Notas iniciais
Eita que tô achando que vcs não querem mais ler a fic, porque os comentários tão minguando :/ Tô certa? My hands are tied, my body bruised She's got me with Nothing to win and Nothing left to lose And you give yourself away And you give yourself away And you give And you give And you give yourself away U2

A falta de limites um dia terminaria em tragédia e hoje era o dia.

Quando eu virei em direção a porta vi um Cadu estarrecido. Assim, num pulo eu me afastei da Marina. É claro que isso aconteceu em segundos embora para mim e provavelmente para Marina e para o próprio Cadu também tenha parecido em câmera lenta.

Eu me culpei, me massacrei. Na pressa em me " esfregar nela" (sim eu me tratava assim) eu nem sequer me lembrei de trancar a porta. E meu ex marido me pegara, descobrira sobre nós da maneira mais sórdida. De estarrecido seu semblante passou a confuso e por último enojado, então ele saiu sem dizer uma palavra.

Eu olhava do lugar onde ele estivera para Marina e de volta para lá, em pânico. Ela notando, falou o que eu precisava ouvir para sair do estado de paralisia.

_Vai atrás dele.

Fui. A princípio vaguei sem conseguir concluir nenhum pensamento, pois minha mente carrasco me julgava e condenada. Onde eu estava com a cabeça? Me atracar com a Marina ali no meio do galpão, nosso local de trabalho, cheio de alunos sem nem ao menos me preocupar em trancar a porta? E se quem entrasse fosse um aluno? E se fosse o Larte ou a Verônica?Aonde é que aquela loucura toda estava me levando? Tudo isso passava na minha cabeça ate que precisei parar e pensar que o importante era achar o Cadu. Então fui ate o bistrô, ele não estava. Encontrei-o no estacionamento em um estado de atordoamento.Assim que me viu, ele tentou se afastar, sair mas não deixei corri até ele, impedindo-o.

_Cadu espera. Espera!

_Eu não quero conversar, Clara.

Ele levava o braço a boca como em demonstração do enjoo que sentia.

_Para, cara. Por favor nós precisamos conversar.

Eu tentava segurá-lo impedindo que passasse por mim e fosse embora. Ele estava trêmulo ao ponto de simplesmente desistir de se esquivar. Parou me encarando não com raiva, mas com verdadeira e profunda tristeza. Seu olha era inquisidor, me fazia um milhão de pergunta então eu fui soltando as respostas.

_Eu me apaixonei por ela. Quer dizer, nós nos apaixonamos. Não me olha assim como se fosse algo sujo, porque não é.

Ele me olhou com ironia então eu expliquei com desespero.

_Eu sei que você descobriu isso da pior forma possível, mas as coisas não são assim como você tá pensando.

_Eu? O problema não sou eu. E o nosso filho? Meu filho! Meu filho fica assistindo essa pouca-vergonha de vocês duas?

_Ta louco? Nunca! O Ivan nem sabe de nada.

_Pois não parece pelo que ele falou comigo. Alias, foi exatamente por isso que eu fui te procurar porque precisava conversar sobre isso.

Nós estávamos praticamente gritando.

_O que? Ele falou o que?

_Você não sabe? Porque deveria saber ainda mais se ele anda vendo esse tipo de coisa que eu acabei de ver.

Me senti ofendida com a insinuação.

_Você acha mesmo que eu deixaria meu filho presenciar algo assim?

_Não sei. Quer dizer, até onde eu sei em vez de mim podia ter sido ele a abrir aquela porta e dar de cara com vocês — pausou, seu semblante era de repúdio- daquele... daquele jeito. — Terminou com dificuldade.

Me calei. Ele tinha razão e eu não tinha argumento, por isso, quando voltei a falar tentei fazê-lo com mais calma abaixando o tom de voz. Precisava fazê-lo entender que eu sabia o quanto estava errada.

_Cadu, eu sei como você deve estar se sentindo e o que deve estar pensando de mim. Mas isso que você viu ali naquela sala – tentei encontrar desculpas, não achei — aconteceu, foi sem querer. Eu fui estúpida. Mas, por causa disso você não pode esquecer da mãe que eu fui pro nosso filho até hoje.

_Eu não sei de mais nada, Clara – Eu vi sinceridade em seu rosto ao dizer isso.

_O que foi que o Ivan te disse?

_Disse que queria que você namorasse com a Marina.

Nessa hora senti a estupidez me atingir com mais força que nunca. É claro que o Ivan, enquanto criança não se deteria em falar sobre isso, ainda mais que não via qualquer maldade em torno do assunto. O Cadu viu que eu sabia sobre o assunto refletido na minha expressão.

_Quer dizer que você sabia disso?

_Sim. Ele me disse, inocente o bichinho, que a Marina gostava de mim e que eu deveria namorar com ela.

_E você? — ele perguntou incrédulo.

_No início me assustei mas depois achei que o melhor seria não negar. Até porque uma hora eu teria que falar sobre isso com ele, contar... — Falei de cabeça baixa envergonha e o fato de ele parecer ter se acalmado um pouco só fez com que eu me sentisse ainda mais envergonhada. Porém, a suposta calma não durou muito.

_Contar? — Ele voltara a aumentar o tom de voz — contar o que? Você pretende deixar o nosso filho ciente dessa loucura?

Eu não entendi bem o que ele quis dizer e respondi:

_Sim. Porque pra mim não é loucura. Eu me apaixonei.

_Tá mas e dai? Vai querer me dizer agora que vai querer casar e ter filhos com aquela lá? — ele falou em tom de desprezo desacreditado como se julgasse impossível eu tencionar fazer o que ele insinuara. Senti uma raiva crescente dentro de mim.

_Aquela lá não! Ela tem nome, Marina! E por que não?

Ele riu quase histérico.

_Você só pode estar brincando. Desde quando você gosta de mulher, Clara?

_Isso realmente importa? O que você precisa saber é que o meu relacionamento (ele começou a rir o que me irritou mais ainda e fez com que eu aumentasse a voz) é sério e eu pretendo ter uma vida com ela sim! E se quer saber agora que você já sabe eu não vejo o porque continuar escondendo isso do meu filho e nem de ninguém.

_Você não vai fazer isso. Se quer ficar se esfregando por ai com aquela lá tudo bem, tem gosto pra tudo, mas você não vai colocar o meu filho no meio disso — ele estufara o peito talvez a fim de ser o mais enfático possível, talvez porque sentia sua virilidade abalado pelo que acabara de descobrir e ver, eu não saberia dizer.

_ Você não teria coragem...

_Teria, teria sim e se for preciso contar ao juiz o que você e sua amante andam fazendo por ai, não tenha dúvidas que eu farei.

Ele estava mais calmo agora, frio e muito certo sobre o que faria e eu indignada e decepcionada com a ameaça, porém, acuada. Se ele realmente levasse isso em diante o que eu faria? Não saberia viver sem meu filho. Mas será que algum juiz tiraria ele de min? Pela sexualidade eu achava que não, mas e se o Cadu contasse sobre a cena que presenciou? Na melhor das hipóteses eu ficaria com o meu filho mas o bichinho sofreria muito ao ver os pais brigando daquela forma. Isso me fez sentir ainda mais raiva do Cadu. Será que ele não enxergava como poderia fazer o nosso filho sofrer? Eu nunca esperaria isso dele, menos ainda que ele fosse tão preconceituoso. Não respondi. Apenas me virei e sai andando sem rumo. Atordoada. Lenta o suficiente para ouvir suas últimas palavras.

_Eu falei muito sério, Clara é melhor você tomar uma atitude logo porque eu não vou esperar muito pra tirar o meu filho daquela casa.

Sai do estacionamento desconsertada, sem chão. Não conseguia conectar um pensamento ao outro. Não podia acreditar que o Cadu me ameaçou daquela forma. E o meu filho? Mesmo que eu não perdesse a guarda dele o bichinho sofreria muito ao ver os pais brigando ainda mais pelo motivo. Eu não conseguia acreditar que o homem com quem fui casada por tantos anos era tão mesquinho e preconceituoso. Usou o nosso filho para justificar a preconceito dele. Estava certo que o que ele vira na sala fora chocante e ele tinha motivos para ter pavor de mim naquele momento, mas colocar o nosso filho no meio? Nasceu em mim um ódio que eu nunca pensei que sentiria por aquele homem. Mesmo assim, me senti acuada com a ameaça. Meus pensamentos eram cíclicos, repetitivos.

Peguei um táxi e fui quase sem rumo para Santa Tereza, Marina devia ter ido para lá. Quando cheguei no estúdio ainda estava totalmente desorientada e finalmente comecei a chorar.

Marina pediu as meninas que nos deixassem a sós então eu comecei a falar muito embora nem eu acreditasse que estava dizendo o que eu dizia.

_Marina – pausei — desculpa, mas eu não posso. Não posso, entende?

_Não pode o que, Clara? Não tô entendendo. O que foi que aconteceu?

_Eu não posso continuar com isso. Não posso perder o meu filho e também não posso deixar ele sofrer.

O semblante de Marina mudou radicalmente passou de preocupado a chocado pela compreensão do que eu dizia.

_Você tá querendo dizer o que eu tô pensando?

_Sim. A gente não pode continuar com isso. Nós — solucei com as lágrimas escorrendo sem freio — acabou. Ela me olhou muda e incompreensiva, de fato não estava entendendo

_Clara, calma. Fala direito comigo. O que aconteceu? Seja o que for nós vamos dar um jeito.

_ Não tem jeito nenhum, Marina. Acabou — pausei — tudo. Meu filho....

Levantei querendo ir embora enquanto tinha forças para fazê-lo, ela ainda tentou me impedir mas eu sai, fui embora com o coração quebrado.

***

Quando Cadu nos flagrou eu sabia que estávamos à beira da pior de todas as tempestades, no entanto, eu nunca imaginaria que no fim as coisas acabariam da forma que acabaram. Ver Clara me virando as costas e saindo pela porta do estúdio foi uma das maiores dores que eu já senti na vida, perdendo apenas para o dia em que minha mãe morreu. E o pior foi que eu não entendi muito bem o que aconteceu. Pelo visto a conversa com Cadu fora o que provocou aquilo. Ele teria ameaçado-a em algo em relação ao Ivan? Parecia que sim, mas eu não tinha como ter certeza. A única certeza que eu tinha era que ela havia me deixado, me abandonado. Quando a realidade e o peso dessas palavras finalmente me atingiram, eu desabei em um choro compulsivo e doloroso.

Eu não sabia há quanto tempo eu estava ali sentada no meu local de trabalho me acabando em lágrimas sem saber o que o que pensar ou o que fazer quando Vanessa me encontrou. Eu só sentia um vazio doloroso demais e mágoa. A pessoa que eu amava mais que tudo me descartara da vida dela sem nem ao menos me dar maiores explicações. Eu vi em seu rosto que ela também estava transtornada, mas porque ela não nos deu a chance de resolver o quer que fosse, juntas?

_Marina? O que foi que aconteceu? — Vanessa perguntou assustada e sentando-se ao meu lado pronta para me consolar e eu a abracei ao mesmo tempo em que o meu choro se intensificou, copioso. Ela ficou em silêncio alguns instantes enquanto eu soluçava até que não aguentou. Me tirou dos seus braços e segurando o meu rosto com as mãos me encarrando, perguntou de novo: _Marina. Para. Para! Me diz o que foi que aconteceu?

_A Clara — consegui dizer.

_Ah claro que tinha que ter haver com a dona de casa, mas o que foi que aconteceu?

_Ela — pausei, não sabia se ia conseguir dizer aquilo em voz alta — me deixou — pronunciei por fim, vencida.

Ela me olhou chocada.

_Como assim deixou?

_Não sei. — Foi a última coisa que eu disse antes de cair de novo em prantos. Ela me abraçou de novo afagando meus cabelos e deixou que eu chorasse. E eu chorei não sei por quanto tempo até que me acalmei o suficiente para que ela conseguisse me levar para o quarto. A Van me conhecia o suficiente para saber que aquela não era a melhor hora para conversar e que nada do que ela dissesse me consolaria, por isso, ela só me deitou na cama, me ajudou a trocar de roupa e me fez tomar um calmante que acabou me apagando.

Eu dormi. Por vezes acordava e dormia de novo e em uma dessas vezes vi Vanessa entrando pela porta do quarto.

_Você dormiu quase 24 horas eu já tava morrendo de preocupação.

_Uhm. — Respondi apenas isso me levantando um pouco e encostando na cabeçeira da cama. Ela se sentou ao meu lado suavemente e pegou minha mão.

_Quer me contar o que aconteceu?

_ Nada. Acabou, só isso. Não era você quem vivia dizendo que não daria certo? Então... — Acabei sendo mais áspera do que queria.

_Credo. Também não precisa falar comigo assim.

_Desculpa. Eu tô chateada. Sei lá precisando descontar em alguém, mas esse alguém não era pra ser você. Só que ser rude com você já foi mais do que eu pude fazer com ela.

_Porque? Ela não te falou nada? Apenas terminou assim do nada?

Contei o que acontecera no galpão, então ela me disse prontamente:

_Ai Marina, eu avisei que essa história dessas loucuras de vocês ia dar problema. Só não imaginei esse tipo de problema.

_Pois é.

_Mas eu acho que você não deve levar isso a sério, provavelmente ela tava nervosa, deve ter ouvido poucas e boas.

Me surpreendi ao ouvir Vanessa dizendo aquilo e não disfarcei.

_Eu sei, eu sei que sou a última pessoa de quem você esperava ouvir isso, mas acho que da última vez tudo ficou bem claro pra mim. Eu tava pegando pesado. Acho que era porque eu percebia que você amava a Clara de verdade.

_Eu também te amo de verdade. Só que de outro jeito.

_Eu sei. Mas nós não estamos aqui pra falar de mim e sim de você.

Apesar se tudo eu me senti bem por ter minha amiga querida de volta.

_ Não tem o que falar, acabou. Eu sei que ela devia estar nervosa? Que a conversa com o Cadu deve ter sido horrível, mas ela não podia ter agido como agiu comigo. Não podia ter simplesmente ido embora e me deixado aqui, assim — apontei para mim mesma em demonstração de como eu me encontrava abatida. — Talvez você tivesse razão, não era pra ser. A Clara não é mulher pra mim.

_ Bom, eu acho que isso não vai ficar assim, que você tá dizendo isso agora porque tá chateada, mas....

_Vamos mudar de assunto? Interrompi.

_Sim. Tá com fome? Vou mandar preparar alguma coisa pra você comer.

_Não, não quero nada — respondi manhosa deitando novamente.

_Mas vai comer, mocinha. Precisa se alimentar.

Eu não precisava comer. Precisava morrer, pensei sombria, mas não disse nada. Até porque não tinha forças. Fiz o que ela queria, sem discutir e pouco falei enquanto engolia a comida. Depois, dormi de novo.

***

Clara não teve tempo para fraquejar no primeiro momento. Não podia, tinha um filho que precisava dela. Quando finalmente conseguiu se acalmar, deu-se conta de que fora precipitada e muito idiota em fazer a vontade de Cadu. Quis, mas não teve coragem de procurar a fotografa justamente por saber o quanto tinha agido mal, mas também estava chateada por ela ter aceitado o término tão facilmente. As vezes um momento de estupidez destrói uma vida de alegrias.

***

Dias depois ao ir buscar Ivan no bistrô ao final da tarde e aliviada por saber que naquele horário Marina com certeza já não estaria no galpão, Clara foi surpreendida pelo destino. Acabou dando de cara com a fotografa assim que saiu com o filho pela porta do restaurante do ex e adentrou o salão principal do galpão cultural.

No mesmo instante ela sentiu as pernas fraquejarem ao que Marina pôde notar que ela ficara branca como papel. Clara quis conversar com a amada. Tinha tanto a dizer e mais, quis também abraçá-la, beijá-la ali mesmo, no entanto, permanecem imóvel. Tinha vergonha da forma com que agira.

Marina por segundos esperou que ela o fizesse, mas ao notar a imobilidade da outra se manteve Altiva e tentando demonstrar-se decidida segurou qualquer emoção que pudesse transparecer. Apenas a cumprimentou educada, embora sem graça, e logicamente não deixou de dar um beijo carinhoso na criança por quem tinha verdadeiro afeto. Então, se retirou sem qualquer explicação para sua presença ali naquele horário.

Ivan notou a tristeza e paralisia da mãe, mas enquanto criança não sabia o que aquilo significava. Por isso, fez a primeira pergunta que lhe veio a cabeça.

_Você não é mais amiga da Marina mãe?

Com a pergunta a mãe saiu do estado paralítico em que se encontrava e tentou disfarçar o melhor possível a dor imensurável que a cometia.

Virou-se para o filho e respondeu:

_Sou sim filho.

Disse com carinho.

_Então porque você não vai mais na casa dela?

O menino quis perguntar porque ela não trabalhava mais lá, mas esse foi o seu jeito de criança fazê-lo.

_Nós tivemos um probleminha filho, nada demais. Mas, você não tem que se preocupar com isso, viu?

_Eu gosto da Marina.

Falou, tentanto com jeito de criança, consolar a mãe em relação ao que quer que fosse. O gesto, por sua vez, ao contrário, fez com que o coração de Clara doesse ainda mais.

_Eu também filho, eu também. — respondeu pensativa e sentindo uma dor que parecia estar lhe rasgando o peito.

Cadu vira a toda cena de longe, no entanto, não se comovera, ao contrário, esteve pronto para intervir caso a fotografa permanecesse perto do filho.

Depois do encontro Clara não conseguiu mais segurar a tristeza que sentia. Se entregou à dor que a consumia quase ao ponto da loucura (...)

Notas finais
Vixe, que baphooo E que confusão essas duas arrumaram, hein? E agora???