Unchained Melody
6 Destination
Notas iniciais
A dona de casa abriu os olhos, acordando de um sono extremamente pesado. Olhou pro lado esquerdo da cama e viu que Cadu já não estava lá. Virou-se pro lado oposto procurando o celular no criado-mudo que havia ali, precisava saber que horas eram. Sobressaltou-se ao ver no visor que já se passavam das 10:00. “Caraca, dormi demais” disse em voz alta pulando da cama e pensando em várias coisas ao mesmo tempo. Tinha perdido a hora de levar Ivan pro colégio. Geralmente quem fazia o café da manhã deles era o marido, mas a tarefa de levar o filho para a escola depois era dela. Correu até o quarto do filho e viu que o garoto não estava, nem seus materiais. Ao chegar à sala, havia um bilhete em cima da mesa:
“Amor, você estava apagada. Não quisemos te acordar. Levei o Ivan para a escola e de lá vou com a Lú (Sobrinha de Clara, filha de Helena) ver um espaço pro nosso futuro restaurante”.
Terminou assim o bilhete, sem “beijos” ou “te amo” o que para Clara foi um alívio. Tinha medo que a culpa acabasse chegando tardiamente.
Parou por um minuto, e se lembrou. Lembrou-se da noite anterior. Caiu sentada no sofá, teria sido um sonho? Por alguns segundos conviveu com a dúvida, afinal, só podia ter sido um sonho.
Notou que seu corpo gelara com a possibilidade, porém, a sensação não se demorara. Não era um sonho, tinha acontecido, ela... “ela existia”. Sorriu, um sorriso meigo que lhe era peculiar.
***
Marina também acordou tarde, o que para ela não era novidade. Entrou alegremente em seu estúdio distribuindo “Bom dia” à Vanessa, Flavinha e Gisele, sua prima, filha de Ricardo.
Às três retribuíram em uníssono e logo repararam na produção da mulher à sua frente.
A primeira a se manifestar foi Gisele.
_Nossa, olha, ela. Tá toda bonitona.
_A que isso, são seus olhos.
Respondeu Marina fingindo uma falsa modéstia.
_Vai aonde produzida desse jeito?
Dessa vez quem falou foi Flavinha.
_ Uhm, por ai.
Respondeu a fotografa, dessa vez em tom de mistério.
_Ai tem coisa, podem apostar. Ainda mais depois de ontem.
Gisele e Flavinha de viraram para Vanessa, querendo saber o que havia acontecido “ontem”. Porém, Marina nem deixou que a ruiva continuasse. Hoje ela não estragaria sua alegria. Despediu-se das três de uma vez só e saiu porta a fora.
Tudo que Marina mais queria naquele resto de manhã era ver Clara. No entanto, não sabia como encontrá-la. Na emoção do momento não perguntara aonde a dona de casa morava, e nem se lembrara de pegar seu número de telefone ou de passar-lhe o seu. “Como eu pude ser tão estúpida”? Repetiu isso em sua cabeça. Arrumou-se e saiu porque não aguentaria ficar naquele quarto ou no estúdio dando voltas pensando no que fazer, era melhor ir fazer compras, tentar se distrair e pensar em alguma forma de encontrá-la.
***
Era certo que Clara deveria estar se sentindo péssima. Mas não estava, na verdade estava ótima.
Aproveitou que o marido e o filho não estavam para cuidar um pouco de si. Nunca se achara muito bonita, embora o marido sempre dissesse o contrário, no entanto, hoje era assim que ela queria se sentir, quer dizer, bonita não. Linda.
Queria fazer alguma coisa, mudar. Arrumou-se rapidamente e correu para o salão de beleza, depois, dali compraria roupas novas.
No salão fez as unhas, como de costume, porém, mudou a cor do esmalte. Nada mais de tons pastéis, pintou-as de azul.
Riu da modernidade, pois sempre tinha optado por tudo de mais tradicional que podia existir em qualquer lugar em relação a qualquer coisa.
Mudou um pouco a cor do cabelo, um tom mais escuro, porém, não muito.
E resolveu que deixaria de usar aquela franja jogada no rosto, a partir daquele momento a partiria no meio, até que crescesse.
Riu mais uma vez de si mesma, dando-se conta do quanto aquela franja a infantilizava. Ficava parecendo uma mocinha de 15 anos, quando na verdade era uma mulher, mãe, inclusive. Ao pensar no termo “mulher” percebeu que naquele momento estava se sentindo mais mulher. Aliás, desde que acordara naquela manhã estava se sentindo assim o que a agradava.
Do salão partiu para o shopping, não tinha condições de renovar o guarda-roupas inteiro mas...
Já no shopping começou a olhar uma vitrine aqui, outra ali até que encontrou uma loja que vendia o tipo de roupa que estava procurando. Queria roupas mais sérias, que a fizessem se sentir mais adulta e menos menina. Entrou. Escolheu algumas calças que, de preferência ficassem coladas no corpo, algumas camisetas mais sóbrias que as que costumava usar e alguns blazers. Foi ao provador e a primeira combinação que montou consistia em uma camiseta azul, um blazer cinza e uma calça jeans coladíssima, no momento em que se olhou no espelho, sabia exatamente qual sapato usar: Scarpin.
Além de reparar no modelito que estava usando, parou por um momento para reparar no próprio corpo. Embora sempre dissesse que precisava emagrecer um quilo ou dois, sentiu orgulho ao vê-lo. Tinha um belo corpo, resultado das caminhadas de bike no calçadão e das corridas na praia. A roupa mais justa realçava suas pernas grossas, bem torneadas, e também sua bunda que ela examinou e julgou estar na medida. O Blazer por cima da camiseta lhe trazia o ar de seriedade que ela estava buscando. A vendedora da loja aproximando-se dela, elogiou-lhe o que fez com que sua autoestima crescesse ainda mais. Gostou do estilo, por isso nem precisou experimentar as outras peças, resolveu levar todas elas. Nem chegou a trocar de roupa, saiu da loja com a roupa nova mesmo.
***
Marina pensou ter uma alucinação. Afinal de contas, não poderia ter tanta sorte. Ou poderia? Se é que era sorte e não destino.
Saíra pelo shopping seguindo a morena que avistara de longe saindo de uma loja. Apertou o passo de modo que pudesse alcançá-la e enquanto não o fazia sua cabeça era tomada por um turbilhão de pensamentos todos ao mesmo tempo “é ela”, “não é ela, ela tem o cabelo mais claro”, “estava escuro, no escuro as cores mudam...”, “mas e a roupa? Não parece ser o estilo dela”, “você a viu pela primeira vez ontem, como poderia saber o estilo dela”? A cabeça dava tantas voltas que não percebeu quando a morena parou abruptamente e virou-se. Trombaram fortemente uma na outra, quase se derrubando e espalhando as sacolas pelo chão. Quando se recuperaram da trombada, e se olharam reconhecendo-se, ficaram ali, paralisadas com as sacolas jogadas e espalhadas no chão.
O choque das duas tinha chamado a atenção de algumas pessoas, e agora essas mesmas continuaram observando a atitude estranha daquelas duas mulheres paradas iguais duas estátuas sem a menor explicação plausível. Plausível para eles, porque para elas a paralisia era resultado de um sem fim de emoções que as invadiu de uma vez só: Surpresa, emoção, alegria, felicidade, descrença, etc.
A fotografa estava fascinada, se não tivesse se apaixonado por Clara na noite anterior, teria se apaixonado agora “tão linda” ela pensava. Aliás, era possível e extremamente provável que se ela visse Clara por infinitas vezes, se apaixonaria por ela todas elas.
Já a dona de casa estava mais uma vez perdida nos olhos. Olhos que ela acreditava serem capazes de desvendarem sua alma.
Um segurança do shopping que estava passando por ali e viu todas aquelas sacolas no chão, resolveu perguntar-lhes se elas precisavam de ajuda e foi só assim que conseguiram sair do transe, depois do rapaz ter chamado-as duas vezes.
_Senhoras... Senhoras?
***
Estavam no carro de Marina agora. Clara tinha saído de casa de táxi já que Cadu estava com o carro deles naquele dia.
Ao serem despertadas do transe pelo segurança, recolheram suas coisas meio constrangidas pela cena protagonizadas e no mesmo momento em que terminaram de fazê-lo, Marina ofereceu a mão à Clara e lhe pediu:
_Vem comigo?
Clara titubeou um pouco, mas acabou entregando a mão à fotografa e Marina saiu puxando-a dali.
_Pra onde você está me levando louca?
Perguntou Clara assim que saíram do estacionamento do shopping.
_Segredo.
_Isso é sequestro.
_Seria só se você não tivesse vindo de livre e espontânea vontade, daí eu teria que te trazer à força.
Falou Marina de maneira divertida e sexy ao mesmo tempo.
_ Você não faria isso, faria?
Clara não sabia muito bem qual era a resposta que queria ouvir. Mas, com certeza gostou muito da que veio.
_ Não tenha dúvidas, meu amor.
Havia um tom de maldade na voz dela agora, misturado com toda a sensualidade que ela já exalava naturalmente.
Clara sentiu-se molhar.
Mantiveram a conversa com esse ar de provocação por alguns minutos, até que estavam passando por uma estrada de pouco movimento na beira de uma praia que parecia deserta.
_Pára, Marina!
Falou Clara bruscamente assustando a fotografa.
_Que isso Clarinha?
Marina não estava entendendo a atitude de Clara.
_Pára o carro.
Foi enfática dessa vez, começando a assustar a outra que obedeceu prontamente.
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