Notas iniciais
"Entre as coisas mais lindas que eu conheci Só reconheci suas cores belas quando eu te vi Entre as coisas bem-vindas que já recebi Eu reconheci minhas cores nela então eu me vi..." Nando Reis

Um mês depois

Clara foi levantando da cama e Marina agarrou-lhe derrubando-a de volta na mesma.

_Volta aqui.

As duas riam e Clara tentava se levantar novamente enquanto a outra a segurava.

_Me solta, sua louca. Eu preciso ir embora. O meu filho tá me esperando.

_Não, não vou soltar.

Dizia Marina fazendo cara de pirraça.

_ Solta vai -Deu lhe um beijo rápido nos lábios – solta – outro beijo.

E seguiu fazendo isso até que conseguiu afrouxar as defesas de Marina. Aproveitando pra se levantar e correr.

_ Ahhh Clarinha, assim não vale. É golpe sujo sua bandida.

Clara apenas sorriu, direcionando a ela um olhar sacana antes de sumir atrás das paredes do banheiro do quarto de Marina. Tomou um banho rápido e arrumou-se, enquanto a fotografa permanecera jogada na própria cama. Tento a letargia como consequência do que as duas faziam até minutos atrás.

_Nossa, que cheiro!

Clara tinha adentrado o quarto novamente e Marina deliciava-se com o perfume que exalava dela.

_Vem aqui, deixa eu sentir.

Pediu ela manhosamente.

_Não. Se não você não me deixa ir embora.

_Calúnia. Você tá sendo muito injusta comigo.

Fez bico.

_Injusta nada. Te conheço dona Marina. Preciso ir. Hoje ainda tem o jantar que a mamãe vai dar pra apresentar o seu primo, que vem a ser o namorado dela.

Divertiu-se e continuou.

_A senhorita é que não vai, por isso está ai toda despreocupada. Já eu, vou ter que correr muito pra fazer tudo o que ainda tenho pra fazer até a hora desse jantar.

Marina deu-se por vencida, embora o bico continuasse.

Clara pegou a bolsa que deixara em uma poltrona ao lado da cama, beijou a própria mão e soprou o beijo em direção a chefe que o recebeu com carinho.

_Tchau.

_Tchau.

Saiu porta a fora com o coração aos pulos, tamanha a felicidade que sentia, e deixou para trás uma Marina suspirante, compartilhando da mesma alegria.

Enquanto caminhava pelo corredor do andar de cima da mansão, Clara cruzou com Vanessa. Esta estava sempre com cara de “poucos amigos”, não gostava dela o que vivia fazendo questão de frisar. Viviam trocando farpas porque Clara levara muito pouco tempo para decidir que não levaria os desaforos ditos por ela para a casa.

_Eu tenho que admitir que você é muito esperta, sabia?

Disse-lhe ironicamente a ruiva.

_Que, que é, hein? O que você tá tentando insinuar dessa vez, Vanessinha?

_ Não tô insinuando nada não. Tô falando. É muito esperto da sua parte se enfiar na cama da chefe. Quem sabe assim não arruma uma promoção? Pra começo de conversa você começou fazendo isso até para arrumar o emprego não foi, Clarinha?

Seguiu sendo irônica.

_Bom, mesmo que eu tivesse feito isso, não teria sido muito diferente de você, né? Só que, coitadinha, ela se enjoou de você, não foi?

Clara gargalhou maldosamente já passando pela outra e se encaminhando para as escadas. Deixando uma Vanessa furiosa, pronta pra descontar toda raiva pelo que ouvira em Marina.

A ruiva entrou bufando porta a dentro do quarto de Marina, sem pedir licença. Pegando-a ainda nua e se ela tivesse qualquer dúvida do que a fotografa e Clara fazia trancadas ali dentro, sanaria imediatamente.

_Que isso, Vanessa? Não bate na porta não?

Chamou-lhe a atenção enquanto cobria-se rapidamente com um lençol.

_Até quando Marina?

Perguntou enfática, sem dar atenção a censura que acabara de receber.

Marina olhava-a em dúvida, confusa. Não tinha entendido a pergunta.

_Até quando o que?

_Até quando você vai continuar deixando essa mulher fazer isso com você? Te enrolar desse jeito? Essa mulher não vale nada Marina, nada.

_Você tá falando da Clara, de novo? Porque se tiver...

_Tô falando da Santa Clara, sim.

Interrompeu já aumentando o tom de voz, e continuou:

_Será que você tá cega? Que foi enfeitiçada? Essa mulher não presta. Ela se deita na sua cama com você e depois vai embora, pra cama do marido, DAR (gritou) pra ele. Não é possível que você aceite conviver com isso. Que esteja tão feliz quanto diz estar. Ela fez você de amante e nem sequer se sente culpada por causa disso. Trai, engana o marido e usa você. Ou será que é exatamente disso que você gosta? Da imagem de PUTA (gritou novamente) dela? Porque é isso mesmo que ela é. Isso excita você?

Marina recebeu cada uma das palavras proferidas pela ruiva, atônita. Haviam brigado outras vezes por causa de Clara, mas, as palavras da outra nunca chegaram a esse nível.

A fotografa não precisou falar nada, a própria Vanessa percebeu que tinha passado dos limites no que dissera. Aproximou-se de Marina, a fim de tentar consertar, mas a única coisa que ouvira foi um firme, frio e seco:

_Sai daqui.

Notou que Marina estava trêmula e considerou que era melhor fazer o que ela havia pedido, saiu do quarto, depois conversariam com mais calma. Pensou.

Durante alguns segundos ou minutos, não saberia dizer, continuou atônita tentando acabar de absorver as palavras que lhe foram jogadas na cara. E quando voltou a si a fotografa resolveu nem se dar ao trabalho de nutrir raiva por Vanessa, preferiu avaliar as coisas ditas por ela.

Não que algum dia fosse concordar com a ideia que a ruiva fazia de Clara, até porque havia muita coisa que Vanessa não sabia. Como por exemplo, que desde o ensaio que ela fizera da assistente, elas nunca mais tinham ido para “cama” até aquela tarde. Pois, quando Clara fora trabalhar ali, de certa forma, fechou-se em relação ao envolvimento sexual das duas o que para Marina não chegou a ser um problema, tendo em vista que isso não afetou o carinho mútuo entre elas. Pensava, inclusive, que esse tempo tinha sido muito bom para que elas se conhecessem melhor. Foram, a cada dia, tornando-se mais cúmplices ao ponto de que conseguir esconder o amor que existia entre elas ter se tornado quase impossível, embora nenhuma das duas tenham nem ao menos tentado fazê-lo.

Era como se tivessem começado de trás para frente no dia em que a dona de casa visitara seu quarto na noite da exposição, e durante aquele mês estavam consertando isso. A fotografa surpreendeu-se ao notar que gostava de estarem vivendo a coisa daquela maneira, aos poucos. Sentia-se como uma menina de 12 anos com seu primeiro amor. Além disso o fato de estarem indo mais “devagar” não significava que elas não tivessem tido seus momentos de intimidade, até porque a tensão sexual que conectava-as era muito forte, a possibilidade de conseguirem reprimi-la totalmente era inexistente. Porém, não deixaram que nada passasse dos limites de uma pegação interrompida ou troca de mensagens de texto provocativas. Quer dizer, houvera uma vez em que uma conversa ao telefone saíra do controle e terminado com as duas ofegantes recuperando-se do clímax alcançado, cada uma em sua respectiva cama. Lembrar desse acontecimento específico ainda fazia com que Marina recebesse descargas elétricas intermitentes. Por essas e outras, a fotografa sabia, estar Vanessa enganada no que tangia seu relacionamento com Clara. O problema da ruiva era justamente não aguentar ver o amor gritante que existia entre as duas, já que ela não se conformava em ter perdido Marina.

No entanto, era certo que Clara continuava com o marido, mesmo que a cada dia as duas estivessem mais unidas, e que durante aquele mês nunca esboçara qualquer manifestação de que isso mudaria. A própria Marina, também, quase nunca pensava em Cadu, não sentia ciúmes dele, pois sabia que Clara era sua, tinha certeza. Todavia, indagando-se agora chegou a conclusão de que talvez nunca tivesse se importado com o fato da outra ser casada porque ela mesma nunca tivera vontade de se casar, ter filhos, constituir uma família, enfim, de fazer as coisas que as pessoas comuns fazem. Até porque a fotografa sabia nunca ter sido comum. Então, não se sentia no direito de se incomodar com o fato de isso ser importante, aliás, fundamental para Clara. Só que ouvir aquilo em voz alta, sendo colocado naqueles termos por Vanessa fez com que esse incomodo a atingisse pela primeira vez. Se era pra Clara ser sua, que o fosse por inteiro mesmo que a própria Marina não soubesse o que poderia lhe oferecer. A queria para si. Teve a consciência que o motivo de ter esse tipo de pensamento justamente, nesse momento, poderia ser capricho seu em decorrência das palavras proferidas pela ruiva. Mas, não se importou. Faria alguma coisa para que a mulher que amava fosse definitivamente e somente sua.

Ainda com o que Vanessa disse invadindo sua mente não pôde deixar de admitir para si mesma que além de amor, havia outra coisa que mantinha ela e Clara conectadas. Uma espécie de ligação sexual surreal, que de tão forte alucinava. Fazia com que ambas perdessem a razão já que nada, nunca era suficiente para sanar a vontade e o desejo que uma tinha da outra. Analisando por esse lado, o mês que passara tinha sido uma tortura e talvez só tivessem aguentado porque encararam-no como um jogo. Um jogo sexual silencioso entre elas que terminara de maneira deliciosamente boa naquela mesma tarde. Tudo em Clara a excitava, tudo. Então, entendia ser possível que Vanessa tivesse razão e que ela, Marina se sentisse excitada com a ideia de uma Clara promíscua como a ruiva insinuara, aliás, insinuara não, afirmara. Definiu que essa parte não a incomodava, em absoluto.

Continuou perdida em pensamentos até que se levantou da cama com um pulo. Decidira ir ao jantar que a mãe dela estava dando para apresentar o namorado a família, namorado que por acaso (ou não tanto) era primo de Marina. Aproveitaria a oportunidade para conhecer à família de Clara, era hora de ocupar mais espaço na vida da amada. Já haviam conversado sobre esse jantar mais cedo quando a assistente e Gisele (filha de Ricardo) se deram conta, seus pais estavam namorando. Marina já havia sido convidada pela prima, que não queria ir sozinha, mas recusara. Eventos familiares não eram a sua “praia” e mesmo depois de terem descoberto a coincidência entre as famílias julgara que seria melhor não ir, evitando, assim, qualquer constrangimento a Clara. No entanto, acabara de mudar de opinião. Iria fazer-se presente.

***

Apesar do contratempo com Vanessa no corredor da mansão de Marina, Clara saiu daquela casa em direção ao Leblon sentindo-se nas nuvens. A tarde ao lado da mulher que amava tinha sido maravilhosa. Aliás, desde que começara a trabalhar no estúdio, todos os seus dias eram maravilhosos, pensava ela. Apaixonara-se pelo trabalho no primeiro segundo e a cada momento que passava, ela desejava aprender um pouco mais. Estava sempre sendo elogiada por Marina pelo esforço e dedicação, o que a deixava bastante feliz. Embora ela soubesse que a fotografa era suspeita. E talvez, esse tenha sido um dos principais motivos que a fizera concluir que deveria ir com mais calma na relação das duas. Precisava provar, principalmente, para si mesma que era capaz, agindo com o máximo de profissionalismo possível. Ela tinha muitas questões a resolver na própria vida dali por diante e definira que, primeiramente, se sentir bem consigo mesma era o mais importante, talvez só não tão importante quanto o bem-estar do filho, é claro. E por falar em filho, sua relação com ele era outro motivo para que ela se sentisse bastante feliz. Pensou que seu “bichinho” estranharia o fato de a mãe e o pai estarem trabalhando, passando, assim, menos tempo com ele. Mas, não. O garoto acostumou-se bem. Clara continuou levando-o ao colégio todos os dias pela manhã, e buscava-o na casa de Helena no final da tarde o que lhe dava ainda algum tempo para ficar com o menino. Faziam os deveres de casa juntos e depois a mãe sempre programava alguma coisa divertida para os dois. Quer fosse jogar videogame, tomar um sorvete ou água de coco na praia, passear com o cachorro do pai de Virgílio e etc. Mas, havia um problema, era que Cadu não tinha conseguido conciliar, do mesmo jeito que ela fizera, a própria rotina com a do filho. Quase nunca estava presente e piorara após a inauguração do “bistrô” há uma semana. Estava sempre ausente. Quando Ivan ia para o colégio de amanhã, o pai ainda estava dormindo e quando voltava para casa a noite era a vez de o menino dormir.

Durante aquele mês, Cadu tinha estado ausente até aos domingos, o que possibilitou a Clara apresentar o filho à Marina. Na ocasião, fizeram um programa simples, indo apenas tomar um sorvete no começo da noite. E nesse dia o que encantara Clara não fora o fato do filho ter gostado da chefe, porque ela sabia ser natural que uma criança gostasse de quem a trata bem. Encantara-se mesmo foi com o brilho no olhar de Marina, tanto ao estar próxima do garoto, quanto pelo programa em si, que mesmo simples, foi bastante divertido. Nesse dia, Clara perguntou-se se quando criança Marina havia compartilhado momentos como aquele com os pais, achava que não. Depois desse dia, ainda tinham saído juntos de novo em mais um domingo de ausência do pai do garoto. Passaram o dia na praia, os três. Foi ainda melhor. Clara e Ivan divertiram-se às custas de Marina ao perceber o quanto ela era inarticulada ao lidar com crianças, embora tivesse boa vontade. Mãe e filho pregaram boas peças na fotografa aproveitando-se disso, entre outros momentos. Contudo, o mais importante para a dona de casa era o carinho genuíno que Marina tinha com sua criança e notar nela o mesmo brilho no olhar que vira na primeira vez. Curiosamente não saberia dizer se a própria Marina percebia-o. Mas ela, Clara sentia-se muito feliz por sua existência.

Mesmo assim, a dona de casa sabia que, no caso de Ivan, nenhuma presença seria capaz de suprir a ausência de Cadu. Havia no menino uma certa tristeza e tentava chamar a atenção do marido para isso, entretanto, o mesmo sempre se desculpava afirmando que era só uma fase, que precisava colocar os negócios em ordem, fazer o restaurante dar lucro e que o garoto no final entenderia. E Clara tentava remediar as coisas, pois sabia que Cadu não era um mau pai.

O abandono que Cadu proporcionou ao filho durante aquele mês, também se aplicou à esposa. O que facilitou bastante as coisas para ela. Não no que dizia respeito, teoricamente, a estar traindo-o, ela nunca viu isso como algo legal, ou direito. A questão era que o fato de Cadu ter passado a agir dessa forma exatamente no momento em que ela conhecera Marina, fazia-a sentir como se aquilo estivesse “escrito”. Que o casamento durara o tempo que tinha que durar, como se, de repente, magicamente acabara sem muitas questões, complicações, dúvidas ou sofrimentos. Tudo bem que ela ainda não o tinha comunicado, então não tinha como afirmar isso por ele, mas, algo dentro dela dizia que mesmo que ele se espantasse em um primeiro momento, depois concordaria com ela. Já não eram um casal.

Trinta dias também foram o suficiente para que Clara descobrisse que tinha sim, força e capacidade para mudar a própria história em nome de sua felicidade. A única dúvida que persistia dentro dela e a impedia de tomar qualquer atitude encontrava-se na própria Marina. Entendia que a maneira de a fotografa enxergar a vida era totalmente diferente da sua e isso a assustava. Percebia nela uma certa imaturidade que relacionava aos mimos proporcionados pelo dinheiro do pai. E por isso, não sabia qual o tipo de relacionamento poderiam ter, até porque a mesma nunca lhe dera nem ao menos uma pista sobre o lugar que Clara ocuparia em sua vida caso não fosse casada e isso lhe causava muito medo. Sentia que a fotografa a amava tanto quanto ela, mas não sabia se esse sentimento seria o suficiente, afinal de contas, tantas são as outras coisas que sustentam o amor. É claro que poderia pagar para ver, mas a única coragem que ainda lhe faltava era a de se arriscar a ser decepcionada por aquela mulher, essa dor ela não suportaria. Tudo isso se somava, ainda, ao medo que ela sentia de si mesma, talvez ele fosse o maior de todos, pois, Marina despertava-lhe insanidade, em todos os sentidos. Tinha a impressão de que se não tomasse cuidado, perder-se-ia na própria loucura. Para sempre.

***

Já era noite e todos os membros da família Fernandes, menos Cadu que não havia chegado a tempo do “bistrô”, se encontravam no apartamento de Chica afoitos para conhecerem o homem que roubara o coração da matriarca.

Notas finais
Vocês não fazem ideia do que será esse jantar... rsrsr