais de perto o rosto da outra. Havia marcas de dedos nele. E continuou encontrando mais hematomas pelo corpo da fotografa, nos ombros e também nas nádegas.

_Meu Deus, Marina. Você tá mais doida do que eu imaginei, sabia? Essa mulher vai te matar!

_Assim espero Vanessinha. Assim espero.

Riu para uma Vanessa ainda mais chocada pela resposta.

_E essa massagem, sai ou não sai?

Decidiu relaxar, não pensaria mais nos problemas até que eles aparecessem.

Notas finais
Não, esse não é o final da fic.. rsrs E ai, gostaram da Clarinha? E a Marina, hein? Vai ter que virar "gente grande" agora. Ps: Se vocês ajudarem a divulgar a fic e comentarem bastante vão ganhar um presente no próximo capítulo. :P