Notas iniciais
"Oh my love my darling I've hungered for your touch A long lonely time..."

Foram tiradas do transe por batidas fortes na porta. Como Marina não respondeu, Vanessa começou a chamá-la.

_Marina, abre essa porta. Já tá todo mundo indo embora e a família da moça está procurando por ela.

“A festa” lembram-se ao mesmo tempo.

E foram puxadas cruelmente de volta à realidade e a realidade era que elas tinham se conhecido apenas a poucas horas, por isso, não havia condições racionais de elas estarem ali jurando amor eterno com o olhar

“Loucura? Meu Deus eu só posso estar doida”. Por alguns minutos, ou talvez horas, não sabia quanto tempo tinha se passado desde que entrou naquele quarto, esquecera que tinha marido, família, até do filho! E pior, metade da família, inclusive o marido estavam ali naquela mesma casa, e agora, procurando por ela. Pensava em tudo isso enquanto procurava seu vestido pelo quarto.

Marina sem saber direito o que fazer, foi até a porta, abriu uma fresta de modo que apenas seu rosto aparecesse do lado de fora, pediu a Vanessa que inventasse uma desculpa e que Clara já desceria.

A dona de casa nesse momento já vestia desajeitadamente o vestido.

Marina acabou rindo, mesmo aquela não sendo uma boa hora, quando viu que ela tinha vestido-o do lado contrário.

_Caraca Marina, você ainda ri?

_Desculpa Clarina, acho que é o nervoso.

Fechou o sorriso, fazendo uma cara de falsa culpa.

Tratavam-se já como velhas conhecidas.

Clara também queria rir, mas, diante da situação não tinha tempo pra isso.

Consertou o vestido, foi até o banheiro que havia no quarto para se recompor antes de sair. Ao terminar, antes de sair do quarto, ainda deu-se tempo para se despedir de Marina, abraçando-a. As duas cheiraram os cabelos uma da outra, como se quisessem, com esse ato, guardar aquele cheiro na memória, pra sempre.

Olharam-se fixamente, e naquele olhar, muitas promessas foram feitas.

Clara saiu esbaforida porta a fora, deixando pra trás metade de seu coração e levando com ela metade do de Marina.

***

Vanessa tinha dito às pessoas que procuravam por Clara, que ela tinha ido ver como Marina estava e a fotografa tinha “agarrado-a no papo”.

_Vocês não fazem ideia do quanto a Marina fala, mas a … Como é mesmo o nome dela?

_Clara.

Respondeu Chica.

_Ah, sim. Então a Clara já já desce, isso se a Marina acabar de contar qualquer história longa que ela estiver contando ainda hoje né gente.

Falava ironicamente e riu ao final da frase.

Mas os membros da família Fernandes ali presentes pareceram não notar nada.

Quando a dona de casa finalmente desceu, não foi questionada por ninguém, já que Vanessa já havia lhes explicado o porquê do “sumiço”.

_Vamos embora?

Antes que os outros terminassem de concordar, continuou.

_Ué gente, cade o Cadu?

_Ih, esse aí sumiu primeiro que você.

Vanessa que tinha acompanhado um pouco de longe a conversa os interrompeu.

_Vocês estão procurando o moço alto, bonito?

Todos demonstraram que sim.

_Então, eu o vi lá na cozinha mais cedo. Estranhei até porque ele não era da criadagem dai ele me disse que era chef e que tinha ido lá para confraternizar com os colegas de profissão. Algo assim.

_Ah meu Deus! Cadu não toma jeito. Vou buscá-lo.

Disse a esposa já se direcionando para cozinha no caminho indicado pela ruiva. Estava nervosa e aliviada ao mesmo tempo. O marido nem sequer tinha se dado conta de sua ausência.

***

Ao chegarem em casa, o marido de Clara apenas trocou de roupa e se jogou na casa.

_Nossa amor, tô cansadão. Descolei altas receitas com o pessoal lá da cozinha da fotografa e me fartei de comer.

Clara que estava aérea desde a hora que saiu daquela casa. Apenas sorriu levemente em sinal de aprovação.

_ Deita aqui amor, vem me dar um beijinho.

_Ai, não Cadu. Vou tomar banho, tirar a maquiagem.

_Só um beijinho de boa noite pô.

_Não, pô. Você sabe que não gosto de me deitar na cama antes de tomar banho. Não sei como você consegue se deitar assim.

_ Aff tá bom, então vai lá. Mas quando voltar já vou estar dormindo e oh, você quem vai perder.

Clara direcionou a ele outro sorriso amarelo e se retirou direto pro banheiro.

Ela estava nesse momento pensando em termos práticos “o cheiro dela, preciso tirar o cheiro dela”. Não poderia se deitar ao lado do marido na cama que eles dividiam há dez anos, com o cheiro dela entranhado em seu corpo. Porém, pensar em lavá-lo trazia-lhe pesar, perderia a única prova “palpável” de que aquela noite foi real e isso lhe fazia sentir algo muito parecido com dor.

Jogou-se em baixo do chuveiro tentando colocar os pensamentos em ordem. “O que havia a levado a cometer tamanha loucura”? Em uma única noite havia traído o marido que amava, com quem dividiu até então uma vida feliz, além disso, o tinha feito com uma mulher. “Uma mulher” frisava isso em sua cabeça, porém, em vez de sentir qualquer incomodo ou estranhamento causava-lhe arrepios contínuos provocando reações no meio de suas pernas.

Seguindo a linha de pensamento e de enumeração das loucuras que cometera, continuou. “Trai meu marido, com uma mulher que eu não conhecia nem há três horas”. Começou a rir baixo. Não era um riso alegre, ria de nervosismo, incredulidade e lembrou-se que ainda tinha mais “trai meu marido com uma mulher que eu não conhecia nem há três horas, transei com ela. Não, chupei ela (choques elétricos percorriam-lhe a espinha), me servi dela, fiz ela gozar na minha boca, sendo que eu nunca nem tinha imaginado uma coisa dessas na vida, como”?

Não se lembrava totalmente de todas as coisas que tinham acontecido naquela cama. Não se lembrava ao certo como, ou talvez o que, tinha levado-a a tomar tal iniciativa. Não conseguia entender o que tinha tomado seu corpo, fazendo com que parecesse que ele tinha vida própria e independente de sua mente. Mas uma coisa ela sabia e se lembrava muito bem: Havia gostado. Havia gostado muito.

“Marina Meirelles” pronunciou baixo.

Ouvir a própria voz pronunciando o nome dela, fazia com que ela sentisse calafrios, não sabia se eram os do tipo ruim ou se os do tipo bom. Mas, sabia que esse era o nome do pecado, da sua perdição.

***

Assim que Clara saiu pela porta de seu quarto, Marina tratou de trancar-se novamente. Havia muito o que pensar, muito o que sentir e não queria ser incomodada, ainda mais com algum chelique ou desaprovação de Vanessa. Isso ela deixaria para amanhã e com certeza viria.

Ainda sentia o toque suave de Clara em sua pele, meio que como os amputados sentem durante um longo tempo ainda a presença do membro fantasma.

Marina, ao contrário da dona de casa, não estava surpresa com o que acontecera ali no sentido de “ter sido rápido demais, nos conhecemos há poucas horas” porque isso não era a primeira vez que lhe acontecia. Muito pelo contrário, essa era a parte dos “não relacionamentos” que ela mais gostava. Sexo rápido e sem compromissos, sem as dores de cabeças comuns em relacionamentos. Relacionamentos eram sinal de problemas, confusões, sofrimentos desnecessários. Espelhava-se na relação que teve com Vanessa. Foi bom enquanto durou, mas a ruiva nunca conseguira esquecer. Nunca conseguira seguir em frente, e por isso estava sempre no seu pé, implicando com isso, com aquilo. Mas, acabava permitindo, porque uma vez que deixou Vanessa entrar em sua vida, ela de uma forma ou de outra acabou ocupando um lugar só dela, especial. Ainda que o amor que ela queria que Marina sentisse por ela, tivesse acabado, ou, pensava agora, nunca tivesse existindo. Não na forma que ela queria.

O que tomava o pensamento da fotografa ali jogada na cama, na verdade, eram questionamentos. “O que é na verdade o amor”? “Você pode amar mais que uma pessoa na sua vida”? “E na sua existência”? “Existem mais de uma vida”? Nunca havia se feito esses questionamentos antes e na verdade não sabia porque estava fazendo-os agora, nunca fora romântica ou acreditara nesse tipo de coisa.. Mas, era mentira, ela sabia sim o porquê de estar questionando-se nesse momento. Era porquê descobrira naquela noite suas respostas. A resposta da primeira pergunta era “Clara”, a da segunda era “não” e a da terceira também era “não” e a da quarta era a que ela tinha mais certeza “sim”.

Ao conseguir definir pra si mesma essas respostas, seu coração não se encheu de algo novo, ela apenas se deu conta de algo que sempre estivera ali, o que sentia pelo amor da sua vida. Dessa e das outras além dessas.

Lembrando-se do sorriso e da aura iluminada de Clara, um único pensamento lhe ocorreu:

Minha rendição, minha salvação.

Pela primeira vez na vida soube o que era se sentir verdadeiramente feliz.

***

Ao sair do banheiro a dona de casa constatou que o marido já estava apagado. Deitou-se em seu lado da cama e colocou-se a pensar novamente, mas dessa vez não em Marina e sim em Cadu. Havia quebrado a promessa que lhe fizera no altar, sem que ele tivesse feito qualquer coisa pra merecer isso. Ficava repetindo isso em sua cabeça várias e várias vezes na esperança que em alguma delas finalmente fosse sentir a culpa que esperava sentir, no entanto, essa culpa não chegava nunca. Acreditou por alguns minutos que talvez o cérebro ainda não tivesse conseguido captar a seriedade das informações que estava mandado para ele, mas, deu-se por vencida, deixou os pensamentos vagaram novamente para onde eles queriam: Marina, sua Marina. Não conseguia deixar de pensar nela dessa forma, como “sua”. Sua mulher, sua Marina, seu amor.

Ao contrário da culpa que ela esperava chegar e não chegou nunca, o sentimento de amor por aquela mulher lhe invadiu sem pedir licença, embora parte dela, que ela não saberia precisar exatamente qual, lhe dissesse que aquilo não era novo, sempre estivera guardado ali.

Sentiu-se feliz e logo após, deu-se conta, não sem se assustar. Que essa era a primeira vez.

***

Não que a Clara não tenha se sentido feliz quando teve o filho. Afinal, mãe é mãe. Mas a sua felicidade era diferente agora, porque era uma felicidade completa. Ela tinha os dois.

Notas finais
A vida, as vezes, pode ser como um sonho bom. Mas, isso não significa que não seja real. :)