Notas iniciais
Todo romance precisa de uma pitada de sofrimento. Não acham? rsrs Mais um dia triste Me pego outra vez pensando em você Não dá pra evitar O seu olhar me disse Que ainda há tanta coisa pra se entender Pra que controlar Paz é tudo que eu venho tentando encontrar Mas me vem a saudade fazendo lembrar Tentei evitar Tentei esquecer tudo o que me lembra você Tentei não te amar Mas olho no espelho e nada de me reconhecer Só vejo você

A, agora, ex assistente e ex namorada de Marina acabou caindo de cama. A depressão atingiu-a e de alguma forma há quilômetros a fotografa sentia isso, embora não aceitasse o que sentia como verdade. Dizia a si mesma que a sensação não passava de um desejo criado pelo subconsciente de que Clara realmente sentisse tanto a sua falta quanto ela sentia a dela. O amor as vezes deixa as pessoas tapadas.

Clara não tinha vontade de nada, nem de comer, nem de se levantar. Seu esforço resumia-se apenas ao que dizia respeito ao filho e as coisinhas dele. Na depressão ela tinha consciência de que seu problema era resolvível. Ela poderia procurar Marina, se declarar, desabafar e consertar tudo. Mas, mais que saudade e arrependimento ela sentia vergonha por ter terminado da forma que terminou com a fotografa, além disso havia também um medo de rejeição. A outra aceitara tão facilmente o término, sem nem ao menos tê-la procurado depois pedindo qualquer explicação...

Dessa forma, se viu entregue ao desânimo. Sua única preocupação além da saudade que sentia era Ivan, os cuidados com ele. Fora isso, ela passava o dia na cama, hora acordada, hora dormindo já que dormir se tratava de um alívio. Não aparecia mais para o café matinal na casa de Helena ou para o almoço na casa da mãe, mesmo quando o convite insistente vinha do filho, que obviamente notava a melancolia e a mudança dela.

É claro que a condição da dona de casa não se pautava apenas no término abrupto. Talvez ela estivesse sentindo tardiamente o baque de todas as decisões e atitudes tomadas nos últimos meses. Havia sido tão corajosa durante a turbulência, mas que preço tem a coragem? Uma hora inevitavelmente a ficha cai e você se dá conta de todas as mudanças pela. Ainda que no saldo, você mudanças positivas, ainda são mudanças e essas sempre vêm com um preço, sempre causam medo, inseguranças, incertezas e conflitos ainda que somente conflitos internos. O momento de pressão trouxe todas essas … que até então estiveram adormecidas dentro dela.

Sentiu nostalgia em relação ao casamento lembrando de quando conheceu o agora ex marido, de quando descobriu que estava grávida. De repente, se assustou com a ideia de que todo havia acabado assim de forma tão “fria”. Deu-se conta de que durante os últimos meses vivera numa espécie de conto de fadas que a afastara da realidade das pessoas comum, se não que outra explicação racional ela teria para ter acabado com um casamento de dez anos sem nem ao menos ter dúvidas sobre isso? “Tenho agido como uma carreta desgovernada” raciocinou. “Quer dizer, eu estava agindo como uma carreta desgovernada”. Agora ela se sentia mais como uma careta que … saindo da estrada e caindo no precipício e terminando em pedaços.

E a culpa? A culpa pela traição finalmente chegou potencializada pela ciência do choque que cena presenciada pelo ex provavelmente havia causado nelo. Culpou-se tanto que chegou a questionar se o envolvimento com Marina realmente fizera bem. Tirou-lhe tanta coisa...

Até um pouco da “honestidade” a qual ela se orgulhava tanto. Sempre fora uma mulher correta, fiel, até boba. E agora, no que é que tinha se transformado? Questionava-se. Por outro lado, a fotografa também lhe dera tanto... Coisas que ela nunca nem imaginava viver e sentir. Mostrou-lhe outra vida onde ela não era apenas mulher, namorada ou esposa, uma vida em que ela era importante em algo mais que apenas cuidar do filho e da casa. A fotografa desvendou seus sonhos, seus desejos sem precisar de palavras e realizou-os. Fosse na fotografia, na administração (coisa que ela nunca nem imaginou ser capaz) ou na cama. Refletia e refletir lembrava e lembrar doía ao ponto de impedir-lhe de respirar em alguns momentos.

Concluía sempre ao final de suas próprias indagações que nada era tão simples assim. As coisas não se resumiam em perdas e ganhos e sim em amor, sem contar que mesmo que se resumisse não haveriam saldos, apenas diferenças. A vida que levara antes de Marina tinha sido boa e feliz, no entanto, a partir do momento em que a fotografa cruzou o seu caminho teria sido impossível continuar sendo alguém feliz sem ela. Até porque ela sempre acreditara fielmente que fora o destino inevitável que as unira. Relembrar essa crença também doía. Muito. E era a vida que com toda a certeza, a fizera verdadeiramente feliz. Nos últimos meses ela descobrira a felicidade plena e simplesmente “jogou isso fora” consumia-se em culpa por isso também e Clara foi cavando um poço tão fundo com a pá da culpa que não soube mais como sair de dentro dele. Afundou ali pensando e sofrendo exaustivamente pelas mesmas coisas e procurando outras pelas quais sofrer: Cadu, Ivan, a família, a mãe decepcionada com seu comportamento no início de tudo aquilo, e principalmente, Marina.

_Ei!

Falou Helena apenas a cabeça na porta sorrindo na direção da irmã mais nova.

Clara sorriu de volta, porém, sem muita empolgação.

_Viemos te fazer uma visita, saber como você tá. — Falou entrando no quarto e revelando a mãe que vinha atrás. Ambas se comoveram com o estado da dona de casa. Clara estava realmente abatida como Ivan confidenciara às duas. Concluiu cada uma delas individualmente.

_Ô minha filha, que foi que aconteceu? — Chica perguntou se sentando na cama e colocando a cabeça da filha mais nova no colo.

Helena também se sentou, enquanto Clara relatava o ocorrido entre ela e Cadu e o consequente término com Marina, omitindo os detalhes sórdidos, é claro. Quando ela terminou tanto a mãe quando a irmã se mostraram revoltadas com a atitude do ex, não pela péssima reação ao tomar conhecimento do relacionamento da ex com Marina, até porque as duas sabiam da traição, por isso, não poderiam julgá-lo por não ter reagido bem. Revoltaram-se sim por ele ter envolvido Ivan em sua mágoa. Pelo que disse e pela forma que disse, soou a elas como se pretendesse fazer do garoto instrumento de vingança.

_Clarinha, meu amor. Por que você não veio conversar com a gente? Sua família? — perguntou a mãe.

_Ah, sabe mãe, eu até tive vontade mas, sei lá... Ainda fico sem jeito de falar desse assunto, ainda mais por tudo ter sido do jeito que foi.

_Ah, bobagem. Confesso que no começo foi difícil pra mim eu também fiquei sem jeito, mas já pensei muito sobre isso, o Ricardo também me ajudou muito a abrir a cabeça e perceber que o importante mesmo é ser feliz. E você tava tão feliz... — Ressaltou a última parte com pesar por estar vendo agora tamanha tristeza na filha.

_É, tava... -respondeu aérea.

_E pode voltar a ficar. Porque você ainda não procurou a Marina? — Se intrometeu Helena — você não pode estar ai pensando que vocês duas vão ficar assim, né? Ainda mais por uma ameaça boba que eu duvido que o Cadu vai cumprir. Cê sabe disso, né?

_Sei mas.... — Clara, então explicou os motivos que a levavam a não procurar Marina. Não era por medo do Cadu.

_Ai mana, deixa de bobagem, pelo amor de Deus. Levanta dessa cama, toma um banho, se perfuma, coloca uma roupa linda e vai atrás dela! Quero ver você com aquele sorriso lindo no rosto de novo.

_Vou pensar. — respondeu a outra, incerta. As três seguiram conversando por algum tempo. Chica chegou a preparar um café para as três e um lanche que obrigou a filha a comer usando o argumento que de que neto estava cabisbaixo e preocupado com o estado da mãe. “Nem o Bolinha tá animando ela”, confidenciou o garoto frustrado à avó e à tia. No final as duas foram embora bastante preocupada. Nunca a tinham visto daquele jeito. Clara sempre fora o membro mais alto-astral e iluminado da família.

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Marina trabalhava, com muito custo, quando recebeu a visita inesperada(...)

Notas finais
Capítulo curto, mas... A vida anda corrida. Sorry people. Até domingo posto mais. Conto com a compreensão de vcs. :)